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quinta-feira, 9 de julho de 2026

O Imperativo Biológico: Ecologia Pura e sobrevivência na Era da Simulação


No fecho desta década de 2020, a humanidade encontra-se numa encruzilhada moldada por uma profunda contradição. Por um lado, enfrentamos o esgotamento dos sistemas biofísicos da Terra; por outro, assistimos à ascensão meteórica da Inteligência Artificial (IA), uma infraestrutura tecnológica abstrata que consome recursos tangíveis a um ritmo sem precedentes. Tentamos curar uma ausência profunda de contacto com o mundo natural através de ecrãs brilhantes, mas a verdade subjacente permanece inalterável: a IA nunca saciará a nossa fome biológica pelo toque da terra, pelo voo de uma borboleta ou pelo aroma da floresta.

Quando escolhemos pausar, observar e registar um ser vivo real, estamos a exercer um ato de resistência cultural. A inteligência artificial é apenas uma ferramenta; ela não pode substituir o dever sagrado da preservação da natureza. A verdadeira conservação significa muito mais do que qualquer tecnologia simulada alguma vez poderá oferecer. Precisamos, urgentemente, de regressar à Ecologia Pura - o estudo científico das interações que determinam a distribuição e abundância dos organismos vivos na sua essência não domesticada - e de regular a tecnologia para salvaguardar a nossa própria sobrevivência.

A Década do rebound e a ilusão da desmaterialização
Ao olharmos para os desafios desta década que agora chega ao fim, o maior deles foi a ilusão de que o mundo digital era etéreo. A expansão dos modelos de linguagem e da computação generativa transformou os bits em fardos ecológicos massivos. Estudos recentes sobre a pegada carbónica e hídrica da IA indicam que o consumo elétrico dos centros de dados duplicou substancialmente nos últimos anos (Wheeler, 2026).

O impacto ambiental da IA segue uma dinâmica conhecida como o Paradoxo de Jevons: à medida que a tecnologia se torna mais eficiente, o seu custo diminui, o que gera um aumento explosivo na procura que anula os ganhos ecológicos iniciais. O treino e a inferência contínua de grandes modelos exigem volumes críticos de dissipação de calor, gerando uma pegada hídrica local severa em regiões que já sofrem de stress hídrico (Pinheiro Privette, 2026). Proteger a nossa sobrevivência exige reconhecer que a computação não flutua numa nuvem; está, sim, ancorada na biosfera.

A Filosofia da teia viva: Capra, Abram e a Matriz Biológica
Para compreender a urgência da regulação da IA, é crucial resgatar o pensamento sistémico de Fritjof Capra e a ecologia fenomenológica de David Abram. Capra demonstrou que a vida é uma rede de padrões interdependentes, onde nenhum elemento subsiste isoladamente. A mentalidade mecanicista que vê a IA como o apogeu da evolução humana comete o erro elementar de isolar a mente do corpo e o organismo do seu habitat.

David Abram, em The Spell of the Sensuous, lembra-nos de que a nossa própria perceção e linguagem nasceram do diálogo com um ecossistema animado. O vento, o sol e a terra não são estímulos secundários; são os coautores da consciência humana. A IA carece desta reciprocidade sensorial. Ela processa sintaxe, mas não experiencia o significado. Substituir a nossa orientação na Terra por arquiteturas algorítmicas cria uma forma profunda de solipsismo tecnológico, uma cegueira ecológica que nos permite destruir os suportes da vida planetária enquanto otimizamos métricas digitais virtuais.

O Princípio de "Metade da Terra" como meta de sobrevivência
A Ecologia Pura lembra-nos de que a natureza tem limites invioláveis de resiliência. O ecologista Edward O. Wilson, um dos maiores defensores da biodiversidade, formalizou a teoria da biogeografia de ilhas (Handel, 2022), demonstrando como a fragmentação dos habitats acelera a extinção de espécies. Diante disso, Wilson e a nova geração de cientistas que lhe seguiu as pisadas consolidaram o princípio do "Half-Earth" (Metade da Terra): a necessidade imperativa de destinar cerca de metade da superfície terrestre e marítima do planeta à conservação estrita, livre da intervenção industrial humana 

A premissa científica é exata e matemática:

Espécies Preservadas ∝ Área Conservadaz

De acordo com este modelo de área-espécies, se protegermos 50% dos habitats globais de forma estrategicamente otimizada, garantiremos a sobrevivência de aproximadamente 85% a 90% da biodiversidade planetária (Pimm et al., 2018). Sem esta meta, os ecossistemas colapsarão num efeito dominó, comprometendo os ciclos de carbono, azoto e oxigénio de que dependemos. A inteligência artificial pode mapear estes dados, mas apenas a governação humana e a contenção económica podem implementar esta reserva de vida (Ellis & Mehrabi, 2019).

Conclusão: a urgência da regulação e o regresso à Terra
Regular a IA nesta viragem de década não é apenas uma questão de mitigar a desinformação, salvaguardar a propriedade intelectual ou proteger postos de trabalho; é um imperativo de segurança ecológica. A regulamentação deve impor limites estritos ao consumo energético e hídrico das infraestruturas digitais (Vandenbergh, 2026), obrigando as corporações tecnológicas a subordinarem-se aos limites biofísicos da Terra.

A biosfera é a única tecnologia verdadeiramente insubstituível. Ela carrega ADN, luta pela sobrevivência e reage de forma dinâmica ao vento e ao sol. Salvaguardar a nossa própria existência exige que libertemos o olhar dos ecrãs e olhemos para o solo que pisamos. O futuro não pertence às máquinas que simulam o pensamento, mas às comunidades vivas que protegem a integridade do planeta que respira.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A Ontologia da Teia Viva: Transcendência, Metafísica Ecológica e Espiritualidade Imanente


Introdução
A crise socioecológica contemporânea não é meramente um percalço técnico, produtivo ou de gestão de recursos; revela-se, fundamentalmente, como uma profunda crise ontológica e epistemológica da modernidade. O paradigma cartesiano-newtoniano, ao segmentar o cosmos entre res cogitans (o sujeito pensante) e res extensa (a matéria desprovida de espírito), desalmou a natureza e confinou o ser humano a uma posição de domínio predatório sobre o ecossistema.

Superar esta rutura exige repensar a própria estrutura da existência. É neste horizonte que a transcendência, a espiritualidade e a ecologia convergem numa metafísica renovada. Longe de ser uma evasão para o além incorpóreo, a transcendência ecológica reconfigura o "ir além": ultrapassar a prisão do ego antropocêntrico para ascender à consciência da interconexão radical de todas as coisas. A espiritualidade eco-metafísica emerge, assim, como uma experiência da sabedoria imanente da Terra, na qual o sagrado não habita fora do mundo, mas desvela-se na própria trama orgânica e cósmica do ser.

Desenvolvimento
1. A Metafísica da Interconexão: Superar o Antropocentrismo Ocidental
A metafísica ocidental clássica - particularmente na sua vertente dualista platónico-cristã e, mais tarde, na modernidade científica - definiu frequentemente o "ser" através do isolamento e da substância fixa. A natureza foi reduzida a um mecanismo causal cego, destituído de sentido intrínseco. Em contrapartida, uma metafísica ecológica (ou ecosofia) substitui a ontologia das substâncias isoladas pela ontologia das relações.

O filósofo norueguês Arne Næss, fundador da Ecologia Profunda (Deep Ecology), propôs uma viragem conceptual decisiva. Næss argumentou que a perceção ecológica não é um mero cálculo utilitarista sobre a conservação do meio ambiente, mas um questionamento filosófico profundo sobre quem somos. Para Næss, o processo de maturidade humana culmina no desenvolvimento do "Self" ecológico — uma expansão da identificação do "eu" que transcende os limites do ego individual para abraçar a totalidade da biosfera.

Nesta perspetiva, a metafísica deixa de ser a busca por entidades transcendentes num plano metafísico abstrato e passa a ser a revelação da imanência sagrada: a teia de dependências mútuas onde cada organismo carrega um valor intrínseco, independentemente da sua utilidade para a espécie humana.

2. Transcendência Imanente e Espiritualidade Naturalista
A física quântica e a teoria dos sistemas complexos vieram fundamentar empiricamente o que a tradição mística e a filosofia ecológica há muito intuíam. O físico Fritjof Capra, na sua obra A Teia da Vida, demonstra como a biologia contemporânea aponta para padrões de auto-organização que desafiam o mecanicismo reducionista.

Do ponto de vista filosófico e teológico, autores como Thomas Berry e Brian Swimme formularam a ideia da "História do Universo" como o novo texto sagrado. Para Berry, o universo não é uma "coleção de objetos", mas uma "comunhão de sujeitos".

