quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Música do BioTerra: The Cure - The Drowning Man


She stands twelve feet above the flood
She stares
Alone
Across the water
The loneliness grows and slowly
Fills her frozen body
Sliding downwards

One by one her senses die
The memories fade
And leave her eyes
Still seeing worlds that never were
And one by one the bright birds leave her

Starting at the violent sound
She tries to turn
But final
Noiseless
Slips and strikes her soft dark head
The water bows
Receives her
And drowns her at its ease
Drowns her at its ease

I would have left the world all bleeding
Could I only help you love
The fleeting shapes
So many years ago
So young and beautiful and brave

Everything was true
It couldn't be a story

I wish it was all true
I wish it couldn't be a story
The words all left me
Lifeless
Hoping
Breathing like the drowning man

Oh Fushia
You leave me
Breathing like the drowning man
Breathing like the drowning man

Filme "A Pomba Branca" de František Vláčil

Melhor som aqui

The Cure - "The Drowning Man": significado, influências literárias e a riqueza musical da obra mais icónica do álbum Faith
Lançada em 1981 no emblemático álbum Faith, "The Drowning Man" afirma-se como uma das composições mais sombrias, profundas e atmosfericamente densas de toda a discografia dos The Cure. No seu âmago, a canção explora o desespero absoluto, a perda da inocência, o luto sufocante e a inevitabilidade da morte, utilizando a tragédia do afogamento de uma figura feminina como uma metáfora sufocante para a perda de controlo e para o esmagamento psicológico provocado pela depressão.

A faixa é uma referência literária direta ao romance Gormenghast (1950), o segundo volume da célebre trilogia do autor britânico Mervyn Peake. Robert Smith inspirou-se na trágica morte de Lady Fuchsia Groan, que, num estado de profunda depressão e desorientação, cai de uma janela da fortaleza para o rio e morre afogada. A letra retrata quase literalmente a atmosfera do capítulo, ligando-se também ao arquétipo shakespeariano de Ofélia (Hamlet) e a uma visão filosófica de carácter existencialista e niilista, inspirada por autores como Albert Camus e Jean-Paul Sartre, onde a impotência perante a fatalidade ocorre sem qualquer possibilidade de salvação ou redenção divina.

Apesar da forte carga narrativa e visual da letra, os The Cure nunca realizaram um videoclipe para "The Drowning Man". A razão principal prende-se com o facto de a canção nunca ter sido lançada como single comercial - do álbum Faith, apenas "Primary" teve esse estatuto promocional. Além disso, quando o disco foi editado em abril de 1981, a MTV ainda não tinha estreado (o que só aconteceria em agosto desse ano), pelo que a cultura de criar vídeos conceptuais para faixas secundárias de álbuns ainda não existia. Por fim, durante a gravação da chamada "Trilogia Obscura" (Seventeen Seconds, Faith e Pornography), a banda vivia uma fase de forte isolamento e melancolia, recusando o apelo comercial e focando-se puramente na atmosfera sonora e nas atuações ao vivo.

Sonoramente, embora seja habitualmente catalogada sob os rótulos de Post-Punk e Gothic Rock, a arquitetura de "The Drowning Man" incorpora e antecipa vários outros estilos. Trata-se de um exemplo límpido de Coldwave, marcado pelo minimalismo, timbres frios e um sentimento de isolamento existencial. A composição aproxima-se também do Dark Ambient e da Ambient Music, ao substituir a estrutura convencional de verso e refrão por uma paisagem sonora fluida, onde o baixo lento e hipnótico de Simon Gallup simula o pulsar da maré e a caminhada de uma marcha fúnebre neoclássica. Adicionalmente, as guitarras densas, carregadas de flanger, chorus e delay, criam texturas etéreas e aquáticas que antecipam diretamente os movimentos Dream Pop e Shoegaze de bandas que surgiriam anos mais tarde, como os Cocteau Twins ou os Slowdive.

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