Chegou aquela altura do ano em que os jardineiros de mão cheia e os mais atrevidos deixam de lado as inibições (e as roupas) para celebrar o Dia Mundial da Jardinagem Nua .
Não, os seus olhos não o estão a enganar: o primeiro sábado de maio é o dia em que podemos finalmente deixar os nossos arbustos respirar e as nossas moitas florescer como o Universo planeou. Mas afinal, o que é este feriado e como celebrá-lo sem, inadvertidamente, atrair uma turba de vizinhos com forquilhas à sua porta enquanto está (literalmente) a sujar-se?
Provavelmente tem um milhão de perguntas na cabeça, e nós adoraríamos responder a cada uma delas. Por isso, passe protetor solar nas bochechas e vamos começar!
O que é o Dia Mundial da Jardinagem Nua?
O Dia Mundial da Jardinagem Nua (World Naked Gardening Day - WNGD) é relativamente autoexplicativo. É um dia que incentiva jardineiros e não jardineiros a praticarem jardinagem nus .
O Dia da Jardinagem Nu é um evento anual que se realiza no primeiro sábado de maio. A ideia por trás dele é celebrar a beleza da natureza e do corpo humano em toda a sua glória e promover um estilo de vida mais saudável e ecológico.
E nós compreendemos – há algo de libertador em sentir o sol e a brisa na pele nua enquanto se cuida do jardim.
Como começou o Dia Mundial da Jardinagem Nu?
As origens do Dia da Jardinagem Nua são tão nuas como os jardineiros que participam na celebração. Tudo começou em 2005, quando uma editora e uma permacultora (que dupla!) fundaram e organizaram um movimento de incentivo à aceitação do próprio corpo e ao amor-próprio incondicional.
Mark Storey e Jacob Gabriel começaram a praticar jardinagem de guerrilha (sim, também existe) e concretizaram a sua visão de criar um fenómeno que promovesse os benefícios da jardinagem sem roupa. A ideia espalhou-se rapidamente pelo mundo. O primeiro WNGD anual teve lugar a 10 de Setembro de 2005 , mas em 2007 a data foi transferida para o primeiro sábado de Maio devido a condições meteorológicas mais favoráveis.
Desde então, os fundadores não fizeram grandes contribuições para o movimento, mas o WNGD rapidamente ganhou vida própria. Atualmente é um projeto colaborativo da Naturist Education Foundation, Inc.
Segundo os seus fundadores, o principal objetivo do dia é ser uma iniciativa leve, divertida e totalmente apolítica para promover a aceitação integral do corpo humano. E de facto é!
Como se comemora o Dia da Jardinagem Nu?
Uma celebração fora do comum requer um planeamento prévio, uma vez que as possibilidades são praticamente infinitas. Se está a pensar participar nas festividades, aqui ficam algumas ideias para animar o seu sábado:
Jardim Nú
Primeiro, o nome diz tudo: jardinagem em pele de cordeiro! Este dia é para nos conectarmos com a natureza e nos sentirmos livres na própria pele. Assim, não precisa de ir mais longe do que simplesmente tirar a roupa e deixar o seu corpo respirar enquanto cuida das suas plantas.
Embora possa parecer estranho no início (e alguns insetos possam incomodar-se com as suas nádegas nuas), depressa se habituará. Quem sabe, poderá descobrir que é uma das experiências mais libertadoras da sua vida!
Tire fotos ousadas
A melhor forma de celebrar a ocasião é tirar algumas fotografias divertidas no jardim. Afinal, quando mais terá a hipótese de fazer uma sessão fotográfica sem roupa enquanto cuida do jardim? Tire algumas fotografias suas a divertir-se e pense em formas criativas de cobrir as suas partes íntimas. As folhas e outros tipos de folhagem já são coisa do passado – ouse e capriche!
Se se sentir à vontade para mostrar tudo, aceda à hashtag #worldnakedgardeningday e participe na brincadeira. E se não quiser que outras pessoas vejam as suas fotografias, guarde-as e recorde este dia daqui a uns anos. Tenha apenas cuidado para não as enviar acidentalmente para a sua avó.
Faça disto um dia especial.
O Dia Mundial da Jardinagem Nu não é apenas uma oportunidade fantástica para se conectar com a natureza, mas também uma atividade memorável para fazer a dois. Como estarão a trabalhar em prol de um objetivo comum, a conquista partilhada e o absurdo de jardinar nus fortalecerão a relação.
Mas fazer jardinagem com um parceiro exige boas capacidades de comunicação, bem como a capacidade de trabalhar em equipa e interpretar a linguagem corporal de cada um (esta última pode não ser assim tão difícil quando se está nu). Então, está pronto para um encontro único este sábado?
Concentre-se em tarefas simples.
Podar e aparar todos os arbustos e árvores à vista pode ser tentador no Dia da Jardinagem Nua. Mas, sejamos honestos, é melhor evitar fazê-lo sem roupa, pois não é o momento mais apropriado para se deixar levar pela insegurança. Em vez disso, a melhor opção seria cingir-se a tarefas simples, como regar e sachar, e evitar qualquer situação com picos.
Embora jardinar nu possa ser libertador, é importante manter o equilíbrio. E se mesmo assim decidir enfrentar tarefas mais intensas, lembre-se de proteger os seus bens mais preciosos!
Divirta-se!
Por último, mas não menos importante, não se esqueça de se divertir! O Dia da Jardinagem Nu é para se soltar e apreciar a beleza da natureza em toda a sua glória (e em toda a sua glória). Não se leve tão a sério e delicie-se com a alegria de se sujar um pouco. Não é todos os dias que pode abraçar o seu jardineiro e exibicionista interior ao mesmo tempo, por isso não tenha vergonha.
Quer ver quanto tempo consegue equilibrar um regador meio cheio na cabeça? Vá em frente (e mostre-nos o resultado)! Que tal fazer uma dança interpretativa para o seu parceiro(a) no meio das flores? Parece incrível! Seja o que for, seja ousado(a), seja corajoso(a), seja intrépido(a) e faça!
O que não fazer no dia da jardinagem nu
O Dia Mundial do Nu pode ser um feriado descontraído que não se leva demasiado a sério, mas isso não significa que não deva tomar algumas precauções quando sai nu para o seu quintal.
Eis o que não deve fazer este sábado:
Deixe o protetor solar e o chapéu de lado: sabemos que quer sentir o sol no rabo, mas as bochechas queimadas pelo sol não são nada bonitas. Assim, aplique bastante protetor solar e coloque um chapéu para proteger as suas partes íntimas e evitar terminar o dia a parecer um tomate maduro.
Trabalhar com ferramentas elétricas: As ferramentas elétricas são sem dúvida incríveis e merecem os elogios que recebem, mas vamos deixá-las para outro dia. Afinal, a última coisa que quer é um acidente quando está fisicamente vulnerável.
Deixe os sapatos de lado: a Mãe Terra pode ser espinhosa por vezes, e pisar um espinho perdido pode estragar a sua experiência. Por isso, recomendamos que mantenha os sapatos nos pés quando não estiver familiarizado com o terreno.
Plante plantas espinhosas: adicionar belas roseiras ao seu jardim nu irá ajudá-lo a lembrar-se porque é que os espinhos e a jardinagem sem roupa não combinam bem. Por isso, evite plantas espinhosas até chegar a altura de jardinar com roupa e, por enquanto, opte por flores e arbustos delicados.
Embora a jardinagem nua possa não ser para todos, aqueles que optam por participar podem experimentar a vida sem roupa e desfrutar dos prazeres simples de estar ao ar livre. Certifique-se apenas de seguir a nossa lista de recomendações para uma celebração segura do Dia Mundial da Jardinagem Nua.
The ragged army, fixin' bayonets to fight the other line
Spanish bombs rock the province
I'm hearing music from another time
Spanish bombs on the Costa Brava
I'm flying in on a DC 10 tonight
[refrão]
Oh mi corazón, oh mi corazón
Spanish songs in Andalucia, Mandolina, oh mi corazón
Spanish songs in Granada, oh mi corazón
Oh mi corazón, oh mi corazón
Oh mi corazón, oh mi corazón
Lançada em 1979 no aclamado álbum duplo London Calling, "Spanish Bombs" é uma das composições mais ricas e multifacetadas dos The Clash. A canção, escrita por Joe Strummer e Mick Jones, destaca-se musicalmente por construir um forte contraste entre a sua sonoridade e o seu conteúdo lírico. Estilisticamente posicionada no ponto de transição entre o punk rock inicial da banda e o post-punk com influências de new wave e jangle pop, a faixa combina guitarras melodiosas, um ritmo fluido com nuances de ska e reggae e uma melodia luminosa com uma letra sombria sobre guerra, assassinato e terrorismo. Um dos elementos mais marcantes da dinâmica musical é o refrão cantado num espanhol gramaticalmente imperfeito, fruto da abordagem direta e intencionalmente crua de Strummer ao tentar expressar afeição na língua local sem ter um domínio formal do idioma.
