domingo, 25 de setembro de 2022

Simplex Ambiental: um embuste e uma visão do século passado


No país em que a avaliação de impacto ambiental é encarada como uma chatice, ainda por cima, cara, que deve ser ultrapassada por forma a chegar ao licenciamento final;

No país em que todos os esquemas são usados para fazer aprovar um projecto;

No país em que há uma completa desconsideração pelo território, pelas suas características e pelas populações que nele habitam;

No país em que temos vastas áreas de território ao puro abandono pelas autoridades que dele deviam cuidar, à mercê de todas aqueles que o querem explorar sem piedade, desconsiderando o passivo ambiental que deixam pelo caminho um passivo ambiental do qual ninguém quer saber;

No país em que se abatem milhares de árvores em prol da descarbonização;

No país em que se destrói o montado de sobro em prol da descarbonização;

No país em que o património agrícola mundial está em vias de ser destruído às mãos da extração do lítio;

No país em que se limpam ribeiras com glifosato e se acha que limpar uma linha de água é o mesmo que limpar o quintal lá de casa;

No país em que se assiste a uma completa destruição do solo com vastas zonas de onde é arrancado todo o coberto vegetal, seja para plantação de novas culturas como o abacate, seja para “plantação” de painéis solares;

No país em que se espalha a ideia de que a seca é combatida pela construção de uma dessalinizadora;

Com esta lei já não será necessário torcer diplomas, produzir estudos de impacte ambiental que são atentados à inteligência, usar favorecimento pessoal, e principalmente, nessa medida, o “progresso” já terá uma via rápida, sem constrangimentos ambientais.

Só a título de exemplo – e mesmo só a título de exemplo, já que as canalhices se multiplicam ao longo do diploma –, vejamos algumas das maravilhosas inovações que este diploma oferece aos investidores.

Antes de mais, o próprio projecto de diploma é ambicioso, e não esconde ao que vem. A dada altura pode ler-se: “Serão futuramente adotadas novas iniciativas legislativas com o mesmo propósito de simplificação e redução dos encargos administrativos para as empresas também noutras áreas, incluindo, em especial, o urbanismo, ordenamento do território, indústria, comércio e serviços e agricultura.”

E continua, vincando bem os casos de em que deixa de ser necessário avaliação de impacto ambiental (AI). Este, aliás, aparenta ser o principal objectivo.

Querem instalar 100 hectares de painéis solares? Não há necessidade de AIA.

Projectos de loteamento? Deixa de ser necessário AIA.

Querem transportar energia eléctrica até 15 Km e 110 KV? Não há necessidade de AIA.

Se determinadas situações já foram analisadas em sede de AIA, já não haverá necessidade de avaliação pelas entidades competentes. Por exemplo, projectos localizados em área de Reserva Ecológica Nacional (REN), já não serão analisados pelas respectivas comissões de coordenação regional (CCDR’s). Projectos de utilização não agrícola de terrenos agrícolas, já não serão objecto de parecer da comissão da Reserva Agrícola Nacional (RAN). O abate de sobreiros e azinheiras já não necessitarão de pareceres prévios e vinculativos por parte do Instituto Nacional de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF).

Também há caminho escancarado para a aprovação tácita – ou seja, aprovação por mero decurso do tempo, sem que a autoridade de AIA tenha ponderado sobre o projecto. Uma vergonha, e tenho para mim que esta será a nova moda em termos a aprovação de projectos de avaliação de impacto ambiental.

E pronto. Está aberto o espaço para a completa desagregação do território, sendo que a técnica é, como em outras ocasiões, tornar legal aquilo que antes era ilegal.

Mas porquê que este diploma é totalmente ilegal?

A actual legislação sobre avaliação de impacto ambiental é produto de uma transposição de Directivas europeias, que têm vindo a ser sujeitas a actualizações, mas sempre no contexto de legislação europeia.

Ora, perante isto, a mera circunstância de vir um decreto-lei do Governo, que não constitui transposição de coisa nenhuma e que só visa alterar (no sentido de facilitar) legislação comunitária, é desde logo ilegal atento o primado do direito europeu sobre o direito nacional.

Não estou com isto a dizer que, ao nível interno, não possam existir alterações àquilo que está definido em termos de critérios para avaliação de impacto ambiental. O que estou a dizer é que, essas alterações devem fazer-se sempre dentro do espírito da lei europeia e nunca para contorná-la.

Conforme dito no Acórdão do Tribunal de Justiça (Quinta Secção), de 21 de Março de 2013, Salzburger Flughafen GmbH contra Umweltsenat, a margem de apreciação de que dispõem os Estados Membros, quanto “à fixação dos limiares ou critérios para determinar se um projecto destes deve ser sujeito a uma avaliação de impacto ambiental (…) tem os seus limites na obrigação (… ) e submeter a um estudo do impacte ambiental os projectos susceptíveis de ter efeitos significativos no ambiente, nomeadamente pela sua natureza, dimensões ou localização”. Estas três dimensões, não sendo excludentes de outras são inafastáveis.

Já num outro Acórdão do Tribunal de Justiça da União Europeia, relativo à Irlanda, diz-se que um “Estado membro que fixe os critérios e/ ou os limiares só tendo em conta as dimensões dos projectos, sem tomar em consideração igualmente a natureza e a sua localização, excede a margem de apreciação de que dispõe.

Recorro a decisões do Tribunal de Justiça porque o direito comunitário vai sendo interpretado a partir dessas decisões, sendo uma fonte segura, inclusivamente, para sabermos para onde podem ir algumas das alterações legislativas.

O Tribunal de Justiça da União Europeia tem vindo a decidir de forma consistente que um projecto, mesmo de dimensões reduzidas, pode ter efeitos significativos no ambiente quando for situado num local em que os factores ambientais – tais como a fauna e a flora, o solo, o clima ou o património cultural – sejam sensíveis à mínima modificação.

E ainda mais importante, os limiares ou critérios fixados pelos Estados “têm o objetivo de facilitar a apreciação das características concretas de um projecto, para determinar se o mesmo está sujeito à obrigação de avaliação, e não o de subtrair de antemão a essa obrigação.”

É fácil perceber onde está o espírito da legislação ambiental e em que sentido vão as decisões judiciais… na Europa.

Vamos agora viajar de regresso ao nosso processo legislativo, àquilo que está em causa com esta “simplificação de licenças e procedimentos para as empresas na área ambiental”.


Ler mais:

Música do BioTerra: Sinead O'Connor - You Made Me The Thief Of Your Heart


I hope you're happy nowI could never make you soYou were a hard manNo harder in this worldYou made me cold and you made me hardAnd you made me the thief of your heart
Winter is cold oh!But you're colder stillAnd for the first timeI feel like you're mineI share you with the one who willMend what falls apartAnd turn a blind eyeTo the thief of your heart
Oh you lostOh you lost allYou lost allYou lost all
I'll never wash these clothesI want to keep the stainYour blood to me is preciousNor would I spill it in vainYour spirit singsThough your lips never partSinging only to meThe thief of your heart
Oh you lost

Dia Mundial dos Rios



Criado em 2005 para comemorar o lançamento da Water for Life Decade (Década da Água para a Vida, em português), da Organização das Nações Unidas (ONU), celebra-se anualmente no quarto domingo de setembro.

O objetivo desta data é promover a preservação dos rios de todo o mundo e aumentar o conhecimento das populações sobre os rios.

