segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Neve derrete e forma lago nos Alpes Franceses

Foto e notícia aqui

A meteorologia está cada vez irregular, o aquecimento global está a aumentar de dia para dia e atinge já as zonas mais frias do mundo.

No alto dos Alpes Franceses, um alpinista fotografou a formação de um lago no cume do Dent du Géant e do Aiguilles Marbrées, depois da intensa onda de calor que atingiu a Europa central no final de junho. Bryan Mestre ficou chocado quando percebeu que a neve derretida deu origem a uma piscina natural que se está a formar a uma altitude de 11.100 pés (3.400 m) na cordilheira do Monte Branco.

De acordo com o Copernicus Climate Change Service, o mês de junho deste ano foi o mais quente alguma vez registado na Terra. Segundo dados divulgados pela agência de satélites, durante os últimos dias do mês as temperaturas médias da Europa estavam 2ºC acima do normal, e as temperaturas estavam entre os 6ºC e os 10ºC acima do normal na maior parte da França, Alemanha e norte da Espanha.

Foi com uma publicação no Instagram que o alpinista francês demonstrou a preocupação e alertou para estas mudanças climáticas.+

A foto foi tirada no dia 28 de junho – 10 dias depois de Paul Todhunter, o companheiro de alpinismo, ter fotografado o mesmo lugar, mas coberto de neve. Bryan alertou que “isto é verdadeiramente preocupante… os glaciares estão a derreter pelo mundo inteiro a uma velocidade exponencial”.

“Está localizado na área de 3.400 a 3.500 metros. Supostamente devias encontrar gelo e neve nessa altitude, não água líquida. Na maioria das vezes, quando ficamos um dia inteiro nesta altitude, a água das nossas garrafas de água começa a congelar.”

“Eu já lá estive muitas vezes, em junho, julho e até agosto, e nunca vi água líquida lá em cima”, acrescentou.

domingo, 11 de agosto de 2019

Aquametragem: animação para a poupança de água




A curta-metragem animada Aquametragem, da portuguesa Marina Lobo, foi a vencedora da categoria “Proteger o nosso planeta” no Festival de Filmes ODSs em Acção, organizado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Esta é a maior competição de trabalhos cinematográficos dedicados aos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). 

A curta, de pouco mais de cinco minutos, tem o objectivo de sensibilizar o público, “tanto crianças como adultos”, a utilizar os recursos hídricos de uma forma mais responsável e eficiente, explicou por telefone ao P3 Marina Lobo. No vídeo, Hidro, o protagonista da animação, ganha acesso a uma fonte potável de água, mas comete muitos erros na sua utilização: lava o carro de mangueira, demora demasiado tempo no banho e contribui para a poluição através da emissão de gases poluentes ao tratar a água utilizada. Hidro aprende com os erros e passa a valorizar a importância de utilizar um "recurso finito e escasso" de uma forma sustentável.

A ideia para a Aquametragem partiu da Lisboa E-Nova (Agência de Energia e Ambiente de Lisboa). Marina Lobo — que, além de animadora, também é engenheira ambiental — teve conhecimento do desafio e acabou por ser a escolhida para desenvolver uma animação sobre a água, em 2018. Além de chamar à atenção para o desperdício deste recurso, o vídeo também sugere uma abordagem sustentável ao problema, “baseada nos 5Rs do uso da água”: reduzir o consumo, reduzir o desperdício, reutilizar, reciclar e recorrer a origens alternativas.

A perspectiva comunista em tempos de inteligência artificial e biotecnologia


Comunismo de luxo totalmente automatizado. Essa é a proposta atraente que intitula o livro recente de Aaron Bastani [1]. A ideia central proposta no livro é que estamos atravessando os primeiros momentos de uma grande ruptura tecnológica, a terceira na história da humanidade. A primeira teria sido o desenvolvimento da agricultura, que deu origem ao estilo de vida sedentário e permitiu o desenvolvimento da sociedade; e a segunda ocorreu com o desenvolvimento da revolução industrial, com o motor a vapor sendo o gatilho da mudança. A atual teria sua base no colapso repentino nos custos para a produção de praticamente tudo, remetendo basicamente à iminência do fim do trabalho graças à automatização, que permite a inteligência artificial e a transformação da biotecnologia. Para Bastani, não se trata de saber se o trabalho humano será substituído pelas máquinas, mas sim a velocidade com que isso ocorrerá e a maneira em que a sociedade partilhará seus benefícios. É aqui que a questão do comunismo entra como uma perspectiva possível, e a única que poderia garantir as melhores possibilidades referentes ao desenvolvimento tecnológico atual.

O que normalmente é tratado nos meios de comunicação e por economistas tradicionais com notas sinistras, levando a traçar horizontes distópicos que poderiam ser aliviados com algum paliativo, como a renda básica universal, para Bastani é a base para uma transformação radical de como vivemos. Deixar de trabalhar, que sejam as máquinas que cuidem de tudo, para que aproveitemos de um lazer acompanhado de abundância. Possibilidades que nem os autores do Manifesto Comunista chegaram a imaginar: um comunismo “de luxo”.

Crescimento exponencial
A chave da análise que nos propõe Bastani é o crescimento exponencial da capacidade de gerenciamento da informação. Isso resultou em um colapso abrupto do custo de “coletar, processar, armazenar e distribuir informação digital” que, por enquanto, não tem um piso, ficando cada vez mais baixo. No centro dessas tendências está a operação da lei de Moore: em 1965, Gordon Moore (que mais tarde fundou a Intel) afirmou que, a cada dois anos, o número de transistores que poderia caber em um circuito dobraria, o que significa dizer que a capacidade dos processadores também seria duplicada nesse período. Isso continuou acontecendo até os dias de hoje, com resultados surpreendentes: Bastani nos diz que um supercomputador construído em 1996 pelo governo norte americano, a um custo de 55 milhões de dólares, e que tinha o tamanho de um campo de ténis, tinha a mesma capacidade de processamento que poderia ser encontrada, em 2006, numa PlayStation 3! E por apenas 600 dólares. Em 2013, a PlayStation 4 dobrou essa capacidade e custava 400 dólares.

O mesmo aconteceu em terrenos chave para a coleta de dados, como a fotografia, a geolocalização, etc. Estas têm sido as bases de apoio para a crescente automatização do processo de trabalho e para o desenvolvimento da inteligência artificial. A informação é a matéria-prima central da produção moderna, segundo Bastani, e se torna cada vez mais barato coletar e processar.

Outra área em que o crescimento exponencial teve efeitos radicais é na biotecnologia. O livro apresenta um olhar ambicioso sobre isso. O que é a vida além de uma longa cadeia de informações armazenadas no DNA? Como nos outros terrenos, desde que que foram construídos os primeiros genomas até hoje, o custo do processo despencou. Sequenciar o genoma humano pela primeira vez, em 2003, levou trinta anos e biliões de dólares. Em junho de 2015, sequenciar o DNA de uma pessoa custava 10 mil dólares, mas a empresa de biotecnologia Illumina já apresentou uma máquina que planeia realizar esse processo por menos de 100 dólares.

Desenvolvimentos similares são observados na produção sintética de proteínas animais. Bastani revisa inúmeros casos de empreendimentos que, por meio de diversos métodos, planeiam oferecer-nos ovos, carne vermelha, frango, peixe, leite e queijos a preços competitivos em que poderão afirmar, como nos créditos ao final dos filmes: “nenhum animal foi ferido durante essa produção”. Embora hoje, sob diferentes ângulos, existam propostas de prevenção do envolvimento da biotecnologia na produção de alimentos, o autor é categórico em seu posicionamento: além do tratamento aos animais, que hoje em dia deveria ser uma consideração irrefutável por si só, os menores níveis de poluição (o metano pecuário é um dos maiores propulsores da mudança climática, como evidenciam inúmeras pesquisas), e a redução na utilização de recursos essenciais como a água (1 dúzia de ovos consome 2.400 litros de água para ser produzido e 1 quilo de carne, 3.300 litros de água) poderiam ser motivos suficientes. Além disso, Bastani nos diz, as proteínas que em breve virão dos laboratórios, serão tão saborosas como suas equivalentes produzidas porteiras adentro.