É neste ponto que a transcendência ganha a sua definição mais fecunda:
  1. Transcendência vertical (clássica): a busca por um Princípio Absoluto fora ou acima da criação material.
  2. Transcendência horizontal/ecológica: A experiência de autotranscendência dentro do tecido da criação - o momento em que a consciência humana supera os seus limites egoicos para experienciar o pertencimento à totalidade cósmica.
Como aponta a investigação contemporânea no âmbito da Ecologia Espiritual (Spiritual Ecology), esta espiritualidade não exige a adesão a dogmas institucionais, mas constitui um compromisso existencial de solidariedade com os seres não-humanos. Trata-se de uma espiritualidade corporizada (embodied spirituality), na qual a matéria é compreendida como o veículo vivo da própria revelação cósmica.

3. Evidência Científica, Psicologia e Epistemologia da Natureza
A convergência entre transcendência, espiritualidade e ecologia tem sido validada por diversos estudos no campo da psicologia existencial e da neurociência.
  1. Física Teórica e Teoria dos Sistemas: Gregory Bateson, na sua obra Steps to an Ecology of Mind, defendeu que a "mente" não se situa exclusivamente dentro do crânio individual, mas é um atributo de todo o sistema ecossistémico imerso em circuitos de informação.
  2. Psicologia Ecossistémica: o conceito de "Overview Effect" (Efeito de Visão Global), documentado em astronautas ao contemplarem a Terra a partir do espaço, demonstra uma experiência psicológica profunda de autotranscendência, onde a perceção das fronteiras geopolíticas desvanece e surge uma consciência espiritual imediata da fragilidade e unidade do planeta.
  3. Saúde Mental e Autotranscendência: estudos recentes no campo da psicologia positiva e da psiquiatria (como os trabalhos sobre a experiência do sublime e do awe/fascínio) demonstram que estados de transcendência provocados pelo contacto direto com a natureza reduzem significativamente a atividade da Rede de Modo Padrão (Default Mode Network - DMN) no cérebro. Esta redução neurológica correlaciona-se com a atenuação do "eu" egocêntrico e o aumento da empatia, do comportamento pró-social e da responsabilidade ecológica.

Conclusão
Conectar transcendência, ecologia e espiritualidade através de uma lente metafísica não é um exercício estético ou saudosista, mas uma urgência civilizacional. A verdadeira transcendência ecológica exige que desmantelemos a ilusão da separação.

Ao reconhecer que o ser humano não está na Terra como um visitante externo, mas é a própria Terra a pensar, sentir e contemplar a sua existência, o ato de proteger o planeta deixa de ser um dever ético exterior para se tornar num ato de autocuidado sagrado. A espiritualidade ecológica devolve o mistério e a reverência à matéria. Ao reaprender a transcender a pequenez do ego, a humanidade poderá finalmente reocupar o seu lugar legítimo na grande teia da vida: não como senhora ou proprietária, mas como a expressão consciente da harmonia do cosmos.

Referências Bibliográficas
  1. Bateson, G. (1972). Steps to an Ecology of Mind: Collected Essays in Anthropology, Psychiatry, Evolution, and Epistemology. San Francisco: Chandler Publishing Company.
  2. Berry, T. (1988). The Dream of the Earth. San Francisco: Sierra Club Books.
  3. Capra, F. (1996). The Web of Life: A New Scientific Understanding of Living Systems. New York: Anchor Books.
  4. Chatlos, J. (2025). Spiritual Experience: Scientific, Philosophical, and Theological Implications. Zygon: Journal of Religion and Science, 59(4), 949–981.
  5. Devall, B., & Sessions, G. (1985). Deep Ecology: Living as if Nature Mattered. Salt Lake City: Peregrine Smith Books.
  6. Eliade, M. (1957). O Sagrado e o Profano: A essência das religiões. Lisboa: Livros do Brasil.
  7. Næss, A. (1989). Ecology, Community and Lifestyle: Outline of an Ecosophy. Cambridge: Cambridge University Press.
  8. Sponsel, L. E. (2012). Spiritual Ecology: A Quiet Revolution. Santa Barbara: Praeger.
  9. Taylor, B. (2010). Dark Green Religion: Nature Spirituality and the Planetary Future. Berkeley: University of California Press.

sexta-feira, 15 de julho de 2022

The idea that humans aren't separate from nature redefines life, language and knowing.


The theory of autopoiesis 50 years on.

The popular slogan ‘we are Nature defending itself’, seen at environmental protests across the world, says something about how the idea that humans are not separate from nature is becoming far more mainstream.
From this perspective, as readers of Resurgence & Ecologist will know, the climate and biodiversity crises are intrinsically linked with the fate of humanity and the living planet.
A key reason for this understanding is the work of Chilean biologists Humberto Maturana and Francisco Varela, who published their theory of autopoiesis, which defined life as a system of interactions, in 1972.

Division
Fifty years later, as we face the sixth mass extinction, the legacy of this theory is now more relevant than ever.
Maturana died just one year ago. His systems approach led him to study the organisation of life, rather than its components separately, seeing life as an uninterrupted circular process of self-creation.
This is the fundamental basis of Maturana and Varela’s Santiago theory of cognition, which identified the process of knowing as the activity that allowed the self-generation of living systems – cognition is the process of life. In the case of humans, this includes language and conceptual thought.
Although autopoiesis does not answer the old question of what life is, it tells us what life does. Many scientists consider it one of the best scientific definitions of life.
In the view of the physicist Fritjof Capra, the Santiago theory of cognition is “the first scientific theory that really overcomes the Cartesian division of mind and matter” and “for the first time, we have a scientific theory that unifies mind, matter, and life.”

Absolute
Lynn Margulis became interested in autopoiesis in her search for the microbiological foundations of Gaia theory. Both the Gaia hypothesis and autopoiesis state that organism and environment co-evolve coupled; there is not one without the other.
Self-regulation on a planetary scale would also be a form of autopoiesis: life creating the suitable environment for the creation and subsistence of life itself.
Why has this theory spread to so many fields of knowledge? Because it redefines life, language and knowing. This just changes everything, including what we understand by reality and consciousness.
Maturana states that reality is different for every living being because it is perceived according to the sensory processes of each organism.
Therefore no living being has access to a reality independent of its own organism, and therefore no one can claim to have access to an absolute truth.

Organisms
We always knew in science that an absolute truth is not reachable: the Santiago theory provides a theoretical basis for it, undermining one of the most important assumptions of modern science: objectivity.
The ‘truth’ arises in conversations, as a consensus with others, and therefore constantly changes according to each historical moment.
Moreover, as beings living in language, each new truth (accepted idea) has the potential to change us too: paradoxically, language creates reality as well.
But, contrary to our current understanding, for Maturana emotions are more important than language and reason: “We humans are emotional beings that use reason to justify or deny according to our own preferences.”
Why are these ideas relevant for the future? They free us from a worldview separated between body and mind, subject and object, organisms and environment, hard and soft sciences, individual and society.

Transformation
They show us that in evolution, cooperation is stronger than competition. Instead of being in a race for getting to the ultimate truth through reasoning, we are free to decide how we want to be.
To achieve that depends on our ability to reach consensus together through language as the cooperative behaviour that made us humans.
Democracy is not simply a system of government, but rather a way of living in mutual acceptance. What we believe really matters because we are co-creating our reality as we think it.

In conclusion, the ideas of Humberto Maturana involve a radical shift in the understanding of life, opening the door to possibility and whole systems transformation towards a more just existence among us humans and with the rest of the living world.

This article first appeared in the Resurgence & Ecologist magazine, out now.

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Fritjof Capra: "Podemos e devemos aprender muito com a natureza"

Para o físico austríaco Fritjof Capra, comportamento ético, valorização da ciência e do bem comum e atenção aos ensinamentos da natureza são pilares para o mundo pós-covid.


Em um futuro pós-pandemia de covid-19 seremos menos individualistas? Será que a coletividade falará mais alto? O físico austríaco Fritjof Capra, conferencista do Fronteiras do Pensamento 2020, apresentou sua perspectiva à Braskem em entrevista exclusiva.

Defensor da visão sistémica do mundo e da vida, Capra acredita que tudo está interconectado. Da mesma forma, devemos levar em conta que tudo está interligado para melhor analisar a pandemia e consequências nas questões de economia e condições sociais, trabalho, justiça social. Todas as problemáticas estão interconectadas. Para ele, a ideia de interconexão seguirá connosco após a pandemia.

A grande dúvida que fica sobre a reação ao vírus é se teremos comportamento coletivo responsável para seguir adiante. Agir de acordo com o bem comum é uma questão ética para o físico, e os políticos que colocam a postura ética acima de suas carreiras conduzem melhor a crise sanitária que atravessamos.

