quinta-feira, 20 de abril de 2023

Relatório avisa que temperaturas na Europa estão a subir duas vezes mais do que a média global


As temperaturas na Europa estão a subir duas vezes mais que a média global e este aumento é mais rápido do que em qualquer outro continente, segundo o relatório “Estado do Clima Europeu 2022” hoje divulgado.

O relatório do Serviço de Monitorização das Alterações Climáticas Copernicus, um dos seis serviços de informação temáticos do programa de Observação da Terra da União Europeia, indica que o ano de 2022 foi o segundo mais quente na Europa desde que há registo, com 0,9 graus celsius (ºC) acima da média, e o verão foi o mais quente de sempre, com 1,4ºC acima da média.

“A Europa viveu o verão mais quente desde que há registo, agravado por vários eventos extremos, como ondas de calor intensas, condições de seca e incêndios florestais extensos”, precisa o documento.

Segundo o Copernicus, a maior parte da Europa Ocidental teve ondas de calor e as temperaturas no Reino Unido ultrapassaram os 40°C pela primeira vez, além de terem sido também registados os valores mais altos da temperatura média da superfície nos mares da Europa.

O relatório “Estado do Clima Europeu 2022” alerta para as consequências que o calor extremo registado no final da primavera e verão teve na saúde humana, frisando que o sul da Europa viveu um número recorde de dias com “stresse de calor muito forte” devido às ondas de calor extremas durante o verão.

O serviço europeu de observação da Terra sustenta também que a Europa está a assistir a uma tendência ascendente do número de dias de verão com “stresse de calor forte” ou “muito forte” e no sul da Europa existe já “stresse de calor extremo”.

O Serviço de Monitorização das Alterações Climáticas do Copernicus salienta que um dos eventos mais significativos que afetou a Europa em 2022 foi a seca generalizada, tendo grande parte do continente registado durante o inverno de 2021-2022 menos dias de neve do que a média e muitas áreas chegaram a ter menos 30 dias.

Na primavera, a precipitação ficou abaixo da média numa grande parte do continente, nomeadamente no mês de maio, que registou a menor quantidade de chuva de sempre.

Segundo o relatório, a falta de neve no inverno e as altas temperaturas no verão resultaram numa perda recorde de gelo nos glaciares dos Alpes, o equivalente a uma perda de mais de cinco quilómetros cúbicos de gelo.

“A baixa precipitação, que se manteve durante todo o verão, aliada às excecionais vagas de calor, provocaram também uma seca generalizada e prolongada que afetou vários setores, como a agricultura, transportes fluviais e energia”, refere o relatório, frisando que a humidade nos solos foi a segunda mais baixa dos últimos 50 anos, com apenas áreas isoladas a apresentarem condições de humidade do solo mais húmidas do que a média.

O documento precisa que o ano de 2022 foi o mais seco na Europa desde que há registo, com 63% dos rios da Europa com fluxos abaixo da média e dá conta das condições de perigo de incêndio florestal em 2022, que foram acima da média durante a maior parte do ano, tendo os cientistas do Copernicus que monitorizam os fogos em todo o mundo encontrado aumentos significativos nas emissões de carbono em algumas regiões da Europa no verão do ano passado.

Segundo o Copernicus, as emissões totais de carbono estimadas nos países da UE para o verão de 2022 foram as mais altas desde 2007, com França, Espanha, Alemanha e Eslovénia a registaram os valores mais elevados dos últimos 20 anos e o sudoeste da Europa a registar alguns dos maiores incêndios verificados na Europa.

O relatório indica ainda que as temperaturas no Ártico aumentaram muito mais rapidamente do que na maior parte do resto do mundo, sendo 2022 o sexto ano mais quente desde que há registo, e a região mais afetadas foi o arquipélago norueguês de Svalbard, que teve o verão mais quente de sempre, com algumas áreas a atingirem temperaturas 2,5°C acima da média.

Durante o ano passado, a Gronelândia também teve condições climáticas extremas, incluindo calor e chuvas excecionais em setembro, uma época do ano em que a neve é o mais comum, registando nesse mês temperaturas médias até 8°C acima da média, além de a ilha ter sido afetada por três ondas de calor diferentes, o que causou um derretimento recorde da camada de gelo.

O Serviço de Monitorização das Alterações Climáticas do Copernicus segue a recomendação da Organização Mundial de Meteorologia para usar o período de 30 anos mais recente (1991-2020) para calcular as médias climatológicas.