Os cidadãos são incentivados a participar na preservação e recuperação dos rios, não só neste dia mas durante todo o ano.

Mais de 60 países dão as mãos para celebrar o Dia Mundial dos Rios. Milhares de rios mundiais encontram-se em sérias dificuldades e sujeitos a ameaças, com o desenvolvimento industrial, a poluição humana e as mudanças climáticas.

A limpeza dos rios é uma das iniciativas realizadas nesta data. Comemorações de comunidades ribeirinhas, caminhadas, projetos escolares, festivais de música, exibições de arte e planificação de restauração de habitat natural são outras das atividades deste dia.

Num momento em que recursos hídricos de todo o planeta se vêm confrontados com vários tipos de ameaças, como são, por exemplo, a poluição e as alterações climáticas, este dia representa uma oportunidade para milhões de pessoas em todo o mundo comemorarem a sua importância.

A importância dos rios
Os rios desempenharam, desde o início da civilização humana, um muito importante papel. Muitos dos assentamentos humanos, cidades que ainda hoje conhecemos, estabeleceram-se, um pouco por todo o mundo, nas margens dos cursos de água. As cidades eram aqui erigidas pela disponibilidade de água e pela existência de terras férteis para a prática da agricultura nas suas proximidades, demonstrando assim o grande papel que os rios desempenharam na História.

Os rios não conhecem fronteiras políticas, ligam diferentes nações ao longo de todo o seu curso tendo diferentes línguas, culturas e religiões, conectam os oceanos, vales e montanhas como uma ligação para a biodiversidade. Ainda hoje somos dependentes dos cursos de água para tudo. Desempenham um papel muito importante no ciclo da água.

Cada rio é único em termos de fluxo, paisagens, espécies que suporta e ecossistemas associados. Sem eles, a nossa vida seria indubitavelmente diferente e viveríamos, não só nós humanos, mas como toda a biodiversidade animal, certamente num cenário completamente distinto daquele a que nos habituámos a viver.

Causas provocadas pelo Homem colocaram em todo o Mundo, milhares de rios, em sérias dificuldades e sujeitos a ameaças. A água doce é a base da vida no planeta Terra, por isso, a sua escassez e o seu uso abusivo e inadequado representam uma cada vez maior ameaça ao seu desenvolvimento, à proteção do ambiente e da biodiversidade e à própria vivência humana.

Muitos dos rios do mundo estão ameaçados pela rápida urbanização, industrialização e aumento da poluição, espécies aquáticas invasoras e as alterações climáticas, entre outros. A poluição é a principal responsável pela diminuição das reservas naturais de água doce do planeta Terra, reservas essas que são fundamentais para toda a vida existente nele.

Todos os anos geramos cerca de 3,4 biliões de toneladas de resíduos, segundo dados da International Solid Waste Association (ISWA). Quem mais sofre com a poluição são os rios, já que praticamente todas as formas de poluição acabam por afetar a água.

As secas meteorológicas serão cada vez mais intensas e frequentes devido às alterações climáticas, o que ameaça os rios.

De acordo com um estudo divulgado pela organização “World Wide Fund for Nature” (WWF) em agosto, os quatro rios mais importantes do continente europeu - Danúbio, Pó, Reno e Vístula - registaram recordes nos seus níveis mínimos, ameaçando negócios, indústria, agricultura e o consumo de água.

O mesmo estudo mostra que a Europa será cada vez mais propensa a secas e escassez de água. De acordo com o mesmo estudo, 17% da população europeia enfrenta um grande risco de escassez de água até 2050, mas 60% dos rios da Europa estão, atualmente, pouco saudáveis.

"Os rios saudáveis são fundamentais para a construção de resiliência e adaptação dos impactos das alterações climáticas" - WWF.

Os rios fazem parte das nossas comunidades. São parte integrante do nosso meio ambiente e são vitais para nós, humanos, e para a vida animal. Cabe-nos preservá-los, perceber os riscos associados à sua perda, chamar a atenção para as suas necessidades e ameaças urgentes. Se continuarmos a esgotá-los a este ritmo poderemos sofrer consequências devastadoras, comprometendo a nossa vida e as gerações futuras.

A morte de Mahsa Amini gera uma onda de protestos no Irão


O nome dela é Mahsa Amini. Tinha 22 anos e foi espancada pela polícia iraniana, por uso “indevido” do véu islâmico. Morreu no hospital, em decorrência da surra, na sexta-feira, 16 de setembro.

Essa morte gerou protestos e mais repressão policial. Há relatos de mulheres impedidas de entrar em edifícios estatais ou em bancos por não cumprirem o código de vestuário islâmico.

Mulheres iranianas são obrigadas a cobrir os cabelos e a usar roupas largas para esconder o corpo. No Brasil, são consideradas culpadas de violação se usam saias curtas ou decotes fartos. Em África são obrigadas a usar colares mutilantes como forma de controlar sua castidade. Em mais de 40 países da África e da Ásia têm o clitóris mutilado para que não sintam prazer. Na Índia são mortas ao nascer porque nasceram mulheres.

13 de setembro. Mahsa Amini visitava Teerão, Irão, com a família quando foi presa pelo uso "inapropriado" do véu islãmico, hijab, tendo assim incumprido as regras e desrespeitado o código de vestuário da República do Irão. Neste país, as mulheres são obrigadas a tapar o cabelo e pescoço com o hijab quando estão em público. Entre muitas outras proibições, está também o uso de saias e calças justas ou roupa com cores vivas. A jovem foi levada para o Centro de Detenção de Vozara - onde acabou por desmaiar - para aprender o código de vestuário, afirma a CNN. Foi transportada para o hospital e acabou por morrer, passados três dias em coma. A BBC aponta para a existência de registos de que os agentes atingiram Amini com um bastão e forçaram a sua cabeça contra um veículo oficial, repetidamente e de forma brusca. Já a polícia do Teerão afirma que "não houve nenhum contacto físico" entre os oficiais e Mahsa Amini.

Este acontecimento lançou uma onda de manifestações pelo país fora, em cidades como Teerão, Rasht, Ispahan e no sul do Irão. Muitas mulheres não estão a usar os seus hijabs em público e a queimá-los, enquanto gritam "Morte ao ditador!", referindo-se ao líder supremo do Irão, Ayatollah Ali Khamenei.

Mulheres a protestar contra o uso do 'hijab'
Mulheres a protestar contra o uso do 'hijab'Foto: Getty Images
Os protestos estendem-se até às redes sociais, onde existem cada vez mais vídeos de mulheres iranianas a cortar o próprio cabelo, como aqui mostramos

No último dia 20, as autoridades afirmaram que os seus carros foram queimados pelos protestantes e que os agentes de autoridade foram atingidos com pedras. De forma a retaliar, a polícia usou gás lacrimogéneo para afastar multidões. A BBC avança que já foram mortas 9 pessoas que se encontravam nas manifestações, por estarem a quebrar as regras do hijab.
Polícia retalia contra os manifestantes em Teerão
Polícia retalia contra os manifestantes em TeerãoFoto: Getty Images
As Nações Unidas já condenaram este ataque e as autoridades pelas suas atitudes violentas para com os manifestantes.

O grupo não governamental Iran Human Rights, com sede em Oslo, afirmou que pelo menos 31 civis tinham sido mortos em seis noites de violência.

