A Cantata do Café (Schweigt stille, plaudert nicht, BWV 211) é uma das obras mais invulgares e fascinantes de Johann Sebastian Bach, revelando um lado humorístico e mundano do compositor que muitos desconhecem. Escrita por volta de 1734, em Leipzig, esta peça não é uma obra religiosa para ser tocada numa igreja, mas sim uma cantata secular composta para ser apresentada no Café Zimmermann, um ponto de encontro popular da época onde Bach dirigia o Collegium Musicum.
O enredo gira em torno de uma sátira social sobre a "obsessão" pelo café, que no século XVIII era a grande novidade na Europa e vista por muitos conservadores como um vício perigoso. A história apresenta-nos Schlendrian, um pai austero e resmungão, que tenta desesperadamente convencer a sua filha, Lieschen, a abandonar o hábito de beber café. Schlendrian utiliza todas as táticas de pressão possíveis, ameaçando proibir a filha de sair de casa, de comprar vestidos novos ou de usar fitas de luxo no cabelo.
Lieschen, no entanto, permanece firme e canta uma das árias mais célebres da obra, onde descreve o café como sendo "mais doce que mil beijos e mais suave que o vinho moscatel". O conflito só parece resolver-se quando o pai lhe faz uma última ameaça: ela nunca poderá casar-se se não parar de beber a bebida. Perante a perspetiva de ficar solteira, Lieschen finge ceder, mas a história termina com uma reviravolta astuta. Enquanto o pai sai à procura de um noivo, ela faz saber secretamente que só aceitará um marido que inclua uma cláusula no contrato de casamento permitindo-lhe preparar o seu café sempre que desejar.
O significado da obra vai além da simples comédia; é uma celebração da liberdade individual e uma crítica bem-humorada ao choque de gerações. Bach utiliza a música para humanizar as personagens e mostrar que, tal como diz o coro final, "o hábito de beber café é impossível de abandonar", comparando-o a instintos naturais. Esta cantata prova que Bach, apesar da sua profunda religiosidade, estava perfeitamente sintonizado com os prazeres e as polémicas do quotidiano da sua cidade.
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