Outro ponto a ser observado na fala do físico é sobre sustentabilidade e o que podemos aprender com a natureza, como os cientistas e engenheiros vêm fazendo. Técnicas para desenvolver tecnologias podem ser inspiradas nos processos da natureza, que desenvolve suas tecnologias na base das tentativas e erros e “biliões de anos de seleção natural e evolução”. Capra explica que, em seu processo evolutivo, a natureza criou estruturas e processos superiores às invenções humanas.

Confira um trecho da entrevista de Capra à Braskem e assista ao vídeo completo:

“A essa altura, acho que não é possível dizer como será o mundo pós-covid. Acredito que a conectividade, a conectividade sistêmica da covid-19, a economia e as condições sociais, a justiça social, as oportunidades de trabalho, o fato de precisar ir a algum lugar trabalhar ou trabalhar de casa, tudo isso está intimamente interconectado, e acho que a percepção dessa interconexão ficará conosco.

A pergunta é: teremos um comportamento coletivo responsável? A meu ver, essa é essencialmente uma questão ética, porque a ética é o comportamento em prol do bem comum. E, portanto, é possível agir dessa forma, e na verdade os fatos que usei como exemplo antes ao dizer que os líderes políticos que escutam os cientistas conseguiram superar a pandemia, esse era um aspecto de suas ações.

Mas outro aspecto é que eles têm o bem comum em mente, ao invés de sua própria carreira política ou do poder político. Eles também são políticos que agem de maneira ética. E verificamos o mesmo nesses países, como a Nova Zelância, de Jacinda Ardern, e as pessoas da Austrália, China, Noruega e assim por diante. Trata-se de um comportamento ético, e espero que isso se espalhe após a pandemia.”


segunda-feira, 20 de junho de 2022

A Teia da Vida: Uma Nova Compreensão Científica dos Sistemas Vivos - Fritjof Capra


Os cientistas estão desafiando as visões convencionais da evolução e da organização dos sistemas vivos e desenvolvendo novas teorias com implicações filosóficas e sociais revolucionárias. A vitalidade e acessibilidade das ideias de Fritjof Capra fizeram dele talvez o porta-voz mais eloquente das últimas descobertas emergentes nas fronteiras do pensamento científico, social e filosófico. 

Em seus best-sellers internacionais The Tao of Physics e The Turning Point, ele justapôs física e misticismo para definir uma nova visão da realidade. 

Em The Web of Life, Capra dá mais um passo gigantesco, estabelecendo uma nova linguagem científica para descrever inter-relações e interdependência de fenómenos psicológicos, biológicos, físicos, sociais e culturais - a "teia da vida".

Ler mais:

sábado, 18 de junho de 2022

Filme- Mindwalk (1991) - O Ponto De Mutação (legendado PT)


Uma cientista norueguesa que abandonou uma carreira lucrativa depois de descobrir que elementos de seu trabalho estavam sendo aplicados ao desenvolvimento de armas , um candidato à presidência dos Estados Unidos e um dramaturgo em crise, irão dialogar connosco, num cenário de um castelo medieval, no litoral da França, temas como: os Caminhos da Ciência, a Natureza e o Homem, Descartes, Einstein, Ecologia, Política, Física Quântica, Trazendo a expressão de um novo paradigma, uma nova visão de mundo que pode mudar nossa forma de pensar e agir.
A ciência, a natureza e o homem. Descartes, Einsten, Ecologia, Política, Física Quântica e os novos paradigmas....onde tudo isso se encaixa?



Mindwalk - versão original (English)

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Encontros Improváveis- Oleg Zhivetin e Fritjof Capra

"Sobrevivência da humanidade depende da nossa alfabetização ecológica"~ Fritjof Capra
"Survival of humanity depends on our ecological literacy"- Fritjof Capra

Pintura de Oleg Zhivetin


Saber mais sobre Fritjof Capra no BioTerra.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Fritjof Capra: Patterns of Connection


No final da década de 1950, Capra leu o trabalho de Werner Heisenberg, um dos fundadores da mecânica quântica, e rapidamente intuiu conexões entre as descobertas da física quântica e as tradições da filosofia oriental. O resultado foi seu livro best-seller, O Tao da Física. Sua síntese, que prescindiu da visão de mundo mecanicista de Descartes e Newton em favor de uma visão sistêmica, ecológica, forneceu-lhe uma perspectiva diferente sobre as ciências da vida, ecologia e política ambiental.

Seis décadas depois, Fritjof Capra permanece na encruzilhada da física, espiritualidade, ambientalismo e teoria dos sistemas. Organizados tematicamente e cronologicamente, os ensaios em Patterns of Connection documentam sua jornada intelectual revolucionária e de longo alcance.



quinta-feira, 6 de maio de 2021

Debate com Fritjof Capra


Ambientalista e escritor, o físico austríaco aponta para a necessidade da ciência incorporar valores éticos que preservem os componentes da comunidade terrestre, sejam eles plantas, animais, seres humanos ou, mesmo, microrganismos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Fritjof Capra: pandemia evidencia urgência em frear desigualdade social e agressão ao ambiente



A humanidade está colhendo, com a pandemia, frutos plantados por décadas de mau crescimento econômico e descontrole populacional. Palestrante na noite desta quarta-feira (18) em conferência online do Fronteiras do Pensamento, o físico teórico Fritjof Capra explicou por que, em sua visão, a propagação do coronavírus deixa claro que é preciso inverter a lógica da busca ilimitada pelo lucro por um modelo que priorize a igualdade social e a preservação do ambiente.

A covid-19 pode ter chegado para salvar da extinção boa parte da vida na Terra — resumiu o austríaco.

Capra pensa que a pandemia não pode ser analisada como fenómeno individual, resultado do imponderável. Sua opinião é de que o contágio — como todas as coisas — deva ser estudado sob a ótica sistêmica. Ou seja, a ponta mais visível de uma ilha de desequilíbrios sociais, avanço econômico desmedido e falta de controle da superpopulação.

A pandemia é uma resposta biológica do planeta à emergência ecológica e social que o ser humano causou a si mesmo — afirmou.

Esse desbalanço seria resultado do apetite desmedido de empresas por crescimento e lucro, incentivando o consumismo (e o descarte), a produção fabril em áreas de preservação e a poluição. Outra consequência desse modelo é ampliação da distância entre riscos e pobres. Essa soma de fatores retirou de seus habitats naturais hospedeiros de vírus desconhecidos do ser humano e ainda os aproximou de zonas superpovoadas.

O vírus não conhece limites económicos e políticos, não distingue ricos de pobres. Ele representa o triunfo da biologia sobre a economia e a política — reforçou.

Assim como a pandemia não deve ser vista como infortúnio ou fato isolado, sua resolução também precisa se conectar com mais desenvolvimento social, avanço económico responsável, cuidado ambiental e controle da densidade populacional — modelo que ele chama de crescimento qualitativo, e não meramente quantitativo.

Ao levar ao isolamento e ao fechamento de fábricas, o vírus eliminou mais poluição do que qualquer política pública já colocada em curso pelo homem havia conseguido. Isso mostra o que podemos fazer quando a vida está em jogo, individual e coletivamente — exemplificou.

Capra analisa que alguns países já demonstram aprendizado com o avanço da doença, o que é positivo para a civilização. A Espanha passou a nacionalizar hospitais particulares, como forma de oferecer igualdade de tratamento para ricos e pobres. O Estado americano da Califórnia ampliou a oferta de moradias à população de rua. São movimentos que tanto podem trazer um mundo melhor imediatamente quanto evitar — ou pelo menos adiar — uma nova pandemia.

 A questão é o quanto teremos de sabedoria e vontade política para aplicar em escala global essas lições  provocou.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

Os Oito Princípios da Ecologia Profunda

Arne Naess

"A Ecologia Profunda (Deep Ecology) é um conceito filosófico que considera que todos os elementos vivos da natureza devem ser respeitados, assim como deve ser garantido o equilíbrio da biosfera. O termo surgiu quando, em 1972, foi publicado o artigo “The shallow and the deep, long range ecology movement. A summary”, do filósofo e ambientalista norueguês Arne Naess (1912-2009). Ele distinguiu as correntes ambientais entre movimentos superficiais ou rasos (com tendência antropocêntrica e egocêntrica) e movimentos profundos (não antropocêntricos, mas ecocêntricos)", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 05-06-2017.

Eis o artigo.
“Se você construiu castelos no ar, não pense que desperdiçou seu trabalho;
eles estão onde deveriam estar. Agora construa os alicerces”
Henry Thoreau (1817-1862)
Relembrar os princípios mais profundos da ecologia é uma boa maneira para se comemorar o Dia Mundial do Meio Ambiente – 05 de junho – ainda mais neste momento em que se comemora os duzentos anos do nascimento de Henry Thoreau (nascido em 12/07/1817).

