A política não se exerce apenas através da promulgação de leis, da gestão orçamental ou do monopólio da força legítima; opera, em larga medida, no plano do simbólico. O poder necessita de ser visto, sentido e interiorizado para ser reconhecido. É neste cruzamento entre a sociologia, a antropologia e a ciência política que surge o conceito de ritualismo político (ou rituais do poder): o conjunto de práticas formalizadas, codificadas e repetitivas que utilizam símbolos, mitos e desempenhos cénicos para legitimar a autoridade, construir a identidade coletiva e manter - ou alterar - a ordem social.
1. Origem do Termo, Obras Fundamentais e Autores-Chave
A concetualização teórica do ritualismo político resulta de uma evolução transdisciplinar com contributos fundacionais bem definidos:
1.1. O Conceito e o Livro de Referência: a obra mais influente sobre o tema é Ritual, Politics, and Power (1988), do antropólogo e político norte-americano David I. Kertzer. Kertzer formalizou a análise de como os rituais são indispensáveis para a política em todas as sociedades - desde as tribais às democracias industriais e regimes totalitários. O autor demonstra que a política depende do consenso simbólico e que os rituais moldam a percepção da realidade.
1.2. Pioneiros Clássicos:
- Émile Durkheim: em As Formas Elementares da Vida Religiosa (1912), demonstrou como os rituais criam a "efervescência coletiva" e reforçam a coesão social. A sociologia política adaptou este conceito para demonstrar que o Estado moderno sacralizou certas práticas laicas.
- Max Weber: identificou como a dominação carismática depende intrinsecamente do espetáculo e da encenação para manter a sua legitimidade.
1.3. Outros Autores Fundamentais:
- Clifford Geertz: em Negara: The Theatre State in Nineteenth-Century Bali (1980), introduziu o conceito de "Estado-Teatro", defendendo que o poder não usava o ritual apenas como meio para governar, mas que o próprio ritual era a razão de ser do Estado.
- Eric Hobsbawm e Terence Ranger: em A Invenção das Tradições (1983), revelaram como muitos rituais políticos aparentemente "imemoriais" (como cerimónias reais ou símbolos nacionais) foram deliberadamente criados em períodos recentes para gerar um sentimento de continuidade.
- Murray Edelman: com The Symbolic Uses of Politics (1964), alertou para a dimensão do espetáculo político, onde os atos simbólicos servem frequentemente para apaziguar o público sem alterar a distribuição real do poder.
2. O Ritual do Estado vs. O Ritual dos Partidos Políticos
Para compreender o ritualismo no quotidiano, é vital distinguir a arena onde ele opera:
- O Ritual do Estado (A Sagração da Continuidade): é institucional, neutro e suprapartidário. A sua função é legitimar a própria ordem constitucional. Manifesta-se nas tomadas de posse presidenciais, nas aberturas do parlamento ou no 10 de Junho. Visa transmitir a ideia de que "os governos passam, mas as instituições e a Nação permanecem".
- O Ritual dos Partidos (A Identidade de Tribo): é militante, competitivo e vocacionado para a mobilização. Ocorre nos congressos, comícios e fecho de campanhas. A entrada do líder, o mar de bandeiras da mesma cor, os hinos partidários e os gestos icónicos servem para criar coesão interna e arregimentar eleitores contra os adversários políticos.
3. Exemplos Nacionais e Internacionais
Os rituais do poder variam entre a solenidade democrática e a hipertrofia autoritária:
Internacionais:
- Reino Unido: a Abertura do Parlamento e as coroações reais constituem a expressão máxima do "Estado-Teatro" ocidental, simbolizando a continuidade histórica através da pompa.
- EUA: o Inauguration Day e o Discurso do Estado da União utilizam o Capitólio e o juramento sobre a Bíblia para ritualizar a transição pacífica de poder.
- Regimes Autoritários: os desfiles militares na Praça Vermelha (Moscovo) ou na Praça Tiananmen (Pequim) servem para projetar força externa e incutir disciplina interna.
Nacionais (Portugal):
- Comemorações do 10 de Junho: o ritual cívico central do Estado português que reafirma a identidade e a coesão territorial.
- Tomada de Posse do Presidente da República: inclui a atribuição da Grande-Cadeia da Ordem da Torre e Espada e as salvas de canhão, sacralizando o papel do guardião da Constituição.
- O Estado Novo (1933–1974): o regime salazarista fez uso intensivo da ritualização através da Exposição do Mundo Português (1940), da Mocidade Portuguesa e da iconografia dos "Três F" (Fado, Fátima e Futebol).
4. Os Efeitos na Opinião Pública
O ritual político produz efeitos profundos na sociedade, oscilando entre a coesão e a manipulação:
- Legitimação e Estabilidade: transforma a força bruta ou a mera vitória eleitoral numa autoridade moralmente aceite pela cidadania.
- Coesão Social: cria um sentimento de pertença a uma comunidade coletiva, especialmente em momentos de celebração ou luto nacional.
- Opacidade e Distração: como alertou Edelman, a profusão de espetáculos e manobras de marketing político pode servir para desviar a atenção do público de reformas estruturais impopulares, escândalos ou falhas graves de governação.
- Esvaziamento Democrático: o excesso de encenação pode reduzir a política a um jogo de aparências, onde o discurso espetacular substitui o debate ideológico substancial.
Referências Bibliográficas
- Durkheim, É. (1912). Les Formes élémentaires de la vie religieuse. Félix Alcan.
- Edelman, M. (1964). The Symbolic Uses of Politics. University of Illinois Press.
- Geertz, C. (1980). Negara: The Theatre State in Nineteenth-Century Bali. Princeton University Press.
- Hobsbawm, E., & Ranger, T. (Eds.). (1983). The Invention of Tradition. Cambridge University Press.
- Kertzer, D. I. (1988). Ritual, Politics, and Power. Yale University Press.
- Weber, M. (1922). Wirtschaft und Gesellschaft. J.C.B. Mohr.

Sem comentários:
Enviar um comentário