sábado, 9 de maio de 2020

A pandemia e o capitalismo numérico

A verdade é que este período de luta pela sobrevivência física não gerou até agora nenhum sobressalto político ou espiritual, nenhuma tomada de consciência da necessidade de mudar de vida. Não gerou esperança no futuro.

Por José Gil

A pandemia da Covid-19 pode vir a modificar radicalmente o modo de vida das sociedades actuais, pré e pós-industriais. Um factor decisivo dessa transformação serão as novas tecnologias, que virão a ganhar uma importância maior na economia e nas relações sociais. Formar-se-á um novo tipo de subjectividade, a “subjectividade digital”, já em gestação nas sociedades actuais, mas que, no futuro, se colocará no centro do novo “capitalismo numérico”, como condição essencial do seu funcionamento. Entretanto, vivemos uma crise de transição, que compromete as próprias subjectividades.

Pandemia e desterritorialização

Mesmo antes de ser declarada a quarentena em Wuhan, sete milhões de chineses saíram da cidade e espalharam-se pelo mundo. A região da Lombardia, na Itália, que mantinha voos directos para a região mais contaminada da China, foi rapidamente atingida. A França, a Alemanha, a Espanha, o Reino Unido e, muito rapidamente a Europa, foram infectados. Alastrando a todos os continentes, a pandemia cobriu o planeta em poucos meses. Uma disseminação tão célere e imprevisível deveu-se às características do novo vírus, mas só foi possível graças à deslocação intensa de indivíduos e grupos, através da rede extraordinária de comunicações e transportes que liga hoje os países uns aos outros.

Trata-se de uma torrente imparável de gente sempre a ir e a vir, em que participam homens de negócios, políticos, universitários e estudantes, turistas (em turismo de massa ou individual) e multidões que se deslocam para assistir a acontecimentos culturais, desportivos ou religiosos, sem esquecer os milhões de migrantes fugindo da guerra e da fome. Estas vagas imensas de pessoas que vão de um território a outro, alimentam a desterritorialização geral, contínua, que não cessa de crescer. Ao disseminar-se, o vírus da pandemia não fez mais do que percorrer o mapa mundial da desterritorialização.

A pandemia resultou da desterritorialização, é a manifestação extrema da doença tecno-capitalista que há mais de dois séculos se infiltrou nas sociedades humanas. E que, tal como um vírus, vai contagiando território após território, país após país, continente após continente: é o capitalismo global que transforma a Terra inteira, submetendo-a, como um contágio epidémico, ao seu funcionamento. Se o novo coronavírus prolonga o movimento desterritorializante da economia capitalista, é porque esta é, no seu desenvolvimento e propagação, propriamente pandémica.


A primeira reacção contra a pandemia visou, logicamente, conter a sua proliferação: contrariando ao máximo a desterritorialização, impôs-se a quarentena a centenas de cidades, e confinaram-se os cidadãos nos seus locais de residência. Fecharam-se aeroportos, estações de comboios, portos e estradas, sítios onde as aglomerações de pessoas aumentam os riscos de contaminação. Porque a desterritorialização implica não apenas a deslocação, mas também o seu contrário complementar, os mais variados ajuntamentos de “pessoas sós”, que se encontram nas gares ferroviárias ou nos festivais de música. Cancelaram-se eventos de toda a espécie, proibiram-se saídas e passeios. Numa palavra, reterritorializaram-se os indivíduos nas suas casas, incentivando-os a cultivar um tipo de vida esquecido, por assim dizer “arcaico”, familiar e mais “humano”, que o regime habitual de trabalho havia sempre impedido.


O confinamento universal e a reactivação de modos de vida supostamente harmoniosos, mas já erodidos e ineficazes, levam à formação de novas subjectividades, mais adaptadas à “economia numérica”. A generalização do teletrabalho, a digitalização máxima dos serviços e a virtualização das deslocações e das relações sociais terão, muito provavelmente, consequências drásticas nas transformações da sociedade.

Se, até aqui, se alargava a desfasagem crescente entre o desenvolvimento da economia financeira global e os processos de subjectivação – que misturavam subjectivações digitais e subjectivações arcaicas, estas ligadas ainda às sociedades industriais e pré-industriais -, agora o vazio parece poder ser preenchido. A época de transição chega ao seu fim.

A nossa ideia é simples: a pandemia será o agente mediador da passagem de uma fase histórica do capitalismo (o capitalismo industrial-financeiro) – cada vez mais perturbada e caótica, cada vez menos viável no contexto geral da sociedade e do Estado – para uma outra fase em que se procuram os ajustamentos necessários entre as exigências económicas e as subjectividades que, em todos os domínios, do teletrabalho às práticas de lazer, lhes correspondam adequadamente.

Conseguir-se-ia, assim, um equilíbrio, sem dúvida precário, mas que asseguraria o desenvolvimento sem entraves do capitalismo digital: eis o que está inscrito, eis o que visa o impulso imparável da dinâmica capitalista. Evidentemente, serão precisas subjectividades apropriadas, com o máximo de consenso colectivo e individual, e o mínimo de conflito.

Terá sido necessário o surgimento de uma pandemia mortífera para adaptar as subjectividades às novas exigências do capitalismo global. A Covid-19 seria o trampolim a catapultar a colectividade para um nível superior, o da sociedade digital. Em vez de progredir gradualmente, passando por fases mediadoras, a pandemia vai obrigar a um salto brutal, impondo indiscriminadamente a digitalização de todas as actividades. Inverter-se-ia a ordem de subordinação: o digital, que estava submetido à hegemonia de hábitos ligados ao corpo físico (a desterritorialização obrigava os corpos a deslocarem-se ou a desapropriarem-se de si próprios), tornar-se-ia dominante, condicionando os outros actos sociais, quando não os suprimia.

O que se procurava, afinal, era que as gerações pré-pandémicas, com a sua cultura humanista, os seus hábitos jurídicos, a sua consciência judeo-cristã, não entravassem mais o livre funcionamento da economia. Só pelo número de mortos idosos, a pandemia já ajudou a limpar o horizonte. Mas foi sobretudo pela construção de novas práticas, novos constrangimentos, novos hábitos de prazer a que obrigou o isolamento social, que as subjectividades digitais poderão florescer e dominar. Serão subjectividades desterritorializadas, de certo modo, nómadas e transparentes, mas reterritorializadas no digital.

A inteligência artificial terá sem dúvida um papel decisivo neste processo de sedentarização. As novas subjectividades caracterizar-se-ão pela submissão e adequação dos corpos às (ou mesmo a sua exclusão das) tarefas da economia digital, e a permeabilização das mentes às ordens e necessidades da vida virtual. A nova subjectividade comportará capacidades passivas de obediência voluntária e capacidades activas de funcionamento programado. Estas características estavam já presentes na subjectividade digital pré-pandémica, que descrevemos acima.
O capitalismo, a esperança e as forças de vida

Vivemos, neste momento, dois tempos diferentes, em simultâneo: o nosso presente da vida confinada e o tempo da espera que a pandemia acabe. Nem um nem outro, nem os dois sobrepostos, ajudam a agir. Alguns pensam que este período de isolamento deverá ser aproveitado para tomar consciência da necessidade de mudar de vida, recusando voltar à “normalidade”. A normalidade representa o tecno-capitalismo e a vida caótica que ele engendra.

Através das fragilidades e insuficiências das políticas de saúde, esta crise revelou in vivo a desigualdade que condena tendencialmente os pobres à contaminação e à morte, a indiferença dos sistemas económicos perante o sofrimento e a doença, ou a falta de solidariedade e de coesão dos Estados membros da União Europeia. Mas mais profundamente, ela mostrou, segundo muitos, a futilidade e o vazio da vida sem sentido em que os povos viviam antes da pandemia. Apareceram então – e continuam a aparecer – certos pensadores, laicos e religiosos, que afirmam ser esta pandemia a ocasião única para operar “revoluções” ou “reformas interiores” ou “conversões” radicais que trouxessem uma mudança radical no modo de vida da humanidade.