A Ecologia Profunda (Deep Ecology) é um conceito filosófico que considera que todos os elementos vivos da natureza devem ser respeitados, assim como deve ser garantido o equilíbrio da biosfera. O termo surgiu quando, em 1972, foi publicado o artigo “The shallow and the deep, long range ecology movement. A summary”, do filósofo e ambientalista norueguês Arne Naess (1912-2009). Ele distinguiu as correntes ambientais entre movimentos superficiais ou rasos (com tendência antropocêntrica e egocêntrica) e movimentos profundos (não antropocêntricos, mas ecocêntricos). Os movimentos rasos (ou maquiagem verde) limitam-se a tentar minimizar os problemas ambientais e garantir o enriquecimento das sucessivas gerações humanas (a despeito do empobrecimento da natureza), enquanto a Ecologia Profunda vai na raiz dos problemas ambientais e defende os direitos de toda a comunidade biótica.

Na definição do físico, ambientalista e escritor Fritjof Capra (nascido em 1939): “A ecologia rasa é antropocêntrica, ou centralizada no ser humano. Ela vê os seres humanos como situados acima ou fora da natureza, como a fonte de todos os valores, e atribui apenas um valor instrumental, ou de ‘uso’, à natureza. A ecologia profunda não separa seres humanos – ou qualquer outra coisa – do meio ambiente natural. Ela vê o mundo, não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e interdependentes. A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida”.

Em 1984, Arne Næss e George Sessions publicaram o texto “Basic Principles of Deep Ecology” onde enumeram os oito princípios da plataforma da Ecologia Profunda, conforme apresentado abaixo (em tradução livre para o português). Estes princípios estão em conformidade com o pensamento de Henry Thoreau (1817-1862) e são, cada vez mais, atuais diante da ameaça, crescentemente vigente no Antropoceno, da sexta extinção em massa da vida na Terra.

Assim, cabe reafirmar que entre as principais ameaças à vida estão a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global. O Acordo de Paris oferecia uma resposta tímida, mas correta no sentido de mitigar as emissões de gases de efeito estufa. Porém, o rompimento unilateral provocado por Donald Trump e pela saída obscurantista dos Estados Unidos de um Tratado Internacional que demorou anos para ser aprovado, mostra o quanto é difícil buscar uma relação minimamente harmoniosa entre a civilização e o meio ambiente. Em nome do crescimento econômico e da geração de emprego (sujo) o presidente dos EUA, desorganizando a governança internacional, atua no sentido de acelerar o ritmo de destruição da natureza, reforçando a marcha que leva ao precipício da civilização e ao ecocídio.

A sociedade depende da natureza e não o contrário. O ser humano não pode continuar agindo como um ectoparasita que mata seu hospedeiro e destrói os ecossistemas.

Não faltam estudos e avisos sobre a crise ecológica em curso.

Desta forma, mais do que nunca é preciso lembrar e reafirmar os ensinamentos da Ecologia Profunda e os 8 princípios para mudar o Mundo, escritos por Arne Næss e George Sessions:

1.Valor inerente: O bem-estar e o florescimento da vida humana e da não-humana sobre a terra têm valor em si próprios (valor intrínseco, valor inerente). Esses valores são independentes da utilidade do mundo não-humano para os propósitos humanos.

2.Diversidade: A riqueza e a diversidade das formas de vida contribuem para a realização desses valores e são valores em si mesmos.

3. Necessidades vitais: Os seres humanos não têm nenhum direito de reduzir essa riqueza e diversidade exceto para satisfazer necessidades humanas vitais.

4.População: A prosperidade da vida humana e das suas culturas é compatível com um substancial decrescimento da população humana. O florescimento da vida não-humana exige essa diminuição.

5.Interferência humana: A atual interferência humana no mundo não-humano é excessiva e a situação está piorando aceleradamente.

6.Mudança de políticas: Em conformidade com os princípios anteriores, as políticas precisam ser mudadas. As mudanças políticas afetam as estruturas básicas da economia, da tecnologia e da ideologia. A situação que resultará desta alteração será profundamente diferente da atual.

7.Qualidade de vida: A mudança ideológica ocorrerá, sobretudo, no apreciar da qualidade de vida (manter-se em situações de valor intrínseco), em vez da adesão a padrões de vida mais elevados. Haverá uma consciência profunda da diferença entre o grande (quantidade) e o importante (qualidade).

8.Obrigação de agir: Aqueles que subscrevem os princípios precedentes têm a obrigação de tentar implementar, direta ou indiretamente, as mudanças necessárias.

Referências:

ALVES, JED. Henry Thoreau: um revolucionário, Colabora, RJ, 20/01/2016
Arne Næss and George Sessions. Basic Principles of Deep Ecology, The Anarchist Library, 1984
Fritjof Capra. A Teia da Vida, Cultrix, São Paulo, 1997

Outras Fontes


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Fritjof Capra - A Teia da Vida



"Em última análise, a percepção da ecologia profunda é uma percepção espiritual ou religiosa. Quando a concepção do espírito humano é entendida como o modo de consciência na qual o indivíduo tem uma sensação de pertinência, de conectividade com o cosmos como um todo, torna-se claro que a percepção ecológica é espiritual na sua essência mais profunda. Não é, pois, de se surpreender o fato de que a nova visão emergente da realidade baseada na percepção ecológica profunda é consistente com a chamada filosofia perene das tradições espirituais, quer falemos a respeito da espiritualidade dos místicos cristãos, da dos budistas, ou da filosofia e cosmologia subjacentes às tradições nativas norte-americanas."



Saber mais sobre Fritjof Capra no BioTerra

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Definindo o verbo Ecologizar

      
Fonte: Egologizar

Até 2016, o verbo Ecologizar ainda não consta dos dicionários Houaiss e Aurélio de língua  portuguesa.

Em 2009, o termo apareceu no Caldas-Aulete definido como Conscientizar para a importância dos princípios ecológicos. Trata-se de definição limitada à consciência, que não enfatiza a dimensão da ação.

Até 2007 ele existia em castelhano. Em 2007 foi incluído na enciclopédia global Wikipédia. Em julho de 2016, a pesquisa do termo ecologizar no Google apresentava 16.200 registros. Em francês, para o verbo ecologiser, há 1270 resultados. Em inglês, para o verbo to ecologise havia 3.170.000 resultados.

Em 2008, a artista Silvia Katz do Atelier Azul de Salta, República Argentina, publicou El pequeno ilustrado, um dicionário de verbos criado a partir de definições e ilustrações infantis. Crianças são seres em formação com grande liberdade de pensamento e de imaginação. Elas têm facilidade de expressar, com espontaneidade, criatividade e sem os condicionamentos culturais dos adultos, aquilo que percebem do mundo e das palavras. Em frases sintéticas, meninas com idades entre 10 e 12 anos definiram o verbo Ecologizar. As diferentes definições focalizam o mundo animal e vegetal; relacionam o ser humano com o ambiente; chamam a atenção para a responsabilidade humana por cuidar da Terra e do ambiente. Uma delas expressou as ameaças relacionadas com os desequilíbrios ecológicos e climáticos (Pensar que no futuro não existiremos - Bernarda); outra mostrou a importância da consciência ecológica (Usar a cabeça para proteger o meio ambiente – Lucia D.); outra ainda, chamou a atenção para a unidade entre o ser humano e o mundo, cujos destinos se entrelaçam (Pensar que se algo ocorre com a Terra, também acontecerá com o homem - Micaela) ou enfatizou a importância de conhecer o aspecto original da ecologia, que relaciona bichos e plantas com seu ambiente (Inventar uma “plantologia” e uma “animalogia” - Luciana); uma apontou a relevância da ação humana (Fazer de nosso mundo um lugar melhor - Maria Paula). Algumas definições apontaram o poder do sentimento, do amor, do afeto, do cuidado com o planeta (Sentir o meio ambiente em suas mãos e cuidar dele - Francisca); (Unir-se com a vida. Amar o mundo onde vives - Lucia S.); (Dar um grande abraço no planeta - Manuela).
No livro O verde é negócio, Hans Jöhr mencionava a “ecologização” da empresa, do escritório, da fábrica, do processo, do comércio internacional. Alguns pioneiros, como Edgar Morin, propuseram ecologizar o pensamento.
Defino ecologizar como aplicar os conhecimentos das ciências ecológicas e da sabedoria da consciência ecológica em todos os campos da vida.

Ecologizar é um verbo e verbo é ação. Ecologizar é ativar o modo de ação ecológica necessário para direcionar o rumo da evolução. Da mesma forma como a sociedade se informatizou rapidamente no final do século XX, precisa rapidamente se ecologizar no início do século XXI.