Diferenças entre Confucionismo e Xintoísmo

Templo xintoísta- Tóquio

O confucionismo e o xintoísmo são duas tradições religiosas e filosóficas diferentes originárias da Ásia Oriental. Embora haja alguma sobreposição entre as duas, elas têm diferenças significativas em termos de crenças, práticas e história. Aqui estão algumas das principais diferenças entre o confucionismo e o xintoísmo:
  1. Origem: O confucionismo é uma filosofia que foi fundada por Confúcio (551 a.C.-479 a.C.) na China. Já o xintoísmo é uma religião nativa do Japão, que surgiu a partir de práticas e crenças animistas dos povos indígenas japoneses.
  2. Foco: O confucionismo é uma filosofia que enfatiza a ética e a moralidade, assim como as relações sociais. O objetivo principal do confucionismo é ajudar as pessoas a viverem uma vida justa e harmoniosa. Já o xintoísmo é uma religião que valoriza a adoração dos kami (espíritos divinos), a reverência pelos antepassados e o respeito pela natureza.
  3. Textos sagrados: O confucionismo é baseado em textos antigos, como os "Analectos", que registam os ensinamentos de Confúcio e os seus discípulos. Já o xintoísmo não tem um conjunto de escrituras sagradas unificado, mas inclui muitos mitos e lendas sobre os kami e a história do Japão.
  4. Ritos e cerimónias: O confucionismo não possui ritos ou cerimónias religiosas estruturados, mas enfatiza a importância de rituais sociais, como o respeito pelos mais velhos e pelos ancestrais. Já o xintoísmo é conhecido por suas cerimnias xintoístas, como o Hatsumode (a primeira visita a um santuário xintoísta no início do ano), o Shichi-Go-San (uma cerimónia que celebra a passagem da infância para a idade adulta) e o O-Bon (uma cerimónia que honra os antepassados falecidos).
  5. Influência política: Na China, o confucionismo teve uma grande influência na política e na sociedade ao longo da história. Já no Japão, o xintoísmo foi usado para apoiar a ideia de que o imperador japonês era divino e tinha um papel especial na governança do país, durante a Era Shōwa (1926-1989).

quarta-feira, 19 de abril de 2023

Limo-mosquiteiro - Planta aquática carnívora


Utricularia australis é uma planta aquática carnívora de ampla distribuição mundial, que em Portugal continental ocorre, esparsamente, entre o Minho e o Baixo Alentejo. É avaliada como Vulnerável devido à reduzida área de ocupação que apresenta, ao número reduzido de localizações e porque estão identificados declínios continuados ao nível da área de ocupação, da área e qualidade do habitat, do tamanho da população nacional e do número de localizações. As principais pressões e ameaças identificadas incluem a excessiva poluição orgânica das massas de água, a expansão de plantas exóticas aquáticas, a drenagem de zonas húmidas com fins diversos e a destruição causada pela expansão do lagostim-vermelho-do-louisiana. Esta planta beneficiaria de um plano alargado para conservação de zonas húmidas, com controlo de fontes de poluição orgânica e erradicação de exóticas, quer plantas aquáticas, quer do lagostim-vermelho-do-louisiana. Sugere-se que sejam efetuados esforços de repovoamento em áreas com habitat favorável, de modo a promover a continuidade entre os diversos núcleos que constituem a população nacional. Os núcleos atualmente conhecidos deverão ser alvo de monitorização regular, de modo a acompanhar a sua tendência.



Financiamento para travar a desflorestação está muito aquém do que é preciso


Atualmente, estima-se que o financiamento, a nível mundial, para proteger as florestas da destruição é de entre dois e três mil milhões de dólares por ano. Mas um relatório da organização Energy Transitions Commission revela que, para proteger as florestas da destruição para fins económicos, reduzindo os incentivos à desflorestação, seriam precisos mais de 130 mil milhões de dólares ao ano.

Intitulado ‘Financiando a Transição: O custo de evitar a desflorestação’ (Financing the Transition: The Cost of Avoiding Deforestation, no original), o relatório, divulgado hoje, reconhece que é uma quantia “muito grande”, pelo que, além de ter de vir de pagamentos feitos pelas empresas no âmbito dos mercados voluntários de carbono, da filantropia e de um maior esforço por parte dos países mais ricos, proteger as florestas do mundo implicaria também uma série da ações não-financeiras.

Entre elas, reduzir a procura dos principais produtos que estão fortemente associados à desflorestação, e que a tornam atrativa, como o óleo de palma e a carne, criar modelos de negócio alternativos que permitam tornar lucrativa a conservação das florestas (como o ecoturismo e práticas sustentáveis que juntem a agricultura e a silvicultura), e também reforçar as medidas governamentais que travar a destruição das áreas florestais.

Contudo, os relatores reconhecem que implementar estas ações não-financeiras exige tempo, que podem ser apenas parte da solução e que podem não ser eficazes no curto prazo. Por isso, argumentam que, pelo menos para já, o pagamento de compensações às empresas e negócios que estão dependentes e beneficiam da desflorestação “desempenhará um papel importante” na proteção das florestas mais vulneráveis à destruição humana, pelo menos enquanto as ações não-financeiras não mostraram sinais de maturidade.

E salientam que os incentivos financeiros à proteção das florestas devem andar lado a lado com medidas como a ilegalização da desflorestação e a redução da procura por produtos associados a essa destruição.

Adair Turner, presidente da Energy Transitions Commission e membro da Câmara dos Lordes do Reino Unido, considera que sem um “significativo fluxo” de incentivos financeiros “qualquer redução da desflorestação chegará demasiado tarde para ser possível manter o aquecimento global bem abaixo dos dois graus Celsius”, tal como plasmado no Acordo Climático de Paris de 2015.

O responsável alerta, porém, que os apoios financeiros “por si só não conseguirão travar a desflorestação”, e que para tal são precisas ações para reduzir a procura dos produtos dessa destruição, sendo que, nesse âmbito, os governos, as empresas e os consumidores são inevitavelmente chamados a agir e a fazerem as escolhas necessárias e que são urgentes para assegurar um planeta habitável por muitas mais gerações.

O relatório recorda que quase 15% do total das emissões de dióxido de carbono produzidas pelas ações humanas derivam da desflorestação, pelo que travar e transformar as atividades que dela dependem e beneficiam é fulcral para combater o aquecimento global e a degradação dos ecossistemas.