Historicamente, a canção estabelece uma ponte direta entre dois momentos de forte tensão política e social. De um lado, resgata a memória da Guerra Civil Espanhola (1936–1939), o sangrento conflito em que as forças republicanas de esquerda tentaram conter o avanço do fascismo liderado pelo General Francisco Franco. Do outro, reflete o contexto contemporâneo do final dos anos 1970, período em que Strummer viajou pela Andaluzia durante a conturbada transição espanhola para a democracia. Na época, a Espanha lidava com atentados bombistas do grupo separatista basco ETA em zonas turísticas da Costa del Sol, enquanto o Reino Unido vivia a violência do IRA e o surgimento de movimentos radicais.
Neste sentido, o significado de "Spanish Bombs" gira em torno do desencanto político, da perda da inocência revolucionária e da reflexão sobre a violência histórica. A letra confronta a visão romântica do heroísmo das Brigadas Internacionais da década de 1930 com a realidade brutal e cega do terrorismo moderno, questionando como causas ideológicas nobres acabam muitas vezes afogadas em sangue e destruição. Trata-se, sem dúvida, de uma música de intervenção política e social. No entanto, longe de operar como um mero panfleto ideológico, a intervenção da banda faz-se pela via da conscientização histórica, resgatando a memória da luta antifascista num momento em que a Europa vivia uma nova guinada à direita e enfrentava crises de segurança interna.
O impacto cultural da canção foi significativo. "Spanish Bombs" demonstrou a maturidade do movimento punk ao provar que o género podia articular temas geopolíticos e literários complexos sem perder a urgência ou a energia crítica. A música reintroduziu a narrativa da Guerra Civil Espanhola a uma nova geração de jovens nos anos 80 e influenciou profundamente o rock alternativo de cariz político que surgiria nas décadas seguintes, servindo de referência para bandas como os Manic Street Preachers, R.E.M. e artistas como Billy Bragg.
Por fim, as inspirações literárias e filosóficas da canção são explícitas e profundas. A figura do poeta e dramaturgo andaluz Federico García Lorca, assassinado por milícias fascistas em 1936, é evocada diretamente nos versos que recordam Granada como o local onde o poeta tombou. Além de Lorca, a obra Homenagem à Catalunha, de George Orwell, surge como uma influência fundamental na representação da complexidade e do romantismo trágico da resistência republicana, onde conviviam fações anarquistas e comunistas. Esse imaginário dialoga também com a literatura de em Por Quem Os Sinos Dobram e com o idealismo do anarquismo e do socialismo libertário, transformando "Spanish Bombs" numa elegia poética sobre a solidariedade internacional e os custos humanos da luta pela liberdade.
Leis de emergência que perduram bem após o fim da emergência, vigilância acrescida e populações localizadas, identificadas e, até, diagnosticadas, por smartphones. A pandemia, segundo Edward Snowden.
Leis de emergência e de limitação às liberdades que têm o teimoso hábito de perdurar bem depois de a emergência desaparecer, cidadãos que aceitam cada vez mais uma vigilância acrescida a troco de uma pretensa sensação de segurança e, até, populações inteiras geo-localizadas, identificadas e diagnosticadas pelos smartphones que trazem no bolso e, quase sempre, nas mãos. Edward Snowden, famoso denunciante das técnicas de vigilância estatal da norte-americana NSA, traça um quadro negro sobre aquilo que uma pandemia como a Covid-19 pode significar para as liberdades individuais e para a democracia. E lança um alerta: muitos governos vão – ou, melhor, já estão a – aproveitar esta pandemia para avançar na “arquitetura da opressão”.
Numa longa entrevista à Vice, Snowden insurge-se contra a perceção que existe de que esta era uma pandemia imprevisível que apanhou o mundo completamente desprevenido. “Não há nada mais previsível do que uma crise de saúde pública num mundo em que vivemos uns em cima dos outros em cidades populosas e poluídas“, diz Snowden, acrescentando que “qualquer académico, qualquer investigador que tenha olhado para isto sabia que algo assim acabaria por vir. Aliás, até mesmo as agências secretas governamentais – e eu posso garantir-vos isso, por experiência própria – leram vários relatórios a antecipar um acontecimento como uma pandemia”.
Nesta fase, poucas pessoas estão a falar sobre o mundo pós-Covid-19, porque “estamos todos com medo” do contágio. Mas Snowden, na linha das posições que tem assumido nos últimos anos, depois de se ter identificado como o autor de várias fugas de informação sensível, avisa que as pessoas têm, ao mesmo tempo, de estar conscientes daquilo que está a ser feito por vários governos, dos mais assumidamente autoritários até… aos outros.
À medida que o autoritarismo se alastra, que as leis de emergência proliferam, à medida que nós sacrificamos os nossos direitos também estamos a sacrificar a nossa capacidade para deter o avanço no sentido de um mundo menos liberal e menos livre”, lembra Snowden.
O denunciante, que estará a viver na Rússia desde que decidiu voar para o país em 2013 em busca de asilo, alerta para o que diz ser a enormidade de dados e informações que estão a ser recolhidos pelos governos, em parceria com as empresas tecnológicas e de telecomunicações, e que vão continuar a ser recolhidos depois de a pandemia ter solução.
“Acreditam mesmo que depois da primeira onda [da pandemia], da segunda onda, da 16ª onda, quando o coronavírus já for uma memória distante, que essas capacidades [de geolocalização, por exemplo] não vão ser mantidas? Que essas bases de dados vão ser eliminadas? Não importa como é que estas técnicas e estes dados estão a ser utilizados agora – o que está a ser construído é a arquitetura da opressão“.
Entrevistado por videoconferência, pela Vice, Edward Snowden critica que os governos, designadamente o norte-americano, tenha gasto “tanto dinheiro para vigiar os cidadãos” e não tenha investido “em tecnologia que pode salvar vidas” num contexto de uma crise sanitária como esta, como ventiladores, por exemplo.
Snowden foi confrontado com exemplos de sistemas de geolocalização que estão a ser usados em alguns países, como a Coreia do Sul ou Taiwan, além da China, para alertar as pessoas de que poderão ter estado perto de um infetado. E respondeu que mesmo em “países que não são autocráticos vai haver uma segunda vaga de infeções, uma terceira vaga, uma quarta vaga” e “as pessoas estão tão cheias de medo e tão preocupadas com o amanhã que deixaram de pensar em como é que será esse amanhã, tendo em conta as decisões que tomamos hoje”.
Não é só na Coreia do Sul, China e Taiwan que estão a usar-se tecnologias que Snowden teme que podem ser perigosas para a liberdade individual – “nalguns países europeus e, claro, nos EUA já começou a monitorização dos movimentos dos cidadãos, através do movimento dos seus smartphones”.
Eles dizem que é para análise dos contactos pessoais [no âmbito da pandemia] – para saber com quem é que esteve alguém que teve infeção confirmada – e isso, à superfície, parece ser uma boa ideia. Mas este tipo de monitorização não funciona quando estamos perante a escala de uma pandemia.”
As pessoas não têm consciência, diz Snowden, das várias formas como os seus smartphones estão a obter informação sobre elas – e nem é preciso terem programas ou apps maliciosas instaladas: “basta estarem ligados”. Seja por via das antenas de comunições e internet móvel seja, até, pelas redes wifi que, a cada momento, conseguem “ouvir” nas suas proximidades, mesmo sem estar ligado a elas, é muito fácil ter acesso à localização das pessoas.
Quem tem estes dados? “As companhias de telecomunicações têm, o Facebook provavelmente tem, a Apple provavelmente tem, a Google provavelmente tem. E muitas outras empresas das quais nunca ouviu falar”, diz Snowden. E é um mito dizer que é possível “anonimizar” estas informações, como alguns estados ou até empresas têm defendido, garante o denunciante da NSA.
“Temos de conseguir garantir que estão a ser ativados alguns travões na pandemia, mas não na nossa sociedade“, defende Edward Snowden. “Quando penso sobre o futuro, quando qualquer um de nós pensa sobre a direção que isto está a tomar, temos de pensar sobre de onde é que viemos. E sabemos que, infelizmente, muitos destes poderes de emergência, que surgiram em crises, têm uma enorme história de serem, depois, abusados – o mais curioso é que, depois, a emergência nunca mais acaba”.