A verdade é que este período de luta pela sobrevivência física não gerou até agora nenhum sobressalto político ou espiritual, nenhuma tomada de consciência da necessidade de mudar de vida. Não gerou esperança no futuro. No nosso país, a unidade nacional foi reforçada apenas no sentimento colectivo de compaixão pelos mortos e doentes, e pela gratidão para com os médicos e enfermeiros. Talvez um pouco, também, pela adesão geral à política do governo.

Não se conceberam nem novos valores éticos, nem novos programas económicos ou práticas políticas. E nem a violência brutal do sofrimento e da morte nos hospitais, escancarada no espaço público mediático, conseguiu varrer as imagens enganadoras com que nos habituámos a lidar com a realidade. O confinamento não favoreceu a reflexão e a acção, pelo contrário, suspendeu o tempo, a vida activa e o pensamento. O contágio temido, imaginado, alucinado, foi o único acontecimento que condicionou as emoções e os gestos quotidianos.

Se, com o confinamento, fugimos à desterritorialização desabrida que vivíamos antes da pandemia, não nos reterritorializaremos, afinal, senão no digital. Quando se diz “estamos todos juntos nesta luta” ou “só com o esforço de todos poderemos vencer o vírus”, este “todos” que compreende sobretudo os confinados constitui, no fim de contas, uma realidade virtual. Estamos, virtualmente com todos e com a comunidade, em que participamos à distância, separando-nos dela. É toda a vida que se virtualiza.

De resto, o confinamento não foi e não é um tempo de expansão e alegria. Com as ruas desertas, as cidades silenciosas e o sofrimento gritante dos doentes, a casa em que nos fechámos não constitui, propriamente, um lugar de entusiasmo e criação. Nem propício à meditação metafísica, nem à elaboração de grandes projectos de vida. Afinal, a grande maioria das pessoas quer “voltar à normalidade” (ou, a uma “nova normalidade”, como diz Cuomo, o governador do estado de Nova Iorque).

Ao ver o desejo premente e angustiado dos políticos de certos países da Europa, de acabar, neste mês de Abril, com o isolamento obrigatório para pôr a economia a funcionar, constata-se que se está a preparar tudo para voltar e retomar – por mais difícil que venha a ser – o estado de coisas anterior. A economia versus a saúde, como se tem dito, ou a vitória da economia contra a saúde (nos vários sentidos da palavra). O tecno-capitalismo voltará a funcionar, talvez não como dantes, talvez como “capitalismo numérico”, construindo rapidamente novas subjectividades digitais. Não escaparemos ao seu poder de preservação, auto-regeneração e metamorfose.

Resta-nos ver mais longe, e prepararmo-nos, com o máximo das nossas forças de vida: esta crise não é independente da crise ecológica que estamos já a viver e que em breve atingirá um patamar irreversível. Aí, e porque para ela não haverá vacina, teremos todos de pôr radicalmente em questão o tecno-capitalismo e os seus modos de vida, se quisermos ter um (outro) destino na Terra.

sexta-feira, 8 de maio de 2020

O decrescimento- Um projecto para o futuro? por Serge Latouche


A ideia de decrescimento é uma das mais emblemáticas dos últimos tempos, utilizada em debates sobre ecologia, economia e sociedade. O decrescimento para Latouche, economista e criador do conceito, abre um leque de alternativas ao totalitarismo económico que rege a sociedade de consumo em que vivemos. 

Decrescimento é um slogan provocativo, pois nos convida a pensar se é ou não possível viver numa sociedade que se desenvolve infinitamente. Pensar e falar em decrescimento parece ser um conceito de luta porque nos leva a questionar o quanto o capitalismo de liberdade e seu mito do desenvolvimento eterno nos tiraram. 
É possível ter uma sociedade autónoma e próspera sem ter que pensar sempre em crescimento? Quais são os limites para preservar a sobrevivência da humanidade e as condições de vida no planeta?


quarta-feira, 6 de maio de 2020

Evolutionary Aspects of Covid19 with Cosmologist Jude Currivan, PhD



Jane Goodall - "Foi o nosso desrespeito pelos animais que causou esta pandemia"

Jane Goodall avisa que a destruição das florestas faz com que seja "mais provável" que os seres humanos contraiam este tipo de doenças.

Fonte: aqui

A primatóloga britânica Jane Goodall indicou, este domingo, a destruição que os seres humanos têm levado a cabo do reino animal foi uma das principais causas que levou a que o surto do novo coronavírus adquirisse uma dimensão global.

Em entrevista concedida à estação televisiva France24, a cientista de 86 anos sublinhou que, sem os seus habitats naturais, os animais irão ver-se cada vez mais forçados a aproximar-se das populações, o que, por sua vez, tornará mais provável este tipo de surtos.

"Foi o nosso desprezo pela natureza e o nosso desrespeito pelos animais com quem deveríamos partilhar o planeta que causou esta pandemia, que foi prevista há tanto tempo", começou por dizer aquela que é uma das mais conceituadas primatólogas do mundo.

"À medida que destruímos as florestas, as diferentes espécies de animais são forçadas a uma proximidade, e, consequentemente, as doenças são passadas de um animal para outro, e esse segundo animal é, então, mais provável que infete humanos, uma vez que é forçado a viver mais próximo deles".

Além disso, Jane Goodall alerta que outro dos fatores de risco está relacionado com "os animais que são caçados por comida, vendidos em mercados em África ou na Ásia, especialmente na China, e as quintas intensivas onde são cruelmente aglomerados biliões de animais de todo o mundo".

"É ótimo que a China tenha encerrado os mercados de animais selvagens vivos, numa proibição temporária que esperemos que seja tornada permanente e que outros países asiáticos sigam. Mas, em África, será muito difícil travar a venda de carne de animais selvagens, porque muitas pessoas dependem dela para viver", concluiu.

terça-feira, 5 de maio de 2020

Masanobu Fukuoka - Natural Farming (Agricultura Natural)


Masanobu Fukuoka (japonês: 福岡 正信, 2 de fevereiro de 1913 - 16 de agosto de 2008) foi um fazendeiro e filósofo japonês celebrado por sua agricultura natural e revegetação de terras desertificadas. Ele foi um defensor dos métodos de cultivo de grãos sem plantio direto e sem herbicidas tradicionais de muitas culturas indígenas, a partir dos quais criou um método particular de cultivo, comumente referido como "agricultura natural" ou "agricultura sem fazer nada".

Suas influências foram além da agricultura para inspirar indivíduos dentro dos movimentos de alimentação natural e estilo de vida. Ele era um defensor declarado do valor de observar os princípios da natureza.

Fukuoka chamou sua filosofia agrícola de shizen nōhō (自然農法), mais comumente traduzida para o inglês como "agricultura natural". Também é referido como "o método Fukuoka", "a maneira natural de cultivar" ou "agricultura sem fazer nada".

Fukuoka reinventou e avançou o uso de bolas de sementes de argila. As bolas de sementes de argila eram originalmente uma prática antiga em que as sementes para as colheitas da próxima estação são misturadas, às vezes com húmus ou composto para inoculantes microbianos, e então são enroladas na argila para formar pequenas bolas. Este método agora é comumente usado em jardinagem de guerrilha para semear rapidamente áreas restritas ou privadas.

Biografia e obra científica:

E-Livro:
A Revolução de uma Palha

Documentário:

Fundação:

Documentário da Semana: Como Cuba venceu o Colapso com auxílio da Permacultura


Documentário empolgante que mostra como Cuba venceu a grande crise que ocorreu com a queda da União Soviética aplicado os preceitos da Permacultura em grande escala.
O Poder da Comunidade: Como Cuba Sobreviveu ao Pico do Petróleo.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

O Coronavírus Explicado


Em dezembro de 2019 foi anunciado ao mundo a existência do “Coronavírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave 2”, chamado mais vulgarmente “Coronavírus”, causando a doença COVID-19, para a qual se continua a procurar uma cura.