O Tesouro dos EUA também impôs sanções a Mohammad Rostami Cheshmeh Gachi, o chefe da polícia de moralidade, Haj Ahmad Mirzaei, o chefe da divisão de Teerão da polícia de moralidade, e cinco outros altos funcionários de segurança envolvidos nas repressões dos manifestantes.

O jornal afirmou que Rostami tinha anunciado no início deste ano que as mulheres seriam punidas por se recusarem a usar um hijab.

"O governo iraniano precisa de acabar com a sua perseguição sistémica às mulheres e permitir o protesto pacífico", disse o Secretário de Estado norte-americano Antony Blinken, "os Estados Unidos continuarão a manifestar o nosso apoio aos direitos humanos no Irão e a pedir contas àqueles que os violam".

As sanções do Tesouro visam congelar quaisquer bens que os designados possam ter sob jurisdição dos EUA e proibir qualquer indivíduo ou empresa americana - incluindo bancos internacionais com operações nos EUA - de fazer negócios com eles, limitando efetivamente o seu acesso a redes financeiras globais.

sábado, 24 de setembro de 2022

Carl Sagan - Sobre Impostores - Demagogos


Literatura Gótica


Gosto imenso de literatura gótica, do macabro, contos repletos de escuridão, masmorras de castelos medievais, bruxas, vampiros, lobisomens, criptas, transumanismo, cyborgs, a morte, a arte fúnebre, pós-morte, druídas, feitiçaria, feitiços, monstros humanos e extraterrestres. Gosto de autores que explorem ambientes sombrios e usem o sobrenatural. Que usem de recursos filosóficos da  mitologia grega, mitologia hindu, mitologia céltica, mitologia dos povos indígenas, mitologia cristã e paleo-cristã, do misticismo, em geral.

No geral a literatura gótica baseia-se na sombra, do mais enigmático da psicologia e na espiritualidade.  Distingue-se da literatura de terror/horror, pois esta baseia-se mais em zombies (mortos-vivos), necrofilia, cenas sanguinárias, casas assombradas, fenómenos paranormais, canibalismo, satanismo, exorcismo, sociopatas, massacres com armas violentas (punhais, machados, serras-eléctricas, etc), visões de crianças inocentes e culto do pavor. No início dos anos 2000, houve uma onda de cinema francês com forte caráter gore e tortura . Dentro dessa tendência sangrenta e descarada, Mártires foi uma joia que não só gerou polémica pelas suas cenas de violência explícita ao extremo, como também levantou bolhas por suas críticas ao fanatismo religioso e à fé.

Faz parte da literatura gótica personagens melodramáticas: donzelas, cavaleiros, seres vis; e uma simbologia repetitiva: mistérios que surgem de tempos passados, manuscritos ocultos, previsões do futuro, imprecações. Algumas obras recorrem igualmente à psicologia do terror – o pavor, a insanidade mental, os abusos da sexualidade, entre outros temas; a esfera transcendental – espíritos, seres demoníacos, monstros alienígenas; meditações sobre a esfera do Poder – sistema colonial, as tarefas que cabem ao feminino, etc. -; debates políticos – monarquia, república, revoluções, estética nazista, estética soviética; tópicos religiosos – Inquisição, Cruzadas, etc.

Origem da palavra Gótico
O primeiro autor a referir-se ao termo gótico relacionado com literatura foi Addison nos seus ensaios. No entanto, utiliza este termo como sinónimo de bárbaro. A obra de Tobias Smollet " The Adventures of Ferdinand Count Phatom" (1753) também possui alguns dos elementos góticos. Mas é só a partir da obra The Castle of Otranto (1764), da autoria de Sir Horace Walpole, que a verdadeira literatura de cariz gótico entra nos círculos literários. Esta obra, apesar de todas as suas inverosimilhanças, teve uma grande influência para os autores que se seguiram. É a partir dela que se começa a utilizar o terror, o sobrenatural e o macabro como possíveis fontes de ficção. O submundo do inconsciente não entrava, porém, nas criações de Walpole. O uso que faz do termo gótico deve-se à sua preocupação em reconstituir o ambiente medieval – logo longínquo – que permitiria o uso da superstição, de ambientes misteriosos e terríficos.

A palavra gótico tem origem numa tribo germânica, os Godos, que por volta do século II a.C. se tinha instalado nas margens do Báltico. Esta palavra entra no vocabulário significando germânico e mais tarde, com o Renascimento e o Iluminismo, medieval. Gótico seria tudo o que dissesse respeito à Idade Média, vista como a Idade das Trevas e associada à brutalidade, às superstições e ao feudalismo. Assim, e até ao século XVIII, a palavra era usada de forma depreciativa.

Em arquitectura, o estilo gótico surge em meados do século XII e prospera até ao século XVI. Este estilo expressava a essência da fé católica, preocupada em criar um ambiente onde se sentisse a presença de Deus, incorporando algum simbolismo pagão – as gárgulas são um bom exemplo disso. A arte e arquitectura góticas tinham por objectivo criar um efeito sobrenatural e mágico no espectador, evocando uma espécie de terror, vulnerabilidade, temor, o sentir-se à mercê de um poder superior – ponto de vista do mundo medieval – e é isso que é recuperado em muitos dos romances gótico. Desta forma, a ligação entre o termo artístico gótico e o termo literário, encontra-se na ênfase que ambos dão às emoções.

No Século XVIII, e ao mesmo tempo que o Romance se estabelecia como forma literária, houve, por parte de alguns autores, um interesse por tradições mais antigas e orais, pelas sagas e baladas islandesas, nórdicas e celtas e pela literatura da Idade Média. Isto seria uma reacção contra algumas das ideias do Iluminismo. Muito do imaginário do que futuramente se denominaria literatura gótica, existia já nos elementos sobrenaturais das baladas e nos excessos dos romances de cavalaria medievais. É na primeira metade desse século que aparece também a Graveyard School of Poets (Os Poetas do Cemitério). Poetas como Thomas Parnell, Thomas Gray e Edward Young, que escreviam longos poemas meditativos sobre a morte e a imortalidade da alma, normalmente passados em cemitérios, lançaram algumas das sementes do movimento gótico. Os principais objectos poéticos destes autores eram os cemitérios, a noite, as ruínas, as almas penadas, a morte, todos eles futuros temas do romance gótico.

O século XVIII foi o século do revivalismo gótico, primeiro na arquitectura e jardinagem e só depois na literatura. O Romantismo, como movimento literário, dava preferência ao esplendor, ao pitoresco, à felicidade dos tempos passados, ao sublime espectáculo da natureza, à paixão e à beleza extraordinária. Era considerado o oposto do clássico. O gótico distinguia-se pelo seu fascínio pelo horrível, pelo repelente, pelo grotesco e sobrenatural, pelas atmosferas de mistério e suspense, pelo medieval. A junção desses elementos faz com que surja o romance gótico.

A escola gótica inglesa demonstrou-se sempre fiel à preocupação didáctica do século XVIII, que justificava o uso da crueldade e da perversidade como forma de glorificar a virtude – que no final sempre triunfava. Na sua essência, este tipo de romance é, primeiramente, um romance sentimental onde intervém o sobrenatural. O seu esquema fundamental implica uma donzela virtuosa, um herói apaixonado e um vilão que não olha a meios para obter os seus fins. A isto acrescentam-se as forças ocultas do sobrenatural e um ambiente tenebroso. Alguns dos elementos que constituem este romance gótico são, entre outros, os seguintes: a existência de um antigo manuscrito; a magia; os fantasmas ou espectros; a loucura e os sonhos proféticos; um castelo antigo ou em ruínas; as obras de arte, armaduras e espadas ferrugentas; os crimes e imenso sangue; a religião católica; a Itália; e a Natureza como leit-motif.