ZERO alerta para 6 pontos negativos na exploração de lítio no Barroso



Termina hoje, dia 19 de abril, a consulta pública relativa ao Estudo de Impacte Ambiental do projeto de ampliação da Mina do Barroso (MdB), na sua versão do projeto reformulado apresentado no âmbito do Artigo 16.º do Regime jurídico da avaliação de impacte ambiental, após parecer desfavorável da Comissão de Avaliação devido à identificação de potenciais impactes negativos muito significativos em fatores ambientais como recursos hídricos, sistemas ecológicos, paisagem e socioeconomia.

A ZERO reconhece que, neste momento, é uma prioridade o combate às alterações climáticas que afeta milhões de pessoas, inclusive na Europa, e a eletrificação da sociedade tem atualmente na tecnologia com base no lítio um importante aliado na transição energética. Contudo, não deixa de ser verdade que a mesma não pode justificar uma extração de recursos minerais a qualquer custo. Mesmo que Portugal tenha potencialmente a maior reserva de lítio em território europeu, a eventual exploração não poderá de forma alguma avançar sem que sejam devidamente acautelados os impactes sociais, económicos e ambientais e o passivo ambiental que ficará no território para as gerações futuras. Para além disso, não poderemos defender uma exploração predatória que vise única e exclusivamente retirar no mais curto espaço de tempo os recursos mineralógicos, sem garantir que todo o ciclo de transformação seja assegurado em território nacional, criando uma cadeia de mais valias que dificilmente se consegue com a mera instalação de uma mina.

A ZERO apresenta seis pontos negativos no projeto de exploração de lítio do Barroso

Da análise que a ZERO efetuou, e com base na qual elaborou um parecer negativo ao Estudo de Impacte Ambiental, destacam-se seis pontos:
  1. A incomodidade e impactes sobre a vida das pessoas continua a ser uma preocupação. Uma exploração mineira desta natureza, a menos de 1.000 metros do aglomerado populacional, levanta muitas dúvidas relativamente ao nível de incomodidade. O cumprimento da legislação e a amenização dos problemas com a redução da laboração da mina com um limite máximo em algumas das cortas para as 23 horas, garantindo horas de descanso é positivo, mas não é suficiente, porque cumprimento da legislação não significa ausência de incomodidade. A lavaria continuará a laborar 24 horas por dia. O estudo refere que “importa assinalar que a extensão no tempo destes efeitos de perturbação e a sua continuidade diária podem contribuir para um agravamento da qualidade de vida e saúde da população”.
  2. O impacto na paisagem é muito significativo. No estudo é referido que as áreas a intervencionar no âmbito do projeto são muito reduzidas no contexto da região do Barroso, nomeadamente na área classificada de Património Agrícola Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), dado que as intervenções da fase de construção são maioritariamente temporárias e reversíveis, sendo as suas áreas de implementação recuperadas e os seus usos repostos. Para além do impacte visual durante um período que pode chegar a perto de 17 anos, resta saber qual o impacto que este projeto terá na imagem da região.
  3. O passivo ambiental, resultante da localização dos rejeitados da lavaria, levanta muitas dúvidas. É positiva a alteração ao nível da sequência de exploração de forma a que as escombreiras sejam depositadas nas primeiras cortas a serem exploradas, permitindo abandonar a ideia iniciar de criar duas lagoas e alegadamente possibilitar a reabilitação da maioria das linhas de água. Contudo, permanece a preocupação com a instalação de rejeitados da lavandaria, cuja estrutura com 13,9 Mt numa extensão de 28,4 ha, atingirá uma altura de 85 metros. Embora estejamos na presença de resíduos da lavaria, que serão alvo de desidratação antes da sua deposição em local impermeabilizado e com canais de drenagem, em caso de acidente devido a anomalia ou qualquer outro fenómeno estocástico, devido à orografia do local e à proximidade de linhas de água, poderão existir consequências imprevisíveis sobre o comportamento destes sedimentos de granulometria fina. Esta é uma situação que, em termos de localização, continua a suscitar-nos imensas dúvidas quando ao cumprimento das melhores práticas na exploração mineira.
  4. A preocupação com a disponibilidade hídrica nesta nova versão do projeto mantém-se. Abandona-se a extração direta do rio Covas, mas constroem-se várias barragens, embora sejam apelidadas de reservatórios de água, para garantir o abastecimento e necessidades da exploração mineira. Fica a ideia de que o consumo anual de água na ordem dos 330 000 m3 poderá exigir que, no período de estio, obrigue à diminuição da laboração da lavaria para garantir o caudal ecológico na linha de água principal, o rio Covas. Num cenário de alterações climáticas, em que os fenómenos de seca são cada vez mais comuns e prolongados no tempo, aliados a eventuais problemas na disponibilidade de água subterrânea na aldeia de Covas do Barroso (decorrente da exploração nas cortas mais próximas da aldeia), levanta-se a grande preocupação quanto ao impacte deste projeto nos recursos hídricos desta área.
  5. A compensação na componente ecológica centra-se muito em estudos académicos. É apresentada a concretização de um conjunto de planos de monitorização nos primeiros 5 anos, nomeadamente o Plano de monitorização para a truta, o Plano de monitorização do lobo e o Plano de monitorização da flora – este último numa Estratégia Ambiental de Offsetting, baseada nos princípios de compensação da biodiversidade com o objetivo de desenvolver um ganho. Fica a questão sobre qual o real impacto destes planos de monitorização. A compensação ambiental faz-se com investimento efetivo no terreno na conservação de valores naturais, muito para lá de meros investimentos em estudos académicos.
  6. O Plano de Partilha de Benefícios e um Plano de Boa Vizinhança é algo imposto e não negociado com os interessados. É positiva a intenção de partilha de benefícios, contudo e tratando-se de um plano que já está pré-formatado, com um conjunto de iniciativas a implementar, dificilmente se consegue perceber qual o alcance do plano e o que de positivo ficará e perdurará após o encerramento da MdB. Nunca existiu um processo participativo na construção de uma verdadeira estratégia de desenvolvimento local que poderia ser alavancado por parte dos elevados lucros expectáveis gerados pela exploração da MdB e que resulte numa mais valia a longo prazo.
Em suma, no projeto reformulado, mantém-se a ideia de que todos os impactes são mitigáveis, são recuperáveis e que no final ficará tudo ainda melhor, com a criação de uma nova paisagem a um nível local, ainda que potencialmente melhor em termos ecológicos e de biodiversidade no período pós-exploração mineira, e com um retorno muito positivo para o Município e comunidades locais.