Do que fala Snowden em concreto, quando fala em medidas que depois se “normalizam”? De medidas como as escutas telefónicas sem mandado judicial, aprovadas na administração de George W. Bush, que “só parcialmente foram eliminadas”. Planos como o Patriot Act, no pós 11 de setembro, que, segundo Snowden, eliminaram liberdades individuais que ainda hoje não foram recuperadas.
Será que estas capacidades de monitorização, um dia, não serão aproveitadas no pós-pandemia para “pequena criminalidade”, pergunta Snowden. Quanto demorará a serem aplicadas em análise política? Quanto demorará a ser utilizadas, por exemplo, para fazer censos à população? Para sondagens políticas?
“Você até pode ter confiança nas pessoas que têm estes dados em seu poder, mas um dia alguém irá abusar destes dados“. Basta olhar para a China, onde se acredita já existirem “campos de internamento” para pessoas que não estão alinhadas com o regime. “Se estas práticas não forem detidas, vamos vê-las na Rússia, no Irão, e depois na Hungria, na Polónia, por várias partes da Europa e, também, nos EUA. Vão estar em todo o lado”, avisa Snowden.
“Temos de nos lembrar que este vírus vai passar. Mas as decisões que tomarmos nesta atmosfera vão perdurar. E nós vamos ter de viver com elas, os nossos filhos vão ter de viver com elas”, alerta o denunciante norte-americano, avisando que “estes sistemas, se nós não os alterarmos, um dia eles vão tomar decisões de forma automatizada para determinar quem é que consegue um emprego, quem é que pode ter uma casa. E quem é que não pode ter essas coisas“
Precisamos de ser côncavos para o mistério natural que nos impele à vacuidade silenciosa. Fragmentos obscuros buscam a transparência na novidade da brisa que acaria a luz. O atalho onde estamos pronuncia uma pedra. É ainda a ausência com o celeiro das sombras. Podemos abrigar-nos sob as grandes árvores das redondas colinas. Abundância de murmúrios na delícia do ar. Crescemos lentamente sob as umbrosas ramagens, germinamos na lentidão de um barco. O intacto demora. A casa é sossegada com sua carga de frutos. Nenhuma inquietação no pleno entardecer de uma serena abundância silenciosa. Na oscilante leveza vegetal somos unânimes, côncavos e ardentes.
Um grupo de intelectuais e políticos, entre os quais se incluem, Noam Chomsky, Naomi Klein, Yanis Varoufakis, Fernando Haddad e a primeiro-ministra islandesa, fundaram esta segunda-feira uma nova organização mundial que apela à defesa da democracia, da solidariedade, da igualdade e da sustentabilidade. A base orgânica da nova organização é o Instituto Sanders e o DIEM25.
Segundo adiantam os jornal El Pais, o movimento pró-democracia e pan-europeu DiEM25 e o The Sanders Institute são a base orgânica da nova Internacional Progressista que é lançada esta segunda-feira. Mais de 40 políticos e intelectuais de todos os continentes, Noam Chomsky, Yanis Varoufakis e Fernando Haddad, entre outros, apoiam a iniciativa, que visa promover a união, coordenação e mobilização de activistas, associações, sindicatos, movimentos sociais e partidos em defesa da democracia, da solidariedade, da igualdade e da sustentabilidade.
DiEM25 e o The Sanders Institute, fundado em 2017 por Jane Sanders, esposa do senador democrata Bernie Sander, apelaram à formação de uma frente comum face ao avanço do autoritarismo.
Esta nova internacional foi anunciada antes da pandemia em setembro de 2018, em artigos do senador Bernie Sanders e o antigo ministro das Finanças grego,Yanis Varoufakis, no jornal The Guardian.
Os organizadores argumentam que a crise sanitária e económica resultante da pandemia tornou mais urgente a iniciativa e revelou a necessidade de todos os intervenientes progressistas unirem esforços para defenderem os cuidados de saúde universais, a protecção dos direitos laborais e a cooperação internacional.
A nova organização terá um conselho com mais de 40 membros, incluindo Noam Chomsky e a canadiana Naomi Klein, políticos activos como o parlamentar grego e antigo ministro das Finanças Yanis Varoufakis, a primeira-ministra islandesa, Katrín Jakobsdóttir, a ministra argentina das Mulheres, do Género e da Diversidade, Elizabeth Gómez Alcorta. A estes nomes juntam-se uma série de conhecidos políticos latino-americanos como o ex-presidente equatoriano Rafael Correa e o brasileiro Fernando Haddad, o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) nas eleições de 2018. Outros signatários conhecidos incluem o ex-ministro brasileiro Celso Amorim, o ex-vice-presidente boliviano, Alvaro Garcia Linera, o ator mexicano Gael Garcia Bernal, a escritora Arundhati Roy, o filósofo Srecko Horvat e a alemã Carola Rackete, capitão de navio e símbolo do resgate de migrantes no Mediterrâneo.
O projecto começa esta segunda-feira com o lançamento do website oficial, em que qualquer pessoa ou organização pode inscrever-se para se tornar membro desta internacional progressista.
A organização defende um mundo democrático, igualitário, solidário, ambiental, pacífico, pós-capitalista (economia da partilha e da cooperação), próspero e pluralista.
A plataforma terá um secretariado que será responsável pela organização das actividades diárias, pela assistência aos membros, pela ligação em rede das organizações e pela implementação de acções conjuntas de âmbito global.
Em setembro, se a pandemia o permitir, realizar-se-á um congresso na capital islandesa, Reiquiavique, que será organizado pelo partido de Jakobsdóttir, o Movimento Esquerda-Verde.
A plataforma será financiada exclusivamente por donativos e contribuições dos seus membros. A organização não permite o financiamento - nem a participação - de lobbies, executivos de empresas de combustíveis fósseis, companhias de seguros de saúde, empresas farmacêuticas, multinacionais tecnológicas, bancos , empresas de capital de investimento, hedge funds ou empresas agro-alimentares.
Ainda lúcida, mas já perto da morte pela Covid-19, as últimas palavras escritas foram para os jovens.
«"Espero perdurar por via dos que ficam vivos”. Por mais dolorosa e triste que seja a morte, a vida tal como a conhecemos na Terra é infinita. As novas gerações sucedem-se ciclicamente e cabe sempre a elas a construção do nosso futuro colectivo.
Faz parte de ser jovem estar convencido de que vamos ser capazes de mudar o mundo para melhor.
Eu já não sou cronologicamente jovem, mas continuo a acreditar num cenário optimista para o futuro da humanidade!
É preciso coragem para mudar, sobretudo quando o nosso estilo de vida actual é tão confortável.
No entanto, as evidências científicas são irrefutáveis: a exploração que o homem está a fazer da natureza é insustentável.
Vivemos obcecados pelo crescimento económico, mas não é possível que as economias de todos os países continuem a crescer indefinidamente. Considero fundamental que os jovens de hoje se consciencializem dos inevitáveis riscos a curto prazo e façam ouvir a sua voz, pressionando a sociedade para a mudança.
Acredito que a ciência e a tecnologia vão tornar-se ainda mais essenciais nas nossas vidas. Precisamos de observações e medições rigorosas de tudo o que se passa em todos os locais do planeta para estarmos alerta e sabermos onde actuar. Mas acima de tudo precisamos de novas soluções para viver em harmonia com a Terra, desde novas formas de nos deslocarmos a novas formas de nos alimentarmos e reciclarmos o lixo que produzimos. Novas soluções para um problema não surgem de repente a partir do nada. São necessários anos de intensa investigação científica, e muitos problemas estão ainda por resolver.
Por exemplo, a propósito da actual pandemia, importa lembrar que entre 1918 e 1919 ocorreu um surto de infecção causada por um novo vírus da gripe que matou cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo. Já se usavam máscaras de protecção, desinfectantes e distanciamento social, mas não havia testes de diagnóstico, nem medicamentos, nem ventiladores. A 1ª vacina para a gripe foi desenvolvida em 1940 e aplicada apenas em militares. Só em 1960, após uma pandemia causada por um novo vírus da gripe que entre 1957 e 1958 matou mais de um milhão de pessoas em todo o mundo, iniciaram-se os programas de vacinação para grupos de risco (isto é, pessoas com doenças crónicas ou com mais de 65 anos). Uma vacina confere imunidade contra um tipo específico de vírus. Ora, o vírus da gripe altera com muita frequência a sua informação genética, dando origem a novas formas de vírus que escapam ao efeito da vacina. Esta diversidade genética dá também origem, ocasionalmente, a formas de vírus mais agressivas que causam pandemias. Foi o que voltou a acontecer em 1968, com mais de um milhão de mortes em todo o mundo, e apenas há dez anos, em 2009, causando a morte de cerca de 600 mil pessoas a nível mundial. Porque a capacidade de se reinventar geneticamente é uma característica de todos os vírus, a humanidade sempre esteve e vai continuar a estar sujeita a surtos de infecção por novos vírus. Foi o caso do VIH – vírus da imunodeficiência humana, causador da sida. Esta nova doença começou a ser detectada em 1981 nos EUA e já matou 32 milhões de pessoas no mundo. Em 1994, a sida era, nos EUA, a principal causa de morte de pessoas entre os 25 e os 44 anos. Só em 1995 começaram a ser ensaiados os primeiros medicamentos que viriam a ter um grande sucesso, evitando as mortes e transformando a sida numa doença crónica.
