A Maia está de facto de parabéns. Ontem ao fim da tarde tive oportunidade de fotografar esta jovem coruja-do-mato (𝑆𝑡𝑟𝑖𝑥 𝑎𝑙𝑢𝑐𝑜), banhada pela última luz dourada do dia.
É um privilégio enorme testemunhar que a vida selvagem continua a prosperar em silêncio nos nossos espaços verdes.
As corujas-do-mato desempenham um papel fundamental no equilíbrio do ecossistema urbano e, ver um juvenil com esta plumagem penugenta e olhar curioso tão de perto, é a prova viva de que a natureza encontra espaço para nascer e crescer entre nós.
Um daqueles momentos mágicos que nos lembram a importância de proteger e valorizar os refúgios naturais da nossa cidade.
Ontem avistei o tordo-comum.
Meu poema
As the sun went down, I spotted this juvenile, and I remember a few interesting things about it…
Long ago, when the forest was young, the Sun and Moon shared a quiet affection for the ancient woods.
As twilight spilled liquid gold through the canopy each evening, a small tree spirit was born—clothed in down soft as morning mist and warmed by the embers of the fading day. They called this creature the Child of the Woods (Coruja-do-mato).
“Where light surrenders to the dark,
A gentle heart ignites a spark.
With eyes like night and down like flame,
The forest whispers out its name.”
Legend holds that catching a glimpse of this young guardian grants a rare blessing - a quiet moment of wonder, reminding us that beauty wakes as the light fades.
Corujas e a mitologia
Ao longo dos tempos, as corujas têm despertado fascínio e admiração nos seres humanos. Presentes em mitos e lendas, elas acabam reunindo crenças bastante variadas e contraditórias. Enquanto em algumas culturas, são admiradas e veneradas, em outras são temidas e até mesmo desprezadas.
Frequentemente associadas à sabedoria, proteção espiritual e morte, as corujas também podem estar conectadas à feitiçaria, medicina, ao clima e até mesmo ao nascimento. O fato de serem animais encontrados em praticamente todas as regiões do planeta, fez com que elas aparecessem em diferentes narrativas mitológicas ao longo dos séculos.
Animais fascinantes com incríveis habilidades de caça e hábitos noturnos, as corujas aparecem em pinturas rupestres que datam de 20 mil anos atrás. Da cultura egípcia, passando pela grega e pelos povos originários, elas reúnem diferentes significados e histórias. Conheça a seguir um pouco mais da presença das corujas na mitologia.
Mitologia egípcia, grega e romana
Para os egípcios, as corujas eram conectadas ao mundo dos mortos, aparecendo em hieróglifos e representações artísticas. Encaradas como guias espirituais capazes de transitar entre o mundo dos vivos e dos mortos, elas eram recorrentemente associadas a divindades funerárias, como Neite e Néftis.
Já para os gregos, as corujas eram o símbolo de Atena, deusa da sabedoria, artesanato e estratégia militar. De acordo com a mitologia, Atena teria ficado tão impressionada pelos grandes olhos e aparência solene do pássaro, além de sua sabedoria e seriedade, que o adotou como seu fiel companheiro, substituindo o corvo. Conhecida como Athene Noctua, essa espécie de coruja era encontrada em grande número na cidade de Atenas e na Acrópole, acreditando-se que uma “luz interior” mágica fornecia sua visão noturna.
Justamente por sua associação com Atena, a coruja se tornou um animal protetor para os gregos, acompanhando os exércitos à guerra como um símbolo de inspiração. Caso sobrevoasse os soldados antes de uma batalha, sua aparição era tida como um bom presságio e sinal de vitória. Além disso, o animal foi estampado nas moedas atenienses, as quais traziam o rosto de Atena de um lado e sua coruja do outro.
Para os romanos, a coruja também era um símbolo de sabedoria. No entanto, ela também era associada a maus presságios, especialmente a morte. Na Roma antiga, ouvir o pio de uma coruja era um presságio desastroso, indicando uma morte iminente. Segundo as lendas, as mortes de Júlio César, Augusto, Aurélio e Agripa foram todas anunciadas por uma coruja.