Para compreender integralmente essa definição é preciso saber o que são as ciências ecológicas e o que é a consciência ecológica. Acontece que existe hoje um déficit de compreensão acerca do que são as ciências ecológicas.  Alguns a associam a bichos, plantas e sua relação com o ambiente em que vivem, uma concepção biológica, pois a ecologia se originou nas ciências naturais no século XIX. Entretanto, ao longo do século vinte ela se ramificou em inúmeros campos: ecologia humana, ecologia cultural, ecologia política, ecologia social, ecologia energética, ecologia profunda ou do ser etc. Cada um desses campos tem seu conjunto próprio de conhecimentos e práticas. Fritjof Capra alerta para o analfabetismo ecológico e para mitigá-lo, propõe a ecoalfabetização, pois sem o bê-á-bá da ecologia, palavras e conceitos mais complexos são incompreensíveis. Ao ecologizar a educação, tais conhecimentos são transmitidos em cada disciplina que compõe setorialmente o currículo escolar e sintonizam cada campo especializado do conhecimento com a visão holística e ecológica.

Por acreditar na fecundidade desse verbo e das potencialidades de sua aplicação, escrevi em 1998 o livro Ecologizar, abri um  blog. Em sua 4ª edição, em 2009, o livro desdobrou-se numa trilogia: o primeiro volume aborda os princípios para a ação; o segundo volume aborda os métodos para a ação; o terceiro volume aborda os instrumentos para a ação. Naquele mesmo ano de 1998, o antropólogo, sociólogo e filósofo das ciências francês Bruno Latour no artigo Modernizar ou ecologizar? essa é a questão abordava o tema a partir de uma visão da ecologia política, de gestão de conflitos de interesses que se manifestam em vários dos temas ecológicos. Bruno Latour deu uma entrevista (O Globo, 28-12-2013), na qual falou que ‘ecologizar’ é o verbo da vez: “Ecologizar é dizer: já que, de fato, não separamos questões de natureza e de política, já que a História recente dos humanos na Terra foi o embaraçamento cada vez mais importante das questões de natureza e de sociedade, se é isso que fazemos na prática, então que construamos a política que lhe corresponda em vez de fazer de conta que há uma história subterrânea, aquela das associações, e uma história oficial, que é a de emancipação dos limites da natureza.” É preciso saudar o fato positivo de que ecologizar esteja sendo proposto como o verbo da vez.

Ecologizar expressa a ação de introduzir a dimensão ecológica nos vários campos da vida e da sociedade. Significa uma revolução silenciosa semelhante à que ocorreu com a informatização da sociedade. Pouco a pouco, e de forma cada vez mais rápida, todos e cada um dos campos da atividade humana se informatizaram: da indústria aos serviços, da agricultura à guerra, das atividades governamentais à vida pessoal.  A ecologização da sociedade também se iniciou lentamente e tomou impulso no século XXI. Se por um lado crescem a explosão demográfica e os níveis de desejos e demandas por conforto material, por outro lado cresce também e se transforma a consciência humana, com a explosão de conhecimentos científicos sobre a dinâmica do planeta, do clima, dos oceanos, das águas e sobre o papel de nossa espécie nessas transformações. A ecologização de tudo já vem ocorrendo. Em todos os campos, sociedades, organizações e indivíduos já vêm se ecologizando, por meio da adoção de princípios e valores ecológicos; por métodos de ação coletivos e participativos, estratégias e planejamento de longo prazo e também pela invenção e uso de instrumentos adequados. O modo ecológico de consciência se dissemina  no  pensamento e na palavra e traz consigo atitudes, comportamentos e formas de agir ecologizadas.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Fritjof Capra: Sobrevivência da humanidade depende de nossa alfabetização ecológica


O PhD em física e escritor austríaco Fritjof Capra, autor de best-sellers como O Tao da Física, O Ponto de Mutação e As Conexões Ocultas, abriu nesta quinta-feira, 2 de Julho de 2015, o Congresso Internacional de Sustentabilidade para Pequenos Negócios (Ciclos), realizado pelo Sebrae em Cuiabá, no Mato Grosso.

Ao ministrar a palestra magna de abertura do evento, intitulada O estado do mundo: impactos da escassez na economia global, Capra defendeu o que chama de “pensamento sistêmico”, baseado na interdependência dos sistemas vivos, os quais ele inclui as sociedades urbanas e os ecossistemas.

“Nas próximas décadas, a sobrevivência da humanidade dependerá de nossa alfabetização ecológica”, destacou o físico. Para Capra, ser ecologicamente alfabetizado (ecoliterate) significa entender os princípios básicos da ecologia que os ecossistemas desenvolveram para manter a ‘teia da vida’.

“No Centro para Alfabetização Ecológica em Berkeley, meus colegas de trabalho e eu desenvolvemos uma pedagogia especial para ensinar nas nossas escolas esses princípios da ecologia e as ferramentas que são necessárias para construir e alimentar comunidades sustentáveis”, ressaltou.

Mudança de paradigmas

Nem todo o crescimento é bom, pois pode, por exemplo, se valer de exploração excessiva de recursos naturais, combustíveis fósseis e desigualdade de renda” – Fritjof Capra

Para o austríaco, o grande desafio de nossa época é construir e nutrir comunidades sustentáveis. “Os maiores problemas de nossa era: mudanças climáticas, pobreza, energia, água, estão conectados, são interdependentes. Suas soluções também”, enfatizou.

A fim de reverter o quadro atual do planeta, o pensador acredita que deva haver uma mudança de paradigmas, baseada em um “todo integrado”, tal qual um conjunto de sistemas interconectados, ao invés de uma coleção de partes dissociadas.

Papa Francisco
Avesso ao termo “desenvolvimento sustentável”, que segundo ele remete a ideia de crescimento ilimitado da economia, com base no Produto Interno Bruto (PIB), Capra enalteceu o chamado “crescimento qualitativo”, que segundo ele aprimora a qualidade da vida.

O físico aproveitou para elogiar a Encíclica divulgada recentemente pelo Vaticano. “O Papa Francisco reconheceu isso, quando cita que é necessário ‘redefinir nossa visão de progresso’. Nem todo crescimento é bom, pois pode, por exemplo, se valer de exploração excessiva de recursos naturais, combustíveis fósseis e desigualdade de renda”, justificou.

Na concepção de Capra, o Papa Francisco reconheceu a interdependência da natureza em sua Encíclica, “mas nossos políticos não conseguem conectar os pontos”.

O físico, escritor e ativista ambiental ainda observou que um mundo mais sustentável passa por investimentos na agroecologia, arquitetura sustentável e energias renováveis.

Alguns dos trechos mais importantes da palestra de Capra:

“O conceito de sustentabilidade foi apresentado na década de 80 e, desde aquela época, foi distorcido. Vale a pena refletir por um momento sobre o que a sustentabilidade significa. Não é o crescimento econômico, mas a teia a qual defende nossa vida. Tem que ser projetada considerando a natureza.”

“O pensamento sistêmico pode servir para integrar ONGs, por exemplo. Ele é inerentemente multidisciplinar. As redes são o padrão básico de organização de todos os sistemas.”

“O crescimento bom é baseado nas energias renováveis, favorece a comunidade local, recicla… O crescimento qualitativo envolve soluções sistêmicas.”

“Os alimentos orgânicos têm efeito positivo na saúde das pessoas. A agricultura orgânica significa contribuir na luta contra as mudanças climáticas, pois o solo é rico em substâncias vivas.”

“Uma comunidade sustentável tem de ser projetada de uma forma que não interfira na maneira natural de como a natureza sustenta a vida.”

” [A alfabetização ecológica] Tem que se tornar uma competência crítica para políticos, empresários, indústria, universidade, todos os níveis. É preciso compreender os princípios básicos da ecologia e aplica-los.”

Entrevista ao Ideia Socioambiental

Biografia

domingo, 11 de maio de 2014

Earth Talk: Fritjof Capra - The Systems View of Life


Palestra proferida no Schumacher College (Reino Unido), Dartington, em 7 de maio de 2014.

O grande desafio do nosso tempo é construir e nutrir comunidades sustentáveis, projetadas de tal maneira que seus modos de vida, estruturas físicas e tecnologias não interfiram na capacidade inerente da natureza de sustentar a vida. Para isso, é necessária uma nova compreensão ecológica da vida, bem como um novo tipo de pensamento "sistémico".