O romance gótico fica estabelecido e muitos autores viram no romance de Walpole uma boa fonte de inspiração, como é o caso de Clara Reeves com o romance The Champion of Virtue. A Gothic Story, publicado em 1777, mais conhecido pelo nome com que é reeditado no ano seguinte: The Old English Baron. 

No século XVIII racionalista, a incongruência do romance gótico encontrava-se na intervenção do sobrenatural. Isto foi resolvido por Ann Radcliffe que, no final dos seus romances, explicava sempre o sobrenatural por elaboradas causas naturais. É com os romances de Radcliffe que o gótico, com os seus elementos de terror e suspense, se assume como uma moda literária. Dos seus seis romances góticos, o mais famoso é, sem dúvida, The Mysteries of Udolpho, de 1794. É também a partir de Ann Radcliffe que as histórias passam a ser góticas, não por serem passadas em tempos distantes e medievais, mas pelo seu cenário. Há uma tentativa de aproximação do romance aos tempos mais próximos.

Se com Radcliffe se concretizou o «terror» gótico, é com Matthew Gregory Lewis e o seu romance The Monk publicado em 1796, que a violência brutal e os pormenores macabros passam para o romance e se concretiza o «horror» gótico. Lewis é o mais alto expoente da influência da escola gótica alemã em Inglaterra. A preocupação com a glória da virtude não existiu nesta escola, deixando espaço para a criação de formas de terror mais violentas por parte de Lewis.

Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann (Königsberg, 24 de janeiro de 1776 – Berlim, 25 de junho de 1822), mais conhecido por E. T. A. Hoffman, foi um escritor romântico, compositor, desenhista e jurista alemão, sendo sobretudo conhecido como um dos maiores nomes da literatura fantástica mundial.

As suas histórias foram a base da famosa ópera de Jacques Offenbach, Os Contos de Hoffmann, em que Hoffman aparece como personagem. O balé O Quebra-Nozes de Piotr Illitch Tchaikovsky foi baseado no seu conto "O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos", o ballet Coppélia foi baseado em outros contos seus e a Kreisleriana de Robert Schumann é baseada no personagem Johannes Kreisler, criado por Hoffmann.

Este período foi fértil em autores e obras. Nomeadamente: Lord Byron (Horas de Lazer; Poetas Ingleses e Críticos Escoceses; A Peregrinação de Childe Harold; O prisioneiro de Chillon; Manfred; Beppo; Don Juan) e William Blake  (Songs of Innocence; Book of Thel; A Song of Liberty; The Marriage of Haven and Hell; Songs of Experience; The Song of Los; Milton; Everlasting Gospel; Jerusalem)
 
A última grande figura do panorama gótico desse século é, indubitavelmente, Charles Robert Maturin que, com o romance "Melmoth, the Wanderer" (1820), faz com que o gótico atinja altitudes nunca antes vistas, em que o medo sai do reino do convencional e desaba sobre a humanidade. O terror inspirado é ao nível do espírito.

Já no século XIX, o gótico continua a proliferar e os romances góticos, tanto Ingleses, Franceses como Alemães, continuam a aparecer em abundância: Edgar Allan Poe; Charles Baudelaire; Mary Shelley: (Frankenstein ou O Moderno Prometeu),  Lewis Carroll e as suas obras "Alice no País das Maravilhas"; "Alice no País do Espelho"; "Algumas Aventuras de Silvia e Bruno"; "Rimas do país das maravilhas"; "A caça ao Turpente" e Rudyard Kipling ("The Phantom Rickshaw," "The Strange Ride of Morrowbie Jukes," e "The Mark of the Beast" )

No final do séc. XIX surgem expoentes da literatura gótica Brasileira -Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos ("Saudade"; "Eu e Outras Poesias"; "Psicologia de um Vencido"; "Versos íntimos") e Cruz e Souza ("Tropos e Fantasias"; "Missal e Broquéis"; "Evocações"; "Faróis"; "Últimos Sonetos").

Em Portugal alguns poemas de Bocage e no início do séc. XX a grande poetisa Florbela Espanca, em especial:  "Livro de Mágoas"; "Livro de Sóror Saudade"; "Charneca em Flor"; "Juvenília"; "Reliquiae" e "Sonetos Completos".

Nos EUA, Charles Brockden Brown é o responsável pela difusão do gótico, embora tenha transposto a acção dos seus romances para palcos mais familiares aos seus leitores. Em vez de castelos em ruína, usa como palco florestas e longínquas localidades, que, no entanto, possuem o mesmo espírito gótico. Muitos poemas de Emily Dickinson são góticos.

É no teatro que o domínio do «negro» entra mais cedo. Em Inglaterra, já Shakespeare utilizara, nas suas peças, uma parte dos elementos que se encontram na escola gótica, como é o caso do fantasma em Hamlet, as bruxas em Macbeth ou o carácter distorcido de Ricardo III na peça com o mesmo nome. Na Alemanha, o movimento do Sturm und Drang – nome de uma peça de Klinger – difunde um novo género de drama. A sua influência em Shakespeare e suposta liberdade dos padrões clássicos, eram uma revolta contra as convenções e doutrina do classicismo francês. Os dramas eram de índole nacionalista, caracterizados pelo fervor, entusiasmo, retrato de grandes paixões, fortes experiências emocionais e lutas espirituais que irão influenciar o drama gótico. Todavia, as suas convenções foram estabelecidas pela literatura gótica. O efeito da popularidade dos romances góticos fez com que as produções dramáticas fossem em grande número. Robert Jephson foi o primeiro dramaturgo gótico: The Count of Narbonne (1781) é uma dramatização de The Castle of Otranto. Jephson simplificou e reduziu muito do romance, omitindo alguns dos elementos sobrenaturais que teriam sido difíceis de colocar em palco. Joanna Baillie distinguiu-se, com a peça De Monfort (1800), pela representação da mulher no gótico. A sua peça é uma crítica aos vários modos convencionais de dramatizar a mulher. É um thriller psicológico, que utiliza cenários, personagens e atmosferas góticas. 

Porém, a escola gótica tinha-se afundado no absurdo sendo um alvo fácil para a sátira, como o comprova Jane Austen em Northanger Abbey (1817). O romance gótico sucumbe perante a sua própria extravagância mas os mecanismos e imaginário góticos continuam a assombrar a ficção de escritores como Edgar Allen Poe, Oscar Wilde (O Retrato de Dorian Gray; O Fantasma de Canterville; O Filho da Estrela; Rosa Mystica; Flores de Ouro) e Nathanial Hawthorne. Há uma incorporação de alguns elementos góticos em obras posteriores. Um bom exemplo disso é Dracula de Bram Stoker, publicado em 1897.

No século XX, a literatura gótica encontra seguidores. Na primeira metade do século autores como M. R. James, Algernon Blackwood, Shirley Jackson, Edward Plunkett, Howard Phillips Lovecraft, Daphne du Maurier, Marion Zimmer Bradley e William Gerald Golding  são figuras de destaque. Após os anos 80, Anne Rice, Poppy Z. Brite e Patrick McGrath continuam a utilizar alguns dos consagrados elementos góticos. 