Mais recentemente, em 2003, foram reportados na China os 1ºs casos duma nova doença respiratória denominada SARS, causada por um coronavírus parente do actual SARS-CoV-2. Em plena pandemia, a sociedade pede muito aos cientistas medicamentos e vacinas eficazes.
Que lições tirar para o futuro? Acima de tudo, as novas gerações têm de estar conscientes de que vão ser confrontadas com grandes desafios. A falta de respeito pelos animais selvagens, vítimas de captura e comercialização, favorece a infeção humana por novos vírus (ou outros micro-organismos patogénicos) que poderão causar mortalidades bem mais altas do que a actual pandemia. Muitos modelos ainda praticados na indústria agropecuária incentivam a destruição de florestas, interferem com a qualidade dos solos, são poluidores e favorecem a propagação de epidemias em plantas e animais. Vão certamente ocorrer grandes desastres naturais como fogos, tempestades e terramotos. As alterações climáticas são uma realidade instalada. Vai faltar a água e aumentar a poluição. As sociedades do futuro vão depender da ciência e da tecnologia para lidar com catástrofes. Mas as sociedades de hoje insistem em ignorar os múltiplos alertas dos cientistas para perigos eminentes que ainda podem ser evitados.
Por isso, deixo aqui o meu apelo às novas gerações para acabarem de vez com a ilusão de que vai ser possível continuar a viver com os hábitos de hoje e a fazer os negócios do costume. O meu outro apelo é para valorizarem e cultivarem a ciência. Todos os jovens, independentemente das suas profissões futuras, devem ser treinados a aplicar o método científico nos problemas com que se deparam no dia-a-dia. Rigor na observação, raciocínio lógico nas deduções, conclusões baseadas em experimentação. Em paralelo, as profissões ligadas à ciência têm de ser atractivas e apetecíveis. Tal implica organização, infraestrutura e recursos em permanente actualização.
Finalmente, um alerta: todas as áreas do saber são igualmente importantes. Os avanços tecnológicos mais transformativos resultaram de descobertas que podiam, à primeira vista, parecer irrelevantes. Para o avanço da ciência não há temas de investigação inúteis, desde que as perguntas sejam bem formuladas.
E a ciência não pode deixar de avançar, sob pena de não sermos capazes de resolver os imensos desafios com que nos vamos deparar!»
1. Metabolismo e pandemia. Num livro de 2005 intitulado The Monster at our Door, o escritor e ativista norte-americano Mike Davis anteviu com notável presciência o cenário de pandemia que estamos atualmente a viver, da impreparação dos sistemas de saúde à rapidez com que alastraria pelo globo. Não acertou no microorganismo (trata-se de um coronavírus e não de uma estirpe do vírus da gripe), mas acertou, entre muitas outras coisas, na possível origem geográfica. Essa previsão assentava na constatação das transformações ecológicas em curso em certas regiões da China contemporânea, caracterizadas pela concentração em grande proximidade de muitos milhões de seres humanos e muitos milhões de outros animais em instalações de pecuária industrial e nos chamados ‘mercados vivos’, criando condições favoráveis para que os vírus se recombinem e saltem a barreira das espécies com mais frequência.
Todos os principais surtos com potencial pandémico com que nos temos confrontado nas últimas décadas, do HIV ao ébola às várias estirpes da gripe e síndromes respiratórios agudos, têm sido em zoonoses – doenças que saltam de outras espécies para os seres humanos. E em praticamente todos eles é possível identificar algum tipo de nexo causal entre a ocorrência da pandemia e perturbações do equilíbrio ecológico com origem humana: projetos de rizicultura na Índia colonial britânica na origem das epidemias de cólera que viriam a vitimar dezenas de milhões de pessoas nos últimos dois séculos; a penetração colonial da floresta equatorial africana na origem do salto do HIV para a espécie humana; a destruição acelerada de habitats florestais em vários partes do continente africano nas últimas décadas na origem da cada vez maior frequência de surtos de ébola e outras febres hemorrágicas[2]. As pandemias não são um castigo divino nem são provocadas pelo 5G, mas são propiciadas diretamente pela ação humana sobre o ambiente, da desflorestação à produção animal intensiva.
(Excerto de um texto que escrevi para o site da Greve Climática Estudantil. O resto pode ser lido aqui.)
Urbes menos densas e com mais espaços públicos, vivências mais restritas e amedrontadas, menos turismo e mais policiamento? Que mudança haverá nas cidades pós-Covid-19? Algumas possibilidades, em tempos de incerteza, pela voz de académicos de Geografia, História, Sociologia e Filosofia
São perguntas de um milhão de euros.” Virgílio Borges Pereira, sociólogo da Universidade do Porto, inicia a conversa com um preâmbulo de incerteza, confrontado com questões em catadupa sobre o futuro das grandes cidades e dos seus moradores depois de o surto do novo coronavírus esmorecer. Em tempos inéditos, podem seguir-se “pistas” e falar de “possibilidades”, mas sem esquecer os infindos “ses” em cima da mesa: o futuro dependerá, entre muitas outras coisas, da duração da pandemia, da sua mortalidade, da união das comunidades, das descobertas científicas, da resposta do Estado e da União Europeia. A fronteira entre tempos, essa, talvez não se apague. Pelo menos não a curto prazo. “Isto vai deixar marcas, quer do ponto de vista de organização humana, quer do ponto de vista de organização do espaço”, acredita o geógrafo Jorge Ricardo Pinto.
Se as cidades são as pessoas, “em comunidade e em proximidade física e sentimental”, aponta o académico, então são as urbes quem está “em risco” quando a ordem é para manter distanciamento. Não um risco de extinção, mas de mudança. O futuro, arroga Rio Fernandes, não deverá constituir-se sem territórios urbanos – geografia onde habita mais de metade da humanidade. “Mas todas as grandes crises foram momentos de repensar as cidades e de se fazerem cidades diferentes. Creio que será de novo assim”, opina o geógrafo.
“Os problemas de saúde pública fizeram repensar a cidade porque as doenças atingiam tanto os pobres como os ricos.” A afirmação é de Richard Sennett, no livro Construir e Habitar, e aponta a origem do urbanismo moderno em Barcelona. Mas podia aplicar-se a Portugal. Rio Fernandes recorda como a peste bubónica, em 1899, conduziu o Porto a uma “política de habitação e de erradicação das ilhas, à “abertura dos mercados do Anjo e do Bolhão, ao encanamento de ribeiros, ao fim de boa parte das vendas nas ruas e à abertura de artérias mais largas”. O “movimento higienista” teve, pois, “intenções sociais”, mas também uma enorme preocupação com a “saúde pública global e colectiva”.
FotoNUNO FERREIRA SANTOS
Mas, nas cidades do século XXI, haverá tanto para mudar? As “possibilidades” – palavra reforçada uma e outra vez pelo geógrafo Rio Fernandes – são várias. Esta crise poderá, desde logo, “inverter um pouco a lógica de alta densidade em favor das médias e até baixas”, aponta o docente da Universidade do Porto. E isto significará, ao mesmo tempo, uma “maior valorização do espaço verde” e um reforço da “presença rural” nas urbes.
Solidariedade ou desconfiança?
O presente, sublinha Virgílio Borges Pereira, decorre já com uma maior “vinculação ao espaço de residência”, uma realidade que ia esmorecendo, apesar de, já antes da pandemia, alguns movimentos colocarem em causa os actuais modelos de progresso, pedindo novas cidades e outras formas de vivência. “Ao confinar as pessoas ao espaço doméstico, esta crise está a obrigar à descoberta de quem vive ao nosso lado”, afirma o sociólogo. E esse “aguçar do engenho” perante o desconhecido, capaz de estreitar relações entre quem vivia próximo mas não se olhava, manter-se-á? “A minha expectativa é que possa ficar e não seja apenas um fenómeno passageiro”, deseja o sociólogo.