Sem dúvida, a forma mais simples de explicar às crianças é através desta animação, legendada em praticamente todas as línguas. Veja como ativar a legendagem no youtube aqui.

Documentário da semana: 23 Coronavirus un desafío a nuestro modelo social


Hoje, mais de 3.000 milhões de pessoas, mais da metade da humanidade, estão confinadas em nossas casas pelo coronavírus. O coronavírus está liderando uma pandemia que está quebrando todos os tipos de recordes de saúde, biológicos, econômicos e, acima de tudo, sociais e emocionais.

Sob a monotonia desses dias terríveis de confinamento e incerteza, alimentamos o desejo de que tudo acabe. E vai acabar. E teremos à nossa frente a lista de boas resoluções que tomamos nos dias de hoje, de viver melhor a vida, de não dar importância ao que não tem, de não cair nos erros que nos trouxeram até aqui... Corremos o sério risco de esquecer tudo assim que finalmente abrirmos as portas de nossas casas... porta...

O vírus colocou em xeque todos os sistemas de saúde nacionais e internacionais, mas não há sistema de saúde em nenhum país, não há órgão de segurança em nenhum estado capaz de nos proteger na escala e com a confiabilidade com que a natureza o faz. As Nações Unidas e a Organização Mundial da Saúde indicaram há muito tempo o que estamos sofrendo agora: não estamos preparados para uma grande pandemia. E ele disse e diz enquanto anuncia que haverá mais e mais.

O efeito protetor da natureza contra patógenos e infecções é conhecido há muito tempo e os cientistas o demonstraram há várias décadas. Em zoonoses, geralmente há várias espécies envolvidas, portanto, mudanças na diversidade de animais e plantas afetam as chances de o patógeno entrar em contato e infectar humanos. O efeito protetor da biodiversidade por diluição foi levantado por Keesing e colegas há quinze anos, em um importante artigo na revista Nature. Esse efeito protetor devido à diluição da carga viral foi demonstrado alguns anos depois por Johnson e Thieltges. O efeito protetor ao tamponar a biodiversidade foi demonstrado para o caso do vírus do Nilo Ocidental e diversidade de aves por Ezenwa et al. em 2006.

Estamos levando a vida à sua sexta grande extinção, ameaçando o futuro de um milhão de espécies, a uma taxa mil vezes maior do que a taxa de extinção natural. Estamos empobrecendo e simplificando ecossistemas, deixando apenas as espécies que nos interessam ou mesmo colocando ou, melhor, impondo, aquelas que nos interessam. Florestas simplificadas que se tornam muito sensíveis às mudanças e perturbações ambientais. Florestas que não amortecem os extremos de calor e frio. Florestas que não cumprem bem suas funções ecológicas. E, agora percebemos novamente, florestas que mal nos protegem de zoonoses.

Assim chegamos à… equação do desastre! Uma equação simples em que a magnitude do desastre resulta dessas três variáveis-chave. A soma da desigualdade social e da destruição ambiental, por sua vez, é multiplicada pela globalização. Devemos refletir sobre os ingredientes desse desastre para não continuar sofrendo com ele.

O grande problema atual da humanidade é que os seres humanos se concebem como algo diferente e separado do que chamamos de meio ambiente, natureza ou biosfera. Somos imensamente cegos quando se trata de ver que tudo o que fazemos ao resto da biosfera fazemos à nossa saúde, nossa economia, nossa sociedade.

Somos tão cegos que não vemos O Elefante na Sala? … Ninguém vê? Ou só nos lembramos dele quando nos encontramos em extremas dificuldades? Como podemos pensar que destruir ecossistemas e superexplorar recursos não terá consequências profundas em nossas vidas? O que tem que acontecer para abrirmos nossos olhos, para relacionarmos a notícia com os processos físicos e biológicos que a explicam? A pandemia de coronavírus, como 70% das doenças emergentes nos últimos 40 anos, nós mesmos causamos direta ou indiretamente. A culpa não é dos morcegos ou dos pangolins, mas dos nossos novos hábitos globais em meio a uma natureza já simplificada e empobrecida, e que não cumpre muitas das funções. Isso não está de acordo com a nossa proteção, agora que tanto precisamos dela.

Vivemos de costas para a natureza, mas nossa saúde depende dela muito mais do que pensamos. Mais vírus virão e não haverá sistema de saúde que possa contê-lo. Somente uma natureza rica e funcional, com níveis adequados de biodiversidade, será capaz de regular e amortecer os impactos de futuras zoonoses sobre a humanidade. Se realmente aspiramos a um mundo mais feliz, se pretendemos melhorar nosso bem-estar e o das gerações futuras, não temos escolha, não há outra alternativa senão conservar, restaurar e mimar os ecossistemas que nos cercam, garantindo que a gente não deixa… nenhuma espécie de fora!

Relatório Charney - texto


Podes fazer o download aqui
O Relatório Charney é um documento científico publicado em 1979 que estudou o efeito sobre a temperatura e o clima global do aumento da concentração de gás carbónico na atmosfera. Seu título original é Carbon Dioxide and Climate: A Scientific Assessment (Dióxido de Carbono e Clima: Uma Avaliação Científica), mas tornou-se mais conhecido como Relatório Charney em função do principal pesquisador envolvido, Jule Gregory Charney.

Quando Jimmy Carter assumiu o governo dos Estados Unidos em 1977, o Conselho Presidencial para a Qualidade do Ambiente encomendou um grande estudo sobre as possíveis mudanças na população e no ambiente até o fim do século XX. Durante a pesquisa foram analisados trabalhos indicando que um aumento na concentração atmosférica de gás carbônico, emitido pelas atividades humanas, provavelmente causaria um significativo aumento da temperatura global. Quando os resultados foram levados ao conhecimento do presidente em 1979, a Academia Nacional de Ciências foi chamada para avaliar essa perspectiva, porque Carter tencionava usar o carvão mineral como uma saída para a crise do petróleo, e quando ocorre a queima do carvão é libertada grande quantidade de gás carbônico.[1]

Um grupo de pesquisadores, liderados por Charney, foi incumbido da tarefa. Suas conclusões principais:[2][3]
  • Se as emissões de gás carbónico continuassem nos níveis da época, a concentração na atmosfera duplicaria em algum momento da primeira metade do século XXI;
  • Isso levaria a um aumento de 1,5 a 4,5 ºC na temperatura média do globo, com um equilíbrio em torno de 3 ºC;
  • Todos os modelos climáticos utilizados previram um aumento significativo na temperatura;
  • Latitudes mais altas (mais perto dos polos) teriam aumentos maiores na temperatura;
  • Mudanças regionais no clima acompanhariam o aquecimento;
  • Não há nenhum mecanismo natural conhecido que possa minimizar ou reverter esse processo, mas provavelmente a captura de calor pelo oceano retardaria o efeito final por algumas décadas.
Embora os autores tenham reconhecido que ainda havia muitas incertezas devido aos poucos dados observacionais, ao entendimento fragmentário da ciência do clima e aos primitivos modelos climáticos usados, as previsões do relatório ficaram dentro das estimativas e observações mais atuais.[3]

O relatório fez parte de um grupo de estudos empreendidos na mesma época por diferentes equipes científicas, que trouxeram pela primeira vez a questão do gás carbônico e suas implicações para o aquecimento global para dentro da arena política.[2] Desses estudos, o Relatório Charney tornou-se provavelmente o mais famoso e influente, e é considerado um trabalho notável pela precisão das suas principais previsões, tendo surgido num período em que os recursos de pesquisa e os dados disponíveis eram ainda muito limitados.[2][4][3]

Saber mais:
Alterações Climáticas - Delgado Domingos

Referências
1↑ Schoolman, Ethan. "Carter Administration". In: Philander, S. George (ed.). Encyclopedia of Global Warming and Climate Change, vol. 1. SAGE, 2012, 2ª ed., pp. 210-211
2.↑ a b c Nierenberg, Nicolas; Tschinkel, Walter R. & Tschinkel, Victoria J. "Early Climate Change Consensus at the National Academy: The Origins and Making of Changing Climate" . In: Historical Studies in the Natural Sciences, 2010; 40 (3):318–349
3.↑ a b c Bony, Sandrine et al. "Carbon Dioxide and Climate: Perspective on a Cientific Assessment". In: Asrar, Ghassem R. & Hurrell, James W. (eds.). Climate Science for Serving Society: Research, Modeling and Prediction Priorities. Springer, 2013, pp. 391-413
4↑ Perry, J. S. "The Charney Report — Creation and Consequences". In: American Geophysical Union Fall Meeting Abstracts, 2009

domingo, 3 de maio de 2020

Economia global: neoliberalismo contaminado, por Michel Husson

A atividade económica estagnou parcialmente e este súbito travão está a regressar, como um bumerangue, para ter impacto nas finanças. Esta implosão das finanças irá, por sua vez, agravar a recessão. Por Michel Husson.