Charles Samuel Addams (Westfield, 7 de janeiro de 1912 — Nova Iorque, 29 de setembro de 1988) foi um cartoonista norte-americano conhecido por seus personagens macabros e por seu humor pouco convencional.

Ficou conhecido por ter criado A Família Addams, baseados em alguns personagens recorrentes de suas tirinhas. A família tornou-se famosa nas tirinhas do jornal The New Yorker e ganharam série de TV, musical e filmes para o cinema..
 
Edward Gorey foi um autor plurifacetado e prolífico. Os seus livros "fora da caixa" criaram um culto em torno dele. Essencialmente ilustrador e criador de figurinos para peças teatrais. As principais obras mais conhecidas são "The Doubtful Guest" e "The Gashlycrumb Tinies".

Howard Allen O'Brien, mais conhecida como Anne Rice é também uma excelente representante da literatura gótica. Nos seus livros, invariavelmente apresenta os vampiros como indivíduos com paixões, teorias, sentimentos, defeitos e qualidades, tal como os seres humanos, mas, com a diferença de terem que lutar pela sua sobrevivência por meio do sangue de suas vítimas e sua própria existência que, para alguns deles, é um fardo a ser carregado através das décadas, séculos e até mesmo milénios.

O seu livro de maior sucesso é "Entrevista com o vampiro". Anne relata que escreveu esse livro em apenas uma semana, após a morte de sua filha por leucemia, retratada na personagem Cláudia.

Terence David John Pratchett, OBE (Beaconsfield, Buckinghamshire, 28 de abril de 1948 – Broad Chalke, Wiltshire, 12 de março de 2015) foi um escritor inglês, mais conhecido pelos seus livros da série Discworld.

Terry Pratchett começou a se interessar por literatura de fantasia lendo as obras de J.R.R. Tolkien aos treze anos, na mesma época em que vendeu sua primeira história. Pratchett explica em seu site que com o dinheiro recebido, comprou uma máquina de escrever em segunda mão. A sua primeira novela humorística é "The Carpet people", e o editor Colin Smythe publicou-a em 1971. Após trabalhar em jornalismo e assessoria de imprensa por anos, escrevendo nas horas vagas, ele publicou "A Cor da Magia" em 1983, e o grande sucesso do livro, inaugurando a série Discworld, acabou por levar o autor a uma carreira literária em tempo integral.

Através de um humor cáustico e irónico ele usa histórias ambientadas num mundo de fantasia para trazer à tona incoerências e idiossincrasias bem reais. No entanto, consegue fazer isso sem prejudicar as características mais marcantes das suas obras: o bom humor e o entretenimento inteligente. O seu sucesso há muito que ultrapassou as fronteiras da Inglaterra, tendo os seus livros publicados em 36 idiomas.

William Golding é o meu favorito. São inúmeras as suas obras e reflexões  sobre parapsicologia, linguística, politeísmo, cristianismo, misticismo, o terror psicológico, as lutas espirituais, o absurdo, a obsessão, a monomania. Saliento "A Duas Vozes" e "O Pináculo".

Literatura gótica e ficção científica
Um dos autores mais impressionantes nesta vertente é sem sombra de dúvida William Gerald Golding. Os seus romances são fábulas sobre o mal, e sondam o abismo entre o mundo da ciência/razão e o mundo da verdade espiritual. Apresenta uma visão "verde" da natureza, como um ecossistema renovável, sob a ameaça sempre presente do homem. Conquistou o pódio gótico com o romance Lord of the Flies (1954)- O Senhor das Moscas. A obra recria acontecimentos que decorreriam num futuro próximo, e conta a história de um grupo de crianças, após terem sido evacuadas de Inglaterra por causa de uma guerra nuclear, sobrevivem ao despenhamento do avião em que seguiam, e que mata todos os adultos. Chegando a uma ilha de coral, formam a sua própria sociedade, que começa por ser solidária e justa, para se ir tornando gradualmente numa autêntica anarquia. 

Marion Zimmer Bradley e as suas histórias de ficção científica do ciclo Darkover (um planeta onde os seres humanos, ao contacto com os alienígenas, adquirem poderes extrapsíquicos) continuam a ter numerosos admiradores.

O gótico viu-se envolvido no séc. XX entre a literatura e roteiros para programas e séries da rádio, televisão, cinema e jogos de consola e online.
The Twilight Zone (Além da Imaginação no Brasil e A Quinta Dimensão em Portugal) é sem dúvida uma série marcadamente gótica. Criada por Rod Serling e dirigida por Stuart Rosenberg, apresenta histórias de ficção científica, suspense, fantasia e terror. Mediante o sucesso popular da série, ao longo de sua história foram realizadas diversas temporadas e continuações. Além da imaginação (1959) da CBS, possui 5 temporadas e 156 episódios, enquanto que na década de 1980 foi lançada, ainda pela CBS O Novo Além da imaginação, com três temporadas. Essa primeira continuação foi precedida por um filme, No Limite da Realidade. Já no século XXI, houve a produção, pela UPN, de Além da imaginação (2002) com apenas uma temporada, apresentada por Forest Whitaker.

Em 1 de abril de 2019, foi lançado pela CBS All Access um novo revival "The Twilight Zone (2019)". Inicialmente foi encomendado uma temporada de dez episódios.

O programa The Twilight Zone seguiu a tradição de programas de rádio mais antigos, como The Weird Circle e X Minus One, além dos trabalhos de rádio do dramaturgo Norman Corwin.

Entre 1974 e 1975 é exibida a série Kolchak: The Night Stalke. Conta as investigações do repórter Carl Kolchak, que vai atrás de casos misteriosos, geralmente envolvendo assassinos monstruosos e sobrenaturais. A série foi precedida por 2 filmes pilotos para TV: The Night Stalker (1972) e The Night Strangler (1973).

Christopher Marlon Carter ficou mundialmente conhecido por escrever e dirigir a série /filme X-files, que envolve extraterrestres, teorias da conspiração e ciência.  A série foi exibida originalmente entre 10 de setembro de 1993 e 19 de maio de 2002. 

Mais célebre e multifacetado é William Ford Gibson. Chamado de "profeta noir" do cyberpunk, subgénero da ficção científica, Gibson cunhou o termo "ciberespaço", em seu conto Burning Chrome e posteriormente popularizou o conceito no seu romance de estreia e obra mais conhecida, Neuromancer, de 1984, primeiro volume da aclamada trilogia Sprawl. Prevendo o ciberespaço, Gibson criou uma iconografia para a era da informação antes da omnipresença da internet na década de 1990.Também é creditado a ele a previsão do surgimento da "televisão de realidade/reality show" e de estabelecer as bases conceituais para o rápido crescimento de ambientes virtuais como jogos e internet. Gibson é um dos mais conhecidos escritores de ficção científica norte-americana, festejado pelo The Guardian em 1999 como "provavelmente o mais importante romancista das duas décadas passadas". Ele tem escrito mais de vinte contos e nove romances aclamados pela crítica (um em colaboração), e contribuiu com artigos para várias importantes publicações e colaborou bastante com performances de artistas, cineastas e músicos. Seu pensamento tem sido citado como uma influência em autores de ficção científica, design, académico, cibercultura e tecnologia.

É também roteirista, tendo escrito o roteiro do filme Johnny Mnemonic - O Cyborg do Futuro baseado  num conto escrito por ele em 1981, dois episódios da série de televisão Arquivo X e o primeiro roteiro de Alien 3 que foi posteriormente reescrito e modificado.

