Estudo de investigadores de Évora e de Lisboa revela como a expansão agrícola e as exportações coexistem com desigualdades, perda de população e pressão ambiental.
A água chegou, a agricultura transformou-se e o investimento multiplicou-se. Ao longo das últimas duas décadas, o empreendimento do Alqueva ajudou a converter vastas áreas do Alentejo num dos mais importantes polos agrícolas do país.
As exportações cresceram, as novas culturas ocuparam os campos e a região ganhou maior segurança no acesso à água. Ainda assim, o Alentejo continua a perder habitantes. É esta contradição que um estudo de investigadores das universidades de Lisboa e de Évora procura compreender.
A investigação conclui que o Alqueva cumpriu muitos dos objetivos para os quais foi concebido, mas não travou o despovoamento, o envelhecimento da população ou a persistência de desigualdades económicas.
Publicado na revista científica Sustainability, o estudo analisa a evolução da região desde a construção do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva e questiona até que ponto o crescimento económico gerado pelo projeto se traduziu em benefícios para as comunidades locais.
Prosperidade concentrada e mais desigualdades
Poucas regiões portuguesas sofreram uma transformação tão profunda nas últimas décadas. O aumento da área irrigada impulsionou a produção agrícola, valorizou terras e atraiu investimento. O turismo e as energias renováveis também prosperaram com a construção do maior lago artificial da Europa.
Alqueva em números: os ganhos e as contradições
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Os indicadores demográficos, porém, revelam o lado B desta história de sucesso. Entre 2001 e 2021, o Alentejo perdeu 67 552 residentes. Nas freguesias situadas em torno da albufeira do Alqueva, a redução populacional atingiu 26,2%.
Este é um dos principais paradoxos do projeto. Apesar do crescimento económico, a região não conseguiu fixar população nem inverter tendências demográficas de longa duração.
Parte da explicação poderá estar na natureza do próprio modelo produtivo. Muitas explorações agrícolas dependem de trabalho sazonal e pouco qualificado. Uma proporção significativa dos trabalhadores é migrante e encontra frequentemente condições precárias de alojamento e emprego. Continuam a existir, simultaneamente, dificuldades no acesso à habitação, serviços públicos, transportes e oportunidades de qualificação profissional.
Os grandes beneficiários da valorização das terras
O estudo chama ainda a atenção para a concentração da propriedade agrícola. A chegada da água aumentou o valor dos terrenos e criou oportunidades económicas. Mas nem todos os agricultores estavam em posição de aproveitar essa transformação.
Cerca de 70% da terra agrícola da área abrangida pelo projeto mudou de mãos na década seguinte à conclusão da barragem. No mesmo período, seis grupos de investimento passaram a controlar mais de 65% dos olivais de regadio.
Os investigadores defendem que uma parte importante dos ganhos gerados pela valorização da terra e pelo investimento público acabou por se concentrar num número reduzido de proprietários e investidores. A questão, sublinham, não é saber se a região produz mais riqueza. É perceber quem beneficia dessa riqueza e quanto dela permanece no território.
Os recursos naturais são sempre limitados
Para interpretar esta evolução, os autores recorrem ao conceito de "neoextrativismo". Trata-se de um modelo económico que utiliza intensivamente recursos naturais para abastecer mercados externos, mas gera benefícios mais limitados para as comunidades locais.
No caso do Alqueva, esta lógica não se restringe à agricultura. Os investigadores identificam tendências semelhantes em setores como a energia renovável e o turismo.
O estudo alerta ainda para as pressões ambientais associadas à intensificação produtiva, incluindo riscos para os solos, para os recursos hídricos e para a biodiversidade. A disponibilidade de água permitiu expandir a produção agrícola, mas não eliminou os limites ecológicos da região.
Crescimento económico nem sempre é desenvolvimento
A principal conclusão dos investigadores é que o investimento em infraestruturas, por si só, não garante coesão territorial. Os autores defendem, por isso, uma maior articulação entre políticas agrícolas, habitação, transportes, serviços públicos, qualificação profissional e proteção ambiental.
Sem mecanismos capazes de redistribuir parte da riqueza gerada, argumentam, os benefícios do investimento público tendem a concentrar-se sem produzir melhorias equivalentes nas condições de vida locais.
O caso do Alqueva deixa, assim, uma reflexão que vai muito além do Alentejo. Uma região pode aumentar a produção, exportar mais e atrair investimento sem conseguir inverter o declínio demográfico ou reduzir desigualdades.
O verdadeiro teste ao desenvolvimento não está apenas na riqueza que um território consegue gerar. Está sobretudo na capacidade de transformar essa riqueza em oportunidades, população residente e prosperidade partilhada.
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