terça-feira, 12 de maio de 2026

O Adeus à Árvore da Vida: Ciência revela perda de 300 mil milhões de anos de história botânica


As plantas são a base da maior parte da vida na Terra, mas as Alterações Climáticas e a Crise Ecológica estão a remodelar rapidamente os seus habitats e a aumentar o risco de extinção de formas inesperadas.

Dois estudos recentes, publicados na revista Science no dia 7 de maio de 2026, utilizam modelação evolutiva de larga escala e projeções climáticas de alta resolução para preencher lacunas críticas no nosso conhecimento sobre como a flora global reagirá ao aquecimento do planeta.

O primeiro estudo, de Wang et al., revela um paradoxo preocupante: embora as migrações induzidas pelo clima possam aumentar a riqueza de espécies a nível local (em cerca de 28% da superfície terrestre), este "baralhamento" geográfico não reduz o risco global de extinção. A investigação estima que entre 7% e 16% das mais de 67 mil espécies analisadas correm alto risco até 2100. O dado mais alarmante é que cerca de 80% destas extinções serão causadas pelo desaparecimento absoluto de habitats adequados, e não apenas pela incapacidade das plantas em migrarem. Ou seja, mesmo que as espécies consigam acompanhar a velocidade das alterações climáticas, muitas deixarão de ter um local viável para viver.

Complementando esta visão, o estudo de Forest et al. foca-se na integridade evolutiva, analisando a "árvore da vida" de mais de 335 mil espécies de plantas com flor. Os investigadores concluíram que aproximadamente 21,2% da história evolutiva destas plantas está ameaçada — o que equivale à perda potencial de 307 mil milhões de anos de progressos biológicos únicos. O estudo identifica quase 10 mil espécies prioritárias (conhecidas como espécies EDGE), que são evolutivamente distintas e estão globalmente em perigo. A perda destas linhagens seria catastrófica, pois representam "ramos" únicos da árvore genética que não têm parentes próximos, eliminando potenciais recursos medicinais e características de resiliência que levaram milhões de anos a desenvolver.

Em conjunto, estas investigações demonstram que as estratégias de conservação atuais são insuficientes. Os autores defendem uma mudança de paradigma: não basta proteger áreas aleatórias; é urgente focar os esforços na identificação de refúgios climáticos estáveis e na preservação de linhagens evolutivas insubstituíveis, recorrendo também à expansão de bancos de sementes e, em certos casos, à migração assistida para evitar uma simplificação irreversível da biodiversidade terrestre.

Já em 2014 foi publicado Natural History is Dying, and We Are All the Losers, na revista Scientific American

2 comentários:

Nuno Lopes disse...

A Terra tem cerca de 4,5 mil milhões de anos de idade, e a vida na Terra terá mais ou menos 3,7 mil milhões de anos, portanto não se pode falar de "300 mil milhões de anos de história botânica".

João Soares disse...

Compreendo perfeitamente a dúvida! À primeira vista, o número parece impossível porque a Terra só tem 4,5 mil milhões de anos. Mas o estudo não se refere ao tempo cronológico linear da Terra, e sim à história evolutiva cumulativa de todas as espécies em simultâneo.Pensa nisto como a árvore genealógica de uma família:
Imagina que tu e o teu primo têm ambos 30 anos. Se somarmos o tempo que a vossa geração demorou a desenvolver-se de forma independente, são 30 + 30 = 60 anos de 'história de vida' acumulada, embora o relógio do mundo só tenha avançado 30 anos.
Quando os cientistas dizem que estão em risco 307 mil milhões de anos de história evolutiva, eles estão a somar o tempo que cada um dos ramos das 335 mil espécies de plantas com flor passou a evoluir de forma única e independente.
Se um ramo isolado que evoluiu sozinho durante 50 milhões de anos se extinguir, a Terra perde 50 milhões de anos de 'linhas de código' genético único que nunca mais se repetirão.
É por isso que o número é tão astronómico: é a soma de milhares de caminhos evolutivos a correr em paralelo ao longo do tempo!