terça-feira, 30 de setembro de 2025

A beleza da Perdiz-Vermelha e o dilema invisível nos nossos campos

A natureza tem uma forma única de nos desarmar. Recentemente, cruzei-me com uma imagem que me fez parar: uma perdiz-vermelha (Alectoris rufa), com o seu colar preto bem marcado e o bico de um vermelho vivo, a caminhar livremente pelo campo. Completamente selvagem e alheia ao mundo dos humanos. É uma imagem pacífica, mas para quem conhece a realidade do nosso mundo rural, ela traz consigo um dilema profundo. À medida que as temperaturas descem e o mês de outubro avança, os campos portugueses ganham uma nova dinâmica com a abertura da época venatória. É o momento em que a tradição e a conservação colidem.

A caça à perdiz-vermelha é considerada por muitos o pináculo da caça menor em Portugal. O "arranque" - o voo súbito, ruidoso e extremamente rápido da ave quando se sente encurralada - exige reflexos rápidos e perícia por parte do caçador. Nesta atividade, o papel dos cães é absolutamente central. Raças excecionais como o nosso autóctone Perdigueiro Português ou o ágil Epagneul Breton são fundamentais no terreno através de duas funções principais: a parada, onde o cão deteta o odor da ave e paralisa no terreno, apontando a sua direção; e o cobro, que acontece após o disparo, quando o cão localiza e traz a ave de volta, evitando que esta se perca inutilmente no mato.

Por trás da perícia da caça esconde-se, contudo, uma ameaça invisível: as munições de chumbo. Durante décadas, toneladas de pequenos bagos de chumbo foram acumulando-se nos solos, gerando um impacto ambiental devastador. Este problema manifesta-se sobretudo através do saturnismo, que ocorre quando as aves confundem o chumbo com pequenas pedras necessárias para moer o alimento no moageiro e o ingerem, sofrendo uma morte lenta por envenenamento. Além disso, assiste-se à contaminação da cadeia alimentar, dado que os predadores que consomem estas aves, bem como os humanos que comem a sua carne, acabam por acumular este metal pesado no organismo.

Para combater este cenário, a União Europeia implementou restrições severas. Atualmente, segundo as diretrizes da Agência Europeia dos Produtos Químicos (ECHA), é totalmente proibido o uso de chumbo em zonas húmidas e num raio de 100 metros destas, forçando a transição para alternativas ecológicas como o aço ou o tungsténio. No entanto, a transição em Portugal ainda enfrenta resistência no terreno devido ao custo dos novos cartuchos, à incompatibilidade com espingardas mais antigas e à complexidade da fiscalização por parte das autoridades.

Perante este cenário, muitos ponderam a criação de perdiz-vermelha em cativeiro para consumo alimentar ou repovoamento. Embora seja uma atividade legal, o processo está longe de ser simples. Para avançar, o criador enfrenta um labirinto burocrático que exige licenciamento junto do ICNF para a detenção de espécies cinegéticas, além do cumprimento das estritas normas sanitárias,  e de bem-estar animal exigidas pela DGAV (Direção-Geral de Alimentação e Veterinária). Esta enorme barreira burocrática e financeira muitas vezes afasta os pequenos produtores locais, que gostariam apenas de desenvolver um negócio artesanal.

Em meados de outubro, com a época de caça oficialmente aberta - cujos períodos regulamentares podem ser consultados em detalhe no Calendário Venatório do ICNF -, os nossos campos tornam-se o palco deste eterno braço de ferro entre a exploração dos recursos e a conservação da biodiversidade. Ao olhar para a perdiz selvagem da fotografia, o meu desejo imediato era que o mundo não olhasse para tudo o que é belo apenas como um recurso regulado, licenciado ou consumível. Proteger a natureza e garantir que estas aves continuem a voar livres e sem a ameaça de contaminação nos nossos campos não devia ser um dilema burocrático ou cultural - devia ser a nossa única escolha.

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