A novidade da situação atual reside na mecânica infernal que foi posta em marcha. Em 2008, foi a esfera financeira que acendeu o rastilho, passando-o para a esfera produtiva. Hoje, é o contrário: a atividade económica estagnou parcialmente e este súbito travão está a regressar, como um bumerangue, para ter impacto nas finanças. Esta implosão das finanças irá, por sua vez, agravar a recessão.

O colapso da pirâmide financeira
Existe, no entanto, uma ligação com a crise anterior. Todas as políticas implementadas desde 2008 tiveram, de facto, como objetivo retomar a atividade normal e, em particular, preservar de todas as formas possíveis o valor dos títulos financeiros, como direitos de utilização sobre o valor criado. Se, pelo contrário, o financiamento tivesse sido “confinado” às únicas funções úteis que pode desempenhar, o mecanismo infernal poderia ter sido mais bem controlado.
Mas, fundamentalmente, o esgotamento dos ganhos de produtividade condenou o capitalismo a um funcionamento patológico que consiste em captar um máximo de valor, compensando a secagem desta fonte essencial do seu dinamismo com o aumento das desigualdades. Por outras palavras, o coronavírus não contamina um organismo saudável, mas sim um organismo que já sofre de doenças crónicas. A epidemia serve assim de revelação: as formas como a crise anterior foi “superada” não conseguiram realmente remediar as debilidades estruturais da economia mundial.

A explosão da bolha era previsível, mesmo sem o coronavírus
Desde a crise de 2008, foi feito quase tudo para garantir que nada mudasse. As recompras de ações aumentaram, as distribuições de dividendos explodiram, a titularização (securitização) foi retomada, a dívida privada aumentou consideravelmente, etc. A crise levou também a um aumento do número de empresas que foram forçadas a vender as suas ações. O Banco de Pagamentos Internacionais (BPI), por exemplo, tinha emitido numerosas advertências. A explosão da bolha era, portanto, previsível, mesmo sem o coronavírus. Isto é demonstrado pelos avisos do último Relatório Global de Estabilidade Financeira do FMI (outubro de 2019). Este relatório centrou-se nos riscos colocados pelas baixas taxas de juro, e dois dos seus principais autores, Tobias Adrian e Fabio Natalucci, resumiram as principais mensagens num blogue. Destacam o sobre-endividamento das empresas: “a dívida das empresas cujos lucros não podem cobrir os encargos com juros poderia aumentar para (…) quase 40% da dívida total das empresas nos países estudados, incluindo os EUA, a China e os países europeus”.

O massacre do aparelho produtivo
As conclusões dos economistas do FMI podem ser complementadas por um estudo (link is external)
muito aprofundado dos Estados Unidos. Os autores consideram que as pequenas e médias empresas são as mais endividadas, pelo que devem ser as mais atingidas pela crise do coronavírus. Um tema amplamente debatido aqui é o crescente fosso entre as empresas “superestrelas”, que captam o valor criado, e as empresas “zombies”, que sobrevivem graças às baixas taxas de juro. Mas os autores deste estudo salientam também que as empresas da “metade inferior” aumentaram a sua capacidade de produção nas últimas décadas, enquanto os 10% superiores ficaram para trás. Temem o “desastre iminente” que pode vir se se deixar afundarem as pequenas empresas, pois representam, apesar da sua fragilidade, uma das “principais fontes de criação de emprego e de inovação”.

O outro efeito das baixas taxas de juro que o FMI aponta é a assunção de riscos excessivos: “O ambiente de taxas de juro muito baixas levou os investidores institucionais, tais como companhias de seguros, fundos de pensões e gestores de ativos, a procurarem títulos mais arriscados e menos líquidos para cumprirem os seus objetivos de rendimento. Por exemplo, os fundos de pensões aumentaram a sua exposição a outras categorias de ativos, como as participações privadas e os bens imobiliários.

Mesmo antes da epidemia, o prognóstico dos peritos do FMI já era preocupante
A política monetária acomodatícia [N.T.: com taxas de juros próximas de zero, para incentivar a atividade] não repercutiu na economia real; pelo contrário, permitiu que as finanças retomassem a sua exuberante trajetória. Mas também conduziu a uma situação sem precedentes de taxas de juro baixas ou mesmo negativas e esgotou as munições dos bancos centrais. Mesmo antes da epidemia, o prognóstico dos peritos do FMI já era preocupante: “as semelhanças nas carteiras dos fundos de investimento poderiam amplificar uma liquidação dos ativos nos mercados; os investimentos ilíquidos dos fundos de pensões poderiam limitar o seu papel tradicional de estabilizadores do mercado”. Mas é exatamente isso que está a acontecer, e é provável que a explosão seja ainda mais brutal com o vírus.

A zona euro “dispersa como um quebra-cabeças”?
O dogma dos 3% foi abandonado, pelo menos temporariamente, mas a Europa continua mal preparada. É uma excelente ideia para aliviar as restrições orçamentais, mas não resolve todos os problemas. Uma delas é o diferencial entre as taxas de juro da dívida pública. No início, Christine Lagarde cometeu um grande erro quando disse que “o BCE não está aqui para apertar o spread”, depois retirou a “bazuca” que acalmava um pouco as preocupações dos mercados financeiros.
Mas chegará um momento em que será necessário considerar a possibilidade de passar a uma velocidade superior, nomeadamente a mutualização (“eurobonds” ou “coronabonds”) ou mesmo a monetização. Esta é a conclusão a que Patrick Artus chega: “Embora todos os países da zona euro sejam afetados (pelo aumento das taxas de juro de longo prazo em resposta ao acentuado aumento dos défices públicos), o agrupamento de défices públicos adicionais reduz os encargos dos países periféricos (onde o aumento das taxas de juro é mais forte), mas não resolve o problema global dos défices públicos excessivos. A única solução é então a monetização destes défices públicos adicionais pelo BCE, o que constitui uma abertura significativa do Alívio Quantitativo da Dívida Pública”. Existe, porém, um grande risco, tal como na crise anterior, de a Europa só reagir tarde ao acontecimento, ou no momento errado, devido aos seus desacordos internos e à propensão para gerir a crise a nível nacional.

Os países emergentes no olho da tempestade?
É provável que o vírus se propague a países emergentes ou em desenvolvimento, que até agora têm estado relativamente incólumes. Não só estão mal equipados do ponto de vista da saúde, como já estão particularmente afetados pelas repercussões da crise. Em grande medida dependentes das vendas de matérias-primas que estão paradas, já estão a ver os seus recursos diminuírem. Este é particularmente o caso dos países produtores de petróleo. E também aqui encontramos o legado do fim da crise anterior. A dívida externa dos países emergentes representa, em média, “160% das exportações, contra 100% em 2008″. No caso de condições financeiras consideravelmente mais restritivas e de custos de empréstimo mais elevados, teriam mais dificuldade em pagar o serviço da dívida”, advertiu o FMI no seu relatório de outubro de 2019, já citado.