Nesta palestra, Fritjof Capra descreve que essa nova compreensão da vida em termos de complexidade, redes e padrões de organização surgiu recentemente na vanguarda da ciência. Ele enfatiza, em particular, a nova concepção da natureza da mente e da consciência, que é uma das implicações filosóficas mais radicais da compreensão sistémica da vida; e a urgência desse novo entendimento para lidar com nossa crise ecológica global e proteger a continuação e o florescimento da vida na Terra.

E- Livro: A Teia da Vida

sábado, 10 de agosto de 2013

O que é e o que não é sustentabilidade segundo F. Capra


Começa Capra dizendo que conceito de sustentabilidade, que tem assumido diversas formas desde a sua concepção na década de 1980.

“Não é o que os economistas gostam de falar – sobre crescimento econômico e vantagens competitivas”, colocou. “Uma comunidade sustentável deve ser desenvolvida de forma que a nossa forma de viver, nossos negócios, nossa economia, tecnologias, e estruturas físicas não interfiram na capacidade da natureza de sustentar a vida. Devemos respeitar e viver de acordo com isto”.

Os primeiros passos para tal seriam entender como a natureza sustenta a vida, isso envolve toda uma nova compreensão ecológica, um pensamento sistêmico, explica Capra.

“Não podemos mais enxergar o universo como uma máquina, composta de blocos elementares. Descobrimos que o mundo material é principalmente uma rede inseparável de relações. O planeta é um sistema vivo e auto-regulado. A evolução não é uma luta competitiva pela existência, mas sim uma dança cooperativa.”

Nesta nova ênfase na complexidade, as redes são o padrão básico da organização dos seres vivos. Os ecossistemas são uma rede de organismos, por exemplo. Para compreender as redes, Capra explica que precisamos pensar em termos de relacionamentos, de padrões.

“Isto é o pensamento sistêmico. É compreender que a natureza tem sustentado a ‘Teia da Vida’ por milhões de anos e que para isto são necessários ecossistemas e não apenas organismos ou espécies.”

Alfabetização Ecológica
Nas próximas décadas, a sobrevivência da humanidade vai depender da nossa capacidade de entender os princípios básicos da ecologia e de viver de acordo com eles, ressalta o físico. Isso significa que a alfabetização ecológica precisa se tornar um campo crítico para políticos, lideres empresariais e profissionais de todas as áreas, além de ser a parte mais importante da educação em todos os níveis.

“Quando pensamos sobre os maiores problemas, o surpreendente é que estão interconectados. Não temos apenas uma crise econômica, ou ecológica, ou de pobreza, ou financeira, elas estão todas conectadas. Esses problemas não podem ser compreendidos isoladamente. São sistêmicos, interdependentes e precisam de soluções correspondentes”.

Capra elogiou o Programa Água Boa, desenvolvido pela Itaipu Energia, classificando a iniciativa como um “exemplo muito bonito de solução sistêmica”.

“Analisando os problemas atuais dessa forma sistêmica, podemos constatar que a questão subjacente é a ilusão que o crescimento infinito pode continuar em um planeta finito. Os economistas, com o seu pensamento linear, parecem não entender”, lamenta o físico.

“Nosso sistema econômico é movido pela ganância e pelo materialismo, pensando que não há limites. Isto resulta nas diferenças imensas entre o preço de mercado e o verdadeiro custo, como é visto com os combustíveis fósseis. Ouvimos sobre o gás de xisto e o novo processo de ‘fracking’ – ouvimos que é muito barato, mas o fato é que devasta o ambiente e é tóxico para as pessoas (..) O pensamento linear leva a concluir que o xisto é muito barato, mas se pensarmos nisso sistemicamente, ele é muito caro e perigoso”, explica Capra.

“No centro da economia global está uma rede de crescimento financeiro, criado sem qualquer enquadramento ético. Hoje, se você é especulador pode investir em qualquer projeto ao redor do mundo e computadores levam uma fração de segundo para movimentar dinheiro. O único critério é lucrar (..) não há critérios éticos envolvidos nesta economia global. Exclusão social e desigualdades são elementos inerentes desta globalização.”

O crescimento indiscriminado é na verdade “uma doença”, nota, completando que o desafio elementar é como mudar do crescimento ilimitado para um sistema ecologicamente sustentável e socialmente justo.

Crescimento qualitativo
Para Capra, o crescimento zero não é a resposta, pois crescer é uma característica central da vida.

“Na natureza o crescimento não é linear e ilimitado. Num ecossistema, uns crescem mais, outros declinam e assim reciclam seus componentes, que se tornam recursos para um novo crescimento. Há um crescimento multifacetado, qualitativo, que contrasta com o quantitativo pregado atualmente por economistas”.

Assim como outros grandes pensadores, Capra questiona o uso preponderante Produto Interno Bruto (PIB) para medir a saúde dos países.

Custos sociais como acidentes, guerras, mitigação e cuidados com a saúde são adicionados e aumentam o PIB e o fato que o seu crescimento pode ser patológico raramente é citado por economistas, alerta.

“Esse reconhecimento da falácia do crescimento económico é essencial. É o primeiro passo para superar a atual crise económica global (..) Grande parte do que se chama de ‘crescimento’ é lixo e destruição.”

O verdadeiro crescimento, explica, melhora a qualidade de vida e aumenta a sua complexidade, sofisticação e maturidade.

“Isto faz parte de uma mudança de paradigma de quantidade para qualidade. O crescimento qualitativo é consistente com a nova concepção científica da vida”, explica. “Não se pode medir a natureza de um sistema complexo, como os ecossistemas, a sociedade ou a economia, em termos puramente quantitativos.”

Para Capra, a qualidade não pode ser agregada em um único número. “Então, como seria possível promover o crescimento qualitativo? Definitivamente não através do PIB”.

“Precisamos distinguir o bom do ruim para que os recursos naturais presos a processos ruins possam ser direcionados para os eficientes e sustentáveis”, comentou. “O crescimento ruim é aquele que gera externalidades ambientais, econômicas e sociais e o bom envolve processos produtivos mais eficientes, que usam energias renováveis, têm emissões zero, reciclam, restauram ecossistemas e a apoiam as comunidades locais.”

Construindo a qualidade
Entender as conectividades dos nossos problemas globais e reconhecer soluções sistêmicas é a primeira lição para construir a qualidade que precisamos hoje para a liderança global, segundo Capra. Outra lição seria a construção de um ‘senso moral’.

A perspectiva sistêmica mostra que dois problemas urgentes, a desigualdade econômica e as mudanças climáticas, resultam da estrutura econômica e corporativa global que não têm ‘senso moral’, nota.

Um exemplo disso são as conclusões de um estudo de 2012 apontando que os ricos globais somam juntos até US$ 32 triliões. “Se eles tivessem um senso moral e pagassem seus impostos não haveria mais crise. Haveria dinheiro suficiente”, ressaltou Capra.

Outro exemplo citado pelo físico se volta para as conclusões inequívocas da ciência sobre as mudanças climáticas e a necessidade das empresas que exploram combustíveis fósseis de abandonar os planos de exploração de 80% das reservas contabilizadas em seus ativos.

“Elas estão dispostas a fazer isso? As empresas precisam se perguntar: o meu modelo de negócios inclui a destruição do planeta? Ou tem uma alternativa moral?”

Liderança e o Brasil
“Hoje temos conhecimento e tecnologia para a transição para um futuro sustentável, não precisamos dos perigos da energia nuclear e nem de gás de xisto. Podemos ir além dos combustíveis fosseis”, defendeu Capra.

“Precisamos de vontade política e liderança (..) O que em tempos estáveis é diferente do que em tempos de crise ambiental e econômica, que é o que temos hoje. A maioria dos problemas são globais, apesar da demanda por lideranças em nível regional e corporativo, precisamos também de lideranças em nível global”.

Capra ressalta que na atual crise global, o Brasil e a Alemanha estão melhor posicionados do que a maioria dos países.

Ele comentou que nos Estados Unidos, Barack Obama foi eleito com grandes esperanças, mas sucumbiu ao sistema corrupto, e no fim, a riqueza dos pobres está sendo sistematicamente repassada para os ricos. Porém, ele acredita que no Brasil a situação está melhor, apesar da população não estar satisfeita.

“Programas como o Bolsa Família e o Fome Zero reduziram a desigualdade econômica ao retirar milhões de pessoas da pobreza, mas mesmo assim muitos problemas de desigualdade e corrupção permanecem e ainda há muito trabalho a ser feito.”

“O Brasil pode ser um líder global”, ressaltou após assistir apresentações sobre o Programa Água Boa e sobre as ações de sustentabilidade previstas para a Copa de 2014. “Estes são ótimos exemplos de liderança global que precisam ser divulgados. O que pode acontecer no ano que vem, já que todo o mundo vai olhar para o Brasil”.