Essa solidariedade acrescida em tempos de pandemia é uma das questões fortes do debate filosófico do momento. Paula Cristina Pereira, professora no departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, tem visto com agrado essa multiplicação de fraternidade. Mas recorda o outro lado da moeda: “Face à insegurança, a um rosto escondido pela máscara, ao confinamento ou medo do contágio, houve uma radicalização do outro como estranho e como perigo”, aponta. E essa alteração pode configurar “um risco para as relações sociais, face ao estrangeiro ou migrante e levar ao reacender de questões sociais entre etnias, seja pelo racismo, xenofobia ou outras formas.”
FotoMANUEL ROBERTO
A quem planeia as cidades e pensa o seu urbanismo caberá a responsabilidade de contrariar temores e promover contactos. Palavra a Rio Fernandes: “Seria importante pensar, mais do que em soluções técnicas ou volume de construção, em unidades de vizinhança” – em que espaços verdes podem as pessoas encontrar-se, que equipamentos existem, quão largos são os passeios? “Valorizar as cidades cosmopolitas, mas ao mesmo tempo a cidade com aldeias dentro.” No fundo, explica, resgatar o pensamento de Ebenezer Howard, urbanista do movimento utópico, defensor da junção entre cidade e campo num só espaço: “a cidade-jardim”.
Face à insegurança, a um rosto escondido pela máscara, ao confinamento ou medo do contágio, houve uma radicalização do outro como estranho e como perigoPaula Cristina Pereira, docente de Filosofia na Universidade do Porto
Muitas das questões agora debatidas estavam já debaixo de holofotes, mas reavivam-se em tempos de pandemia. Uma delas, aponta Paula Cristina Pereira, é a do direito à cidade – a “afirmação da diferença e integração do todo social, o habitar com as dimensões de individualização, de socialização, de liberdade e efectiva participação” estão, de momento, em suspenso. E o que pode provocar essa interrupção? “Pode dar origem a sentimentos de insatisfação, porque temos de pensar como vamos viver de novo a cidade, como vamos gerir os muitos sentimentos de privação do direito à cidade. Não vai ser fácil gerir”, antecipa a investigadora.
Turismo: eis o problema a nu
Habituado a estudar situações de crise, Virgílio Borges Pereira lamenta o frequente esquecimento do passado. “Um dos nossos problemas enquanto sociedade é não sabermos colocar as questões em perspectiva.” Em momentos destes, “os problemas ficam expostos”, diz: “Ei-lo agora, o turismo.” A afirmação do sociólogo era já o seu pensamento no mundo pré-Covid-19: “É importante que as cidades sejam diversas e não dependam apenas de um sector”. A “prova” está entre nós. “De repente, até descobrimos que tínhamos uma indústria capaz de responder a alguns problemas. Era preciso chegar até aqui?”
FotoPAULO PIMENTA
Para Rio Fernandes, os “efeitos colaterais” dos “excessos” ficam agora a nu: “Houve algumas zonas de Lisboa e do Porto que se tornaram monofuncionais, zonas para dormidas turísticas, para comer e beber”. E agora, “desaparecidos os turistas e fechados os restaurantes”, lamenta, “está em perigo o próprio coração das cidades”.
Como se poderá reinventar esse turismo é uma das grandes incógnitas para o geógrafo Jorge Ricardo Pinto, docente no Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo. Por um lado, aponta, a valorização “do momento e da experiência”, empurrada pela “certeza de que tudo é incerto”, pode incentivar a viagem. Por outro, existe a “ameaça”: “A viagem como um perigo, a deslocação como um custo para o ambiente, já para não falar num ameaçador policiamento individual que esta pandemia está a permitir, passo a passo.”
A “hegemonia tecnológica”, já existente e agora acirrada, aponta Paula Cristina Pereira, pode ter uma palavra a dizer no problema levantado por Jorge Ricardo Pinto. Se as tecnologias podem ser “fantásticas” - e são hoje a ponte possível entre vidas confinadas a quatro paredes - elas também comportam “riscos muito claros para o exercício da cidadania”.
A pandemia pode “radicalizar” o desenho de cidade e pretender esboçar “safe cities, cada vez mais monitorizadas”, como já acontece em alguns países europeus e também na China e nos EUA. “Neste momento, em nome da segurança e saúde, e com a nossa autorização, todas as actividades podem ser vigiadas”, afirma. Num momento em que se espera “uma uniformização dos nossos comportamentos”, o “risco” de isso perdurar para lá da pandemia é real. “Será que a democracia se pode compadecer com isto durante muito tempo e pode dizer ‘desculpe por esta interrupção, voltamos dentro de momentos’?”
FotoADRIANO MIRANDA
Por agora, o futuro é, ainda mais, um lugar incerto. E nem olhar o passado nos pode dar grande conforto. O historiador José Manuel Sobral diz ser impossível, “à luz da pandemia de 1918”, estabelecer “paralelo” com 2020. Um século de diferença fundou um outro mundo com uma “sociedade de informação” forte – e só isso mudou tudo. Em 1918, aponta, o jornalismo era censurado, a maioria da população era iletrada, as pessoas estavam mais isoladas. “Se acontecia alguém estar a chorar em frente a um hospital, essa pessoa era literalmente invisível. Isso hoje não existe.”
O historiador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa sublinha a falácia possível na análise do Portugal no pós-pandemia em confronto com o país de há um século: era um território com feridas da gripe pneumónica, mas também com marcas “da agitação daqueles tempos”, num “cenário de guerra total” – e ninguém pode distinguir o que se deve a um e a outro factor.
José Manuel Sobral tem uma certeza: “Se alguma coisa ficou da pandemia [de 1918] é que ela foi esquecida. Lembramo-nos dela agora por causa deste vírus”, aponta um dos autores do livro cujo nome é revelador desta reflexão A Pandemia Esquecida: Olhares Comparados sobre a Pneumónica (1918-1919). Esse estudo sobre lembrança e esquecimento interessa-lhe particularmente: “Como é que certas coisas ficam na memória colectiva ou das disciplinas e outros acontecimentos tão traumáticos, como a epidemia de 1918, ficam apenas na memoria individual ou familiar?”
Campo, teletrabalho e capitalismo
O geógrafo Rio Fernandes acredita que algo ficará desta vez. Pelo menos durante uns bons anos. Os dias de confinamento forçado, antecipa, serão bússola em algumas opções futuras. “Na altura de escolher casa, nós e os nossos filhos vamos preferir lugares com jardins, avenidas com árvores, sítios com hortas.” Nessa lógica, “as cidades muito densas e especuladoras podem sofrer”, diz: “A curto prazo com a diminuição do turismo, a médio com a diminuição da procura dos locais.” Talvez, no futuro, “se esteja muito bem em Lousada, em São João da Madeira…”
O teletrabalho, hoje em teste real, pode acelerar essa opção: se estar perto do local de trabalho não for fundamental, viver em cidades mais pequenas e afastadas dos maiores centros urbanos torna-se mais viável. A adaptação da economia será rápida, prevê Jorge Ricardo Pinto, e o teletrabalho “vai impor-se”, com o mercado a “agarrar nas melhores oportunidades para baixar custos e impor o modelo”. O combate à poluição, aos combustíveis fósseis, aos movimentos pendulares e à hora de ponta, benefícios para as cidades, pode ser ao mesmo tempo uma “máscara para a redução dos custos das grandes empresas”.
Paula Cristina Pereira apraz-se com a colaboração dos portugueses na mudança comportamentos em tempos de pandemia: cumprir distâncias de segurança, usar máscara, lavar as mãos. Mas lamenta a ausência de um outro debate: “Muito pouca gente fala dos verdadeiros comportamentos que podem mudar o nosso modo de vida e evitar outras situações destas”. Tal passaria, por exemplo, por “modos mais cooperativos e colaborativos de pensar, produzir e consumir”. Mas essa é uma conversa mais intrincada. Porquê? “Não é o vírus que coloca em causa o capitalismo, mas seria essa transformação do modo de vida que ameaçaria verdadeiramente o modelo capitalista como o conhecemos.”
A chamada “economia pós-escassez” é um cenário hipotético da teoria económica em que há abundância de recursos a serem produzidos por uma quantidade mínima de mão-de-obra humana, o que possibilita a sua comercialização a preços baixos ou, em última instância, a disponibilização gratuita.
Esta situação especulativa teve os seus primeiros esboços feitos por Karl Marx, num trecho do seu livro “Grundrisse” (1858) intitulado “Fragmento sobre as Máquinas”, no qual fala sobre a transição para uma sociedade pós-capitalista na qual os avanços na automação possibilitariam este cenário de redução de trabalho humano, abundância de recursos e maior tempo livre para o lazer e para os estudos.