Como conciliar a perspectiva da abundância com a urgência em conter os danos ambientais? O luxo totalmente automatizado significa mais e não menos consumo de energia. A chave está em uma mudança profunda na matriz energética. E aqui Bastani oferece uma resposta surpreendente, porque se trata outra vez do aumento exponencial atuando em algo que tem sido utilizado há muito tempo: energia solar. “Em apenas noventa minutos a terra é banhada por energia solar suficiente para satisfazer a necessidade energética atual por um ano inteiro”, afirma Bastani. Claro, isso sempre esteve aí, e é utilizada há muitas décadas, mas sem escala ou viabilidade económica suficiente para se transformar na base da matriz energética. Em meados da década de 70, produzir 1 watt usando energia solar custava 100 dólares, muito mais que as outras fontes de energia vigentes. Hoje em dia, nos países mais ensolarados, o custo de produzir 1 quilowatt caiu para 10 centavos de dólar, enquanto a capacidade instalada se multiplicou por 100 entre 2004 e 2015. No Reino Unido, em 2010, a energia solar cobria 2% de toda a sua necessidade energética; hoje satisfaz 25%. Para Bastani, a mesma combinação de tornar mais barato e eficaz é observada na energia eólica. As duas fontes, opina, poderiam substituir quase totalmente o gás e o petróleo, e outras formas de gerar eletricidade, em poucas décadas.

A perspectiva de “pós-escassez” delineada pelo livro, se completa com o possível acesso a um conjunto ilimitado de recursos que têm disponibilidade limitada até hoje. A mineração espacial, a custos sustentáveis, é outro desenvolvimento que Bastani vê como algo promissor. Na última década, ela deixou de ser um monopólio de (alguns) governos e, ao contrário disso, é a iniciativa privada, apoiada no crescimento exponencial do desenvolvimento dos processadores, que está determinada a fazer das viagens espaciais regulares uma iniciativa viável. A expectativa é desenvolver uma nova corrida espacial, “na qual as empresas competem no lugar dos países, e nas quais a elite mundial se torna ainda mais rica”.

A informação quer ser gratuita (livre)
A terceira ruptura traz uma mudança radical na economia política. Desde seu desenvolvimento como disciplina, a economia política teve como objeto de análise um mundo de produção dedicado à administração de recursos escassos. O preço e o lucro só fazem sentido se os bens só podem ser produzidos a um determinado custo —– se for necessário realizar um determinado tempo de trabalho socialmente necessário para fazê-los, diria Marx. O mundo das mercadorias —– como “aparece” na sociedade capitalista à primeira vista, de acordo com [O Capital] —– existe porque há uma economia do trabalho social, única base para satisfazer todas as necessidades. Um setor minoritário da sociedade é dono dos meios de produção requeridos para realizar esses trabalhos necessários e monopoliza o acesso a eles. É isso que lhes dá o direito de se apropriar de uma parte do trabalho que faz, sob seu comando, aquela parte da sociedade que não possui nenhum meio de produção. Esta última é a que compõe a classe trabalhadora, que tem apenas sua força de trabalho para vender, a cada dia, em troca de um salário.

A questão mudaria com o peso crescente que a informação adquire no capitalismo contemporâneo. Esse debate não é novo. Entre os marxistas, há décadas há a discussão com aqueles que defendem que entramos na era de um capitalismo cognitivo. Muitos dos defensores dessa última tese voltam a Marx, e sua defesa do “general intellect” feita nos Grundrisse, esboço preliminar d’O Capital, escrito em 1857 e desconhecido até as primeiras décadas do século XX. Marx expõe como o desenvolvimento da técnica, que se traduz em meios de produção cada vez mais complexos (que, sendo mais caros, representam um maior “trabalho objetivado”), tende a transformar a fonte de lucro (a exploração da força de trabalho) numa base cada vez mais “miserável” para sustentar essa sociedade. Partindo dessa frase de Marx, que em algumas interpretações deslocaria o trabalho como fonte de valor em favor do conhecimento “imaterial” (como se este não fosse também material e laboral, mas complexo), os teóricos do capitalismo cognitivo tendem a defender que a ideia de que a fonte do valor (e do lucro) é o trabalho socialmente necessário teria se tornado anacrónica, e com ela todas as categorias da crítica da economia política de Marx.

Bastani passa também por outra abordagem da questão: como a economia dominante, neoclássica, enfrenta a importância que a informação adquiriu como mercadoria cada vez mais importante hoje. A informação (entendida em termos gerais, incluindo desde a coleta de dados até o desenvolvimento de processos e desenhos) tem um custo para ser gerada, mas reproduzi-la, uma vez que terminada, não tem custo. É isso o que dizia Paul Romer, economista do Banco Mundial, que esteve entre os primeiros a analisar essa questão. Em seu artigo de 1990 “Mudança tecnológica endógena”, Romer considerava que o processo que dava título a seu trabalho poderia ser interpretado como “um melhoramento nas instruções para combinar matérias-primas”. Mas, “uma vez que o custo para criar um novo conjunto de instruções foi necessário, estas podem ser utilizadas outras vezes sem custo adicional”.

Uma década depois, serão Larry Summers e James Bradford DeLong, dois economistas de prestígio que integraram o gabinete de Bill Clinton, os que se meteram a considerar essa questão inquietante para uma sociedade baseada na apropriação privada das receitas da produção. Em sua opinião, “a condição mais básica para a eficiência económica” é que “o preço seja igual ao custo marginal”. O custo marginal é o custo para produzir a última unidade, o qual supõe-se ser o mais alto porque, depois de diminuírem, após certo ponto da produção, o custo aumenta. A conclusão clássica da teoria dos rendimentos decrescentes sustenta que a produção aumentará até o nível em que produzir a última unidade (a mais cara) tiver o custo igual ao preço que o produtor espera obter. Esta é uma das bases de toda a economia neoclássica. O problema, diziam Summers e DeLong, é que “com bens informacionais, o custo social e marginal de distribuição é quase zero”. Isso, aponta Bastani, se aplica tanto ao design de medicamentos ou robôs, quanto para livros, filmes e artigos acadêmicos. E também, como vimos, para o DNA ou quase qualquer coisa nos dias de hoje. Mas então, se as mercadorias desse tipo fossem vendidas ao seu preço marginal (zero), “não podem ser criadas e produzidas por empresas que usam sua receita para cobrir os custos”. Qual conclusão tirar disso? Que o sistema baseado no capital privado e no lucro mostra os limites aos quais se confronta para organizar as forças produtivas que desenvolveu? Pelo contrário, os defensores da livre iniciativa e da competitividade, argumentaram sem nenhuma vergonha, diante desse problema, que “o poder do monopólio temporário e os lucros decorrentes dele podem ser a recompensa necessária para estimular a empresa privada a lançar-se a inovações”. Ou seja, em uma situação onde não existe a escassez, ela deve ser criada para que as leis do capital possam “funcionar”. O Spotify ou o Netflix são exemplos de negócios que surgiram dessas ideias, em oposição, por exemplo, ao Napster, empresa que permitia a distribuição gratuita de música entre usuários da Internet do mundo todo. Como nos lembra Bastani, essa empresa foi derrubada pela indústria da música no momento em que Summers e DeLong escreviam seu artigo.

Os remédios sugeridos pelos economistas que consideram o capitalismo como um horizonte insuperável, para presumidamente enfrentar o “problema” da produção de bens que, uma vez gerados, podem ser reproduzidos sem custo e, portanto, não estão sujeitos às leis de escassez, é gerar uma escassez artificial. Não é só agora que isso tem sido discutido sobre o capitalismo. Os direitos autorais e as patentes são quase tão antigos quanto a grande indústria. Sempre foram uma forma do capital declarar sua propriedade e estabelecer um preço. As “novidades” são as condições de abundância e a generalização que a necessidade de controlar essa abundância adquire.

Bastani não considera que o capitalismo não possa encontrar soluções para adaptar as possibilidades criadas pela terceira ruptura. De fato, ele revisa durante todo seu livro, em muitos casos com entusiasmo, as soluções alcançadas pelos empresários para inovar e reduzir custos, sem deixar de lembrar também que o “‘investimento privado’ não é responsável pelo nosso nível atual de tecnologia”, que é devido em muitos casos, direta ou indiretamente, aos investimentos públicos. Mas ainda que o autor mostre que o empreendedorismo, na busca de vender mais e mais barato e transformar tudo o que puder em negócio, cumpriu e segue cumprindo um papel nessa criação de possibilidades para a abundância, não pode nos levar a tal situação. Para garantir o lucro, é necessário seguir impondo, “com fórceps”, as leis do mercado onde elas começam a se tornar precárias.