Para além disso, a fuga de capitais assumiu proporções consideráveis: 83 mil milhões de dólares desde o início da crise. Esta súbita paragem terá graves consequências, sublinhadas por um grupo internacional de economistas. Os países emergentes e em desenvolvimento, escrevem eles, “enfrentam agora uma paragem súbita à medida que as condições de liquidez global se tornam mais restritivas e os investidores fogem do risco, levando a uma desvalorização cambial dramática”. Isto exige um ajuste macroeconómico rigoroso precisamente numa altura em que todos os instrumentos disponíveis deveriam ser usados para combater a crise: a política monetária está a ficar mais restritiva numa tentativa de manter o acesso ao dólar, enquanto a política orçamental é limitada pelo receio de perder o acesso aos mercados globais. É pouco provável que as reservas de divisas constituam um amortecedor suficiente em todos os países”.

As instituições internacionais estão a planear medidas de apoio, mas David Malpass, Presidente do Banco Mundial (que Trump apadrinhou), insiste na condicionalidade em termos que fazem lembrar as palavras da Troika da UE à Grécia: “Os países terão de implementar reformas estruturais que possam encurtar o tempo necessário para a recuperação e criar confiança na sua força. Para os países onde a regulamentação excessiva, os subsídios, as licenças, a proteção ou a judicialização do comércio constituem obstáculos, trabalharemos com eles para impulsionar os mercados e selecionar projetos que garantam um crescimento mais rápido durante o período de recuperação”.
Pelo contrário, The Economist tem razão em advertir: “Se o Covid-19 for autorizado a devastar os países emergentes, em breve voltará a alastrar pelos países ricos. Mesmo na sua dimensão económica, se a produção de matérias-primas e bens intermédios sofrer uma paragem súbita simétrica à dos fluxos de capital.

A coisas voltarão aos eixos?
Será difícil para o sistema económico regressar ao seu funcionamento pré-crise. As cadeias de valor globais serão desorganizadas, as empresas terão ido à falência, a forma como as despesas públicas são geridas, especialmente no setor da saúde, será desqualificada. Isto pode ser visto como uma oportunidade para uma reorientação fundamental do sistema.

Mas não há nada de espontâneo nisso: com a suspensão de secções inteiras do código do trabalho, é evidente que alguns já estão a preparar-se para o próximo passo. Depois virá a conversa sobre a necessária “consolidação financeira”, cuja implementação correrá o risco de gerar uma resposta regressiva, como em 2010. Acima de tudo, o regresso à ortodoxia terá o efeito de adiar qualquer projeto de Green New Deal: como podemos imaginar que, depois de terem derramado milhares de milhões de euros, as instituições europeias vão querer libertar as somas consideráveis necessárias para combater as alterações climáticas?

Numa nota em que se interroga sobre “que tipo de capitalismo gostaríamos”, Patrick Artus traça um quadro bastante preciso do “capitalismo inaceitável” (que é o nosso): distorce a partilha de rendimentos em detrimento dos trabalhadores, não respeita os compromissos climáticos, não envolve os trabalhadores nas decisões estratégicas da empresa, aumenta o endividamento das empresas, deslocaliza maciçamente para países de baixos salários, obtém uma redução contínua da carga fiscal sobre as empresas, o que obriga a uma “redução da generosidade da proteção social”. Artus prevê então duas formas possíveis de avançar para um capitalismo “aceitável”: ou o estabelecimento de um “capitalismo de estado hiper-regulado”, ou uma “evolução espontânea do capitalismo que aceite um menor retorno do capital para o acionista”. No entanto, só há uma coisa em que devemos estar convencidos: não devemos contar com uma evolução espontânea do capitalismo.

Artigo de Michel Husson, publicado em A l’encontre (link is external)
, traduzido para português por Insurgência

sábado, 2 de maio de 2020

Regressar sim, mas a cidades emancipadas!



Diante de um século globalmente distópico e em sociedades altamente complexas e de risco, como aquelas em que vivemos actualmente devido à pandemia (Covid-19), surge a necessidade de olhar para a história como sugere a pintura de Paul Klee (Angelus Novus) para melhor nos confrontarmos com a turbulência do futuro.

O facto, e o fardo, de vivermos num mundo governado por ideias e projectos políticos neoliberais tem-nos colocado quase sempre em posição de condicionamento. 46 anos depois do 25 de abril estamos mais afastados do ideal proclamado nas canções de intervenção. Uma certa tipologia de “darwinismo social” obriga-nos a agir reactivamente através da adequação dos nossos corpos e cérebros aos contextos disciplinares e biopolíticos.

Enclausurados num aquário cibernético, vivemos imersos como peixes em águas elétricas (operativas e simbólicas). Nesta esfera o poder é exercido através de máquinas que organizam directamente as nossas mentes e os nossos corpos (governação algoritmica), com o objectivo de criar um estado de alienação permanente e independente do sentido concreto da vida e da experiência histórica. Contudo, a diferença entre seres humanos e peixes é grande (ainda), os peixes limitam-se a suportar até ao limite a água suja do aquário, os humanos, contudo, podem sempre transformar a qualidade das circunstâncias em que vivem.

A sensação frustrante de vivermos em cidades formatadas quase exclusivamente pelo poder político (governantes) chega a ser revoltante, especialmente quando vemos que a geração dos nossos filhos está ainda mais bloqueada do que a nossa no que concerne ao agenciamento cívico livre e à participação emancipada na esfera pública, sem receios, em liberdade, com espírito crítico e vontade de defender e discutir as suas ideias, necessidades e aspirações.

Para obtermos uma visão pragmática deste problema vejam-se os vídeos disponíveis nas sessões públicas das Assembleias Municipais (A.M.), aí teremos um arquivo de radiografias do poder autárcico (cesarismo local) que os presidentes de câmara exibem e julgam deter.

Um exemplo concreto: em fevereiro de 2020 um jovem vai a uma reunião da A.M. e faz uma intervenção crítica a repudiar a forma como as Câmaras Municipais tratam barbaramente as árvores através de podas selvagens durante décadas a fio e sem racionalidade alguma. No fim da intervenção, o presidente da câmara, surpreso com a indignação juvenil, faz uso da retórica e do cinismo habitual, respondendo, com sobranceria, que o jovem está a criar falsos alarmismos, porque a câmara faz tudo bem, como sempre fez, diz.

Este episódio é apenas um, num continuado modus operandis resultante de uma lógica de poder anti-democrático, que não ouve, não vê, nem quer aprender com os cidadãos, muitos deles com mais estudos e conhecimentos do que próprios governantes.

No capítulo do arvoredo urbano, sabe-se, pelo menos desde 1994 (há 26 anos), que as “podas camarárias” são um acto fútil de mutilação e de arboricídio, e mais ainda quando vivemos na maior crise ecológica planetária, e sabendo-se da importância das árvores e da salvaguarda da natureza. Por que razão se mantêm então estas práticas bárbaras ainda hoje?

De acordo com o estudo, Qualidade da governação local em Portugal (2018), o grau de envolvimento e participação cívica encontra-se aquém do esperado, apenas em 10% dos municípios se pode falar de uma sociedade civil vibrante. Ou seja, somente 31 num universo de 308 municípios. É muito pouco nas mais de quatro décadas seguintes ao 25 de Abril, e um desrespeito pela exigência constitucional da democracia participativa.

No estudo conclui-se ainda que no sistema de governação local as relações interpessoais prevalecem sobre o formalismo e a racionalidade política, fazendo com que a política programática e institucionalizada seja muitas vezes preterida por uma gestão assente na informalidade e no clientelismo.

Aos olhos do cidadão comum, este exercício da política tornou-se uma actividade corrupta e oportunista. Consequentemente, os cidadãos desinteressam-se e afastam-se da participação e do debate público.

É no entanto curioso que na crítica a esse conhecido problema, as elites defensoras do satus quo venham repetidamente apontar o dedo à inércia da sociedade civil, desviando as atenções da origem do mal, este sim, legitima e cientificamente diagnosticado.