Para a ZERO, este é mais um exemplo de um projeto que, desde o primeiro momento, descurou o diálogo com as populações e não acautelou a qualidade de vida de quem vive nas imediações da área de concessão da mina. Para além disso, existe uma grave falta de visão estratégica e planeamento sobre os investimentos, retorno positivo e a sua sustentação no pós-exploração que verdadeiramente contribua para o desenvolvimento regional e a melhoria da vida dos cidadãos deste território, que serão de certa forma sacrificados face a um desígnio nacional e europeu.

Na verdade, estamos em presença de um projeto que tem evidentes impactes ambientais, muitos deles cuja alegada reversibilidade é muito duvidosa, pelo que jamais se pode afirmar que estamos perante um suposto projeto de “Mineração Verde” (Green Mining), um conceito falacioso e tecnicamente errado que apenas poderá ser suportado por uma narrativa de “greenwashing” numa atividade que a própria indústria reconhece que inevitavelmente gerará um considerável passivo ambiental para as gerações futuras.

Poema da Semana: Mulher, por Joaquim Pessoa


Os poetas vivem eternamente. DEP
Joaquim Pessoa (Barreiro, 22.02.1948 – 17.04. 2023)

MULHER
És tu. Mulher normal. Mulher inteira.
Olhos de amêndoa amarga. E peito doce.
Cisterna de água pura. Amendoeira.
Mulher de quem não sou. Mas antes fosse.

Tu és a flor do meu cantar de amigo.
Papoila no meu sangue amachucada.
De bruços a fazer amor comigo
na cama onde se deita a madrugada.

Mulher. Corça da noite. Erva do dia.
No peito duas rosas de alegria!
No ventre a rosa negra de cantar-te!

Mulher a quem desejo em plena rua.
A quem eu dispo. E ficas toda nua.
Que ali mesmo mulher eu quero amar-te!

in "O Poeta Enamorado"


Saber mais:

terça-feira, 18 de abril de 2023

A força dos bons


"A árvore não prova a doçura dos próprios frutos; o rio não bebe as suas próprias ondas; as nuvens não despejam água sobre si mesmas. A força dos bons deve ser usada para benefício de todos."
Provérbio hindu

‘Fungicultura’: Estes besouros aprenderam a usar o odor para distinguir entre fungos ‘bons’ e ‘maus’

Besouro da espécie Xylosandrus germanus

Na madeira de troncos de árvores da floresta, os besouros cuidam dos fungos que são mais importantes para a sobrevivência e prosperidade da comunidade e procuram erradicar aqueles que podem causar doenças e ameaçar a colónia, muito à semelhança do que um agricultor humano faz num campo de cultivo, ao cuidar de certas plantas e arrancar as que podem colocar em risco a cultura.

Um grupo de investigadores de Itália, Alemanha e Estados Unidos da América fala mesmo da existência de uma ‘fungicultura’, própria destes grupos taxonómicos, que tem por base o odor.

Num artigo divulgado na revista ‘Frontiers in Microbiology’, os cientistas revelam que os X. germanus conseguem distinguir entre as espécies de fungos ‘bons’ e ‘maus’ através dos odores.

Antonio Gugliuzzo, da Universidade de Catania, em Itália, e um dos principais autores da investigação, explica que o odor produzido pelos fungos dos quais os besouros se alimentam atuam como ‘feromonas de agregação’, que atraem os coleópteros para árvores que estão já colonizadas por esses fungos.

Acontece que, por vezes, os fungos dos quais os X. germanus se alimentam estão alojados em árvores de fruto, pelo que o ‘chamamento odorífero’ pode atrair grandes números de besouros e levar a prejuízos agrícolas consideráveis. Explicam os cientistas que o X. germanus é considerado uma espécie invasora, tendo já uma distribuição ampla em toda a Alemanha.

“Até agora, não conseguíamos explicar como estes besouros atacavam as árvores em grupos”, reconhece Peter Biedermann, da Universidade de Freiburg, na Alemanha, e outro dos principais autores do artigo. No entanto, as experiências realizadas permitiram perceber que esses coleópteros são atraídos pelo odor dos fungos dos quais se alimentam, e que tinham já sido ‘cultivados’ nos ramos das árvores por membros da mesma espécie.

“Isto permite aos besouros colonizar árvores fragilizadas em número muito maior e tomar de assalto as defesas da árvore mais facilmente”, explica Biedermann, apontando que isso poderá resultar na morte da árvore.

