Pessoal, isto foi um pequeno sobressalto, um sobressaltozinho. Houve um pequeno aperto nos canais por onde flui o petróleo, o caudal diminuiu e, como o petróleo é um bem inelástico - em que uma quebra de apenas 5% na oferta obriga o preço a disparar 50% para equilibrar o mercado (fonte: Gemini) -, pequenas reduções traduzem-se em subidas galopantes. Façamos um exercício mental. Imaginem que os combustíveis fósseis representam 50% do custo de um dado produto (muitos são assim). Imaginem ainda que o preço dessa energia sobe para o dobro. Grosso modo, contas de merceeiro, o produto final aumenta 25%. Escalando o raciocínio ao nível do país, haverá uma brutal drenagem de riqueza para quem produz petróleo, e menos riqueza disponível por habitante para vestir, comer, abrigar e reproduzir. As acampadas são inevitáveis porque as pessoas zangam-se quando lhe tocam nos determinantes do sucesso reprodutivo.
Factos: as economias funcionam a petróleo, como antes funcionaram a carvão e antes a lenha e a amido (a principal fonte de energia do trabalho muscular humano); o crescimento económico e o bem-estar material (uma componente essencial do bem-estar geral) estão estritamente relacionados com o consumo de energia e não há volta a dar-lhe (assim como não podem ser alteradas a energia por quantum ou a aceleração da gravidade terrestre).
Se um dia o petróleo faltar de verdade, estruturalmente, como alimentar, vestir, abrigar e educar - enfim, como manter o funcionamento num planeta de 8 mil milhões de pessoas? O problema não é o petróleo acabar fisicamente no subsolo; é a termodinâmica implacável do chamado EROI (Retorno Energético).
No passado, gastávamos 1 barril de energia para extrair 100. Hoje, arrastamo-nos para os 10 para 1, espremendo rochas (fracking) e perfurando os abismos do mar. Quando a energia gasta para extrair a energia for igual àquela que obtemos, esta enorme máquina dissipadora de energia que é a sociedade humana para. E o trabalho, a terra e o capital, os três macrofatores de produção, não são interconversíveis, ao contrário do que admitem quer as teorias marxistas quer as neoliberais.
É urgente, imperativo, inadiável, impreterível, improrrogável, improtelável ... não encontro mais sinónimos para fortalecer a ideia ... trabalhar a tempo inteiro no problema e procurar soluções. Se formos apanhados no virar da esquina por uma escassez estrutural de energia, então a humanidade enfrentará uma crise potencialmente mais profunda do que a invasão dos Povos do Mar no Egito clássico, a Peste Antonina, a rutura do limes do Império Romano no séc. V ou a Peste Negra do séc. XIV. O mundo virará uma distopia tipo Mad Max. O repouso, o lazer e o bem-estar serão arcaísmos de dicionário.
Portanto, queria aqui deixar um sentido agradecimento aos senhores Trump e Hegseth por terem apertado a torneira de Ormuz e acordado os homens para o grande desafio civilizacional do futuro: a energia. São uns canalhas, uns pulhas, mas fizeram um grande favor ao coletivo humano.

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