Vivemos em democracia constitucional desde 1976, o poder local democrático é uma das principais conquistas de Abril, e, tal como se encontra expresso na Constituição da República e na canção de Zeca Afonso, Grândola Vila-Morena, “O povo é quem mais ordena / Dentro de ti, ó cidade”. O exercício da cidadania plena e da participação nos assuntos públicos deveria ser, desde então, o motor principal da vida política local. Se assim não for, a Revolução dos Cravos serviu apenas para mudar as figuras mas mantendo um sistema de governação pouco transparente. Tudo deve mudar para que tudo fique na mesma, escreveu Tomasi di Lampedusa em “O Leopardo”.

O que na prática aconteceu nestas ultimas décadas, dito mais precisamente, foi:
i) o poder local encontra-se aprisionada pelos aparelhos partidários e pelo calculismo eleitoralista, e não pelo bem comum (João Seixas); 
ii) os munícipes têm receio de exprimir publicamente uma opinião contrária à dos executivos municipais (M. Villaverde Cabral); 
iii) o recalcamento da participação dos cidadãos nos assuntos da coisa pública (Arnaldo Ribeiro); 
iv) a relação dos cidadãos com o poder eleito reveste-se de submissão e aceitação da ordem estabelecida (João Pissarra Esteves); 
v) os eleitos agem em função de lógicas carismático-demagógicas, clientelares e partidárias, prevalecendo assim uma forma de ação política paternalista e autoritária (Maria de Lourdes Lima dos Santos).

Perante este cenário, e em consonância com inúmeros documentos europeus — designadamente da Carta Europeia da Autonomia Local- é óbvio que, desde há muito, é necessário repensar o exercício do poder local democrático, bem como reforçar efectiva e definitivamente a democracia participativa. É por isso fundamental considerar que o direito dos cidadãos de participar na gestão dos assuntos públicos faz parte dos princípios democráticos comuns a todos os Estados membros do Conselho da Europa. O problema real é o significado e a pragmática da “participação dos cidadãos nos assuntos públicos” para além dos mecanismos formais e homogeneizados, mas muito pouco integrados no espaço público e no quotidiano da vida.

A construção de uma nova visão do desenvolvimento humano para a liberdade (Amartya Sen), requer paralelamente uma valorização da cultura popular e o incentivo ao pensamento crítico e à criatividade das populações. Neste contexto é premente motivar os agentes culturais locais para a participação na vida pública e nas decisões de política cultural, favorecendo a sua emancipação e a massa crítica ao nível local, bem como a vitalidade cultural do quotidiano das cidades, combatendo-se ao mesmo tempo todas as formas de autoritarismo no contexto político municipal.

As políticas culturais locais são um importante meio para favorecer o envolvimento da sociedade com o desenvolvimento. O (des)envolvimento humano cultural e sustentável está intimamente relacionado com as possibilidades de transformação social, sobretudo com um processo de elaboração, confronto e realização plural de projectos. Consequentemente, os governos locais, devem reconhecer que os direitos culturais são parte indissociável dos direitos humanos, assumindo que a liberdade de criação e produção cultural dos indivíduos e das comunidades é condição essencial da democracia.

Isto pressupõe assumir claramente que “o desenvolvimento sustentável” não se limita apenas a satisfazer necessidades materiais das comunidades, nem deve ser confundido com ideologia do crescimento económico que representa hoje a propaganda criminosa que ao longo das ultimas décadas, em vez da sustentabilidade tão cuidadosamente propalada, nos aniquila a todos com a destruição massiva de espécies, de ecossistemas e de outros crimes contra a humanidade.

O campo cultural, enquanto fenómeno complexo, está sujeito às tensões e aos poderes que nele actuam. A perspectivação cultural do desenvolvimento implica pois uma noção de desenvolvimento endógeno onde os actores sociais possam mudar-se a si próprios e aos contextos onde actuam através da criatividade social, em vez de continuarem presos a imposições externas, reclamando para tal o entendimento de que a cultura é intrínseca e constitutiva da sociedade, ou seja, que não há sociedade sem cultura. Mas exige ainda:

i) Uma política cultural do desenvolvimento, i.e., a cultura como “consciência” do desenvolvimento;

ii) Uma política de desenvolvimento da cultura: reforço da democracia e diversidade cultural, participação culturalmente orientada e concebida como criação colectiva de identidades abertas e plurais;

iii)De forma a assegurar a cada um a possibilidade de contribuir para a formação de ideias e participar na definição das opções que determinam o futuro (Declaração Europeia sobre os Objectivos Culturais, 1984).

iv) Se a qualidade da democracia participativa se pode aferir pela capacidade de assegurar a cada indivíduo, individualmente ou em grupo, a possibilidade de contribuir para a formação de ideias e participar na definição das opções que determinam o seu futuro (direito à cidade), podemos concluir que estamos ainda longe desta tão simples e genuína exigência de soberania popular.

Talvez seja então necessário, em primeiro lugar, desfazer as estratégias e as ideologias dominantes difundidas na sociedade e suscitar uma redistribuição do poder. Isto implica uma transformação no pensamento político, reabrir as instituições publicas e reivindicar um horizonte de novas exigências democráticas, isto é, exigir um novo municipalismo (cultural). É que, no século 21, qualquer mudança política tem que ser “cultural” para ser efectiva. Qualquer mudança política que não se incorpore nos sentimentos e nas percepções das pessoas (modos de sentir, identidades, formas de representação,…) está provavelmente destinada a não durar muito. Por outro lado, como se sabe, o populismo e a produção de ignorância massificada têm conseguido exactamente esse desígnio, mobilizando os afectos mais rasteiros do inconsciente colectivo: racismo, xenofobia, machismo ou a crença em lideres carismáticos com soluções ignóbeis.

A “abertura” das instituições passa por uma deslocação do protagonismo cultural do Estado local (administração pública) para a criação de condições favoráveis à emancipação e ao agenciamento da sociedade civil e da construção de um espaço público comum e apropriado pela cidadania. Esta transição exige das instituições um reposicionamento (re-instituição) em prol do aprofundamento da democracia e da cidadania cultural, e, por conseguinte, de uma nova missão que extravasa o entendimento do tecido cultural focado apenas nos sectores profissionais e nas artes legitimadas.

Afinal, a cultura é criada por todos, independentemente da sua condição profissional ou inclusão numa determinada classe social. Incumbe ao Estado, em colaboração com todos os agentes culturais: a) Incentivar e assegurar o acesso de todos os cidadãos aos meios e instrumentos de acção cultural, bem como corrigir as assimetrias existentes no país em tal domínio; b) Apoiar as iniciativas que estimulem a criação individual e colectiva, nas suas múltiplas formas e expressões, e uma maior circulação das obras e dos bens culturais de qualidade (Artigo 78.º -Fruição e criação cultural).

Isto significa que o debate não deve estar centrado exclusivamente no direito à criação dos artistas profissionais. A dimensão simbólica (cultural) é transversal a toda a actividade humana e é o elã vital das cidades, não há cidades vivas sem dinamismo cultural endógeno. Não é por isso suficiente exigir ao governo central que aumente os orçamentos para a cultura e os apoios às artes sem exigir que os municípios e as cidades cumpram o seu papel no desenvolvimento cultural local através de um planeamento estratégico participado adequado a cada território e determinado pelos valores da democracia cultural, defendidos e promovidos, por exemplo, pela Agenda 21 da Cultura.

