de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos moveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
e é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.
Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa as formas naturais.
Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há na cidade
alma que se disponha
a recolher em si
desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.
Mas faminto de seres
e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.
E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
e as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa
O poema "O Elefante", integrante da obra A Rosa do Povo (1945), funciona como uma poderosa alegoria da condição humana e da função da arte em tempos de crise. Escrito sob o peso da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, o texto apresenta um elefante construído com materiais frágeis e quotidianos, como papel e renda, que simboliza a própria criação poética: algo que, embora monumental em intenção, é intrinsecamente vulnerável e artesanal.
Essa criatura desajeitada percorre um cenário urbano marcado pela indiferença e pelo egoísmo, onde o "eu lírico" tenta, sem sucesso, estabelecer uma conexão genuína com os outros. A figura do elefante representa o isolamento do intelectual e do artista que, ao buscar a fraternidade e a compreensão em um mundo endurecido pela rotina e pela violência, acaba encontrando apenas a solidão. No entanto, essa melancolia não se traduz em niilismo; pelo contrário, o poema é um profundo apelo à solidariedade social, tema central da fase "participativa" de Drummond.
O desfecho, marcado pela desintegração física do elefante que "volta para o pó", é o ponto de maior força resiliente da obra. Ao declarar que "amanhã recomeço", o poeta transforma o fracasso imediato num acto de resistência política e existencial. Ele reconhece que, embora a arte possa não transformar o mundo instantaneamente ou ser compreendida pela massa, o esforço contínuo de criação e a tentativa de humanizar o real são tarefas permanentes que definem a dignidade do espírito humano diante da barbárie.
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