Os conceitos e ideias de Gibson influenciaram diretamente a trilogia cinematográfica Matrix, de autoria das Irmãs Wachowski.

George Raymond Richard Martin é um roteirista e escritor de ficção científica, terror e fantasia norte-americano. É mais conhecido por escrever a série de livros de fantasia épica As Crónicas de Gelo e Fogo, que originou a bem sucedida série televisiva Game of Thrones (A Guerra dos Tronos).

Frank Patrick Herbert  foi um escritor de ficção científica e jornalista americano de grande sucesso comercial e de crítica. Ele é mais conhecido pela obra Duna, e os cinco livros subsequentes da série. A saga de Duna trata de temas como sobrevivência humana, evolução, ecologia, e a interação entre religião, política e poder. Arthur C. Clarke escreve que Duna foi "uma obra única de ficção. Não conheço nada comparável a ela exceto O Senhor dos Anéis." 

Em 1986, surge o filme "O Labirinto", realizado e escrito por Jim Henson  e estrelado por David Bowie (actor e música do filme de fantasia)

O medo de fim do mundo assombra a história da humanidade. Desde o início do século XXI, o espectro de uma tecnologia fora de controle, ultrapassando e depois arrasando nossa espécie, persegue os especialistas. Entretanto chegam novidades góticas e de ficção científica em relação ao transumanismo, inteligência artificial e biotecnologia, como os humanos geneticamente modificados.  A inteligência artificial e as próteses digitais prometeriam ao Homo sapiens um destino de Frankenstein. Mas quem difunde essa narrativa e quem ganha com ela? [Ler: O Mito do Transumanismo].

E o gótico continua a fascinar milhões de utilizadores de jogos. The Last of Us lançado em 2013 é disso um bom exemplo. 

Os meus autores favoritos são: Ann Radcliffe,  Anne Rice, Charles Addams, Charles Baudelaire, Charles Brockden Brown,  Charles Robert Maturin, Dan Brown,,Daphne du Maurier, Danilo Kiš,  Edgar Allan Poe, Edgar Gorey, Emil Cioran, Emily Dickinson, Holly Black, Horace Walpole, J.K. Rolling, J. R. R. Tolkien,Lewis Carroll,  Lord Byron, Marion Zimmer Bradley, Mary Shelley, Matthew Lewis, M.R. James, Nikolai Gogol, Oscar Wilde, Peter Watts, Terry Pratchett, Washington Irving, William Beckford, William Blake e William Gerald Golding William Godwin,

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Recreating Terra Preta: Good Soil for Centuries!


Séculos atrás, os nativos da Amazónia conseguiram transformar o terrível barro amarelo num solo tão rico que ainda é fértil cinco séculos depois. Agora é chamado de "terra preta", a terra escura da Amazónia. Como foi feito o terra preta? Qual é o segredo por trás da terra preta? Hoje começamos uma experiência para ver se podemos recriar a terra preta na horta usando o que já sabemos.

Estrume, cacos de cerâmica, arbustos queimados, algas marinhas, ossos, resíduos de cozinha, camadas de biochar carregado, além de micronutrientes como areia verde e azomita para um incremento extra. Será que vai dar certo?

Blog diário de jardinagem de David 

Experiência revela o que uma hora na Natureza faz ao cérebro humano


A história humana desenrolou-se, em grande parte, em cenários bucólicos, com savanas espalhadas e vales fluviais florestados que acolheram os nossos antepassados durante milhões de anos.

Em contrapartida, as cidades representam um novo tipo radical de habitat. Um habitat que, apesar das suas muitas regalias, muitas vezes prejudica a nossa saúde mental. Este estudo associou ambientes urbanos a riscos acrescidos de ansiedade, depressão e outros problemas de saúde mental, incluindo a esquizofrenia.

Mas também dá pistas para uma solução: a visita à natureza selvagem, mesmo que breve, está associada a uma série de benefícios para a saúde mental e física, incluindo pressão sanguínea mais baixa, ansiedade e depressão reduzidas, melhor humor, melhor concentração, melhor sono, melhor memória, e cura mais rápida.

Inúmeros estudos têm apoiado esta correlação, mas ainda temos muito a aprender. Será que apenas caminhar numa floresta pode realmente desencadear todas estas mudanças benéficas no cérebro? E, em caso afirmativo, como?

Um bom lugar para procurar pistas é o hipotálamo, uma pequena estrutura no centro do cérebro envolvida no processamento do stress, na aprendizagem emocional, e na resposta de luta ou de voo.

A investigação indica que o hipotálamo é menos ativado durante o stress nos residentes rurais do que nos habitantes das cidades, mas isso não significa necessariamente que a vida rural cause este efeito. Talvez seja o oposto, e as pessoas que naturalmente têm esta característica são mais propensas a viver no campo.

Para abordar esta questão, investigadores do Instituto Max Planck para o Desenvolvimento Humano conceberam um novo estudo, desta vez com a ajuda da imagem de ressonância magnética funcional (fMRI).

Utilizando 63 voluntários adultos saudáveis, os investigadores pediram aos participantes que preenchessem questionários, realizassem uma tarefa de memória de trabalho e se submetessem a exames de fMRI enquanto respondiam a perguntas, algumas das quais foram concebidas para induzir stress social. Os intervenientes foram informados de que o estudo envolvia a ressonância magnética e a realização de um passeio, mas não sabiam o objetivo da investigação.

Assim, foram designados aleatoriamente para dar um passeio de uma hora num ambiente urbano ou natural.

Os investigadores pediram-lhes que fizessem um percurso específico em qualquer dos locais, sem sair desse sítio ou usando os seus telemóveis ao longo do mesmo. Após a caminhada, cada participante fez outro exame fMRI, com uma tarefa adicional indutora de stress, e preencheu um novo questionário.

Segundo os investigadores, os exames mostraram uma atividade reduzida no o hipotálamo após um passeio na floresta, o que sustenta a ideia de que a natureza pode desencadear efeitos benéficos nas regiões cerebrais envolvidas com stress. E aparentemente isso pode acontecer em apenas 60 minutos.

Há uma relação “positiva” entre a natureza e a saúde cerebral
“Os resultados sustentam a relação positiva anteriormente assumida entre a natureza e a saúde cerebral, mas este é o primeiro estudo a provar a relação causal”, disse a neurocientista ambiental Simone Kühn.

Os participantes que fizeram um passeio na floresta também relataram mais prazer no próprio passeio do que aqueles que fizeram passeios urbanos, uma descoberta consistente com os resultados do estudo fMRI, bem como de pesquisas anteriores.

Relativamente aos indivíduos que fizeram caminhadas urbanas, embora a sua atividade no  hipotálamo não tenha diminuído como os que fizeram caminhadas na natureza, também não aumentou, apesar de terem passado uma hora num ambiente urbano movimentado.

O novo estudo oferece algumas das provas mais claras de que a atividade cerebral relacionada com o stress pode ser reduzida através de um passeio por uma floresta próxima, tal como os nossos antepassados poderiam ter feito.

Saber mais:
Cheiro de mato: odores emitidos pela natureza podem evitar stress e cancro

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Energy flows where attention goes


How To Protect Your Energy

Everybody Wants Your Time
Life can be hectic. Between work, school, friends, family, bills, and other obligations, you may feel that the minutes that you have to yourself are few and far between. If you are in a helping field such as social work, nursing, or counseling, you may begin your day early and give so much of yourself in that shift that you may not feel you have any words left by the end of the day. 