Por um lado, uma política cultural autárquica não se pode resumir à reprodução da política à escala nacional, porquanto é ao nível dos territórios concretos que as “condições de cultura” têm de ser criadas, tendo em vista que a fruição e as práticas culturais se destinam a todos. E, por outro, a qualidade da vitalidade cultural dos municípios não se resume obviamente à existência de serviços públicos tutelados pelas autarquias, antes pelo contrário, requer:
  • A criação de condições de produção cultural e artística aberta a todos os cidadãos de forma democrática e transparente (Cultura 3.0);
  • Condições para a valorização da produção plural dos conhecimentos e das subjectividades;
  • Condições de acessibilidade universal aos serviços e bens culturais, e do entendimento político da cultura como bem comum (redução das barreiras e ampliação do acesso);
  • Facilitar a apropriação de espaços públicos para as “artes de rua”, de modo a contribuir para a vitalidade cívica e cultural do espaço público;
  • Recuperação e uso dos espaços devolutos, espaços de criação (ateliers, oficinas, espaços de ensaio, etc.);
  • Condições de fruição das artes e dos equipamentos culturais em diferentes modalidades e intensidades;
  • Condições de participação activa dos cidadãos no desenho das políticas públicas como imperativo cívico categórico;
  • Criação de estratégias de alargamento da base social dos públicos, desenvolvimento e a formação constante de novos públicos;
  • A diversificação nos modos de recepção e de apropriação da arte e da cultura;
  • A dessacralização das formas de cultura cultivada (erudita), aproximando-a das populações e dos seus quotidianos;
  • A eliminação da subserviência ao poder político e o reforço da autonomia e independência dos agentes culturais;
  • A abertura e inclusão de novas práticas culturais e artísticas;
  • Criação de um Fundo Mecenático Municipal para a cultura;
  • Descentralização das actividades culturais em bairros mais afastados dos centros históricos;
  • O alargamento do universo dos criadores culturais e a dessacralização dos critérios de hierarquização da produção intelectual e artística.
Aquilo que já não é sustentável, nem concebível, é estarmos em 2020, dominados planetariamente por um neurocapitalismo (neuropoder) cuja matéria-prima é o cérebro e a produção são os corpos e as subjectividades dóceis, vivendo simultaneamente em cidades ainda dominadas por uma espécie de neo-feudalismo regional. É por essa razão que não se pode, nunca, pensar as políticas municipais de cultura sem as respectivas articulações de poder. Falar de cultura, sem falar de contra-cultura, de emancipação, de cidade ou de poder, é como falar do sexo dos anjos, puro devaneio.

Cartoon da semana

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Música do BioTerra: Einstürzende Neubauten - Alles in Allem


Há muito que não se ouvia música nova da histórica banda alemã, criada em 1980. Quarenta anos depois, os Einstürzende Neubauten continuam a “minar rotinas”Os Einstürzende Neubauten são únicos. Incomparáveis. Significa isto que se alguma banda nos soar minimamente como eles, teremos logo a sensação de que os estão a tentar imitar. Desde 1980 criaram uma gramática própria, só sua, no que se convencionou chamar “rock industrial”. Essa identidade faz-se, sobretudo, de ruídos produzidos por instrumentos não convencionais, objetos e máquinas (berbequins, betoneiras…) e do carisma do seu fundador Blixa Bargeld, especialmente dos seus inigualáveis gritos agudos. As letras em alemão contribuem, claro, para essa aura só sua. O caos provocado nos seus concertos/happennings nos anos 80 é lendário. Mas o rigor germânico no meio desse caos também sempre marcou o trabalho dos Einstürzende Neubauten.

Nick Cave, quando encontrou Blixa Bargeld numa noite de concerto no início dos anos 80, ficou tão fascinado com a figura que o convocou para fazer parte dos seus Bad Seeds. Até 2003, o alemão soube dividir-se entre a banda de Cave, na qual teve um papel fundamental, e os seus Neubauten. Mas, desde aí, pôde dar mais atenção ao seu projeto. Com a passagem do tempo, o rigor foi-se sobrepondo ao caos, mas a enérgica secção rítmica, a partir de muitos mais objetos do que tambores e baterias, continuou a estar presente, ao lado de um lirismo cada vez mais presente.
Alles in Allem apresenta dez canções e logo na primeira, Ten Grand Goldie (cujo vídeo evoca diretamente a era de confinamento dos últimos meses, com Blixa a cantar de máscara e imagens caseiras), somos transportados para Berlim num repetitivo e viciante coro/refrão.

Nos últimos anos, os Neubauten têm inovado nos métodos de produção, edição e distribuição da sua música (numa ligação muito direta com o seu público através do site neubauten.org). E, claro, não deixaram de inovar no modo de concretizarem e registarem os seus sons. Em entrevista recente ao jornal inglês The Guardian, Blixia dizia: “Quero minar rotinas e sabotar lógicas. Fazemos isso há 40 anos.”
Desde 2007, ano de Alles Wieder Offen, que não havia um disco de estúdio dos Einstürzende Neubauten. Com Alles in Allem provam que estão em grande forma. Todos os concertos de apresentação que estavam marcados foram adiados para 2021 (em Portugal, as datas previstas são agora 18 e 19 de maio, em Lisboa e no Porto).

Ouça aqui o tema Ten Grand Goldie

A caminho da catástrofe, por Pedro Ochôa

E enquanto o mundo se desmorona, o principal responsável pelo alastramento da pandemia que nos vergou, e há que dizê-lo sem constrangimentos nem receios de a ofender, a China, já recuperou da crise da qual é a obreira.


Fonte: aqui


A globalização, que progressivamente se apoderou do nosso quotidiano, atingiu agora o seu máximo expoente, com o mundo inteiro a vergar-se perante um vírus exportado por um país oprimido por um regime ditatorial e enraizado em ideologias comprovadamente obsoletas, e disposto a alargar a sua influência muito para além das suas fronteiras, seja a que preço for.

Reconheço que não possuo conhecimentos científicos suficientes que me permitam discordar do método de combate à doença adoptado por Portugal e pela generalidade dos outros países. De igual forma também não estou habilitado para criticar outros governos que optaram por uma estratégia oposta à nossa, sobretudo sabendo-se que os resultados obtidos não divergem, pela negativa, daqueles com que somos confrontados.

Nunca tive pachorra para os treinadores de bancada que se julgam mais sapientes de quem se preparou, com mérito, para o ofício cuja metodologia aqueles se atrevem a pôr em causa. Por isso não pretendo ir por esse caminho.

Mas há dados, relativos à pandemia que nos vem aterrorizando, que não carecem de um especial estudo para poderem ser interpretados. O primeiro, indiscutível, é o de que as consequências fatais da doença se fazem sentir, quase em exclusivo, nos mais vulneráveis, ou seja, nos idosos e em quem sofre de outro tipo de patologias.

Aconselha, assim, a prudência, que é sobre esses que deve ser exercido um maior esforço de protecção, nomeadamente confinados a um isolamento efectivo.

Ainda assim outro factor tem que ser levado em conta. A taxa de mortalidade do covid-19 é bastante baixa, não se afastando muito de outras enfermidades, como a gripe ou a pneumonia, que anualmente ceifam milhares e milhares de vidas por esse planeta fora.

E, atenção, que os números que nos são vendidos, quanto à percentagem de mortos sobre a totalidade dos infectados, é enganadora! Certamente que a quantidade de pessoas que já contraíram a doença é bastante superior às que foram identificadas, porque somente são submetidos ao respectivo teste aqueles que têm sintomas mais graves. E a grande maioria dos contaminados por este vírus apresentam ligeiros sinais desta patologia, que em nada a diferencia de uma simples gripe, pelo que não recorrem aos serviços de saúde.

É com base nestes pressupostos que deve ser avaliada a modalidade de contenção da doença que tem vigorado.

Logo no início da crise, e quando já não restavam dúvidas de que o vírus se tinha disseminado pelo nosso País e muitas vozes se faziam ouvir para que as escolas fossem de imediato fechadas, Costa garantia que a decisão governamental seria tomada com base num parecer técnico, assente em estudos científicos.

Reuniu-se, para o efeito, o Conselho Superior de Saúde e a sua recomendação foi no sentido de que as escolas deveriam continuar a funcionar, com cautelas redobradas.

Que fez o governo? Cedeu à pressão dos tais treinadores de bancada e determinou o encerramento de todas as escolas, públicas e privadas. Tratou-se, pois, de uma decisão política e não técnica.

Depois, como bem sabemos, e no final da estranha e incompreendida reclusão do mais alto magistrado da Nação, veio a imposição do estado de emergência!