Este discurso talvez não pareça novidade àqueles que vêm acompanhando conteúdos produzidos por futuristas como o americano Peter Diamandis, um dos fundadores da Singularity University. Coautor do livro “Abundância”, Diamandis afirma que a humanidade está a entrar num período de transformação radical, no qual a tecnologia carrega o potencial de elevar os padrões de vida básicos de todas as pessoas no planeta. Eles defendem que essa cena aconteceria por volta de 2040, quando serviços outrora restritos à minoria rica serão disponibilizados a todos os que precisarem e desejarem.
Em tempos de Covid-19, crise económica e política, fica difícil acreditar num tal desdobramento para o nosso futuro interrompido por uma pandemia. Mas, para futuristas como Diamandis, mais do que exercitar o otimismo é preciso ver como, apesar de tudo, o mundo industrializado nunca esteve tão seguro e nunca vivemos por tantos anos. A expectativa de vida das pessoas, em 2000, já era 60% maior do que em 1900 e, além disso, cada vez mais somos surpreendidos por inovações tecnológicas que prometem revolucionar todos os aspetos das nossas vidas: da penicilina às chamadas tecnologias exponenciais, assim intituladas devido à exponencialidade do seu desenvolvimento.
Tecnologias como a realidade virtual, blockchain, inteligência artificial, fontes de energia sustentável, internet das coisas, big data, robótica, bioengenharia ou mesmo a mineração espacial prometem mudar o mundo e levar-nos a uma possível Quarta Revolução Industrial ou Terceira Disrupção, como nomeia Aaron Bastani, autor do livro “Fully Automated Luxury Communism”, de 2019.
Apesar de o título lembrar algum meme ou uma página de humor irónico no Facebook, o termo traduzido como “Comunismo Automatizado de Luxo” e encurtado a partir da sigla FALC, em inglês, traz em si a ideia de uma futura economia que supera a lógica da escassez, tanto no sentido da disponibilidade de recursos quanto da criação artificial de escassez na lógica de mercado capitalista. Bastani usa as quase 300 páginas do livro para dar contexto e ponderação à proposta que, de facto, suscita dúvida e ceticismo. Apesar de ser visto como um pensador utópico, Bastani procura manter as suas proposições o mais objetivas e racionais possíveis. Para isso, boa parte da obra dedica-se a elencar exemplos de tecnologias e empresas que estão a trabalhar em ferramentas e produtos que possibilitem a automação e a conquista de um futuro pós-escassez.
Antes de iniciar um longo relatório tecnológico, Bastani primeiro faz a provocação sobre como o senso comum tende a pensar que o capitalismo é inevitável e insubstituível. Provavelmente já ouviu alguém dizer algo parecido com esse tuíte de Olavo de Carvalho, mas o que o autor britânico procura defender é que esse é apenas mais um sintoma do que Mark Fisher chama de realismo capitalista, resumido na sugestão de que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”. Por outras palavras, a perceção geral é de que o capitalismo não apenas é o único sistema económico viável, como também é “impossível de se imaginar uma alternativa coerente”, afinal, como escreve Bastani, “como contribuir com uma alternativa à própria realidade?”. Já nas palavras do filósofo francês Alain Badiou, citado por Bastani:
“Nós vivemos numa contradição … na qual toda a existência … nos é apresentada como ideal. Para justificar o conservadorismo, os partidários da ordem estabelecida não podem realmente chamar (ao modelo) de ideal ou maravilhoso. Então, em vez disso, decidiram dizer que tudo o resto é horrível … a nossa democracia não é perfeita. Mas é melhor do que as malditas ditaduras. O capitalismo é injusto. Mas não é criminoso como o estalinismo. Nós deixamos milhares de africanos morrerem de Sida, mas nós não fazemos declarações nacionalistas e racistas como Milosevic”.
Se, depois de ler esta citação, pensou numa campanha publicitária protagonizada por representantes de comunidades marginalizadas e em como essas mesmas pessoas não são empregadas pela própria marca, percebeu a ideia. No mundo do realismo capitalista, nada muda; porém, como diagnostica Bastani, sofremos uma grande crise em 2008 e hoje vislumbramos novamente um sinal de alerta: no Reino Unido, o suicídio é a principal causa de morte de homens com menos de 50 anos e a depressão pode tomar a liderança nos gastos de saúde por volta de 2030. Além disso, há ainda a crise migratória na Europa, o Brexit, a ascensão da extrema-direita e de líderes opressivos, as alterações climáticas e os seus negacionistas e, finalmente, la pandemia que já soma mais de 190 mil mortes e a perspetiva de uma nova crise económica — que, aliás, vai sair muito mais cara para alguns.
Bastani cita Francis Fukuyama no seu livro porque o escritor, no início dos anos 1990, declarou que o fim da União Soviética também instaurava o fim da história. Contudo, Bastani reforça não apenas o absurdo dessa constatação como também afirma que a ideia apenas provou a instauração do chamado realismo capitalista. Com o insucesso do socialismo na União Soviética, ficou mais óbvio que apenas o capitalismo pode funcionar. Mas o que o FALC quer argumentar é justamente o contrário: é possível pensar em alternativas e esta é uma delas.
O que estamos prestes a assistir é ao fim do capitalismo pelas suas próprias mãos. Aliás, esta é a perspetiva que Slavoj Zizek vislumbra face à crise do novo coronavírus (apesar de Byung-Chul Han defender justamente o oposto). Mesmo que não enfrentássemos esta pandemia, Bastani já diagnosticava que o próprio imperativo do capitalismo é a competição em encontrar sempre a forma mais barata e eficiente de produzir commodities (mesmo que isso signifique substituir humanos por máquinas). Por outras palavras, o próprio modus operandi do capitalismo pode ser responsável por criar aquilo que o vai tornar obsoleto.
A começar pela crise energética e a sua respetiva escassez de recursos naturais, os seus fatores políticos e económicos, bem como os seus efeitos colaterais no ambiente. Bastani, então, comenta como a eletrificação e o uso da energia solar já estão a ser consideradas mais relevantes e cada vez mais disseminadas ao redor do mundo. No Reino Unido, por exemplo, há a perspetiva de usar apenas fontes de energia renovável até 2040. Na China, durante os últimos cinco anos, grandes cidades têm feito o processo de eletrificação nos seus transportes públicos como uma forma de reduzir o problema da poluição do ar, mas também sonora.
Já no caso de outros recursos naturais, matérias-primas como o ferro não precisarão de ser mais extraídas do nosso planeta. Levando em consideração a perspetiva de crescimento da população para até 9,8 mil milhões de pessoas até 2050, fica impossível manter a mesma lógica de consumo atual e acreditar que a Terra poderá dar conta da procura. Na realidade, um estudo de 2015 já demonstrou que se todos no planeta tivessem os mesmos hábitos de consumo dos norte-americanos, seriam necessários quatro planetas Terra para sustentar o mercado em termos de recursos naturais. Só que o que Bastani argumenta não tem a ver apenas com uma mudança no consumo ou mesmo com uma intensificação dos processos de reciclagem e criação de produtos biodegradáveis, por exemplo. O investigador britânico entende que a mineração espacial é o caminho para a aquisição de recursos minerais virtualmente infinitos e que, portanto, atingirão um custo muito baixo devido à sua abundância.
E parece que muitos empresários estão de olho neste setor industrial: Jeff Bezos, fundador da Amazon, por exemplo, já se mostrou interessado no mercado. O futurista Peter Diamandis é um dos fundadores da Planetary Resources, uma empresa de mineração de asteroides. No caso da PR, o interesse está especialmente focado nos NEAs, ou asteroides mais próximos da Terra. Além da vantagem de proximidade com o planeta, também há o facto de que as suas riquezas minerais são tão grandes que chegam a ultrapassar a nossa compreensão. Bastani afirma no seu livro que uma das estimativas sobre a cintura de asteroides é algo como 825 quintiliões de toneladas de ferro, com 63kg de níquel para cada tonelada de ferro, o que possibilitaria a geração de uma riqueza capaz de prover 100 mil milhões de dólares para cada pessoa no mundo inteiro. Para investigar isso, os japoneses colocaram em órbita a sonda Hayabusa2 em junho de 2018. Ela deve voltar à Terra no final de 2020.
