sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

O Movimento 969 e a Ma Ba Tha (Myanmar)



Diferente da imagem tradicional do monge budista sereno, o movimento liderado por Wirathu — que chegou a ser apelidado pela revista Time como "O Rosto do Terror Budista" — utiliza uma retórica de ódio e exclusão.

1. A Simbologia do "969"
O nome não é aleatório; ele foi criado para se opor ao número "786", usado por muçulmanos no sul da Ásia para identificar estabelecimentos halal.
9: As nove virtudes de Buda.
6: Os seis ensinamentos do Dharma.
9: As nove características da Sangha (comunidade monástica).

O uso desse selo em lojas e casas servia para identificar estabelecimentos "puros", incentivando um boicote econômico contra não-budistas.

2. A Ideologia do "Cerco"
A base do grupo não é uma disputa teológica sobre o Nirvana, mas sim uma paranoia demográfica. Wirathu argumenta que:

O budismo está em risco de extinção devido às taxas de natalidade mais altas de minorias muçulmanas (os Rohingya).

Recursos económicos estão sendo "roubados" por estrangeiros.

A "pureza" das mulheres budistas precisa ser protegida por leis que proíbam o casamento inter-religioso.

3. A Transição para a Ma Ba Tha
Em 2014, o movimento evoluiu para a Ma Ba Tha (Associação para a Proteção da Raça e da Religião). Com uma estrutura muito mais organizada, eles conseguiram pressionar o governo birmanês a aprovar as "Leis de Proteção de Raça e Religião", que restringiam conversões religiosas e casamentos entre budistas e muçulmanos.

O Impacto Prático: A Crise Rohingya
O fundamentalismo pregado por esses grupos serviu como combustível ideológico para as operações militares em 2017 no estado de Rakhine.

Desumanização: Monges influentes compararam minorias a "pestes" ou "invasores", facilitando a aceitação popular da violência.

Silenciamento: Budistas moderados que tentaram pregar a tolerância foram frequentemente intimidados ou rotulados como "traidores da fé".

Por que os monges têm tanto poder?
Em Myanmar e no Sri Lanka, o monge não é apenas uma figura religiosa; ele é o pilar moral da sociedade. Se um monge diz que a fé está em perigo, a população rural e as classes médias tendem a acreditar mais nele do que em políticos civis. Isso cria um escudo de "santidade" que torna difícil para o Estado punir discursos de ódio.

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