sexta-feira, 15 de maio de 2020

"As Vidas dos Animais" de John Coetzee

Publicada originalmente em 1999, a obra "A Vida dos Animais" (The Lives of Animals) afirma-se como um dos textos mais singulares e influentes de J.M. Coetzee, tendo surgido a partir das Tanner Lectures on Human Values que o autor proferiu na Universidade de Princeton entre 1997 e 1998. Em vez de seguir o formato de um ensaio académico tradicional, Coetzee optou pela estratégia da metaficção, criando a personagem Elizabeth Costello, uma romancista idosa que, ao ser convidada para dar uma palestra, utiliza esse espaço para proferir um discurso visceral e perturbador sobre o tratamento humano dado aos animais. Esta estrutura permite a Coetzee utilizar a literatura para testar os limites da razão, com Costello a argumentar que a filosofia ocidental padece de uma obsessão pela "razão" como único critério de valor, o que serve apenas para excluir os animais da esfera de consideração moral. Em alternativa, a personagem propõe a comiseração — a capacidade profunda de sentir o que o outro sente — como base ética. O ponto mais polémico desta análise surge na analogia do Holocausto, onde Costello compara os matadouros modernos ao extermínio nazi, sugerindo que a humanidade vive num estado de negação coletiva semelhante ao dos cidadãos que ignoravam a existência dos campos de concentração ao seu redor.

A obra promove um verdadeiro embate com a tradição filosófica ao incluir respostas reais de académicos, gerando um diálogo interdisciplinar de grande fôlego. Entre os intervenientes destaca-se Peter Singer, filósofo de ética utilitarista e autor de Libertação Animal, que responde através de um conto onde debate se a base para os direitos deve ser a razão ou a capacidade de sofrer, focando-se nos interesses, enquanto a visão de Costello se centra na experiência subjetiva. Embora não esteja diretamente presente no livro, o pensamento de Tom Regan também ressoa na narrativa ao defender que os animais são "sujeitos-de-uma-vida", possuindo um valor inerente que transcende a utilidade humana. Esta crítica estende-se às perspetivas da biologia e da etologia, com Costello a atacar a ciência que reduz os animais a objetos de estudo mecânicos. Sobre este ponto, o primatologista Frans de Waal contribui com um comentário argumentando que a moralidade e a empatia têm raízes evolutivas profundas e não são exclusivas da nossa espécie, ideia reforçada pela frequente citação de Jane Goodall, que desafia o antropocentrismo radical ao demonstrar que os animais possuem personalidades e emoções complexas.

No âmago da obra reside a tese da falha da linguagem humana, considerada insuficiente para capturar a essência da existência animal. Coetzee sugere que apenas através da imaginação poética, e não da lógica silogística, podemos aspirar a compreender o "ser" de um animal. Nesta jornada intelectual, surgem referências fundamentais como René Descartes, alvo central das críticas de Costello por ter definido os animais como "autómatos" desprovidos de consciência, e a filósofa moral Mary Midgley, que defendeu deveres mistos para com a comunidade biológica. A obra evoca ainda Jeremy Bentham, o precursor do utilitarismo que famosamente instigou a humanidade a perguntar não se os animais podem raciocinar ou falar, mas se podem sofrer. Em conclusão, "A Vida dos Animais" transcende o debate sobre o vegetarianismo para se tornar uma exploração profunda sobre a solidão da consciência humana e a nossa dificuldade em reconhecer a alteridade radical, obrigando o leitor a confrontar o "crime silencioso" que sustenta os pilares da nossa civilização.

Saber mais:
J.M. Coetzee and Elizabeth Costello: Landscapes and Animals

Mirror neurons and literature: Empathy and the sympathetic imagination in the Fiction of J.M. Coetzee

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