Por enquanto, os gastos necessários para a exploração, desenvolvimento e implementação de um sistema robusto de mineração espacial ainda são muito altos (tanto que Bastani menciona como mesmo as iniciativas privadas na área aeroespacial ainda assim contam com recursos governamentais). Contudo, assim como acontece com qualquer tecnologia (pense no computador e em como foi barateado e miniaturizado no telemóvel, seguindo a chamada Lei de Moore), haverá um momento em que a mineração espacial será mais barata ao ponto de as commodities por si só passarem a ter preços tão irrisórios devido à própria abundância. E isso vale para todas as outras tecnologias exponenciais: a inteligência artificial, a robótica, a bioengenharia, tudo ficaria mais barato e acessível, bem como mais eficiente. Vale lembrar, também, que tudo isto aconteceria num cenário em que as pessoas envelhecem cada vez mais, a taxa de natalidade diminui e alcançamos um pico de crescimento populacional que Bastani prevê por volta do fim deste século.
Claro, parece estranho pensar que chegaremos a um ponto em que a população irá parar de crescer quando se conquistam novas tecnologias que facilitam a vida e quando se tem acesso a recursos virtualmente infinitos. Já foi observado durante as revoluções industriais como as taxas de natalidade aumentaram, as de mortalidade diminuíram e a longevidade se estende cada vez mais. Com exceção de um evento catastrófico, como uma guerra ou uma epidemia, fica difícil imaginar que desaceleraremos o crescimento populacional. Contudo, para este e outros problemas de solução ainda difícil de ser vislumbrada, Bastani traz como exemplo a grande crise do estrume de cavalo na Londres de 1894.
Naquela época, o crescimento da cidade levou à multiplicação de cavalos nas ruas e à concentração de dejetos que não conseguiam ser removidos, ao ponto de publicações como o The Times acreditarem que “em 50 anos, cada rua de Londres estaria coberta por três metros de esterco”. Esta passagem histórica que transformou os dejetos equinos de recursos a serem vendidos num problema de limpeza acabou por se tornar uma analogia para momentos que parecem insuperáveis, até que uma nova tecnologia (como foi o caso dos carros, nesse contexto) muda completamente o cenário. É aí onde entram as tecnologias exponenciais.
Mas mesmo que Bastani gaste páginas e páginas a elencar como a eletrificação eliminará os combustíveis fósseis da equação, como a mineração espacial trará recursos infinitos e como a biotecnologia pode curar doenças e criar carne em laboratório capaz de tornar a pecuária uma indústria obsoleta, fica difícil acreditar que chegaremos a um ponto em que, de facto, todos terão acesso a isso – afinal, não é isso que o comunismo propõe? O autor sabe-o e, por isso, traz como exemplo o filme de ficção científica “Elysium”, no qual, apesar de existirem tecnologias de ponta, elas só são acessíveis a uma classe mais privilegiada. Isto porque, como o britânico explica, essa sociedade futurista ainda vive sob um regime capitalista, o qual mesmo diante da abundância cria escassez artificial para manter a concorrência e a lucratividade.
É por isso que, por mais que as tecnologias continuem a evoluir, elas nunca serão acedidas por todos se não houver uma mudança política acima da inovação tecnológica. Nas palavras de Bastani:
“… na ausência de uma política apropriada, isso só será uma nova forma de gerar lucro. Marx expressou isso perfeitamente quando escreveu que ‘a mais avançada máquina então força o trabalhador a trabalhar por mais horas do que um selvagem, ou do que ele próprio trabalhava quando usava as ferramentas mais simples e rudimentares.’ Em resposta a essa admissão, uma afirmação: qualquer política de sucesso que procure direcionar as possibilidades da Terceira Disrupção às necessidades das pessoas em vez da lucratividade deve ser populista. Senão, é certo que irá falhar. O realismo capitalista é simplesmente muito adaptável para as políticas radicais de administração e tecnocracia, o que significa que qualquer rutura precisa de ser compreensível para a maioria das pessoas, numa linguagem capaz de ser rapidamente entendida.”
Ou seja, o que Bastani argumenta é que não adianta manter estas ideias num nível académico e elitista. Quando o autor fala de populismo, sugere uma abordagem de retórica política que seja simples e atraente para que não afaste ou confunda as pessoas. Acontece que, no nosso caso latino-americano, fica difícil ler esta palavra e não trazer à mente as memórias de políticos populistas que não se apropriaram de uma comunicação acessível para beneficiar as pessoas, mas sim para se fazerem eleger e depois tomarem decisões em benefício próprio.
Além disso, quando Bastani sugere a implementação do comunismo, não traz em si a perspetiva do que foi o comunismo no século XX, até porque o que o mundo vivenciou até então foi um socialismo ainda definido pela escassez e pela existência de empregos. Na Terceira Disrupção, não só haverá abundância de recursos e riquezas como o trabalho também deixará de existir como necessidade de sobrevivência para se tornar um lazer — afinal, “produtividade é para robôs”, como já disse o futurista Kevin Kelly. E é nesse ponto que entra o luxo proposto pelo investigador.
No futuro, os robôs trabalharão por nós para que possamos ter lazer e trabalhar com aquilo que nos dê prazer, não para sobreviver.
Ao aproximar-se dos partidos verdes com as suas preocupações em relação ao ambiente e ao bem-estar animal, o FALC também se aproxima dos partidos de esquerda até divergir das suas narrativas que glorificam a simplicidade ou até mesmo uma perspetiva idílica de fuga da cidade e da modernidade. O FALC não só é contra esse chamado de volta à natureza como também contra os hábitos de consumo sob o capitalismo pautado por combustíveis fósseis, com a sua lógica de comutação, publicidade omnipresente, trabalhos sem sentido e obsolescência programada. Para viver uma boa vida num cenário de abundância de recursos, é possível que vivamos uma vida parecida com a dos multimilionários de hoje, caso queiramos. “O luxo estará em tudo conforme a sociedade baseada em trabalho assalariado se tornar uma relíquia histórica do mesmo modo que o camponês feudal e o cavaleiro medieval”, escreve Bastani.
Não se trata, portanto, de emular os costumes niilistas dos multimilionários da contemporaneidade, até porque as suas práticas se baseiam, justamente, na lógica da escassez. Enviar um carro da Tesla para o espaço não faz sentido nenhum a não ser demonstrar que Elon Musk o pode fazer porque tem dinheiro. Do mesmo modo, também não significa que o FALC defenda discursos de “consumo ético” ou mesmo a narrativa de que “o local” é mais virtuoso. Num cenário no qual tudo é acessível, barato e possível, narrativas que ainda mantêm contrastes não fazem sentido. E isso só pode ser conquistado não através de uma renda básica universal, como muitas vezes ouvimos dizer, mas sim através de um sistema básico de serviços públicos.
No Brasil, já desfrutam de um sistema de saúde público, bem como de instituições de ensino públicas. O que Bastani propõe é estender isso a todos os países do mundo, tornando educação, habitação, transporte, saúde e informação direitos garantidos e gratuitos para todos. Diferente de distribuir um rendimento mínimo para as pessoas, o qual poderia gerar inflação aos governos e manter a lógica desses serviços como se fossem commodities capazes de terem os seus preços manipulados pelo mercado, possibilitar o acesso generalizado e gratuito garante uma maior conquista de bem-estar social e de independência dos cidadãos — afinal, como escreve Bastani, “pessoas necessitadas não são pessoas livres e um sistema de serviços básicos universais acaba com essa necessidade.”
Agora, se o seu problema está no facto de Bastani se inspirar em Marx ou mesmo propor o comunismo como o sistema político-económico a ser seguido com a chegada da Terceira Disrupção, saiba que também os economistas Keynes e Drucker pensaram algo semelhante, uma sociedade na qual a inovação tecnológica nos pode levar à abundância e na qual a informação se tornaria a nova moeda. Contudo, o capitalismo não tem como funcionar nesse cenário de automação e abundância de recursos. Bastani comenta que os níveis de automação diminuíram nos últimos anos, o que poderia significar um maior pessimismo para a chegada da Terceira Disrupção, mas o motivo não está na tecnologia, mas sim no facto de os salários estarem cada vez mais baixos, tanto que substituir trabalhadores por máquinas não é lucrativo. Além disso, o autor ainda conta uma anedota na qual Ford teria dito que não poderia automatizar completamente a sua linha de montagem ou baixar demais os salários dos seus funcionários porque, no fim de contas, eles próprios seriam os compradores dos seus produtos.
Afinal, muitas das tecnologias que prometem vir com a Terceira Disrupção, na verdade, não são novas: elas apenas se moveram das “margens” da sociedade para tomarem o seu centro (como explora a futurista Amy Webb no seu livro “The Signals Are Talking”). Se elas já estavam entre nós e não se desenvolveram tão rapidamente quanto poderiam é porque o motivo pelo qual vivemos no mundo de hoje não é tecnológico, mas político. O mesmo vale para este novo mundo para o qual nos podemos dirigir. Para Bastani, de facto, não há nenhum motivo real pelo qual as empresas e os mais ricos desejem libertar as pessoas ou manter os ecossistemas do nosso planeta — na verdade, faz mais sentido continuar a intensificar a desigualdade económica e o colapso generalizado para que algum novo algoritmo preditivo ou uma startup unicórnio venham com a solução. Pelo contrário, a mudança não virá através destes, mas sim da política a ser feita coletivamente.