Everyone has days where they feel they are being pulled in a thousand directions. Those are the days where it seems that almost everyone you know is in crisis, and the only person in the world they can speak to is you. While it is understandable that you may want to try and hold space for everyone around you in crisis, being there all the time for everyone can be mentally and emotionally draining. 

As humans, it is our nature to want to help ease the pain and worries of those we care about. As a result, we give a lot of ourselves each day to be kind and empathetic to those close to us. We fail to realize that our mental and physical needs are just as important, if not more so than those we are trying to help. 

Your energy may seem endless to others, but beneath the smiles and positivity, you might be exhausted. The more you deny yourself time and space to recover or heal, the more you're likely to overextend yourself and end up with some mental or physical ailments as a result. Whatever you refuse to feel is trapped within the confines of your body, and this trapped energy often manifests in backaches, migraines, and other physical discomforts. Protecting your energy by recharging and spending it carefully is a lesson everyone must learn.

Ways to Protect Your Energy
You don't have to be everyone's superman. Eventually, being available for everyone 24/7 will cause you to hit a wall where you must take time to yourself to recharge, and then you can't help anyone. Instead, follow these guidelines to protect yourself from burnout.

Set clear and firm boundaries: This act of self-preservation is a challenging task. Your friends and family may even get mad at you when you're no longer available to them all the time. That's okay—they'll be back, and when they come back in a calmer state of mind, explain to them that you'll still be there for them, but they need to practice taking care of themselves rather than relying on you to take on emotional, physical, or time burdens for them. This doesn't mean you can't ever help them. Instead, set boundaries regarding time and emotional drainage and stick to them.

Set aside time that is just for you: If someone calls, you do not have to answer the phone. Consider turning off your phone for a few hours. See how it feels to be completely alone: you may like it! Recognize that there is a difference between having alone time and isolating. If you find yourself isolating, reach out for mental health counseling or consider spending time with friends or family.

Recognize your emotions: Helpers are experts at compartmentalizing, even suppressing, emotions. You are aware that any reaction from you as someone tells their story could trigger more intense emotions. You have trained yourself to respond and not react. You are so good at shutting off your feelings that you often forget to turn them back on when dealing with your personal life.

Keeping our emotions trapped in your body has the potential to manifest into physical aches and pains. Your body continues to store those feelings you stuff down and forget about. People often complain about their hips bothering them and are unsure why. Your hips are like the body's junk drawer, which means this is the place where the body stores past hurts, traumas, and negative emotions.

Limit your exposure to negativity: Listen to what your body is telling you. If you don't feel comfortable in any situation or conversation because someone is being negative through gossip, judgment, complaint, or anything else, you do not have to engage. You don't have to make excuses or find a way to leave. Simply excuse yourself and leave the room.

Surrounding yourself with positivity takes practice, and it can be difficult on some days. There will be moments, and when they happen, remind yourself that some things in this world you cannot control. You will also have to remind yourself that, though you can't always control situations or how other people will react to them, you can control how you react.

Sobre a Bicicleta em Portugal

O estranho caso do país que é líder europeu destacado na produção de bicicletas, com mais de 2,9 milhões de unidades (1 em cada cinco fabricadas na Europa saem de Portugal), mas que é o lanterna vermelho na sua utilização diária para o trabalho ou escola.


Pois, o teletrabalho parece fazer mais pelo ambiente, em Portugal, que o automóvel e a bicicleta. As escolas, as empresas não estão preparadas para resolver coisas simples para quem usa bicicleta: Onde trocar de roupa? Onde tomar um duche? 
Ciclovias desadequadas. Mal feitas.  
Parques? Deslocamentos simples até um supermercado e só temos uns 3-4 lugares, escolas idem, empresas idem.... 
Vandalismo, seguros, passadeiras  troca de pneus, falta de policiamento municipal. 
Empregos a 10 ou mais Km sem transportes públicos DIRECTOS e adequados...Muito para resolver...
Cada cidade portuguesa é um caos/ diversos problemas e MUITO poucas cidades planas.

Estratégia Nacional para a Mobilidade Ativa Ciclável (2020-2030)

Em 2011, segundo os Censos, apenas 0,5% das deslocações pendulares em Portugal eram feitas de bicicleta. O objetivo é atingir, até 2030, 7,5% das deslocações pendulares em todo o território nacional e 10% das deslocações pendulares nas cidades.

Entre as razões apontadas para esta aposta estão:
  • Promoção de saúde, combatendo a inatividade física que constitui um fator de risco que afeta particularmente a população portuguesa (assim reduzindo também os gastos do Serviço Nacional de Saúde);
  • Fortalecimento da economia e criação de emprego, reduzindo tempo de deslocações, reduzindo custos (associados a congestionamentos, sinistralidade, saúde, gastos com transporte, etc.), alargando o acesso a oportunidades de trabalho, beneficiando a economia de proximidade e o turismo, desenvolvendo o cluster da indústria da bicicleta em Portugal;
  • Melhoria do ambiente, contribuindo para os compromissos nacionais decorrentes do Acordo de Paris, no sentido de garantir a neutralidade carbónica em 2050;
  • Reforço da cidadania, ao promover a humanização das cidades, a participação na vida pública e a inclusão social.
A visão da Estratégia é:
Um país “orgulhosamente ativo”, onde caminhar e pedalar são atividades seguras e amplamente praticadas, constituindo opções de mobilidade acessíveis e atrativas, maximizando benefícios para a saúde, economia e emprego, ambiente e cidadania.
Entre as medidas propostas estão: o aumento das ciclovias, passando dos atuais 2 mil kms para 10 mil kms;  a inclusão da bicicleta como matéria nuclear do currículo de educação física, desde o 1º ciclo ao secundário; o possível alargamento do seguro escolar para as deslocações de bicicleta; medidas de acalmia de tráfego com a implementação de “zonas 30” e “zonas 20” como limites máximos de velocidade; a integração com os transportes públicos; incentivos fiscais para os cidadãos e organizações; o aperfeiçoamento do código da estrada e a sua execução efetiva; promoção do uso de bicicletas de carga no âmbito da logística urbana; o desenvolvimento de uma base de dados para fins de monitoramento, apoio à decisão política e fonte de informação para a investigação, entre outros.

O objetivo é também normalizar a utilização da bicicleta e promover uma cultura de mobilidade ativa, no âmbito de uma desejada mudança societal ao nível de comportamentos e mentalidades.

A missão geral da Estratégia é assim colocada:
Incentivar e generalizar o “andar a pé” e “andar de bicicleta” nas deslocações quotidianas e de lazer, tornando a mobilidade ativa a forma mais popular para percorrer curtas distâncias, potenciando sinergias com o transporte público em todo o território nacional e melhorando significativamente a qualidade de vida dos portugueses.

Baterias a baixo-custo e abundantes na Natureza


As baterias vão ter um papel fundamental na transição energética. De uma forma simples, sem baterias não há transição energética.

A última década mostrou avanços em custo, em densidade energética e performance incríveis das baterias que tornou, desde já, possível que a mobilidade eléctrica possa arrancar em escala.
Mas o caminho está só a começar e precisa de ir bastante mais longe para que a transição energética possa ser uma realidade.

