Um dos mais influentes historiadores do Iluminismo, Jonathan Israel, professor britânico que integrou o Institute for Advanced Study de Princeton, publicou recentemente “Spinoza, Life and Legacy”, uma impressionante biografia de Bento Espinosa, a quem Israel atribui o título de verdadeiro fundador do Iluminismo Radical — corrente filosófica que lançou as bases das ideias modernas de democracia.
Baseando-se nas mais de 1300 páginas desta extensa obra, Rui Tavares detém-se num episódio que Israel optou por omitir: aquele em que Espinosa, ao confrontar um crime bárbaro de motivação política, revela uma faceta intensamente humana e apaixonada, perdendo as estribeiras.
Que evento terá provocado tamanha irritação no autor do “Tratado Teológico-Político”? Neste episódio, somos convidados a redescobrir a biografia, o pensamento e a pertinência do legado filosófico e político de Espinosa, trazendo à luz uma reflexão que ressoa nos desafios contemporâneos.
O Episódio: o massacre dos Irmãos de Witt
O evento ocorreu em 1672, o "Ano do Desastre" para a Holanda. O país estava a ser invadido pela França e pela Inglaterra. A turba enfurecida e manipulada por fanáticos religiosos culpou os líderes liberais do país, Johan e Cornelis de Witt, que eram amigos e protetores de Espinosa, tendo sido eleito Príncipe de Orange - Guilherme III.
Os irmãos foram arrastados por uma multidão linchadora em Haia, assassinados de forma bárbara e os seus corpos foram mutilados (reza a lenda que partes foram inclusivamente comidas pelos agressores).
Ao saber do horror, Espinosa — que raramente perdia a compostura — teve um surto de indignação. Preparou um cartaz onde escreveu:
"Ultimi Barbarorum" (Os Últimos dos Bárbaros)
Ele pretendia levar o cartaz até ao local do massacre e exibi-lo diante da multidão enfurecida. Teria sido um suicídio certo. O que salvou a vida de Espinosa foi o seu senhorio que, percebendo o perigo, trancou a porta da casa à chave e impediu o filósofo de sair. Graças a essa tranca, Espinosa viveu mais cinco anos para terminar a sua obra-prima, a Ética.
Livro: Spinoza, Life and Legacy
Review: Marx and Philosophy Society
O pensamento de Espinoza
O pensamento de Espinosa exerce um fascínio duradouro sobre intelectuais de diversas áreas devido à sua visão revolucionária da realidade e da natureza humana. O ponto central da sua filosofia é a ideia de que Deus e a Natureza são a mesma coisa, uma substância única e infinita que segue leis necessárias, o que remove a figura de um Deus justiceiro e coloca a racionalidade no centro da existência. Esta perspectiva atraiu figuras como Albert Einstein, que afirmava acreditar no "Deus de Espinosa". Além disso, o filósofo substituiu a moral baseada na culpa e no pecado por uma ética da alegria e da potência, onde o bem é aquilo que aumenta a nossa capacidade de agir e pensar, enquanto o mal é o que nos diminui. Ao defender que a liberdade nasce da compreensão das causas que nos determinam e ao ser um pioneiro na defesa da democracia e da liberdade de expressão, Espinosa tornou-se o filósofo da libertação intelectual e emocional, mantendo-se atual tanto na ciência como na política contemporânea.

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