Os cientistas acreditam que, com mais investigações científicas, será possível identificar o componente específico do odor dos fungos que atrai os besouros, e depois usá-lo para criar armadilhas que afastem os coleópteros dos frutos.

Esta relação entre fungo e besouro foi também documentada num outro artigo, publicado no final de março na ‘Symbiosis’. Nesse trabalho, os investigadores revelam que uma outra espécie, a Xyleborinus saxesenii, é também capaz de diferenciar entre os fungos bons e os maus, através do odor.

Neste trabalho, os cientistas conseguiram confirmar que essa capacidade não se cinge aos indivíduos adultos, mas que também as larvas são capazes de distinguir entre os fungos que servem de alimento e os que podem ser prejudiciais à sua saúde.

Os resultados de ambos os estudos, segundo Biedermann, podem resultar em “ideias para a nossa agricultura [a feita pelos humanos] controlar organismos prejudiciais de uma forma sustentável e amiga do ambiente”.

A falácia do fogo controlado


Relatório - Efeitos do fogo controlado num eucaliptal na Austrália

"Ecological effects of repeated low-intensity fire in a mixed eucalypt foothill forest in south-eastern Australia" (1984–1999)

Na sequência da discussão que tem ocorrido sobre fogo controlado, partilho um relatório sobre potenciais impactos negativos nos solos com efeito cumulativo.

O relatório apresenta os resultados da monitorização de 15 anos de tratamentos repetidos com fogo controlado aplicado em condições ótimas de queima de baixa intensidade, com intervalos de 3 anos entre queimas.

O estudo revela que as conclusões de experiências similares no curto prazo podem ser enganosas, ignorando tendências subjacentes de longo prazo, nomeadamente no que diz respeito a um declínio significativo de carbono e nitrogénio nos solos superficiais.

No longo prazo, o relatório aponta para que o recurso a técnicas de fogo controlado em intervalos de três anos podem conduzir a um declínio na matéria orgânica do solo e na fertilidade do solo.
O estudo conclui que a queima de baixa intensidade com intervalos de 3 a 5 anos durante um longo período de tempo, resultará provavelmente em mudanças irreversíveis na estrutura, fertilidade e abundância relativa de espécies de fauna e flora.

No longo prazo, conclui-se que incêndios de baixa intensidade em zonas mistas de eucaliptal em sopé de montanha com menos de dez anos de frequência levem a um declínio na matéria orgânica do solo e da fertilidade do solo.

Nas frequências de incêndios de 3-5 anos não foram observadas perdas de espécies de fauna ou flora, mas foi observada uma mudança significativa na abundância relativa de cada espécie.
O relatório conclui que fogos prescritos nessa frequência de 3-5 anos são insustentáveis ​​como estratégia de gestão de longo prazo em àreas florestais com características similares.

O estudo recomenda que queimadas prescritas em florestas mistas de eucalipto sejam realizadas em intervalos de pelo menos dez anos, de modo a mitigar os seus impactos negativos na vulnerabilidade e produtividade do solo.

O estudo conclui sobre a necessidade de melhor compreensão das mudanças de longo prazo nos processos do solo afetados por incêndios de baixa intensidade.

O estudo citado recomenda a utilização de indicadores que permitam comparar as condições de partida do experimento nas áreas submetidas a ações de fogo controlado e áreas marginais à intervenção nomeadamente sobre índices de hidrorepelência e variabilidade em carbono, nitrogênio e fósforo em resposta aos tratamentos com fogo.

O presente relatório foi intencionalmente escolhido por ter sido elaborado há já vinte anos, assinalando os primeiros passos mais consistentes de um exercício reflexivo em torno destas práticas e que ainda está a dar os seus primeiros passos. Curiosamente, a procura nos motores do documento revelou difícil acesso através do uso de palavras-chave na Google, Elsevier ou Sci-Hub, verificando-se que este relatório foi desmembrado por tópicos, nos quais os seus resultados são apresentados em bruto, não permitindo deste modo aceder facilmente à sua discussão e conclusões aqui partilhadas através desta ligação.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Earth Heat Inventory: O Estudo que Revela Para Onde Vai o Calor da Terra



O Earth Heat Inventory (Inventário do Calor da Terra), uma avaliação científica liderada por Karina von Schuckmann em cooperação com mais de 70 peritos internacionais, constitui a principal referência global para quantificar o Desequilíbrio Energético da Terra (Earth's Energy Imbalance - EEI). Devido à crescente concentração de gases de efeito de estufa resultantes das atividades humanas, o planeta retém atualmente mais energia solar do que aquela que consegue libertar de volta para o espaço. Para mapear com exatidão a trajetória desse excesso térmico, o inventário consolida dados empíricos obtidos através de quatro componentes fundamentais do sistema terrestre: a monitorização dos oceanos (recorrendo a mais de 3.800 boias Argo, sensores profundos e altimetria por satélite da NASA e ESA), o estudo da criosfera (fusão de glaciares, gelo marinho e mantos de gelo na Gronelândia e Antártida), a medição do aquecimento da superfície continental e perfurações profundas (boreholes), e a análise da atmosfera por meio de balões meteorológicos e satélites.

Os resultados do estudo revelam a magnitude do papel dos oceanos na regulação do clima global. Por absorverem entre 89% e 90% de todo o excesso de calor retido no planeta, as massas de água funcionam como um amortecedor vital que impede que as temperaturas à superfície terrestre atinjam níveis inabitáveis. A energia remanescente divide-se no aquecimento do solo e massas continentais (~6%), no derretimento do gelo e calotas polares (~4%), e no aquecimento direto da atmosfera (~1%).