Bastani retoma em várias ocasiões a sentença de Stewart Brand: “a informação quer ser livre!”. Brand afirmava:
Por um lado, a informação quer ser cara, porque é muito valiosa. A informação correta no momento adequado muda a sua vida. Por outro lado, a informação quer ser livre, porque o preço para se informar cai cada vez mais e mais. Então nós temos essas duas tendências lutando entre si.
Se a segunda tendência vencer, irá nos forçar a ir além do capitalismo.

O futuro já chegou?
Bastani quer provocar e ele consegue. Ele apresenta várias evidências convincentes dos motivos de muitas histórias de ficção científica estarem mais próximas de se tornar realidade do que pensamos.

Mas um dos maiores problemas de sua caracterização das tendências em curso é que toma como certa a ideia de que o desenvolvimento técnico no capitalismo está nos levando ao fim do trabalho. Aqui há uma grande operação ideológica: os grandes meios de comunicação e os “especialistas” falam permanentemente da iminência do fim do trabalho, uma ameaça que é utilizada pelos capitalistas em todo o mundo para forçar a aceitação de reformas trabalhistas cada vez mais precarizadoras. Bastani assume como certo que seguimos por esse caminho, se o capitalismo acabar ou não. Seu “comunismo” não visa acabar com o trabalho, o que ele acha que acontecerá de qualquer maneira, mas sim discutir como serão distribuídos os frutos da automatização. Mas ainda que nos últimos tempos esse espectro tenha se tornado senso comum, a acumulação de capital, que deveria motorizá-lo, se destaca por manter níveis historicamente baixos. Ao mesmo tempo, as empresas mostram a mesma ganância para extrair até o último segundo de trabalho não remunerado que mostraram ao longo da história do capitalismo. Além disso, com o argumento da crise dos sistemas previdenciários, os Estados capitalistas insistem em estender o máximo possível o tempo de vida que devemos dedicar ao trabalho. Hoje se trabalha mais, e não menos, do que há décadas, e os capitalistas estão determinados em não mudar esse cenário, ainda que isso signifique, ao mesmo tempo, condenar milhões ao desemprego ou subemprego, porque “não há” trabalho formal para todos nos limites do capitalismo.

Populismo: o novo caminho para o comunismo?
Como é o caso de Paul Mason e seu pós-capitalismo, que nos diz que o capitalismo está quase desaparecendo diante de nossos olhos para nos oferecer como roteiro uma série de medidas reformistas que não asseguram nenhuma transição entre o presente capitalista e um suposto futuro “pós”, Bastani traça uma perspectiva que se caracteriza por um salto no vazio similar.

Ele nos apresenta um olhar radical sobre as possibilidades inscritas na terceira ruptura que já está em andamento. Mas o caminho até lá estaria em retomar as estratégias que já tentaram, com sucesso na questão eleitoral e palpável adaptação ao regime burguês, as forças como Syriza na Grécia (que prometeu terminar com a austeridade e terminou aplicando os planos de ajuste do FMI e da União Europeia), Podemos no Estado espanhol (que busca se aliar com o partido social liberal – o PSOE – para conformar um governo), DSA nos EUA (apoiando a candidatura “socialista” de Bernie Sanders, que se apresenta novamente nas primárias pelo Partido Democrata) e o Momentum no Reino Unido (que apoia o candidato do partido trabalhista, Jeremy Corbyn). Em todos os casos, querem retomar a tradição da velha socialdemocracia, antes das últimas décadas, em que foram um dos pilares das políticas neoliberais. São uma espécie de “neorreformismo”, que recupera a velha abordagem de uma via de reformas graduais para reverter, ao menos em parte, a herança das políticas neoliberais. Junto com isso, adicionam questões como a renda básica universal, adaptada à perspectiva de “fim de trabalho” que discutimos acima.

Entre o comunismo de luxo plenamente automatizado e o presente, o único caminho passa por “romper com o neoliberalismo”: reavivar as políticas estatais dos benfeitores, impulsionar uma renda básica universal, avançar na “descarbonização” da matriz energética e “reconstruir o Estado capitalista”.

O livro começa nos mostrando viagens ao espaço feitas diariamente, cidades alimentadas por energia solar e uma sociedade onde o trabalho rotineiro é coisa do passado, sem que ninguém tenha menos do que tudo o que puder desejar. E se despede com uma nostalgia pelas políticas dos “30 anos dourados” de boom econômico nos países imperialistas depois da II Guerra Mundial, que deveríamos buscar recuperar como um passo anterior a esse futuro comunista.

Bastani afirma que o comunismo de luxo “não será alcançado com a tomada do Palácio de Inverno”. Por quê? Simplesmente porque nenhuma perspectiva comunista poderia ser possível antes da terceira ruptura. Com essa afirmação, desconsidera-se a necessidade de realizar qualquer balanço histórico sobre a URSS e sua burocratização, porque a experiência daquela época não seria pertinente aos desafios do presente.

Segundo o autor, o que está colocado hoje é
“construir um partido dos trabalhadores contra o trabalho — um cujas políticas sejam populistas, democráticas e abertas, ao mesmo tempo em que lutamos contra o establishment que, por meio de seu poder sobre a sociedade e o Estado, não descansará em assegurar que o comunismo de luxo plenamente automatizado nunca ocorra.”
Mas Bastani não nos diz como essa luta contra o “establishment” vai se desenvolver, nem como seria essa política “contra o trabalho”. Como poderíamos garantir as possibilidades criadas pelos desenvolvimentos tecnológicos que ele detalha fossem em favor da redução da jornada de trabalho, sem afetar o salário, permitindo, ao mesmo tempo, que todos os que estão em condições de trabalhar possam fazê-lo, se não estivermos disputando o controle dos meios de produção? Para estar “contra o trabalho”, ou seja, procurar se libertar desse fardo, questionar o poder sacrossanto do capital de contratar e demitir, e questionar a suposta racionalidade de que alguns trabalhem, nos dias de hoje, jornadas insuportáveis enquanto outros se afundam na pobreza e no desemprego, é o ponto de partida. A isso aponta a exigência de divisão de horas de trabalho entre todas as mãos disponíveis, para acabar com a superexploração e o desemprego, aumentando os salários para que cubram realmente as necessidades dos trabalhadores. Se não começamos por aí, dificilmente poderemos nos aproximar do comunismo, cuja perspectiva é indissociável de tomar o controle dos meios de produção da burguesia, acabando com o monopólio que uma minoria da sociedade exerce sobre a maquinaria, a terra, as fábricas e os transportes. “Expropriar os expropriadores” segue sendo tão inevitável hoje, em tempos de robôs e inteligência artificial (usados pela burguesia para deixar o trabalho mais precário), como era quando Marx escreveu. Só assim, socializando os meios de produção e conquistando um governo dos trabalhadores, em ruptura com esse sistema baseado na exploração, poderemos iniciar uma transição ao comunismo, entendido como uma associação de produtores livres que organizam coletivamente o trabalho social com o objetivo de reduzi-lo ao mínimo indispensável, ou diretamente automatizá-lo, e conquistar o maior tempo livre para o lazer.

sábado, 10 de agosto de 2019

Cartaz

Estudo revela como elefantes ajudam a combater o aquecimento global

Foto e notícia aqui

Um estudo publicado na revista Nature Geoscience
revela como os elefantes africanos da floresta (Loxodonta cyclotis) têm ajudado as árvores a estocarem mais carbono e, dessa forma, a combater o aquecimento global.

De acordo com o pesquisador Fabio Berzaghi, do Laboratório de Ciências Climáticas e Ambientais e do Clima (CEA), da França, eles descobriram que a redução da densidade do tronco florestal devido à presença de elefantes, que desbastam naturalmente as árvores, leva a mudanças na competição por luz, água e espaço entre as árvores – mudança que favorece o surgimento de maiores árvores com maior densidade de madeira.

“Essa mudança na estrutura da floresta tropical africana e na composição de espécies aumenta o equilíbrio a longo prazo da biomassa acima do solo”, informa o pesquisador. Eles concluíram que os distúrbios provocados pelos elefantes nas florestas africanas geram incremento na biomassa de 26 a 70 toneladas por hectare.