O nível de investimento em investigação que se está a fazer em baterias é simplesmente impressionante. Os EUA e também a Europa estão a olhar para esta tecnologia de uma forma estratégica como olham por exemplo microprocessadores. A história da Northvolt na Suécia é incrível. As 3 giga factories aqui ao lado em Espanha mostra que, com atraso, o Ocidente está a acordar.

Não só as baterias precisam de continuar a melhorar a densidade energética, o custo e performance como precisam de utilizar materiais abundantes para que possam ter escala num prazo curto. Materiais abundantes também ajudam em muito baixar os custos e sobretudo diminuir a dependência de materiais da China.

O MIT publicou há dias um artigo sobre uma bateria com alumínio e enxofre, materiais abundantes em quantidade, geograficamente e com cadeias de fornecimento maduras.

Vale a pena ler o artigo para quem tem interesse nestas coisas.

Música do BioTerra: Ben Mazué - Quand je marche


Oulah, faut que j'envoie ces lettres
Faut que je rappelle mon père, d'abord
Faut que je prévoie cette fête
Que j'ai promis de faire pour le disque d'or
Faut que je pense à l'été
Trouver des colos pour les gamins
Me demander quand est-ce que je les ai
Et puis pour qu'ils voient leurs cousins
Faut que je sache c'que mes sœurs ont prévu
Elles vont dire qu'elles m'l'ont déjà dit
J'vais répondre, oui mais que j'sais plus
Puis faudra qu'je pense à samedi
J'aimerai les emmener à la mer
Loin de ces humeurs grisâtres
Et dimanche, on ira voir mon père
On regardera le match tous les quatre
Pour ça faut qu'j'l'appelle d'abord lui
Puis cette fille à qui j'avais promis
Déjà y'a cinq jours que demain
J'la contacterai, c'est certain
Et que j'lui donnerai mon avis
Sur ce truc là qu'elle a sorti
Un podcast sur les interdits
Que j'ai trouvé d'ailleurs très bien
Et puis faut qu'je poste un beau contenu
J'sais pas un truc nouveau
Et vu le temps qu'je passe dessus
Beaucoup trop peu pour qu'ce soit beau
Ça va être nul et le pire
C'est que j'vais réussir à trouver un autre que moi
À qui en vouloir pour ça

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

Encontros Improváveis: Miguel Torga e David Fonteyne

David Fonteyne

"Sou poeira também, folha de outono.
Rês tresmalhada que não quer abrigo
No calor do redil de nenhum dono.
Leva-me, e livre deixa-me cair
No deserto de todas as lembranças,
Onde eu possa dormir

Como no limbo dormem as crianças."
Miguel Torga

Iniciado ainda jovem nos mistérios da cor por seu avô, David Fonteyne não consegue se lembrar de um único dia de sua vida sem pintar. Vendeu seus primeiros quadros aos doze anos, já orgulhoso de continuar a tradição familiar. A carreira artística de seus ancestrais é de facto rica em inúmeros prémios. David prefere dar rédea solta aos seus impulsos, varrer os códigos e celebrar sua independência. Inflamado pelas possibilidades ilimitadas da arte, ele dá todo o seu ser em cada uma de suas pinturas. Através de suas marinhas e paisagens, David convida o público a explorar novos territórios.

Página Oficial - David Fonteyne

Pintura- Piet Mondrian (1872 - 1944)

Farmhouse with Wash on the Line, ca.  1897  

Piet Mondrian (1872-1944) foi um pintor holandês que despontou no começo do século XX e a sua obra virou um símbolo poderoso da modernidade.

Pieter Cornelis Mondrian, conhecido como Piet Mondrian, nasceu em Amersfoort, Holanda, no dia 7 de março de 1872. Filho de um pastor cresceu num ambiente extremamente religioso.

Em 1892 ingressou na Academia Real de Artes de Amsterdão. Quando era iniciante pintava paisagens, mas já revelava uma inquietação peculiar ao moldar a natureza, os moinhos e as igrejas com uma visão geométrica do mundo.

As suas obras mais antigas seguiram o estilo da Escola de Haia e dos impressionistas de Amsterdão. Por volta de 1909 começou a pintar num estilo mais abstrato. Ao longo dos anos, objetos e paisagens foram-se decompondo em traços básicos. Para Mondrian o mínimo era o máximo. “Na natureza, a superfície das coisas é bela, mas sua imitação é sem vida”, dizia ele.

Na base da pintura de Mondrian estava uma utopia de fundo religioso. Ele era entusiasta da Teosofia - doutrina esotérica criada pela russa Madame Blavatsky. Como fruto da filosofia humanista e espiritual sincrética extraiu a noção de que por baixo da matéria, uma engrenagem básica constituiria a essência do mundo.

Ao abraçar a abstração continuou pintando flores, símbolo universal feminino para a Teosofia (também as pintava porque ninguém comprava as suas telas abstratas).

Portugal deveria construir uma Central Nuclear?




1. O custo do MWh produzido depende do fator de capacidade e da taxa utilizada para descontar os “cash flows” do projeto. Para o mostrar, construímos uma tabela para o grupo nuclear de 1420 MW.

Verifica-se que, para um fator de capacidade de 50% e uma taxa de desconto de 7,5%, o custo do MWh produzido é de $176.

Mesmo com valores de capacidade e taxas de desconto muito favoráveis, o nuclear fica com custos muito para lá do que se consegue com eólica ou solar.

2.A taxa de desconto é outro factor chave no custo do MWh produzido no qual 2.5% de redução da taxa de desconto vale mais que 10% de factor de capacidade durante toda a vida do activo.

A taxa de desconto depende desde logo da taxa de juro da república de longo prazo que neste momento se encontra a crescer.

Depende ainda do modelo comercial da energia produzida. Quanto menor o risco assumido pelos promotores, mais baixa será a taxa. Quanto mais longo for o contrato, menor será a taxa.

Uma taxa baixa consegue-se se o sistema assumir riscos de inflação, sobrecustos de construção e até mesmo um factor de capacidade mínimo tipo take-or-pay.

Hinkley C tem um contrato de 35 anos que a valores de 2021 é de £106/MWh. No ultimo leilão solar em Portugal, os preços fixaram-se em menos de 20€/MWh para 15 anos.

3.Um outro aspecto essencial do contrato será a questão da segurança e do risco de acidente. É óbvio que se constrói a central para que não haja acidentes e as centrais são tão seguras quanto é possível fazê-las, mas o contrato tem de prever o que acontece e como são geridos os custos.

Um projecto nuclear terá que ter um backstop a partir do qual os custos são assumidos pelo Estado. Quanto mais alto for o backstop, mais alta será a taxa de desconto.

4. No nosso modelo, considerámos que a construção levaria 6 anos. Mas o provável é que demorasse pelo menos 10 anos, e que os estudos prévios, demorassem 5 anos.

Qualquer atraso no início de funcionamento da central, atrasa o início de “cash flows” positivos, e tem um grande impacto no custo de MWh e ou rentabilidade do projecto.

No mundo real vale a pena olhar para os casos das centrais europeias recentes, de Hinkley C e de Olkiluoto 3, que tiveram tempos de construção de 17 anos.

5. Concluindo. A construção de uma central nuclear tem um custo do MWh nuclear não competitivo com o MWh renovável porque não trabalha horas suficientes para recuperar o investimento e precisa de um contrato comercial com baixo perfil de risco, difícil de assumir socialmente, para poder ser financiável