E-Livro

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Fritjof Capra: “Sobrevivência da Humanidade Dependerá da Nossa Alfabetização Ecológica”



Para o físico Fritjof Capra, Leonardo da Vinci, o génio da Renascença, seria hoje um aliado imprescindível na busca de soluções para o desenvolvimento sustentável. A sua síntese muito particular de arte, ciência e tecnologia – crê – ajudaria na compreensão dos mais importantes problemas socioambientais contemporâneos a partir de uma perspectiva interdisciplinar.

“O conhecimento vem sendo dominado por grandes corporações mais interessadas em retornos financeiros do que no bem-estar da humanidade. Sendo assim, precisamos urgentemente de uma ciência e tecnologia que respeitem a unidade de toda a vida, reconheçam a fundamental interdependência de todo fenômeno natural e nos reconectem com a Terra”, disse o físico.

Principal teórico do pensamento sistêmico, Capra defende a ideia de que todas as formas de vida - das células mais primitivas até os seres humanos - se configuram seguindo um único princípio básico: o de organização em redes. Ao exemplificar as relações de interdependência na complexa “teia da vida”, o físico tem propalado uma forma de interpretar o mundo radicalmente distinta do humanismo individualista, que coloca o homem no centro do universo.

Segundo ele, em vez de buscar o que extrair da natureza, as pessoas devem aprender a partir dela. “Nas próximas décadas, a sobrevivência da humanidade dependerá da nossa alfabetização ecológica, da habilidade de entender os princípios básicos da ecologia e viver de acordo com eles”, ressalta.

Na visão de Capra, boa parte dos problemas atuais decorre do fato de a humanidade ter ignorado e interferido nos padrões e processos de relacionamento dos ecossistemas, que sustentam a vida. Para o autor de best-sellers como o “Tao da física”, “Ponto de Mutação” e “Conexões ocultas”, é possível revisar os valores do capitalismo e conduzir a sociedade para o desenvolvimento sustentável.

“O mercado global funciona como uma network de máquinas programadas de acordo com o princípio fundamental de que o lucro deve preceder os direitos humanos, a democracia e a proteção ambiental. No entanto, esses mesmos fluxos financeiros e de informação podem ter outros valores agregados. O ponto crucial não é a tecnologia, mas a política”, destaca.

Em entrevista a Juliana Lopes, de Ideia Socioambiental, Capra apresenta um repertório de ideias tão vasto quanto a sua proposta para a sustentabilidade. Saiba o que o físico pensa a respeito das novas tecnologias de informação, da economia global e do Brasil, entre outros assuntos.

Ideia Socioambiental: Como indivíduos e organizações devem atuar em rede? Quais são os desafios e benefícios dessa mudança?

Fritjof Capra: Hoje, a criação de redes sociais se tornou algo fácil. Nos últimos anos, as redes se transformaram no maior foco de atenção dos negócios e da sociedade, de maneira geral, como uma cultura global emergente. A internet é uma rede de comunicação poderosa e muitas das novas companhias da web atuam como uma interface entre redes de consumidores e fornecedores. Redes similares existem entre organizações não governamentais. Com as novas tecnologias de comunicação e informação, as redes sociais se tornaram todas extensivas, dentro e além das organizações. Teóricos organizacionais falam hoje de “práticas de comunicação” para se referir às redes sociais informais ou auto-geradas existentes em toda organização. São comunidades de pessoas que interagem com e se ajudam umas às outras para construir relacionamentos, e dar maior significado pessoal às atividades do dia-a-dia.

Dentro de cada organização, existe um cluster de comunidades de práticas interconectadas. Cada vez mais pessoas estão engajadas nessas redes informais e quanto mais sofisticadas elas forem, mais condições a organização terá de aprender respondendo criativamente a novas circunstâncias. A sobrevivência da organização reside na sua comunidade de práticas. O desafio para líderes empresariais não é criar redes dentro das organizações, mas conhecer e legitimar as redes informais já existentes.

IS: Como a sociedade deverá se adaptar à perspectiva sistémica na velocidade exigida para reverter problemas complexos como o do aquecimento global?

FC: O grande desafio de nosso tempo é criar e manter comunidades sustentáveis, concebidas de maneira que suas formas de vida, negócios, economias, estruturas físicas e tecnologias não interfiram na habilidade inerente da natureza de sustentar a vida. O primeiro passo nessa direção é o que chamo de “alfabetização ecológica”, a habilidade de entender os princípios básicos da ecologia e viver de acordo com eles. Se compreendermos os padrões de relacionamento que tornam os ecossistemas capazes de sustentar a vida, também entenderemos as muitas formas, padrões e processos que nossa civilização ignorou e interferiu neles. Assim, perceberemos que essas interferências são as causas fundamentais dos atuais problemas no mundo.

Nas próximas décadas, a sobrevivência da humanidade dependerá da nossa alfabetização ecológica que deve se tornar uma competência essencial para políticos, líderes empresariais e profissionais em todas as esferas. Ela também deve ser a parte mais importante da educação em todos os níveis – do ensino primário e secundário até ao ensino médio e superior, assim como na formação e treinamento contínuo de profissionais.

IS: Como o senhor avalia movimentos como o do biomimetismo, ascendente no mundo, especialmente no campo do design? Esse conceito ajuda as organizações a adaptarem seus modelos a uma perspectiva sistémica?

FC: A alfabetização ecológica é o primeiro passo rumo à sustentabilidade. O segundo é o design ecológico. Precisamos aplicar nosso conhecimento ecológico para um redesign fundamental das nossas tecnologias e instituições sociais, preenchendo a distância entre o design humano e os sistemas ecológicos da natureza.

Design, em um sentido mais amplo, consiste em moldar o fluxo de energia e matéria para propostas humanas. Já pelo design ecológico, as propostas são cuidadosamente entrelaçadas com os grandes padrões e fluxos do mundo natural. Os princípios do design ecológico refletem os princípios de organização nos quais a natureza tem evoluído para sustentar a teia da vida. Praticar o design nesse contexto requer uma mudança fundamental em nossa atitude diante da natureza. Numa nova visão, ao invés de descobrir o que extrair da natureza, devemos identificar o que aprender a partir dela.

Nos últimos anos, tem havido um aumento dramático em práticas de design orientadas ecologicamente. O biomimetismo se refere a um tipo especial de tecnologia do ecodesign. Trata-se de um novo tipo de biotecnologia que não envolve a modificação genética de organismos vivos, mas utiliza as técnicas da engenharia genética para entender as sutilezas do design da natureza e aplicá-las como modelos para novas tecnologias humanas. O biomimetismo integra o conhecimento ecológico ao design de materiais e processos tecnológicos, aprendendo a partir de plantas, animais e microorganismos como manufaturar fibras, plásticos e químicos não-tóxicos, completamente biodegradáveis e sujeitos à contínua reciclagem.

IS: A economia global já funciona em rede, mas as interações decorrentes dela não têm trazido benefícios econômicos, ambientais e sociais de maneira equilibrada. É possível rever os valores que guiam o capitalismo e, fazendo isso, conduzir a sociedade para o desenvolvimento sustentável?

FC: A economia global está organizada amplamente em torno de redes de fluxos financeiros. Tecnologias de comunicação e informação sofisticadas permitem que o capital financeiro se mova rapidamente de uma opção para outra em uma implacável busca global por oportunidades de investimentos.

O impacto da nova economia nos seres humanos tem sido, na maioria das vezes, negativo. Há um acúmulo sem precedentes de riqueza no alto. Em contrapartida, as consequências sociais e ambientais apresentam-se desastrosas. Além disso, como temos visto com a atual crise econômica, esse modelo ameaça severamente o bem estar financeiro de pessoas em todo o mundo.

O problema central é que a economia global foi desenhada sem nenhuma dimensão ética. O então chamado “mercado global” funciona como uma network de máquinas programadas de acordo com o princípio fundamental de que o lucro deve preceder os direitos humanos, a democracia, a proteção ambiental ou qualquer outro valor humano. No entanto, a mesma network eletrônica de fluxos financeiros e de informação poderiam ter outros valores agregados. O ponto crucial não é a tecnologia, mas a política.

IS: A desmaterialização da economia pode contribuir nesse sentido?

FC: Acredito que sim. Ao que me parece, o desafio-chave é como adaptar-se de um sistema baseado na noção de crescimento ilimitado - o que é impossível em um planeta finito - para um outro que seja, ao mesmo tempo, sustentável e socialmente justo. O crescimento, é claro, representa uma característica central de toda vida. Uma sociedade ou economia, que não cresce, morre mais cedo ou mais tarde. O crescimento, contudo, não deve ser linear, nem ilimitado. Enquanto, certas partes dos organismos ou ecossistemas crescem outras declinam, lançando e reciclando seus componentes que se transformam em recursos para novo crescimento.

