O colapso da classe média: como trabalhadores com empregos estáveis trocaram o direito à habitação pela normalização da precariedade.
Sugestão aos editores das redacções que enviaram jornalistas 24 horas por dia para as acampadas em Lisboa e no Porto e que agora estão sem tendas para filmar: façam reportagens com os milhares de cidadãos, portugueses, muitos dos quais com empregos estáveis e que, supreendentemente, ainda se consideram pertencentes à chamada 'classe média’ (versão lusitana), mas que vivem há anos, o ano inteiro, em tendas e roulottes, de forma ilegal e semi-clandestina, nos parques de campismo de norte a sul do país. Alguns desses parques, por exemplo na Costa da Caparica, parecem grandes campos de refugiados. E o que dizem muitas dessas pessoas? Que estão melhor do que quem tenta sobreviver a pagar rendas exorbitantes, que só assim o dinheiro chega até ao fim do mês; alguns referem com orgulho que "é como um condomínio fechado" e que até têm "segurança 24 horas por dia". O ser humano tem uma grande capacidade de adaptação. E justificar a miséria, aceitar a precariedade, desistir de um direito fundamental, exige menos energia do que lutar por esse direito contra um sistema injusto e repressivo.
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