Tendemos a ver o armazenamento em “nuvem” como um conceito abstrato. Mas cada pergunta que fazemos a um assistente de inteligência artificial (IA) depende de uma estrutura física concreta: um centro de dados onde milhares de servidores trabalham sem interrupção, aquecem e precisam de ser arrefecidos. E, na maioria dos casos, esse arrefecimento faz-se com água que evapora em torres de arrefecimento e não regressa ao sistema. À pegada direta soma-se a indireta: a água consumida na produção da eletricidade que alimenta estas infraestruturas e no fabrico dos chips que as equipam.
Os números começam a ser conhecidos e não são tranquilizadores. Investigadores da Universidade da Califórnia estimaram que o treino do modelo GPT-3 terá evaporado cerca de 700 mil litros de água doce apenas nos centros de dados norte-americanos da Microsoft, e que uma conversa de 10 a 50 interações com um destes modelos consome, em média, o equivalente a uma garrafa de meio litro de água. O mesmo estudo, publicado na Communications of the ACM ("Making AI Less 'Thirsty': Uncovering and Addressing the Environmental Footprint of AI Models"), projeta que a procura global de IA possa representar, já em 2027, uma captação de água entre 4,2 e 6,6 mil milhões de metros cúbicos por ano. É certo que são estimativas, mas a falta de transparência das empresas tecnológicas quanto aos seus consumos reais é, em si mesma, parte do problema.
Poderíamos pensar que esta é uma preocupação distante, já que quase metade dos centros de dados de todo o mundo se localizam nos Estados Unidos, parte deles em áreas desérticas ou semidesérticas. Não é. Portugal está a posicionar-se agressivamente como destino europeu para esta indústria e fá-lo quando grande parte do território do continente vive em situação de escassez hídrica estrutural. O índice de escassez WEI+ para Portugal continental subiu para 34% no período 1989-2015, atingindo 74% na região hidrográfica do Sado e Mira e 66% nas Ribeiras do Algarve, existindo ainda o risco de perdermos 30 a 40% da disponibilidade das nossas massas de água até 2050, num contexto de redução de 25% da precipitação face aos valores históricos (dados do Relatório do Estado do Ambiente / APA). É neste país que decidimos instalar infraestruturas que funcionam 24 horas por dia e cuja sede de água e energia cresce ao ritmo da procura de IA.
O caso de Sines é paradigmático e, em parte, um exemplo a reter. O mega-campus de data-centers em desenvolvimento na antiga zona da central termoelétrica, que poderá atingir 1,2 GW de capacidade, foi desenhado para arrefecer os servidores com água do mar, reaproveitando os canais de captação e devolução da antiga central, sem consumo evaporativo de água doce nos processos de arrefecimento. De acordo com o estudo de impacte ambiental, o consumo de água potável do campus completo ficará limitado a usos humanos (cerca de 275 m³/dia), quando um centro de dados convencional de dimensão equivalente poderia consumir mais de mil milhões de litros de água por mês em arrefecimento, o equivalente a quase 50 mil famílias. A diferença entre uma solução e outra é abissal e demonstra que as escolhas de projeto e de localização importam, e muito. Ainda assim, importa não esquecer que a própria utilização de água do mar tem impactes que não podem ser desvalorizados, desde a afetação de organismos marinhos na captação à devolução de salmoura e de água a temperatura mais elevada, e que exigem avaliação, monitorização e minimização rigorosas.
Mas seria um erro descansar sobre este exemplo. Primeiro, porque o litígio que hoje opõe a EDP ao Estado quanto à titularidade das infraestruturas de captação de água do mar em Sines mostra como estas soluções dependem de condições muito específicas, dificilmente replicáveis noutros pontos do território. Segundo, porque a corrida aos centros de dados não se esgota em Sines, multiplicam-se projetos e intenções de investimento por todo o país, incluindo em regiões onde não há mar por perto nem folga hídrica para acomodar novos consumos. Terceiro, porque a pressão sobre a água de todo o conjunto dos projetos de interesse nacional previstos para a zona industrial de Sines representa uma necessidade agregada de água doce na ordem dos 10 hectómetros cúbicos por ano, equivalente ao consumo de um concelho de média dimensão, numa região servida por albufeiras que já abastecem populações e regadio em expansão.
Já não é possível defender um regresso a um mundo sem inteligência artificial, sendo necessário reconhecer o seu potencial em áreas como a gestão da água, desde a deteção de perdas nas redes e a otimização do regadio até à modelação hidrológica que suporta os Planos de Gestão de Região Hidrográfica. No entanto, é essencial assegurar que o desenvolvimento da IA decorra dentro dos limites planetários, respeitando a disponibilidade de recursos naturais, nomeadamente energia, água e matérias-primas, e garantindo que os seus benefícios sociais e ambientais superam os impactos da infraestrutura que a suporta. E isso tem tradução concreta na política da água.
Desde logo, transparência: os consumos de água (e energia) dos centros de dados devem ser públicos, medidos e reportados, instalação a instalação, e não escondidos atrás de médias corporativas ou de segredos comerciais. Depois, planeamento: a decisão sobre onde instalar estas infraestruturas tem de estar subordinada aos balanços hídricos regionais e aos Planos de Gestão de Região Hidrográfica, cujo 4.º ciclo (2028-2033) está em preparação e não pode ignorar esta nova categoria de utilizadores, privilegiando localizações com soluções de arrefecimento sem consumo de água doce, como a água do mar ou circuitos fechados, e o recurso a águas residuais tratadas em vez de água potável. Importa, contudo, ressalvar que o recurso à água do mar e, em particular, a dessalinizada não é isento de impactes, pelo que estas soluções devem ser sujeitas a avaliação de impacte ambiental exigente, sem nunca substituírem a prioridade que deve ser dada à eficiência e à necessidade de redução da procura. A recente Estratégia Europeia para a Resiliência Hídrica, que aponta para uma melhoria de pelo menos 10% na eficiência hídrica na União Europeia até 2030, deve ser o referencial mínimo. Finalmente, hierarquia de usos: em situação de seca, o abastecimento humano e os ecossistemas têm prioridade, e os títulos de utilização de recursos hídricos atribuídos a estas infraestruturas devem prever, desde o licenciamento, mecanismos de redução e contingência, tal como se exige a outros setores.
A água que os nossos rios e aquíferos já não garantem em cada verão não pode ser hipotecada a uma indústria que cresce mais depressa do que a nossa capacidade de a planear. Portugal tem uma oportunidade real de acolher a economia digital pela via certa, mas só o fará se a política da água deixar de correr atrás dos investimentos e passar a estar, de uma vez por todas, à frente deles.
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Iniciativa da UE para Resiliência Hídrica:

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