Da ordenação de um robô-monge na Coreia à nova encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV junta-se a cientistas para lançar um aviso urgente: a IA e a Realpolitik ameaçam a nossa essência. O Pontífice exige reformas éticas globais para que permaneçamos, simplesmente, humanos
Conhece o robô de 130 cm chamado Gabi que foi, recentemente, ordenado monge num templo na Coreia do Sul? Se não conhece, faz mal, mas pode conhecê-lo através deste link. Este robô humanoide, recém-nascido (data de fabricação: 03.03.2026), recebeu há poucas semanas um colar de 108 contas de oração no templo sul-coreano de Jogyesa. Esta é, segundo a ordem de Jogye, a maior denominação budista da Coreia, uma tentativa de travar a falta de participação religiosa e de interesse pelo templo, em especial por parte da população mais jovem.
De facto, nada grita mais que o mundo está a mudar, se é que ainda era preciso gritá-lo, do que a ordenação de um robô-monge. Há 135 anos, a Igreja Católica pressentiu o mesmo, quando o Papa Leão XIII publicou a Carta Encíclica Rerum Novarum (‘Das Coisas Novas’), demonstrando a sua preocupação com a questão operária da época, ou seja, um clamor de ação para recuperar operários que pareciam cada vez mais distantes da Igreja.
Ora, se nos finais do século XIX a preocupação era com a possível perda de um grupo populacional das sociedades europeias modernas, agora, com o Papa Leão XIV, a preocupação é com a possível perda de toda a humanidade. A apresentação pública da encíclica Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da IA (link), pelo próprio Papa – algo bastante incomum – ao lado de especialistas em IA, como o autodeclarado ateu e cofundador da Anthropic, Chris Olah – algo ainda mais incomum – é uma demonstração da aceleração dos nossos tempos. Ou, como escreve o Papa Leão XIV, é uma forma de “sabedoria para interpretar as tendências do nosso tempo”. Em especial, a fuga do poder do monopólio dos Estados e a sua dispersão por sujeitos privados e transnacionais, com mais poder do que os próprios sistemas estatais e mais distantes de qualquer lógica de bem comum.
Leio esta encíclica em quatro eixos gerais.
Teologicamente, a IA desafia a dignidade ontológica – aquela que pertence a cada ser humano simplesmente porque existe, foi desejado, criado e amado por Deus. Pelo contrário, a era da IA acelera os processos e sonhos de autossuficiência e autoaperfeiçoamento infalível, desligando-os dos próprios sentidos de religação e comunhão. A IA conduz-nos para nós mesmos, tentando alcançar a plenitude ou a autossuficiência excluindo o Criador ou tentando corrigir a fragilidade que faz parte da condição humana.
Ao nível da política internacional, o Papa Leão XIV já havia manifestado a sua visão do mundo, em particular a Donald Trump. Na encíclica, essa visão torna-se mais clara. Denuncia a cultura do poder, “feita de polarizações e violências”, que normaliza a guerra; dispara os “imperialismos” e “potências que desejam conservar a sua supremacia e potências que aspiram a conquistá-la”; desconfia da corrida tecnológica a armas “cada vez mais poderosas”, “desumanizantes” e que “parecem não conhecer limites”. Sobre o recente entusiasmo pela realpolitik, é claro: é “irresponsável”, pois coloca-nos num estado resignado que aceita a guerra como inevitável, desqualificando sistematicamente a paz e o diálogo. A guerra, como instrumento reabilitado de política internacional, é assim criticada, reconhecendo-se, neste contexto, a “crise do multilateralismo” e as fragilidades das Nações Unidas. Para o Papa, são necessárias “reformas profundas” e não apenas “ajustes técnicos”, indo ao núcleo dos fundamentos éticos das nações, orientando o “multilateralismo para o verdadeiro bem comum”.
Relativamente à guerra, mais especificamente no que toca à teoria da “guerra justa”, há uma viragem: considera oficialmente superada a sua teoria clássica, reduzindo o uso das armas à legítima defesa. Além disso, no quadro da dimensão mediática e digital, denuncia que os conflitos atuais são culturalmente preparados e normalizados no ambiente digital através de narrativas maniqueístas, desinformação e medo, sendo amplificados por algoritmos concebidos para privilegiar o confronto. Neste campo, apela à memória histórica e critica a ilusão de uma guerra tecnológica “limpa” ou “inevitável”, reafirmando que o recurso à força é sempre um sinal de pobreza relacional com efeitos desastrosos para os civis. Insta, assim, a humanidade a ativar as suas ferramentas mais eficazes de promoção da vida: o diálogo, a diplomacia e o perdão.
Por fim, sobre os desafios atuais da IA, a encíclica não defende uma posição ludita; pelo contrário, reconhece o seu valor potencial. Todavia, alerta que ela não é eticamente neutra, refletindo a visão eficiente, uniformizadora e reducionista de quem a concebe, financia, regula e utiliza. Aqui, o Papa alerta-nos para o risco da síndrome de Babel: “a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única – mesmo digital” que desumaniza. A encíclica apela a que se desarme a IA, que se quebre a equivalência entre poder técnico e direito de governar; ou seja, que sejam retirados os monopólios, tornando-a um bem comum, habitável e plural. Isto só é possível com o cultivo de um “saudável realismo” onde, segundo Leão XIV, a técnica é acolhida, mas enquadrada por valores éticos e espirituais.
A mensagem desta encíclica parece clara: permanecer humanos. O que, em si mesmo, diz muito do mundo em que vivemos – humanos a dizerem a humanos para se manterem humanos. Num mundo dominado pela técnica, o verdadeiro progresso mede-se pelo cuidado e pela relação, não pelo poder. O modelo é o de Neemias que reconstruiu Jerusalém “tijolo por tijolo” através da oração, planeamento e trabalho conjunto. O legado que o Papa quer construir é uma “civilização do amor” – por oposição à cultura do poder, do descartável, do desencontro, do imediato e da hiperestimulação –, um projeto social e político que coloca o amor, a fraternidade e a justiça como princípios organizadores da sociedade. Este amor deve traduzir-se em “estruturas de justiça”, dando corpo institucional à fraternidade, combatendo as desigualdades causadas pela tecnologia e tornando o “outro” um aliado necessário na construção do bem comum.
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