No entanto, o relatório alerta para uma preocupante aceleração deste processo, mostrando que a taxa de acumulação térmica nos oceanos quase duplicou nas últimas décadas. Além disso, embora as camadas superficiais (até aos 700 metros) retenham a maior fatia de energia, a monitorização até aos 2.000 metros de profundidade confirma que o oceano profundo está a aquecer de forma contínua e irreversível à escala humana. Esta acumulação ininterrupta de calor tem consequências diretas severas, sendo a expansão térmica da água responsável por 30% a 40% da subida do nível do mar, além de intensificar a ocorrência de tempestades extremas e a frequência de ondas de calor marinhas.

Para consultar o estudo científico completo publicado na revista Earth System Science Data, aceda à hiperligação direta:

Bilionários - petição pelo novo imposto corporativo global


Isto é uma vergonha: Elon Musk pagou cerca de 3% de impostos, enquanto uma comerciante de arroz em Uganda pagou 40%. A desigualdade está literalmente nos matando -- é hora dos nossos líderes tomarem uma atitude. O Presidente Biden acaba de anunciar um plano para tributar os bilionários -- e líderes do G20 poderiam levar a ideia para o mundo todo! Coloque seu nome na petição para que os mega-ricos paguem o que devem e, quando formos muitos, entregaremos nossas vozes aos líderes dos países mais ricos no encontro do G20.

Assine a Petição

Queridos amigos e amigas,

Nos últimos anos, o 1% mais rico do mundo ganhou quase duas vezes mais dinheiro do que o resto da população.

Enquanto Elon Musk pagou uma taxa efetiva de imposto de cerca de 3% durante anos, uma comerciante de arroz em Uganda pagou 40%. Ela ganha 80 dólares por mês -- e a fortuna de Musk está avaliada em 180 BILIÕES de dólares.

Existe uma forma de ajudar a resolver esse problema -- precisamos Tributar os Ricos. Esta é a nossa hipótese. O presidente dos EUA acabou de fazer um apelo para a criação de um imposto histórico sobre os bilionários e, com bastante pressão popular, ele poderia defender essa ideia na próxima reunião de líderes mundiais.

Um imposto de 5% sobre os ultra-ricos poderia arrecadar dinheiro suficiente para tirar 2 biliões de pessoas da pobreza! Vamos reunir um milhão de assinaturas exigindo aos governos do G20 que tributem os ricos agora - coloque o seu nome e a Avaaz entregará nossas vozes antes da reunião, e eles não poderão nos ignorar!

Há uma grande falha no centro dos sistemas fiscais em todo o mundo – eles tributam nossa renda, mas não toda a riqueza dos mega-milionários e bilionários (seus investimentos, ações, iates!!!). Mas um imposto sobre a riqueza forçaria os bilionários a pagarem o que realmente devem.

Em 2021, 137 países concordaram com um novo imposto corporativo global que era inimaginável há alguns anos - mas isso está longe de ser suficiente, e um imposto sobre a riqueza dos bilionários é o próximo passo.

A Espanha adotou recentemente um imposto sobre grandes fortunas para ajudar a população mais vulnerável, e o Presidente Biden acaba de propor a tributação da riqueza dos estadunidenses mais ricos! Agora, todos os nossos governos precisam fazer sua parte -- e um movimento global como a Avaaz pode ajudar nisso.

Os 20 países mais ricos poderiam concordar com essa solução revolucionária na próxima cúpula - se fizermos uma pressão enorme. Coloque seu nome nesta petição, e a equipe da Avaaz se certificará de que os principais líderes presentes nos ouçam.


Nunca vamos parar de lutar pelo mundo que a maioria dos humanos sonha, mesmo que isso signifique ir contra os mais poderosos. Juntos, desafiamos as maiores empresas farmacêuticas e de tecnologia, e enfrentamos a Monsanto. Agora, podemos vencer a influência dos ultra-ricos.

*Nós usamos o termo "taxa efetiva de imposto" (traduzido do inglês "true tax rate") como apontado e calculado pela ProPublica (2021) para se referir ao valor pago em impostos anualmente em comparação com o crescimento estimado da riqueza durante aquele ano. A taxa efetiva de imposto de Elon Musk, com base nos dados da Receita Federal, foi de 3,27% em média entre 2014 e 2018.

Mais informações:

Estudo revela qual é o melhor país do planeta para sobreviver a um apocalipse nuclear

 Pesquisa que analisou dezenas de países revelou qual o melhor lugar para sobreviver a apocalipse nuclear.


A Austrália, seguida pela vizinha Nova Zelândia, lidera um estudo que analisou os melhores países para se sobreviver depois de um possível apocalipse nuclear. Segundo a pesquisa, os países tem as melhores condições de iniciar o processo de repovoar a civilização humana depois de um colapso.

O estudo publicado na revista Risk Analysis comparou 38 países insulares dentro de 13 fatores que, segundo os autores, poderiam prever o sucesso de sobrevivência pós-apocalíptica. Entre os fatores estão a produção de alimentos, autossuficiência energética, manufatura e o efeito do desastre no clima.