O tipo de crescimento balanceado e multifacetado que é bem conhecido pelos biólogos e ecologistas pode ser chamado de crescimento qualitativo. Em organismos vivos, ecossistemas e sociedades, o crescimento qualitativo consiste em um aumento de complexidade, sofisticação e maturidade que aprimora a qualidade de vida. Em outras palavras, crescimento qualitativo significa desmaterializar a economia em alguma extensão.

IS: Como as companhias deveriam rever seus esforços de inovação, pesquisa e desenvolvimento?

FC: O conceito de crescimento qualitativo será uma ferramenta crucial nessa tarefa. Ao invés de avaliar o estado da economia em termos de medidas quantitativas simplórias como o PIB, precisamos distinguir o “bom” crescimento do “ruim”. Do ponto de vista ecológico, essa distinção é óbvia. O crescimento ruim está relacionado a processos de produção e serviços que são baseados em combustíveis fósseis, envolvendo substâncias tóxicas, que levam à escassez de recursos naturais e à degradação dos ecossistemas terrestres. O bom crescimento relaciona-se a processos de produção e serviços mais eficientes com energias renováveis, emissões zero, reciclagem contínua de recursos naturais e restauração dos ecossistemas terrestres. As companhias precisam reavaliar seus processos de produção e serviços para determinar quais deles são ecologicamente destrutivos e, por essa razão, devem ser substituídos. Ao mesmo tempo, as empresas precisam diversificar seus portefólios na direção de produtos e serviços verdes.

IS: Como os cidadãos, companhias, organizações e governos podem articular diálogos estratégias, considerando as conexões ocultas e as relações de interdependência do sistema, sem perder de vista os problemas locais?

FC: As redes informais ou comunidades de práticas, que existem dentro de toda organização são idealmente moldadas para lidar com problemas locais. O que precisamos aprender é reconhecer como os problemas locais e globais estão interconectados. De fato, está ficando cada vez mais evidente que nenhum dos problemas do nosso tempo podem ser entendidos de maneira isolada. Para resolvê-los, precisamos aprender como pensar sistematicamente, em termos de relacionamentos, padrões e contextos.

IS: Como a internet e as novas tecnologias de informação podem integrar a sociedade em um esforço global para promover o desenvolvimento sustentável? Como os cidadãos, organizações e governos podem explorar essas possibilidades?

FC: Esse processo está em pleno movimento. Na virada deste século, uma coalização impressionante de ONGs disseminaram os valores da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica. Esse “movimento pela justiça global”, como também é chamado, tem mobilizado uma série de encontros do Fórum Social Mundial, muitos deles no Brasil. Nesses encontros, as ONGs propõem um grupo completo de políticas de mercado alternativas, incluindo iniciativas concretas e radicais para reestruturar as instituições financeiras globais, que mudariam profundamente a natureza da globalização.

Esse engajamento exemplifica uma nova forma de movimento político típico da nossa Era da Informação. Por causa da habilidade em usar a Internet, em aliança, as ONGs são capazes de se interconectar para trocar informação e mobilizar seus membros com uma velocidade sem precedentes. Como resultado, essas organizações emergiram como atores políticos efetivos que são independentes das instituições tradicionais, nacionais ou internacionais, constituindo uma nova forma de sociedade civil global.

Para dotar o discurso político de uma perspectiva ecológica, a sociedade civil global depende de uma network de estudantes, institutos de pesquisa, think thanks e centros de aprendizado que operam em larga escala fora de nossas instituições académicas líderes. Há dúzias dessas instituições de pesquisa e ensino em todas as partes do mundo. Em comum, elas apresentam a característica de alinhar sua atividade de pesquisa e ensino a uma estrutura compartilhada de valores essenciais.

IS: É possível estabelecer uma agenda ou compromisso global capaz de conduzir a sociedade na transição para o desenvolvimento sustentável? Quais seriam os assuntos e metas prioritários dessa agenda?

FC: Sim. Lester Brown tem desenvolvido uma agenda detalhada com o seu livro Plan B, que também está disponível no Brasil. A obra de Brown traça um caminho para salvar a civilização. Trata-se de uma alternativa ao modelo de business as usual (Plano A), que tem nos conduzido ao desastre. A estratégia do Plan B é informada pela consciência da interdependência da maioria dos nossos problemas globais. Envolve uma série de ações simultâneas que são mutuamente apoiadas, espelhando a interdependência dos problemas que endereça.

Os componentes do Plan B são moldados pelo que é necessário hoje e não pelo que é considerado politicamente alcançável. Os principais objetivos são, nas palavras do autor, “reestruturar a economia, restaurar seus sistemas de apoio naturais, erradicar a pobreza, estabilizar a população e mudanças climáticas e, acima de tudo, restaurar a esperança.”

A revolução recente do ecodesign oferece a justificativa para o otimismo e esperança de Lester Brown. Todas as propostas do Plan B baseiam-se em tecnologias existentes e são ilustradas com exemplos de sucesso de países ao redor do mundo. Essas experiências evidenciam que temos o conhecimento, as tecnologias e os recursos financeiros para salvar a civilização e construir um futuro sustentável. Tudo o que precisamos agora é vontade política e liderança.

IS: Considerando a conjuntura atual, há algum agente (empresas, governos, ONGs etc.) que tem mais condições de liderar o movimento rumo ao desenvolvimento sustentável?

FC: No mundo atual, há três principais centros de poder: os governos, as empresas e a sociedade civil. O governo envolve instituições nacionais; as empresas e sociedade civil se tornaram globais. Acredito que a maioria de nossos problemas globais só poderão ser resolvidos se houver cooperação entre esses três setores. Cada um deles tem algo especial para contribuir. O governo pode guiar a população pela legislação. Líderes políticos carismáticos também podem desempenhar papéis importantes educando e persuadindo o público. Os negócios têm competências especiais de comunicação e na resolução de problemas. Já a sociedade civil adota os valores que precisaremos para um futuro sustentável.

No meu entendimento, o Brasil é o único país de peso, onde a colaboração tem sido facilitada e institucionalizada pelo seu presidente. Quando Lula tomou posse em 2003, criou canais administrativos especiais pelos quais membros da sociedade civil têm acesso direto ao governo. Ele também indicou líderes da sociedade civil para várias posições nos ministérios. Somando-se a isso, vejo que, no Brasil, tornou-se uma tradição executivos do mundo dos negócios fazerem trabalhos voluntários em ONGs, ajudando seus membros, por exemplo, com tarefas de contabilidade e gestão. A organização desses novos canais de comunicação e cooperação no Brasil pode servir de modelo e inspiração para o resto do mundo.

IS: Em seu mais recente livro, o senhor analisa os estudos de Leonardo da Vinci. Que contribuições esse grande cientista do Renascentismo pode trazer para a discussão da sustentabilidade no século XXI?

FC: Leonardo da Vinci, o grande mestre da pintura e génio do Renascentismo, desenvolveu e praticou uma síntese única de arte, ciência e tecnologia. Descobri que seu legado é muito relevante para o nosso tempo. Nossas ciências e tecnologias têm se tornado cada vez mais estreitas em seu foco, o que impossibilita a compreensão dos nossos multifacetados problemas a partir de uma perspectiva interdisciplinar. Além disso, o conhecimento vem sendo dominado por grandes corporações mais interessadas em retornos financeiros do que no bem-estar da humanidade. Sendo assim, precisamos exatamente o tipo de síntese que Leonardo da Vinci delineou há 500 anos.de uma ciência e tecnologia que respeitem a unidade de toda a vida, reconheçam a fundamental interdependência de todo fenómeno natural e nos reconectem com a Terra.

IS: O que é essencial na educação de crianças e na de adultos para construção de uma sociedade sustentável? Esses públicos exigem estratégias diferentes de sensibilização e aprendizado?

FC: Ao longo dos últimos 20 anos, eu e meus colegas do Center for Ecoliteracy, em Berkeley, desenvolvemos uma pedagogia especial, que chamamos “educação para uma vida sustentável” com o objetivo de promover a alfabetização ecológica e o pensamento sistémico na educação primária e secundária.

Crianças, assim como adultos, passam por certas fases de desenvolvimento. Tanto a linguagem utilizada quanto as estratégias pedagógicas devem ser apropriadas a essas fases. Em nosso trabalho no Center for Ecoliteracy, descobrimos que os princípios da ecologia precisam ser ensinados de forma completamente diferente na educação primária (entre 6 a10 anos), secundária (entre 11 a13 anos) e no ensino médio (dos 14 aos 17 anos). E promover a alfabetização ecológica no ensino superior e na educação contínua de profissionais também exige estratégias e metodologias diferentes.