Realidade Holandesa
Estive neste Verão em Amsterdão, a capital constitucional dos Países Baixos. Guardo em mim a distância a que estamos desse País. Cá não se constroem ruas assim.
Não me refiro aos paralelepípedos. Nem à arquitetura secular holandesa.
Refiro-me à escala. À sensação.
À ideia de que uma criança de 2 anos pode simplesmente andar de bicicleta de equilíbrio no meio da rua, em pé de igualdade com qualquer outra pessoa.
E convém lembrar que efes saem do berço para a bicicleta! Tb é de referir que andar de bicicleta na Holanda é mesmo seguro. Que levar as crianças à escola num atrelado da bicicleta na Holanda não constitui uma irresponsabilidade como acontece em Portugal!
Em Portugal estamos a anos-luz
Em Portugal não é impossível, mas na grande maioria das cidades e vilas portuguesas ainda estamos muito longe dessa realidade, devido a fatores estruturais, culturais e de planeamento urbano. A razão pela qual cenas como a da imagem parecem tão distantes em Portugal assenta em três grandes pilares.
O primeiro pilar prende-se com um desenho urbano profundamente centrado no automóvel. Durante décadas, as cidades portuguesas foram projetadas e adaptadas a pensar prioritariamente nos carros, promovendo faixas de rodagem largas, estacionamento sistemático em cima de passeios e travessias pensadas sobretudo para garantir a fluidez do trânsito motorizado. Como consequência, as ciclovias surgem frequentemente em troços isolados ou vocacionados para o lazer, em zonas costeiras ou parques, raramente constituindo uma rede integrada de transporte para as deslocações do dia a dia. Além disso, falta a consolidação da cultura da "rua partilhada" — o conceito holandês de woonerf ou zona de coexistência -, que garante por lei prioridade absoluta aos peões e às crianças, obrigando os veículos a circular a passo de homem. Em Portugal, embora essa sinalização exista na lei, a sua aplicação é escassa e o seu cumprimento raramente é respeitado.
O segundo pilar envolve a desmistificação do fator topográfico. É frequente ouvir-se o argumento de que "Portugal tem muitas colinas", em contraste com a geografia plana da Holanda. Embora isso seja verdade para áreas de cidades como Lisboa, Coimbra ou Porto, muitas outras zonas e cidades portuguesas - como Aveiro, Figueira da Foz, Évora ou vastas áreas metropolitanas em zonas de vale e planalto - são maioritariamente planas e reúnem todas as condições geográficas necessárias. Somado a isto, a rápida massificação das bicicletas elétricas veio demonstrar que o relevo deixou de ser uma barreira insuperável para a mobilidade suave.
Por fim, o terceiro pilar reside na mudança cultural e na vontade política. Hoje em dia, nenhum pai ou mãe em Portugal sente a segurança necessária para deixar uma criança de dois anos circular numa bicicleta de equilíbrio no meio da rua, dada a ausência de confiança no comportamento dos condutores e a falta de proteção física do próprio espaço urbano. Contudo, assiste-se a uma evolução MUITO lenta, mas em curso. Pequenas amostras de mudança começam a surgir por todo o país, visíveis na pedonalização de centros históricos, no teste de superblocos, na implementação de projetos de ruas escolares e no crescimento de redes transitáveis em concelhos como Matosinhos, Aveiro, Lisboa ou Torres Vedras.
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