Por outro lado, Berzaghi explica que a extinção dos elefantes resultaria em redução de 7% da biomassa acima do solo nas florestas tropicais da África Central: “Esses resultados são confirmados por dados de inventário de campo. Nós especulamos que a presença de elefantes pode ter moldado a estrutura das florestas tropicais da África, o que provavelmente desempenha um papel importante em comparação com a floresta tropical da Amazônia.”

A interferência dos elefantes-da-floresta nas árvores de pequeno porte, que costumam ser desbastadas por eles, reduz o número de pequenas árvores e estimula o crescimento das grandes que armazenam mais carbono. Isso também modifica as condições da floresta, de acordo com o pesquisador.

“Esses resultados mostram que os grandes herbívoros desempenham papel importante na dinâmica das florestas tropicais a longo prazo. Na África Central, o ‘efeito elefante’ aumenta os estoques de carbono acima do solo em três bilhões de toneladas. Indiretamente, os elefantes contribuem para reduzir o CO2 atmosférico e nos ajudam a combater o aquecimento global”, acrescenta.

Porém, a caça de elefantes visando a comercialização do marfim tem impedido esses animais de desempenharem um papel que Berzaghi qualifica como de um “formidável engenheiro do ecossistema”. Até porque os elefantes também são conhecidos por transitarem pela floresta espalhando sementes que darão origem às novas gerações de árvores. “Nossos resultados trazem mais evidências do papel importante e único dos elefantes da floresta nas florestas tropicais da África Central”, reforça.

Referência

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Erosão da costa portuguesa é grave e efeitos vão piorar, dizem especialistas

Foto e reportagem aqui


As zonas da costa com ocupação humana são as mais atingidas pelos efeitos da erosão costeira em Portugal, uma situação que vai agravar-se, apesar das medidas que têm sido tomadas e que custam anualmente milhões ao Estado, realçam especialistas.

A situação não é exclusiva de Portugal e deve-se a vários factores, dos quais se destaca a intervenção humana nos leitos dos rios, nomeadamente barragens que impedem os sedimentos de se deslocarem para a zona costeira, os erros do ordenamento da faixa costeira cometidos ao longo de décadas e a retirada de areia dos rios para a construção.

Filipe Duarte Santos, da Universidade de Lisboa, destacou que a costa portuguesa “é das costas, à latitude a que se encontra, mais energéticas do mundo”, com ventos persistentes predominantemente de quadrante norte-oeste que orientam nesta direcção as ondas.

Quando o mar atinge a costa, “não a atinge de frente, mas um bocadinho de lado”, e este movimento é permanente, desgastando a costa e “transportando areais de praias de norte para sul, com um valor médio de um milhão de toneladas de sedimentos por ano”.

Se os sedimentos dos rios que antes chegavam às praias não chegam, a costa está em constante desgaste, acrescentou.

Uma protecção artificial? 

“Este problema agudiza-se em áreas ocupadas. As áreas ocupadas não são compatíveis em termos evolutivos com aquela evolução da linha de costa e, a determinada altura, temos um conflito entre a progressão do mar, o recuo da linha de costa e a manutenção dos espaços ocupados na zona costeira”, salientou, pelo seu lado, Óscar Ferreira, da Universidade do Algarve.

De acordo com os especialistas, “não há uma resolução definitiva para o problema” e o que pode ser feito para minimizar a erosão costeira está a ser feito, sobretudo através do reforço sedimentar, alimentando artificialmente as praias com areia.

“Temos limitações do ponto de vista de investimento, limitações financeiras que todos os países têm, mais ou menos, o nosso problema é um problema que é caro de resolver, mas penso que dentro das possibilidades que temos eu diria que estamos a fazer o melhor que é possível”, disse Filipe Duarte Santos.

Além da alimentação das praias, “em certos casos, não existe outra alternativa se não fazer protecções rígidas, enrocamentos, esporões, intervenções pesadas”, realçou.

“Nas zonas onde não há ocupação, (...) onde não há um risco iminente para as populações, continua a deixar-se existir o recuo da linha de costa. Onde temos populações em risco, normalmente, tem havido um esforço de colocação de areia com os custos associados”, disse Óscar Ferreira, salientando que este é “um esforço continuado e economicamente elevado”.

Óscar Ferreira destacou que as áreas mais preocupantes em termos de erosão costeira são também zonas de ocupação humana, como as zonas de “Espinho até Cortegaça, a zona do Sul de Aveiro, a zona Sul da Figueira da Foz, a área da Caparica, a zona da Quarteira e de Vale de Lobo até Faro”.

O investigador defendeu que, “em algumas áreas”, deveria ser ponderado “um passo à frente para as próximas décadas”, através da reorganização e do reordenamento da faixa costeira onde for possível. Ou seja, retirar as pessoas que vivem na zona costeira para outros locais, o que não é fácil, sobretudo por questões sociais e culturais.

“As pessoas estão, obviamente, muito apegadas à área que ocupam e querem manter-se nessa mesma área, o que é perfeitamente compreensível. No entanto, também tem que haver cada vez mais uma percepção de que isso tem custos directos para o Estado muito elevados. (...) Todos pagam esses custos e, se por acaso tivessem que ser os directos beneficiários a pagar esses custos, eles não teriam capacidade para o fazer. E, muito provavelmente, acabariam eles próprios por retirar-se”, salientou.

Segundo os investigadores, o mar “subiu”, mas na costa portuguesas “ainda não se identifica um fenómeno” de erosão que seja apenas devido às alterações climáticas.

“A subida do nível médio do mar, em resultado das alterações climáticas, virá agravar ainda mais essa situação. Mas nós, neste momento, não precisamos sequer das alterações climáticas para ter já um problema grave”, concluiu Óscar Ferreira.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Ecologia vs. ‘greenwashing’


Cláudia Madeira, Membro da Comissão Executiva do PEV 15 Julho 2019

É preciso mudar o sistema e a forma como funciona a economia, não o clima. O ambiente não pode ser uma preocupação apenas quando dá lucro.


As alterações climáticas estão aí e o que está em causa é a qualidade de vida e até a sobrevivência de todas as formas de vida no planeta.

Actualmente, quase todos se mostram preocupados com este fenómeno, mas as respostas para lidar com o problema são díspares. As opções de cada um são muito importantes e a consciência ambiental deve ser fomentada. Se o clima está a mudar, nós também devemos mudar e adoptar estilos de vida mais sustentáveis.

Mas não pode ser só o cidadão a ser responsabilizado e chamado a pagar os custos da mudança, tal como não deve ser promovido o policiamento dos comportamentos individuais.

Enquanto os cidadãos se penitenciam porque muitas vezes não conseguem fazer opções mais sustentáveis, devido à falta de alternativas acessíveis, os verdadeiros responsáveis pela crise ambiental continuam ilesos e a acumular lucros, arredados de um objectivo que deve ser de toda a sociedade. Até porque, por esta ordem de ideias, às populações com menos recursos é-lhes negado o acesso a alternativas mais sustentáveis.

Mas então e o sistema?

Hoje até vemos grandes empresas a fazer campanhas em defesa do ambiente, procurando disfarçar o impacto ambiental das suas actividades. Mas onde está afinal a responsabilidade das multinacionais no que toca às emissões de carbono? Não será por acaso que o secretário-geral da Organização dos Países Exportadores de Petróleo afirmou recentemente que os activistas do clima serão, “talvez, a maior ameaça à nossa indústria daqui para a frente”.

É preciso mudar o sistema e os interesses instalados. Não há qualquer sustentabilidade nem justiça num mercado de carbono ineficaz e perverso, que permite que países mais ricos possam comprar certificados de emissão de gases com efeito de estufa a países em desenvolvimento para poderem continuar a poluir, promovendo a transferência de emissões e não a sua redução.

Ou seja, quem quiser poluir mais compra créditos a quem polui menos, o que pode levar a resultados contrários ao que este sistema pretende alcançar. Logo, pode servir para muita coisa, mas não para proteger a natureza.

Há uma grande diferença entre os conceitos de ecologia e de greenwashing: um é amigo do ambiente, o outro finge sê-lo. É preciso mudar o sistema e a forma como funciona a economia, não o clima. O ambiente não pode ser uma preocupação apenas quando dá lucro, pois já se percebeu que o capitalismo não é nem nunca será ecologista.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

E se Portugal fosse a Amazónia que precisamos salvar?