Austrália, Nova Zelândia, Islândia, Ilhas Salomão e Vanuatu foram os destaques da pesquisa pela sua capacidade de suprir sua população depois de uma “catástrofe abrupta de redução da luz solar”, como uma guerra nuclear, a erupção de um supervulcão ou a queda de um asteroide. Entre os países, Austrália e Nova Zelândia lideram a tabela por serem ambas grandes produtoras agrícolas e se localizarem longe dos prováveis locais de precipitação nuclear do hemisfério norte.

No geral, a Austrália acabou tendo um desempenho melhor no estudo que a sua vizinha pela sua boa infraestrutura, vasto excedente de energia, alta segurança sanitária e orçamento de defesa.

“A reserva de abastecimento de alimentos da Austrália é gigantesca (…) com potencial para alimentar muitas dezenas de milhões de pessoas a mais”, diz o estudo.

Porém, os fortes laços militares da Austrália com os EUA e Reino Unido podem fazer do país um possível alvo de uma guerra nuclear. Nesta área, a Nova Zelândia exibiu mais vantagens devido ao seu status de longa data livre de armas nucleares.

Além disso, todos os locais da Nova Zelândia são relativamente próximos ao oceano, o que os tornam mais resistentes a uma queda brusca na temperatura global provocada por um período de escuridão. A autossuficiência alimentar do país também é um ponto positivo visto que, mesmo em um cenário em que existe uma redução de 61% das colheitas, os neozelandeses ainda teriam o que comer.

“Temos uma economia de exportação de alimentos supereficiente que poderia alimentar os neozelandeses várias vezes apenas com as exportações”, disse um dos autores do estudo, o professor Nick Wilson, da Universidade de Otago, Wellington.

O motivo da Nova Zelândia não ultrapassar a vizinha Austrália na tabela é a dependência do país da importação de diesel, pesticidas e máquinas necessárias para sustentar seu setor agrícola. Uma paralisação no sistema de comércio global levaria o país a um colapso social.

O estudo ainda destaca que China, Rússia e Estados Unidos teriam problemas nesse contexto hipotético e poderiam ver a produção de alimentos cair até 97%. Esses países dependeriam do desenvolvimento de novas tecnologias para a produção de alimentos.

domingo, 16 de abril de 2023

Boaventura: Em nome dos nossos valores, não!


Sobre o Me Too fui expondo esperanças num movimento emancipatório e receios pelos riscos para o direito à defesa e à presunção de inocência. “A vítima tem sempre razão” é um argumento que nunca me conquistou porque não pode conquistar quem acredite no Estado de Direito. O estatuto de vítima não é prévio. Uma portuguesa, uma belga e uma norte-americana, que têm em comum a passagem pelo CES de Coimbra, publicaram um artigo em que, não identificando a instituição ou os alegados assediadores, tornaram facílimo lá chegar. Levantam-se dúvidas quanto ao “anonimato frágil” que permitiu identificar sem consequências, à mistura de casos vividos pelas próprias com a reprodução de “rede de murmúrios”, a pouca clareza da natureza dos vários assédios e abusos ou tudo isto ser feito a coberto de um artigo académico. Mas é impossível ignorar. 
A Academia é um espaço propenso ao abuso de poder. Por ser fortemente hierarquizada, pelo domínio intelectual e funcional do “mestre”, pela crescente precariedade e porque a fratura geracional e de poder tende a coincidir com a de género. O CES já anunciou uma comissão independente. Sabem que os efeitos de uma reação menos do que exemplar não serão os que se sentiram perante o comportamento vergonhoso da FDUL. A cultura é outra, é outra a exigência e serão outras as consequências. A inclinação política do Boaventura Sousa Santos e do CES tornou este episódio interessante, mesmo para os que têm mostrado desprezo pelo Me Too. É inevitável. Também somos julgados pela incoerência. É um dos elementos centrais do artigo: “o fosso entre a teoria e a prática”. Mas só escrevo sobre o tema por causa da utilização que BBS fez, na resposta ao DN, das suas convicções políticas para se defender de acusações que não são políticas. Não resiste a desacreditar uma das autoras. Socorrendo-me da sua linguagem, sabe bem a "linha abissal" que o separa daquela que, como subalterna, chama “insolente”. 
Depois, tenta puxar a esquerda para o seu lado: “O objetivo é lançar lama sobre quem se distingue e luta por um mundo melhor. O neoliberalismo está a roubar a alma da solidariedade e da coesão social e criar subjetividades que canalizam os seus ressentimentos para acusações de que sabem não poder haver contraditório eficaz.” Apesar das suspeitas sobre ele parecerem mais generalizadas do que este artigo, BSS é tão inocente como qualquer outro e assim tenho tratado todos os casos (incluindo os padres suspeitos de abusos, que apenas têm de ser suspensos por causa da idade das suas potenciais vítimas). Já vi alguns inocentes serem crucificados e, no fim, ninguém lhes pedir desculpa. 
Mas a defesa de Boaventura é de Boaventura. Só sua. Se usa as causas da esquerda e o neoliberalismo para se defender de uma acusação de abuso, faz dos que estão nestes combates seus reféns. E aí, desculpem-me, tenho de dizer: em nosso nome, não! Pelo menos não em meu nome. Até porque não há qualquer indício de uma motivação política para a acusação que lhe é feita. Se existe, é em sentido inverso: a vontade de construir um pensamento verdadeiramente “pós-abissal”.