Apesar de promover algo tão marcante, Bastani provoca, afirmando que “Fully Automated Luxury Communism” não é um livro sobre o futuro, mas sim sobre um presente que não está visível (colocado à vista) pelas pessoas. É uma isca que nos possibilita fugir da caverna de Platão do realismo capitalista e, no mínimo, questionar se, de facto, faz sentido acreditar que é mais fácil o mundo acabar do que o capitalismo deixar de existir. Mesmo que não adotemos o FALC, mesmo que sequer adotemos o comunismo, tem de haver algo além dos espetros do capitalismo que habitam a nossa caverna.
Este post vai, às tantas, trazer-me dissabores. Apesar dos bons conselhos de quem gosta muito de mim, e de quem eu gosto muito também, vou deixar de fazer coisas urgentes para o escrever. Mas tinha de ser. Já não dava mais ler certas coisas nos comentários ao texto de ontem sobre Quaresma.
Um dos meus textos mais curtos nestes anos neste blogue foi também um dos mais polémicos em comentários. E desisti de ser pedagógico e de ir respondendo.
Houve várias linhas de contestação: insultos, ameaças, etiqueta de ignorante na minha área de estudo. De tudo. A dada altura a sensação foi de ser atacado por uma matilha.
A maioria dos comentários: “este é um blogue de educação, não de política”
Em suma, cala-te….Se algum dos venturosos defensores de ideias diversas quiser escrever aqui, eu próprio lhe colocarei o post no blogue, com a minha password, que uso como autor dele. Tem é de respeitar a Constituição e a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH). E aceitar ser contraditado. Que é o que acontece a quem escreve neste blogue (e, por isso, escreve o que muito bem entende, mas ouve o que tiver de ouvir).
Educação é Política (com maiúscula).
Não o ilusionismo de feira que alguns fazem no Parlamento, a esbracejar para as câmaras.
Nós, professores, educamos cidadãos. E um cidadão não pode achar que ser anti racista é uma “politiquice”. Ou que ser racista é matéria de opinião. Ser anti racista é um dos elementos da matriz constitucional portuguesa, que acolhe a DUDH como parte integrante. Logo, este blogue pode e deve falar de racismo. E pode ter uma posição editorial (e o texto era isso, um editorial) sobre um debate acesso na sociedade portuguesa.
Os alunos ciganos são dos mais excluídos. Dos que têm maiores níveis de insucesso e daqueles com quem o sistema de ensino mais falha, apesar do esforço de professores e educadores.
Na manhã de ontem, andei a tentar arranjar apoio para um aluno cigano que não tem computador nem internet. Um miúdo 5 estrelas, mas que, por muito que nos esforcemos, corre risco sério de ficar para trás. Aos 10 anos.
Outra ideia: a intervenção de Quaresma nada tem a ver com este Blogue
Tem tudo a ver. Um dos aspetos do discurso de Quaresma é o nível educativo elevado e como diria alguém, que me é muito querida, a elegância.
Se todos os cidadãos ciganos portugueses tivessem as ferramentas educativas que Quaresma mostra naquele texto, a sua comunidade seria vista de outra forma e não teríamos gente desalmada a desvalorizar os seus Direitos Humanos.
Recentemente, apareceram uns arremedos de caudilho que o fazem de forma histriónica e sedutora. Quaresma mostrou a força da Educação que é uma arma.
Todos os meus alunos ciganos, que ficaram perdidos para o insucesso e abandono, apesar da luta dos professores e de muitos pais, soubessem e pudessem usar as palavras com aquela força!
Não haveria tantos a serem contra eles, fortes com os fracos, e usar como bandeira política o ataque reles aos Direitos Humanos.
Um blogue é feito de palavras….
Quaresma mostrou aos meus alunos ciganos a força das palavras e da resposta pensada e ponderada. Fez mais pela educação de crianças ciganas naquelas linhas que uns iluminados bacocos que andam para aí a dizer que “há um problema com a comunidade cigana”.
Convido esses cultores da retórica baixa a virem conhecer o acampamento onde trabalhei como professor uns anos. Quem lá for, vê e sabe dos problemas: a pobreza, a discriminação, a falta de oportunidades, a doença, a exclusão, a falta de acesso à saúde e à educação. (Reportagem de Ana Cristina Pereira aqui no Público, com belas mas tristes fotos de Adriano Miranda)
A culpa da pobreza não é do pobre. A culpa da exclusão não é do excluído. O COVID19 vai trazer muitos pobres e excluídos.
E os que falam de gente “que não cumpre as regras” talvez se devessem por no lugar do outro. Talvez descobrissem muito sobre o privilégio das suas vidas.
O texto tem a ver com Educação
Com a minha, como pessoa e profissional, que aprendi muito com os meus alunos ciganos em décadas. Mesmo quando são rebeldes e até inconvenientes.
Este blogue não tem a ver com religião. Nem eu sou religioso. Há quem seja e se deixe filmar a rezar antes de atos políticos de candidatura e associe práticas religiosas e ação política.
Li bem o meu Evangelho na juventude e aos que argumentam com os condenados que são ciganos e os seus crimes, para virem, com essa lembrança, condenar todas as pessoas ciganas, eu só consigo falar do episódio bíblico do “quem nunca pecou que atire a primeira pedra” ou lembrar que os crimes individuais não condenam uma família ou uma comunidade. Isso era na Idade Média, em que um filho podia ser desterrado e preso com ferros por ter pai condenado.
Nazi?! Sim, Nazi.
E para os que usaram a tática de dizer que o autor não sabe o que diz ao qualificar de nazi a proposta em discussão, estou totalmente disponível para debater o assunto.
Mas já que este blogue é de educação e sou professor de História, deixem-me recomendar bibliografia.
2 livros. Um de Ron Rosenbaum. Explaining Hitler. The search for the origins of his evil. (Recensão aqui)
Não o melhor livro de História sobre o período do nazismo, mas que foi pessoalmente o mais marcante. Centra-se na origem de Hitler como fenómeno político e na luta de jornalistas de um jornal de Munique (Munich Post) para, muito cedo, revelarem aos distraídos alemães o que ele era. Poucos lhes ligaram e o autor do livro lança-se em algumas reflexões de história alternativa: e se tivessem reagido a tempo e não fossem em balelas de que as suas ideias mais loucas eram meras opiniões?
O outro livro é mais conhecido e chama-se A lente de aumento: os ciganos no holocausto. (Otto Rosenberg e Ulrich Enzensberger, página de Facebook da editora ). Já tem uns anos e foi lançado antes de se vulgarizar o uso da palavra Porajmos para referir o genocídio de ciganos que os nazis realizaram em Auschwitz e outros campos.
Com estas 2 fontes credíveis já chega para se fazer, com segurança, um juízo sobre o nazismo explícito de certas propostas.
E repito. Sim, a proposta que deu origem à polémica é nazi e indigna de um estado civilizado.
E para os docentes que vieram dizer ao blogue que ficam incomodados com o risco de se estar a fazer política ao dizer-se isto, só recordo o que diz o Estatuto da Carreira Docente (artigo 10º, 2, b), sublinhado meu. É dever dos professores:
b) Reconhecer e respeitar as diferenças culturais e pessoais dos alunos e demais membros da comunidade educativa, valorizando os diferentes saberes e culturas e combatendo processos de exclusão e discriminação.
Se um blogue de educação não é o sítio para exercer esse dever de combate, então mais vale ocupar os tempos livres na jardinagem.
E agora sim, posso ir arrumar a minha casa, em paz com a minha consciência. Deixo-vos com uma homónima de quem me aconselharia a não escrever tudo isto. Mas não dava mesmo para ficar calado. Talvez seja perdoado do tempo retirado a outros assuntos.
Vale a pena ouvir a ted talk de Djiana Pavlovic sobre isto de que estamos a falar.
Lamento profundamente ver tanto professor a comentar e a dizer que acha que ser racista é um problema meramente de opinião política. Já fui discriminado, como se fosse cigano, num país de louros, em que “ser moreno é ser cigano”. Sei o que se senti. E foram só uns minutos, não é a vida toda.
PS: agradeço ao Alexandre a solidariedade de defender um texto que não leu previamente e a integridade de valorizar este blogue como espaço livre. Agradeço aos que comentaram e defenderam o que escrevi.