Daniel Deusdado, DN, 12 Julho 2019


Não por acaso um dos títulos mais belos e estranhos - Que farei quando tudo arde? - é de um escritor português, Lobo Antunes, e se o livro não é sobre a floresta, o contexto psicológico em que o título aparece tem muito do Portugal de final do século XX e anos seguintes, em que tudo começou literalmente a arder, de forma galopante, chegando-se ao ano de 2003 em que uma onda de calor impiedosa alastrou a morte pelas pessoas e natureza. Nesse ano arderam 225 mil hectares de floresta e dois anos depois um novo pico estatístico: 170 mil. Desde aí nada ficou igual. Ficamos ainda mais subjugados a esta realidade de um abandono da terra, da sua entrega à exploração mais fácil e selvagem, e à rendição coletiva de conforto em que "o país" representasse algo mais do que uma ideia, uma língua e um discurso social emanado a partir das cidades. Proveta e ruído. Critério editorial e opinião. Muito disto tem lideranças que vogam entre garagens e garagens, carros de ar condicionados e pisos alcatifados, a uma distância face ao mundo que só ligeiros sobressaltos de tragédias geram precários espantos. Exemplo: 2017, o novo recorde em todas as frentes - 250 mil hectares de floresta ardida e todas as vítimas civis que conhecemos, não apenas bombeiros (porque esses já eram apenas danos colaterais frutos do erro humano e falta de formação...).

A rendição às necessidades da economia/emprego é a maior falácia do nosso pequeno mundo. O que perdemos do ponto de vista agrícola, turístico e de vida em todo este território é incomensuravelmente maior do que uma fileira predadora da civilização portuguesa (as palavras têm de ser estas).

Portugal gasta valores próximos dos 240 milhões de euros do Orçamento de Estado para o combate a incêndios, mas este valor não reflete os milhões autárquicos mais os milhões da sociedade civil e não mensura o alvoroço inusitado num país "desenvolvido", alvoroço esse consequência dessa rendição a um território abandonado, predado por meia dúzia de grupos económicos da celulose que fizeram deste país a sua mina de ouro.

Não está em causa que existam plantações de eucaliptos em Portugal. Mas está tudo em causa quando a ganância fez de uma espécie não autóctone a maior colonizadora do território português, com consequências dramáticas, nos fogos, na diminuição da biodiversidade e no despovoamento a que estas duas coisas conjugadas com fogos e pobreza tornaram inexorável.

É por causa disto que se percebe que ninguém acredita na "terra", esse Portugal feito de terra, a fronteira mais antiga da Europa.

A fronteira é terra, rios, montanhas, e depois precariamente "nós", geração após geração, quase sempre sem memória. A fronteira não são estes portugueses que se esquecem do lugar que fez a nossa virtude, História e identidade ao longo de quase 900 anos. É de Afonso Henriques e dos seguintes que temos de falar porque conquistaram estes quinhões de terra para que os portugueses existissem e usufruíssem deles por gerações e gerações. E, no entanto, na ganância e no onirismo financeiro, destruímos rios e água potável com excesso de barragens, algumas em pleno século XXI, e em sequência ciclópica, erodimos cada vez mais o litoral sem as areias transportadas pelos rios. Lamentamos a seguir a "Caparica" ou o "Furadouro", como se o mar avançasse em fúria, esquecendo que fomos nós que deixamos de alimentar de areia aquelas zonas de embate.

E se destruímos os rios, esquecemos que comemos paisagem. Entramos no processo de osmose com os produtos que compramos em prateleiras iguais, produtos normalizados a baixo custo, baixo teor de quase tudo, embalagens diferentes para as mesmas coisas.

Restam-nos paisagens simplificadas de monoculturas e abandono de terras e consumidores simplificados.

Envergonhamo-nos então por gradualmente ser difícil reconhecer paisagens próprias de cada região, como se, por exemplo, a região Centro tivesse sido toda a vida aquela vergonha de milhares e milhares de hectares de eucaliptos contínuos, sempre em risco de arder.

Para a indústria da celulose e do papel esta dimensão colossal de horror natural e feiura ao olhar não conta. Não chega nem nunca chegará. Não lhes interessa, são danos colaterais. O negócio deles é outro. Gerirem muito melhor o que já têm e estragaram. Porém, precisam sempre mais, em quantidade e em barato, ignorando a miséria das terras depois dos despojos, a côdea aos proprietários e a barbárie de um país esvaziado de vida humana e natural, à exceção da área ocupada e silenciosa - o deserto de árvores.

Sim, temos de atacar o plástico nos oceanos, mas a solução não é substituí-lo por sacos de papel ou cartão, por mais que pareça bonito e ecológico e novo nos jornais de fim-de-semana. Aumentar o consumo de papel é, no caso português, legitimar e perpetuar o nosso fogo quotidiano, dia quente após dia quente, ceifando tudo, incluindo vidas humanas e milhões de unidades vegetais, pássaros, ruminantes, insetos, anfíbios e tudo mais.

Olhem para os topos das serras portuguesas. O que vêm senão nada? Já houve árvores. Arderam uma vez, duas, três. As árvores caem ou são cortadas depois dos fogos, a terra (o solo fértil) vai-se perdendo serra abaixo e só restam pedras. Pedras onde não nasce nada. Onde vai demorar séculos a que se crie de novo terra que segure árvores.

Tudo isto está a acontecer em 50 anos. A minha geração - a nossa geração de portugueses que decide hoje (pelo exercício do Poder ou pelo voto) - não sabe, não quer saber, ou ganha com isto e faz de conta. Nem a nossa tábua de salvação atual, o turismo, subsistirá se não encontrarmos uma vontade transcendente para mudar. Um país que mata pelo fogo não continuará a ser destino mundialmente eleito. É tão fácil cair em desgraça.

Mudar a nossa terra significa investir para alterar radicalmente este caminho. Como? A União Europeia tem de olhar para Portugal como um caso extremo de pobreza natural e dar-nos dinheiro e um programa estrutural para mudarmos a nossa natureza, para reencontrarmos o caminho da nossa história natural porque este pedaço de terra também faz parte da Europa. E os Governos - este e os seguintes - assumirem que o Ministério da Agricultura tem de sair da rotina canhestra da PAC-CEE, como se nada tivesse evoluído, e deixar de fazer de conta que não percebe o que está a acontecer. Mudar o território é preciso - é navegarmos em nós próprios, 500 anos depois.

"Mosaico". Palavra mágica. Um país com agricultura, pastoreio e espécies autóctones a compô-lo. Isto necessita de um investimento massivo para que substituamos os eucaliptos e as espécies invasoras por sobreiros, azinheiras, carvalhos, castanheiros, pinheiro manso e também muito subcoberto vegetal e prado, além de agricultura, pomares, vinha e silvicultura (a floresta pode promover a diversidade alimentar com frutos silvestres, frutos secos, cogumelos e espargos e muito, muito mais). Há que pagar aos novos guardadores de biodiversidade um rendimento justo que dê tempo para que os 30 anos de um sobreiro adulto sejam, então sim, um abono de família e não apenas dinheiro para se limpar as matas de forma a que arda menos uma natureza artificializada pelo esmagamento da monocultura.

É extraordinário ir descobrindo, quinhão após quinhão, como este Portugal se pode reinventar e resgatar terras férteis a este ciclo de pobreza. Há alguns dias fiz de bicicleta a ecovia da antiga linha de comboio Amarante-Celorico de Basto-Arco do Baúlhe. No meio de lugar nenhum, geometricamente definidos, apareciam enormes hectares de vinha onde antes só havia eucaliptos ou mato (vê-se isso pelos terrenos que fazem fronteiras com as novas culturas). Uma beleza colossal nas margens altas do Tâmega.

Tanto que se pode fazer nas nossas terras férteis: vinho, fruta, cortiça, bolota, castanhas ou nozes, enfim, aquilo de que se faz o nosso sabor, a nossa História, o nosso prazer. Trocado hoje realmente pelo quê?

Sim, os senhores das celuloses podem continuar os seus negócios até os terrenos morrerem de exaustão. Mas até lá, obriguem-nos ao cadastro público do arrendamento de terras, a geri-las como deve ser, a limpá-las e ao que está em redor, a pagarem por cobertos vegetais que "criem" solo quando abandonarem as terras não produtivas. E principalmente a pagar pelos incêndios onde eles acontecem: indemnizações às vítimas, e aos danos nas suas casas, além dos prejuízos gigantescos na imagem de um país sempre em chamas. Verão como o el Dorado em que vivem se atenua.