Saber mais:

De Gaia ao Microcosmos - Ophrydium versatile - Lynn Margulis


À primeira vista, um indivíduo lento e tranquilo deslizando pelo microcosmos. Sob um olhar mais atento, essa espuma de água doce revela ser, na verdade, composta por centenas de "indivíduos" menores. Nessa espécie, cada "organismo individual" é, na verdade, "um pacote de micróbios fechado por membranas que se assemelha e age como um indivíduo" (Lynn Margulis). Ou, nas palavras de Dorion Sagan, "quase um pequeno mundo".[artigo científico original-1995]

Além das algas endossimbiontes em cada zoóide (Chlorella, Grasiella), cada colónia de Ophrydium abriga um grande número de outros organismos comensais, um verdadeiro ecossistema em miniatura. O gel no interior das esferas abriga uma grande quantidade de algas diátomas, como Cymbella e Nitzchia. Em especial, esta última espécie parece ser importante, acredita-se que seja o principal organismo produtor da substância gelatinosa que preenche a cavidade. Também há bactérias, outros protozoários, outras espécies de algas, cianobactérias, espiroquetas, além de rotíferos, vermes (nematoides, platelmintas), crustáceos (cladóceros e copépodos), um verdadeiro zoológico microscópico.

Lynn Margulis adorava observar o dia a dia dos nossos companheiros não humanos. No final dos anos 90, junto com colegas, como Lorraine Olendzenski e Lois Byrnes, alunos da Universidade de Massachusetts e o seu filho, Dorion Sagan, a microbióloga gravou uma série de vídeos sobre a vida no microcosmos. Esses vídeos são pioneiros ao mostrar intencionalmente em imagens a simbiose e a interdependência da vida. 

sábado, 15 de abril de 2023

Agricultores espanhóis alertam para seca severa e falam em cenário “catastrófico”


O setor agropecuário de vários pontos de Espanha manifestou esta sexta-feira o receio pelos efeitos da seca no abastecimento de água em geral, alertando para uma situação “dramática” e propondo 50 medidas urgentes para lidar com o cenário “catastrófico”.

Depois de um mês de março sem chuva e de um início de abril seco e sem perspetivas de chuva para os próximos dias, a seca continua a avançar, principalmente em grandes áreas do norte, nordeste e na Andaluzia, noticiou a agência Efe.

Esta seca persistente colocou o setor agrícola da Catalunha em perigo, o que exige que o mecanismo de ajuda seja colocado em funcionamento perante uma situação que qualificam de “dramática”.

Nesse sentido, a União dos Sindicatos de Agricultores e Pecuaristas (UdU) apresentou esta sexta-feira, em Madrid, ao Governo central, um conjunto de 50 medidas urgentes para enfrentar a situação “catastrófica”.

Até 70% das colheitas de inverno podem ser perdidas em certas áreas se continuar sem chuva, estimou a organização agrícola, que solicitou um regulamento que contemple as suas propostas e seja ativado automaticamente com base em certos indicadores.

A UdU também quer, entre outras medidas fiscais devido à situação, que sejam ativados os mecanismos de reserva de crise e declaradas zonas de emergência de proteção civil para todos os afetados pela seca, ao mesmo tempo em que exorta o Governo e as comunidades a apresentarem “medidas concretas e imediatas” na reunião do Comité Nacional da Seca na próxima quarta-feira.

Segundo os seus dados, Andaluzia, Estremadura, Catalunha e Comunidade Valenciana são as regiões mais afetadas pela seca hídrica e meteorológica.

A expectativa é que mais de 40.000 dos 50.000 hectares de cultivo de algodão não tenham possibilidade de irrigação, o que compromete 70% da receita dessas quintas.

Na Estremadura, quase toda a colheita de cereais de inverno foi danificada e mais de 16.000 hectares de milho e 6.000 hectares de arroz ficarão sem plantar devido à falta de abastecimento de água.

A colheita de frutas de caroço na província de Lleida (Catalunha) pode ser comprometida, enquanto 70% da produção de inverno em Castilla y León pode ser perdida se não chover.

As vinhas, os olivais e os cereais de Castilla-La Mancha também sofrem com a seca, assim como os cereais de inverno da Comunidade Valenciana, com perdas possíveis de 35%, segundo a UDU.

Além disso, os agricultores de sequeiro olham para 2024 com medo depois de uma colheita que no sul da Comunidade Valenciana é “desastrosa” devido à seca, com perdas que ultrapassam 90 e 95% dos hectares, e se a chuva não chegar , algumas culturas como a amendoeira terão de ser replantadas.

Os diferentes tipos de cereais que se cultivam no norte da província de Alicante e as amendoeiras e alfarrobeiras de Vega Baja são as principais culturas que se deterioraram.

Na Catalunha, o presidente da organização Jovens Agricultores e Pecuaristas da Catalunha (AJEC), Joan Carles Massot, garantiu à Efe que “foi pedido há um mês à Generalitat [governo regional] que prepare as medidas compensatórias”.

“Porque se não chover estamos perdidos”, alertou.

A Comunidade Geral de Irrigantes do Canal de Urgell (CGRCU) já decidiu solicitar à Generalitat e ao Governo a declaração de área catastrófica devido à “situação dramática, excecional e persistente” de falta de água, a fim de permitir a cobrar indemnização dos irrigantes.

O coordenador das regiões serranas da Unió de Pagesos, Joan Guitart, também já alertou, em declarações à Efe, para a situação em que se encontram as regiões serranas.

“Se não chover em 15 dias, o gado que vai para esses pastos não vai”, indicou.

Muitos produtores de leite podem ser obrigados a abater os animais por não poderem alimentá-los, alertou este sindicato.