quinta-feira, 18 de maio de 2023

A Inteligência da aves - Uma conversa com Jennifer Ackerman


Versão original (inglês)
Jennifer Ackerman é uma autora americana conhecida pelos seus livros de ornitologia, incluindo o bestseller "A Inteligência das Aves".

Nesse livro, Ackerman argumenta que, ao contrário de metáforas populares como "cérebro de passarinho", as aves são realmente muito inteligentes e pensam de forma complexa. Descrito pelo The Guardian como uma "investigação viva sobre a ciência da inteligência das aves", o livro foi um bestseller do New York Times em 2017. A autora desenvolveu essa ideia no seu livro de 2020, "The Bird Way", combinando observações pessoais e uma revisão da literatura sobre as últimas investigações sobre aves, de modo a discutir vários aspetos da vida das mesmas. Jennifer Ackerman foi a narradora da versão em audiolivro de ambas as obras.

Ackerman é autora de oito livros que foram publicados em mais de 20 línguas. Além dos seus livros publicados, é também colaboradora da Scientific American, da National Geographic e do The New York Times. Trabalhou na National Geographic durante nove anos, onde editou o famoso livro "The Curious Naturalist". Deixou esse emprego para escrever como freelancer e passou algum tempo em Lewes, no Delaware, a investigar a zona costeira e a escrever o seu livro "Notes From the Shore", que foi relançado como "Birds By the Shore" em 2019.

No vídeo "A Inteligência das Aves - Uma conversa com Jennifer Ackerman", promovido pela AvistarBrasil, a escritora de divulgação científica aborda os mistérios da mente das aves, desmistificando a ideia secular de que são animais que agem por puro instinto e revelando a complexidade dos seus processos de pensamento.

A autora começa por explicar a evolução histórica da nossa compreensão sobre o cérebro destes animais. Antigamente, acreditava-se que, devido ao tamanho reduzido da cabeça, as aves eram biologicamente incapazes de raciocinar. Contudo, estudos modernos de neurobiologia mostram que os seus cérebros possuem áreas altamente desenvolvidas para a cognição e tomada de decisões. Jennifer destaca o trabalho da neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, que descobriu que espécies como papagaios e corvos possuem uma densidade de neurónios impressionante, chegando a ter o dobro das células cerebrais de primatas com o mesmo tamanho físico. Embora a arquitetura do cérebro das aves seja organizada de forma diferente da dos mamíferos — estruturada em bulbos semelhantes a uma cabeça de alho, em vez de camadas como uma lasanha —, as suas conexões e vias neurais operam com o mesmo nível de eficácia e sofisticação.

Ao longo da palestra, são apresentados exemplos extraordinários que ilustram diferentes tipos de inteligência no mundo aviário. No campo da comunicação, Jennifer menciona o chapim, cujo canto de alerta é tão complexo que consegue detalhar aos restantes membros do bando o tipo exato de predador na zona e o seu nível de perigosidade. No que toca à memória, a ave quebra-nozes impressiona ao conseguir esconder dezenas de milhares de sementes numa área de vários quilómetros e lembrar-se da localização exata de cada uma, mesmo após mudanças drásticas na paisagem devido à neve. Outras espécies demonstram memória episódica e capacidade de planeamento, escolhendo consumir primeiro os alimentos que se estragam mais depressa.

A capacidade técnica e social também é amplamente debatida. Os corvos da Nova Caledónia são celebrados como os grandes engenheiros do mundo animal, sendo capazes de fabricar voluntariamente as suas próprias ferramentas a partir de folhas e gravetos com ganchos para pescar larvas de árvore. Esta competência é transmitida ativamente dos pais para os filhos, estabelecendo o que os cientistas consideram uma forma de cultura. No plano emocional, estudos com gaios e corvos sugerem a existência de empatia e de uma teoria da mente, uma vez que estas aves conseguem antecipar os desejos das suas parceiras ou consolar aliados que tenham saído magoados de um confronto físico. Adicionalmente, o pássaro-arquiteto demonstra uma sensibilidade quase artística ao construir palcos simétricos e decorados com mosaicos de objetos coloridos apenas para impressionar as fêmeas, que atuam como júris extremamente exigentes.

Jennifer Ackerman conclui a sua apresentação defendendo que o sucesso evolutivo de uma classe de animais deve ser medido pela sua capacidade de sobrevivência e adaptação, áreas em que as aves superam largamente os mamíferos. Com dezenas de milhares de milhões de indivíduos espalhados por todos os ecossistemas da Terra, desde os polos aos desertos, as aves dão-nos lições valiosas sobre as múltiplas formas que a inteligência pode assumir. A autora deixa um forte apelo à conservação destas espécies, lembrando que o gênio que nos rodeia está seriamente ameaçado pela perda de habitat e pelas alterações climáticas, sendo imperativo mudar a nossa perceção para garantir a sua preservação futura.

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