É inadmissível que este Portugal que arde seja um problema dos cidadãos ou dos contribuintes. É inadmissível que estas indústrias pretendam sempre, através do lobby, continuar a crescer, como fizeram através da "Legislação Cristas", em 2013, que potenciou uma maior liberalização destas plantações, com os resultados de crescimento de área que ainda estamos a verificar.

Um Governo corajoso faria um plano nacional para a floresta não baseado no combate ao fogo mas na reestruturação da floresta: paisagens complexas com variedade de espécies e culturas (mosaico) para que os incêndios não sejam a nossa fatalidade.

É preciso dinheiro? Claro, os pequenos proprietários têm de ser compensados por deixarem de viver dos fast-food arvícola e passarem para espécies de crescimento lento mas a prazo mais rentável e gerador de riqueza para todo o ecossistema.

Há que salvar Portugal como pensamos em salvar a Amazónia. Queremos muito salvar a Amazónia. Não sabemos, no entanto, que precisamos de salvar a nossa própria terra. Achamos que nada podemos, individualmente. Mas podemos. Só todos podemos. Tivesse o poder político vergonha da submissão a que se sujeitou durante décadas e, um dia, um Governo daria o primeiro passo, em nome de D. Afonso Henriques, e em nome dos nossos netos para reflorestar Portugal como deve ser, com bolsas de apoios aos novos agricultores, pastores, silvicultores que refundariam o nosso território até Espanha. Não é para a nossa vida, mas essa herança será bem recebida por quem chegar a Portugal-2143, mil anos de perseverança, e constatar que recebeu como património o mais maravilhoso dos países. Portugal é esta terra, não somos apenas nós.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Extinção de plantas atinge nível "assustador", alertam cientistas

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Um estudo divulgado  pela revista científica "Nature" e pela "BBC" alerta para o ritmo assustador da extinção de espécies de plantas no planeta.

As plantas produtoras de sementes têm desaparecido a um ritmo de quase três espécies por ano desde 1900, o que é até 500 vezes maior do que o esperado como resultado apenas das forças naturais.

Trata-se do primeiro relatório, realizado à escala global. Os resultados são assustadores: 571 espécies desapareceram desde 1750.

Ainda assim, os investigadores estimam que o número possa estar abaixo da realidade já que alguns países não foram estudados minuciosamente.

O trabalho é resultado de um conjunto de dados recolhidos e compilados pelo botânico belga Rafaël Govaerts do Royal Botanic Gardens Kew, em Londres.

QUAIS AS CAUSAS

O desaparecimento das florestas e o uso de grandes áreas de terreno para os negócios da agricultura são apontados como as principais causas da extinção de algumas espécies.

Também o desaparecimento de alguns animais, cujo papel é ajudar a espalhar sementes, tem contribuído para a extinção de plantas.

O estado americano do Havai lidera a lista mundial com 79 espécies extintas, enquanto a África do Sul soma 37.

Em maio, um relatório da ONU estimou que um milhão de espécies de animais e plantas estavam ameaçadas de extinção.

O número é baseado em extinções reais, em vez de estimativas, e é o dobro de todas as extinções de aves, mamíferos e anfíbios combinadas.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Como Funcionava Portugal na Era Pré-plástico?

Há quem chame “apocalipse do plástico” ou “Idade do Plástico” à era em que vivemos atualmente. Mas como era Portugal antes do plástico?

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Plástico: a realidade portuguesa
São mais de 8,8 milhões de toneladas de plástico que acabam por parar nos oceanos.

Só na União Europeia, são consumidos mais de 46 mil milhões de garrafas de plástico, 16 mil milhões de copos, 2,5 mil milhões de embalagens descartáveis e 36,4 mil milhões de palhinhas, representando cerca de 51% do lixo encontrado nas praias dos países europeus.

Portugal estará num bom caminho? O nosso país contribui anualmente, no seu quotidiano, com 721 milhões de garrafas, 259 milhões de copos de café descartáveis e 1000 milhões de palhinhas de plástico. Isto representa números astronómicos de consumo de plástico e de produção de resíduos por pessoa: cada português produz uma média diária de 1,32kg de resíduos.

Como era Portugal antes do plástico?
O plástico foi inventado no final do século XIX e a sua produção começou por volta da década de ‘50. Vamos recuar 70 anos no tempo, onde de plástico pouco se falava.

Começando pelo comércio, uma das indústrias que mais contribui para a propagação de plástico pelos oceanos, imagina ir às compras sem recorrer ao uso de plástico? Em 1950 não necessitava de sacos de plástico para comprar o que quer que fosse.

Nas mercearias antigas, o sal, a farinha, o arroz, o feijão, o café, pão e tantos outros tipos de alimentos e condimentos eram entregues aos “fregueses” em cartuxos de papel ou em sacos de pano ou algodão levados pelos próprios. Chamavam-se compras a granel e, para além de utilizarem zero plástico, evitavam a compra excessiva e a acumulação de produtos alimentares durante longos períodos de tempo em casa. Assim, conseguiam ter sempre alimentos frescos!

E os enlatados? Os enlatados, como sardinhas, atum ou salsichas, eram levados em caixas de fósforos grandes! Já o bacalhau, era embrulhado em papel de jornal, e o fiambre e o queijo em papel manteigueiro, mais conhecido por papel vegetal.

No que dizia respeito aos líquidos, como o azeite, o óleo e o vinho, que normalmente estavam em bidões dispostos pelas lojas, os merceeiros passavam os mesmos para garrafas ou garrafões de vidro que os clientes levavam de casa. O mesmo acontecia com os doces – compotas, mel – e até detergentes!

Para levar todas as compras para casa, os clientes recorriam a sacos reutilizáveis, de pano ou de serapilheira. Mais uma vez, sem recorrer ao plástico!

O setor da restauração também não utilizava a quantidade de plástico de que hoje é responsável. Foi em 1888 que surgiram as primeiras palhinhas, criadas e patenteadas por Marvin Stone. Contudo, estas palhinhas eram feitas de papel, não de plástico.

Em 1960, as palhinhas de plástico, assim como muitos outros produtos descartáveis – copos, pratos e talheres –, invadem o mercado. Os custos eram mais reduzidos e a duração era maior, quando comparados com os produtos de papel. Nesse tempo, ninguém imaginava o impacto que hoje o planeta viria a sentir.

No campo da higiene pessoal, o plástico também não era necessário. Até 1895, ou seja, até ao aparecimento das primeiras lâminas de barbear descartáveis, os homens faziam a barba com navalha e com tratamentos de toalhas quentes.

Se é possível vivermos sem plástico? A resposta é sim. Nesta época foi possível viver desta forma, porque não seria agora, que temos mais e melhorados recursos e tecnologia de ponta? Acima de tudo, a mudança começa com pequenos gestos, que por mais exíguos que sejam, vão sempre ter um impacto positivo no ambiente.

domingo, 4 de agosto de 2019

Fotógrafo retrata a desigualdade de riqueza no mundo com um drone (com video)

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O projeto fotográfico de Johnny Miller, “Cenas Desiguais”, retrata a desigualdade na distribuição de riqueza ao redor do mundo.

Quando estava a tirar um mestrado em Antropologia na Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul, o fotógrafo americano ficou desconcertado com a desigualdade com que aí se deparou. 
“A partir do minuto em que pomos os pés na Cidade do Cabo, ficamos rodeados de barracas”, contou ao site Mother Nature Network. “As barracas de lata rodeiam o aeroporto e são precisos 10 minutos para as deixarmos para trás e chegarmos aos bairros mais prósperos, onde as pessoas mais privilegiadas (incluindo eu) vivem. Este é o statu quo na Cidade do Cabo, na África do Sul, e em muitas partes do mundo – mas esse é um statu quo com o qual não concordo.” 

Com a ajuda de um drone, Johnny Miller decidiu mostrar esta realidade ao mundo e foi assim que nasceu o projeto “Unequal Scenes” (Cenas Desiguais). Depois da África do Sul, o fotógrafo continuou a explorar os contrastes e as linhas que separam os ricos dos pobres em muitos outros países, incluindo o México, a Tanzânia, a Índia e o Quénia. 

“As imagens que eu considero as mais poderosas são as tiradas quando a câmara está a apontar diretamente para baixo, olhando para as fronteiras entre os ricos e os pobres”, explicou.