Repito que não me considero competente para discordar deste procedimento, mas há questões, legítimas, que se levantam e devem ser tidas em conta. Apesar da grande maioria dos países, em particular os da UE, terem vindo, gradualmente, a adoptar a mesma política por nós seguida, outros há que recorreram a uma estratégia bem diversa.

A imprensa, fiel ao poder político vigente, encarregou-se, primeiro, de espalhar o pânico junto das populações, para depois veicular somente a teoria do isolamento social total, censurando qualquer opinião em contrário e legitimando, dessa forma, as decisões das autoridades estatais.

E este fenómeno não se verifica apenas à escala nacional, bem pelo contrário, tal como o vírus, espalhou-se também por todo o mundo.

Veja-se como recentemente as duas principais redes sociais apagaram um vídeo do presidente brasileiro, sob a acusação de se tratar de um perigo para a saúde pública mundial, apenas porque ele fazia a apologia de que os saudáveis regressassem ao trabalho e a quarentena obrigatória ficasse reservada para as pessoas de risco.

Este comentário de Bolsonaro, tal como outros, na mesma linha, que têm sido defendidos por Trump, daí os dois serem sistematicamente acusados pela imprensa de irresponsáveis e instigadores de um genocídio, longe de reflectirem a opinião exclusiva daqueles dois presidentes, eleitos democraticamente pelos seus povos, vão ao encontro da estratégia assumida por outros países, cujo apego à democracia não pode ser questionado.

A Suécia, ainda hoje um modelo de sociedade tão querido pelos mais idealistas, pôs em prática as tais ideias censuradas de Bolsonaro, mantendo em isolamento social apenas as pessoas de mais idade ou portadoras de outras patologias e permitindo que os diversos sectores da economia, nomeadamente restaurantes e bares, continuem em laboração.

Mas, claro, o governo sueco, sendo de esquerda, está isento de qualquer crítica por parte dos mensageiros do politicamente correcto.

Também o Japão e Israel entenderam por bem seguir o mesmo modelo e na Islândia as escolas não foram encerradas.

Uma característica comum a estes países é a de que o número de infectados se encontra em níveis inferiores aos observados naqueles que preferiram obrigar quase toda a gente a permanecer recolhida nos seus lares.

Tomando como exemplo a Suécia e comparando-a com Portugal, com populações de dimensão semelhante verifica-se que a quantidade de doentes e de fatalidades estão muito próximas.

O bom senso aconselha, assim, que se estudem, sem preconceitos pré-estabelecidos, e tomando em conta sobretudo os pareceres técnicos de quem está qualificado para se pronunciar sobre o assunto, outras alternativas diferentes daquela que tem sido assumida, por forma a que a actividade económica do País não continue paralisada por muito mais tempo.

E é de todo descabido que quem tem como missão decidir sobre esta matéria se socorra de sondagens favoráveis a que o rumo vigente se mantenha. Querem-se decisões sábias e não populismos!

Obviamente, uma percentagem maioritária da população portuguesa ainda não sentiu na pele os efeitos da quarentena a que tem estado sujeita.

Os funcionários públicos estão resguardados; os que recolheram às suas habitações mantém o seu integral salário e a progressão na carreira não está em causa.

Quem está a trabalhar à distância, porque as novas tecnologias assim o permitem, também está descansado e, em certa medida, reconfortado com a situação, porque as insuportáveis deslocações para o emprego estão suspensas.

Os estudantes igualmente não estão preocupados, bem pelo contrário, a ausência da escola somente os anima.

Para os reformados é-lhes indiferente, porque as suas reformas estão-lhes garantidas.

Mas depois há os outros! Os que não podem passar sem trabalhar, senão vêem-se impossibilitados de se sustentar a si e às suas famílias. 

Se os portugueses não regressarem brevemente a uma ocupação laborar normal, as consequências para a sua vida futura serão devastadoras, com o desemprego e a fome a disseminarem-se bem mais depressa do que o coronavírus.

A crise que a todos nos afligiu no início da década passada, e que nos forçou a abdicar de parte considerável da nossa soberania, depositando-as nas mãos de instituições financeiras internacionais, parecerá uma coisa menor comparada com a que nos espera agora.

Tem sido recorrente apregoar-se a teoria de que a saúde está acima da economia. Errado! Ambas estão associadas, não podendo sobreviver uma sem a outra. Se é verdade que a pujança da economia assenta no reforço de uma população saudável, também não é menos verdade que a saúde das pessoas depende também, e muito, da sua situação económica.

E a economia portuguesa, para mal dos nossos pecados, está longe de ser exemplar, pelos que as ajudas financeiras com que o governo nos tem acenado não passam de uma miragem.

Há que perceber, de uma vez por todas, que o Estado não tem dinheiro, limita-se a gerir aquele que é de todos nós. Em consequência, não será o Estado a suportar os encargos resultantes da ausência da actividade económica de milhares de empresas, em particular daquelas que estão a recorrer à lay-off, mas sim a factura sairá dos bolsos dos contribuintes, ou seja, de todos nós.

Nem a promessa de que os despedimentos não serão tolerados vai garantir a salvaguarda de todos os postos de trabalho.

As Catarinas e os Jerónimos cá da praça insistem em nos fazer acreditar de que todos os empresários deste País são ricos. Nada mais falso, milhares de pequenos empresários, que constituem a maioria do nosso tecido empresarial, dispõem, nas suas respectivas contas bancárias, de um saldo muito parecido ao dos trabalhadores a quem pagam o salário.

Ora se estes empresários estão impedidos de facturar, por via da paragem forçada das suas empresas e estabelecimentos, naturalmente que vão, rapidamente, ficar sem fundos que lhes permitam continuar a pagar o ordenado dos seus empregados.

Este é o cenário que nos espera. Catastrófico, sem dúvida!

E não nos está reservado apenas a nós, portugueses. Desta vez não estamos sozinhos, outros povos vão sofrer tanto, ou mais, do que nós.

Há que ter a consciência de que o vírus que nos persegue não vai ser erradicado nos tempos mais próximos, vamos ter de conviver com ele durante um período temporal bem mais extenso do que aquele que nos tem sido sugerido.

Por isso, e para atenuar as consequências desastrosas para a nossa vivência em sociedade, que já se fazem sentir mas que irão ser fortemente agravadas se persistirmos neste status quo, exige-se dos nossos políticos que, em coordenação com os seus parceiros europeus, se necessário, procurem uma solução de meio termo, em que se protejam os mais fracos e se imponha o regresso ao trabalho dos mais fortes.

Somente assim poderemos ter esperança de que aquilo que nos espera não seja uma vida sem futuro! 

E enquanto o mundo se desmorona, o principal responsável pelo alastramento da pandemia que nos vergou, e há que dizê-lo sem constrangimentos nem receios de a ofender, a China, já recuperou da crise da qual é a obreira, tendo controlado a propagação da doença com uma rapidez suspeita e sem que os principais centros nevrálgicos do país tenham sido atingidos. Saiu quase incólume do pandemónio que gerou, considerando que para uma população superior a mil milhões de almas, perdeu menos vidas do que países, como a Itália e a Espanha, cuja densidade populacional é uma ínfima parte da chinesa.

A China aproveita-se, agora, das fragilidades das instituições ocidentais para se apropriar de lucros inimagináveis. Sem terem que disparar um único tiro, os seguidores de Mao lograram obter aquilo de que o seu mentor jamais foi capaz de alcançar!

E, para o efeito, suporte internacional não lhes tem faltado, a começar pela Organização Mundial de Saúde a qual, apesar do alarmismo que não se cansa de proclamar, não nos esqueçamos de que começou por criticar abertamente os controlos fronteiriços aéreos impostos pelos Estados Unidos.

Trata-se de uma instituição das NU que é dirigida por um antigo ministro etíope comunista, que nem sequer médico é, mas sim biólogo, e com ligações evidentes ao regime chinês.

Claro que isto não passa de teorias da conspiração, as quais, tal como as bruxas, não existem, mas que as há, há!