Diferente dos gregos, os romanos acreditavam que o avistamento de uma coruja antes da batalha era um aviso de desastre e derrota. Segundo a mitologia romana, Proserpina (nome romano de Perséfone) foi levada contra sua vontade para o submundo por Plutão, deus dos mortos, podendo retornar para sua mãe, a deusa da agricultura Ceres, desde que não ingerisse nada enquanto estivesse lá. Ascálafo, filho de Aqueronte e da ninfa Orfne, viu Proserpina colhendo uma romã e contou para todos o que havia acontecido, obrigando a jovem a permanecer no local por um número determinado de meses. Ceres ficou tão furiosa que o transformou em uma coruja, de forma que se tornou protegido de Minerva, correspondente romana de Atena.
As corujas para os povos originários dos Estados Unidos e Canadá
As corujas aparecem em diversas narrativas de povos originários dos Estados Unidos e Canadá, frequentemente associadas a profecias e adivinhações. Os Hopi, por exemplo, acreditam que elas são sagradas e associadas ao deus dos mortos, atuando como protetoras do submundo e das coisas que crescem da terra subterrânea, como sementes. Já para os Apaches, sonhar com uma coruja indicava uma morte próxima, enquanto para os Lenapes sonhar com ela significava que o animal se tornaria seu guardião.
Por outro lado, os Cherokee valorizam as corujas como consultoras de seus xamãs, inclusive podendo trazer doenças como punição. Segundo os Cree, seus pios eram, na verdade, chamados de espíritos. Caso uma pessoa respondesse com um som semelhante e não ouvisse uma resposta era porque ela estava destinada a morrer em breve. Por outro lado, para os Kwakiutl, povos originários do Canadá, as corujas eram as almas das pessoas, não devendo ser prejudicadas, pois quando uma coruja era morta a pessoa a quem pertencia a alma também morria.
Segundo os Menominee, por exemplo, o dia e a noite foram criados após uma competição entre uma coruja e um coelho. O coelho acabou ganhando e escolheu a luz do dia, permitindo a noite como um benefício para a coruja derrotada. Para os Navajo, o deus Nayenezgani criou a coruja e lhe designou o dom da profecia, de forma que quando os homens ouvissem seu som eles saberiam qual seria o seu futuro.
Mitologia celta e hindu
Na mitologia celta, as corujas são frequentemente associadas a Cailleach, uma deusa anciã ligada a criação da paisagem e ao clima, especialmente as tempestades e o inverno, representando os ciclos de vida, morte e renascimento. Por Cailleach ser uma divindade funerária, o chamado da coruja era interpretado como um presságio de morte.
Em muitas narrativas, devido a sua visão noturna e habilidade de caça, o pássaro aparece como um guia para o submundo, simbolizando a intuição e proteção na escuridão. Além disso, para os galeses, as corujas têm íntima relação com a figura mitológica de Blodeuwedd, a qual foi transformada no animal pelo herói Gwydion após tentar assassinar seu marido. Segundo o Mabinogi, coletânea de manuscritos da mitologia celta, escritos em galês medieval, Blodeuwedd é transformada em coruja como uma punição, relegada a viver a noite longe dos outros animais.
Enquanto isso, na mitologia hindu, as corujas são associadas a Lakshmi, deusa da fortuna e da prosperidade. O pássaro é um dos “vahanas” ou veículos de Lakshmi, simbolizando proteção contra a ignorância e ganância, assim como sabedoria e perspicácia. Neste caso, a associação da coruja com a divindade faz com que seja vista como um lembrete simbólico para ir além das atividades materiais, cultivando qualidades como paciência, inteligência e sabedoria. Isso acontece devido ao comportamento noturno do pássaro, o qual é interpretado como um esforço para observar e descobrir conhecimento quando cercado pela escuridão.
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