“Às vezes, [esta fronteira] é uma vedação, por vezes é uma estrada ou até um pântano, sendo que de um lado há pequenas barracas ou habitações pobres e do outro casas maiores ou mansões. Há qualquer coisa na composição destas fotografias que as torna extremamente intensas para as pessoas. Acho que tornam a desigualdade relevante – as pessoas podem ver-se refletidas nas imagens e é profundamente inquietante.” 

A escolha das cenas envolve a investigação e identificação dos potenciais locais com base em dados de censos, mapas, reportagens e até conversas, conta Miller. O fotógrafo espera que o seu projeto desperte reações e promova debates sobre a desigualdade. 

“Vi este trabalho dar início a diálogos entre todo o tipo de pessoas – com ou sem estudos, ricos ou pobres, de todas as cores e géneros. Era isto mesmo que eu queria e desejava que acontecesse – que as fotos fossem discutidas e que através dessas conversas pudéssemos começar a compreender a dimensão do problema, e que através desse entendimento pudéssemos desenvolver soluções.”

sábado, 3 de agosto de 2019

Crise hídrica em Portugal já é um cenário real

O World Resources Institute estima que, em 2040, Portugal ocupe a 44º posição na lista de países que enfrentará níveis elevados de ‘stress hídrico’
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Um verão com precipitação muito escassa poderá conduzir facilmente Portugal, de uma situação confortável, para situações de escassez de água “alguma severidade”, alertam os especialistas consultados pelo Jornal Económico.

De acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), no final de maio, 98 % do território estavam situação de seca meteorológica, sendo que cerca de 37,5 % estava nas classes de seca severa e extrema. Em fevereiro, os números eram apenas de 4,8%.

Em maio deste ano, a Associação Natureza de Portugal, representante do Fundo Mundial para a Natureza (ANP/WWF), alertou que Portugal “está a viver além da água que tem”. De acordo com o World Resources Institute, em 2040, estima-se que 161 países entrem num estado de stress hídrico.

A Cidade do Cabo, foi a primeira metrópole mundial em risco de ficar sem água. No dia 19 de março, 2018, os habitantes da capital sul-africana viram as torneiras secas. Nesse dia, o nível das seis principais barragens da região fixava-se em 22,7%. Se chegar aos 13,5%, é o chamado Dia Zero, já que aos 10% torna-se impossível tirar águas das barragens. Desde então, os habitantes da Cidade do Cabo só podem gastar por dia 50 litros de água. Em Portugal, o consumo médio diário doméstico ronda os 200 litros por pessoa.

Sobre se este cenário algum dia pode ser vivido em Portugal, o climatologista e investigador da UTAD, João Santos não nega e vinca que “é muito provável”, relembrando as dificuldades sentidas no ano passado no abastecimento de àgua em Viseu. “O défice híbrido vai-se manter. Não estamos livres de situações como essas”, alerta.

“Analisando a situação que estamos a presenciar, podemos dizer que a escassez de água em Portugal é relativa,” afirmam os professores departamento de Geociências da Universidade do Porto (UP), António Guerner Dias e Joaquim Esteves da Silva, “uma vez que as reservas de água até agora acumulada poderão suprir cerca de 80% das nossas necessidades em água durante o verão”.

No entanto, as alterações climáticas (AC) continuam a ser o principal vilão da história.Tanto a poluição nos oceanos como a emissão crescente dos gases efeitos estufa, resultam num aumento da temperatura do globo que por sua vez conduzem a uma escassez de água, causada também pela falta de percipitação durante longos períodos de tempo. Este ano, o período da chuva durante a primavera ficou muito abaixo da média, o que prolongará o período de seca durante o verão. Mas as AC não são o único fator.

Entre os especialistas ouvidos pelo JE, verificou-se um consenso sobre o agravamento desta problemática em Portugal através da agricultura.

“Tanto a produção agrícola como o consumo doméstico vão agravar a situação de seca em Portugal”, esclarece o docente da UTAD. “Vamos ter menos precipitação e mais evapotranspiração, nas plantas e nos solos. Vamos ter uma maior necessidade de rega, o que pode levar a uma prática pouco sustentável”, conclui João Santos.

De acordo com os professores da UP, as necessidades de água ocorridas na agricultura, podem ser superiores a 60% do total necessário, enquanto as necessidades de água para consumo humano poderão não chegar aos 10% do total.

Desta forma, o especialista de Trás-os-Montes defende ser necessário tomar medidas urgentes no caso da viticultura e na produção de arroz e milho, que não são feitas em ambientes naturais. “Estas práticas devem ser repensadas”, realça.

Já a profesora Maria do Rosário Carvalho da Universidade de Lisboa, argumenta que também a população deve ser sensibilizada.

A falta de água conduzirá a uma maior competição nos setor de abastecimento público e consumo doméstico. A docente do departamento de Geologia, refere que o agravamento populacional e o o crescimento de centros urbanos vai tornar a àgua mais cara e transformar o ecossistema aquático e a quantidade de àgua disponível.

“ O grande desafio está em compatibilizar as necessidades de água com as disponibilidades hídricas existentes”, vinca.

Música do BioTerra: The Cure - Shake Dog Shake

Ao vivo
Versão - álbum

Wake up in the dark
The aftertaste of anger in the back of my mouth
Spit it on the wall
And cough some more
And scrape my skin with razor blades

And make up in the new blood
And try to look so good
Follow me!

Make up in the new blood
And follow me to where the real fun is
(Ah-haw, haw)

As stale and selfish as a sick dog
Spurning sex like an animal of god
I'll tear your red hair by the roots
And hold you blazing
Hold you cherished in the dead electric light

Your face
I'll never see you this way again
I captured it so perfectly
As if I knew you'd disappear away

Oh, shake-shake-shake-shake-shake-shake
Shake-shake-shake-shake-shake-shake
Shake dog shake [bis]

You hit me again
You howl and hit me again
The same sharp pain
Wakes me in the dark
And cuts me from my throat to my pounding heart
My heart
My shaking heart

But we slept all night in the virgin's bed
And dreamed of death
And breathed like sick dogs
We slept all night in the virgin's bed
And breathed like death
And dreamed of sick dogs

Wake up in the new blood
Make up in the new blood
Shake up in the new blood
And follow me to where the real fun is

Shake dog (shake dog shake) shake

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Como era o Saara há 100 milhões de anos? Um mar com criaturas marítimas gigantes, conclui estudo

Peixes com 1,6 metros e cobras com mais de 12 metros de comprimento: assim era o "deserto" do Saara. Cientistas estudaram fósseis ao longo de 20 anos e reconstruíram o mar com 100 milhões de anos.
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Dificilmente imaginamos água no deserto do Saara. Muito menos criaturas marítimas gigantes. Mas aconteceu mesmo: o areal do maior deserto do mundo foi em tempos coberto por um mar de 3.000 quilómetros quadrados, com a água a atingir mais de 50 metros de profundidade. E aí habitaram seres como cobras e peixes-gato gigantes.

Um novo estudo reconstruiu as espécies aquáticas — hoje extintas — que há 50 e 100 milhões de anos atrás preencheram o mar do Saara. O estudo, divulgado pelo The Guardian, revela que em tempos habitaram no que é hoje um deserto inóspito peixes-gato de 1.6 metros e cobras marítimas que ultrapassavam os 12 metros. Maureen O’Leary, autora da investigação, explica que nos períodos Cretáceo e Paleolítico os animais experienciaram mesmo o “gigantismo”.

A cientista conta ainda que moluscos, plantas e árvores preenchiam o leito marítimo daquele território. “As nossas novas reconstruções paleontológicas de fauna mostram uma rica e verde floresta. O antigo ecossistema do Mali tinha ainda inúmeros predadores e algumas das maiores espécies” aquáticas do mundo, revela o estudo. E a água era, claro, quente.

O estudo foi realizado ao longo dos últimos 20 anos, com base na análise dos fósseis deixados para trás nos sedimentos marítimos.

Mas porquê e como atingiram estes animais vários metros de comprimento? O mar do Saara ficava entre as atuais Argélia e Nigéria. Ou seja, durante toda a sua existência ficou isolado de outros canais de água. Assim — explica o estudo — não existiam predadores e abundavam recursos para os animais: a “receita perfeita” para o crescimento das espécies.

E como é que um vasto e profundo mar deu origem a um vasto e árido deserto? Explica a CNN que o Saara que hoje conhecemos foi formado há cerca de sete milhões de anos, quando uma falha nas placas tectónicas “fechou” a região dos mares que a envolvia.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

“O que mais valor tem para as próximas gerações vale zero para a economia”

O jurista e ambientalista Paulo Magalhães, defensor de um condomínio para o sistema terrestre, diz que as políticas devem compensar os países que contribuem para o bem comum. Numa abordagem ao capitalismo ecológico, o investigador percebe que “ninguém quer ser o otário”. Por isso, há que mudar as regras do jogo.

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Há anos que Paulo Magalhães, jurista e investigador na Faculdade de Direito da Universidade do Porto, anda a desenvolver a única forma que acredita que pode fazer frente a um problema tão global como o das alterações climáticas: tal como o seu prédio não funcionaria sem condomínio, sem um governo comum a todo o sistema terrestre a economia e a natureza vão sempre andar desencontradas. Hoje a ideia faz caminho na Casa Comum da Humanidade, fundada em 2016 com o objectivo, a longo prazo, de criar condições para que haja um órgão de governo ambiental com sede nas Nações Unidas.

Paulo Magalhães preside a este organismo internacional com sede no Porto que reúne, em permanência, cerca de 20 investigadores das ciências da Terra. O também membro do conselho geral da Zero é um dos oradores do evento Cidade +, que decorre este fim-de-semana nos jardins do Palácio de Cristal, no Porto (7 de Julho de 2018).

Na origem da Casa Comum da Humanidade está a ideia de que o planeta tem que ter um condomínio, que cuide do comum. Como é que isto se aplica ao sistema terrestre?
Nos seus 4,5 mil milhões de anos, a Terra já teve estados do sistema terrestre muito diferentes – com composições da atmosfera, acumulações de energia e termodinâmicas diferentes –, mas só nos últimos 11,5 mil anos é que se criou esta estabilidade climática que permite a vida. Ora, este sistema terrestre é também fruto da própria evolução da vida, porque há determinados gases que só depois de serem transformados quimicamente por seres vivos é que se produzem. Se destruímos a vida – as florestas, os ecossistemas – vamos criar inevitavelmente atmosferas diferentes.

O que propomos é que se reconheça este estado favorável do sistema terrestre, este trabalho da natureza que é intangível e que nenhum conceito jurídico actualmente existente consegue representar.

A moldura jurídica actual não é suficiente?
As ciências jurídicas ficaram presas num conceito que parou no tempo, que é a soberania ao território. Eu posso dizer “tu não entras nas minhas águas” ou “até aqui não podes pescar”, mas não posso dizer que não adiro às alterações climáticas nem que a composição bioquímica da água do meu oceano é diferente da do teu.

A nossa casa não é o planeta em si, não são os 510 milhões de quilómetros quadrados, mas as condições favoráveis à vida que aconteceram no holoceno nos últimos 11,5 mil anos. A ciência já definiu os limites dessa estrutura bioquímica [investigadores do Stockholm Resilience Centre definiram nove limites para a concentração de CO2 e de aerossóis na atmosfera, fluxos de nitrogénio e fósforo na biosfera e oceanos, perdas de azoto estratosférico e de biodiversidade, poluição química, acidificação dos oceanos e ciclo hídrico]. Nada disto se mede em hectares.

E nesta questão o direito não precisa de fazer nada que já não tenha feito antes. Para o trabalho intelectual ser reconhecido teve que se criar um objecto jurídico novo, a ideia. Separar a posse do livro da ideia. Agora, tal como trabalho intangível intelectual, o trabalho da natureza tem que ser reconhecido.

Isso é também uma questão económica.
Sim. Toda a gente sabe que a floresta vale muito, mas na economia só vale o valor da madeira ou do papel. Um ecossistema tem o valor da infra-estrutura mais o valor dos serviços que presta. A economia actual só olha para o valor da infra-estrutura. O que mais valor tem para as próximas gerações vale zero para a economia.

Basta dar o exemplo da Noruega: eles têm a maior frota de carros eléctricos do mundo, mas são dos maiores exportadores de petróleo. A regra do jogo é esta, os países têm obrigações com o PIB e se não a seguirmos nós é que somos os otários.

Por isso ou fazemos este upgrade do sistema económico e jurídico tendo em conta a informação que temos da ciência ou não vamos a lado nenhum – como os últimos 30 anos de negociações para mitigação das emissões nos mostraram.

Há uma empresa suíça, por exemplo, que tem tecnologia para absorver CO2 através de turbinas. Cada hélice retira uma tonelada de CO2 por dia. E o custo de cada tonelada é 100 dólares. Com isto uma empresa pode anular as suas emissões e criar produtos neutros em carbono. Mas o sistema como hoje existe não compensa o investimento nestas turbinas. Este trabalho é fundamental porque suporta a vida, mas vale zero na economia.

A proposta é que o governo deste condomínio seja feito com sede na ONU. Como se faz uma governação global que não passe por cima dos Estados?
Há um desfasamento total entre o funcionamento do sistema terrestre e os fluxos da economia. Para isto ser harmonizado o direito tem que intervir no sentido organizador, não sancionatório. Precisamos de algo que permita esta sobreposição de soberania e de património comum que existe dentro e fora dos espaços soberanos. Isto é o condomínio.

Claro que também tenho conflitos no meu condomínio, mas imaginem que ele não existia. Estaria tudo a cair e tudo à pancada. É essa a situação na natureza. É preciso um conceito novo, que permita novas soluções.

Se reconhecermos que o sistema terrestre existe, tudo o que cada um faz – positivo ou negativo – tem que ser contabilizado para o manter dentro dos limites de segurança.

Seguindo um princípio de poluidor-pagador?
Poluidor-pagador e prestador-recebedor, à escala global.

Na prática, tem que haver um administrador do condomínio que faz a avaliação e gestão permanente de cada um dos limites do sistema – o que já gastamos este ano, o que podemos gastar mais, onde é urgente compensar – e que define o seu valor.

Esta entidade vai ter em conta os resultados de cada país e estabelecer metas todos os anos. E se se quer alterar o comportamento de um grupo tem que haver compensações.

Isto pode fazer com que, por exemplo, o Brasil e o Peru não tenham que gerir praticamente sozinhos uma floresta que presta bens comuns?
Sim, a infra-estrutura da Amazónia é deles, mas os serviços que ela presta são comuns. Tem que existir um sistema de compensação – e não de mercado –, em que todos têm acesso ao bem, independentemente de conseguirem pagar, mas, porque o bem é escasso, tem que representar uma retribuição a quem o mantém.

Sem estas condições ninguém vai mudar a sua atitude. Se eu perceber que os outros têm as florestas e vão receber porque todos dependemos delas, vou olhar para os meus recursos e ver o que posso fazer para beneficiar o comum: onde posso ser mais eficiente, reabilitar as minhas reservas naturais, por exemplo.

Neste contexto, Portugal estaria a receber ou pagar?
A pegada [ecológica portuguesa] não é a melhor, mas também não é a pior. O país tem uma área relativamente pequena, teria que investir muito em eficiência energética e na redução das emissões de carbono. Mas tem uma área de oceanos bastante grande, que ia contar como um amortecedor da nossa pegada. Mas é preciso fazer cálculos. Isso é o que está por definir: o peso que, por exemplo, a área do oceano tem neste cálculo.

Então já estão definidos os limites, mas falta uma métrica e uma forma de valoração daquilo que a natureza nos dá.
Sim, aí há trabalho a fazer. A valoração há-de surgir de uma convenção internacional. A grande questão é que não pode valer zero, tem que valer o suficiente para mudar a economia. Pelo menos os verdadeiros custos de produção – os custos das externalidades negativas – têm que ser incorporados na economia.

Numa altura em que os Estados Unidos abandonaram o Acordo de Paris e, como noutros momentos, há uma retórica proteccionista, como se faz para vingar esta ideia?
É difícil. Mas o estado actual é também resultado do insucesso das políticas anteriores.

[O acordo de] Paris é muito importante e para se chegar a uma gestão global é preciso dar estes pequenos passos. Mas tem que se perceber que se tem que mudar a regra do jogo. Sem isso, ainda que algo mitigados, temos sempre os mesmos resultados.

A pressão dos factos é que vai ditar a possibilidade de mudar. Os processos humanos de mudança demoram sempre 50, 100 anos. Este processo tem 30 anos sem resultados dignos de serem mencionados como um sucesso.