O documentário "Altitude - A Natureza da Serra da Estrela", partilhado no canal de Diogo Santos, oferece um retrato profundo, poético e cientificamente rico sobre o maior ecossistema de montanha em Portugal Continental. Longe de se focar apenas na faceta turística da neve ou da mítica Torre, a obra funciona como um ensaio visual e ecológico sobre a resiliência da vida selvagem, o impacto histórico da ação humana e a beleza cíclica das estações nesta região imponente.
A narrativa estrutura-se de forma fluida através da passagem do tempo, usando a água e o degelo como o fio condutor que une o topo do planalto central aos vales profundos. O inverno abre o documentário como um elemento de beleza solene, mas acima de tudo como uma imensa reserva hídrica. A neve que cobre os cumes atua como uma dádiva que, ao derreter na primavera, alimenta os caudais dos rios Alva, Zêzere e Mondego. É nesta transição que a câmara capta a mestria biológica da fauna local. Descobrimos o melro-de-água, um passeriforme especialista em mergulho com penas perfeitamente impermeáveis, e a lontra, o caçador eficaz que habita o Mondego. À noite, o documentário revela um reino mais secreto e frágil, habitado por anfíbios como os tritões e a salamandra-lusitânica, uma espécie endémica do noroeste da Península Ibérica que encontra na serra o seu limite meridional e que depende crucialmente da pureza das águas e da humidade dos musgos para respirar através da pele.
Outro pilar fundamental desta análise é a geologia e a marca do passado glaciar. O Vale Glaciar do Zêzere é apresentado como um testemunho monumental de uma era que, há cerca de trinta mil anos, moveu milhões de toneladas de gelo e moldou a paisagem, deixando espalhados os icónicos blocos erráticos de granito. Estas formações rochosas, além de servirem de abrigo a répteis como a lagartixa-ibérica ou a cobra-de-escada, ganharam contornos antropomórficos e nomes que passaram de geração em geração, como a famosa Cabeça da Velha. O documentário realça que estas pedras contam a história da simbiose entre o homem e a montanha, visível na arquitetura de granito das encostas norte e leste, que contrasta com o xisto utilizado nas vertentes sul e oeste.
No entanto, a mensagem central da obra não é apenas contemplativa, mas sim de alerta ecológico e conservacionista. Através do testemunho do pastor Joaquim, que cuida do seu rebanho de ovelhas e cabras no distrito da Guarda, expõe-se o declínio das atividades tradicionais e a consequente perda de identidade cultural devido ao isolamento que outrora protegia estes modos de vida. Mais grave ainda é a degradação da biodiversidade provocada pela alteração intencional da paisagem através de fogos e da desflorestação ao longo dos séculos. O desaparecimento de grandes predadores, como o lobo, que foi perseguido até ao extermínio na região, gerou um desequilíbrio profundo no ecossistema: sem o lobo, a população de javalis cresceu de forma descontrolada, causando prejuízos agrícolas avultados e demonstrando o impacto dramático que a extinção de uma única espécie pode ter em toda a cadeia alimentar.
Apesar das cicatrizes humanas e da ameaça das monoculturas intensivas, como os eucaliptais que oferecem pouco mais do que suporte físico a aves de rapina como a águia-de-asa-redonda, o documentário termina com uma nota de esperança. Nos bosques nativos que ainda subsistem — compostos por carvalhos-negrais, castanheiros, faias e bideiros —, assiste-se ao milagre da regeneração e ao ciclo perfeito da matéria orgânica impulsionado pelos fungos decompositores. É nestes refúgios preservados que a vida selvagem reconquista o seu espaço. O regresso recente do esquilo-vermelho, vindo do norte de Espanha após séculos de extinção em solo português, serve de exemplo perfeito. Ao enterrar milhares de bolotas durante o outono para se precaver de predadores silenciosos como a coruja-do-mato, o esquilo acaba por reflorestar a serra involuntariamente. "Altitude" é, portanto, um hino à resiliência da natureza e um apelo urgente para que se protejam as pequenas e complexas interações que mantêm vivo o coração da Serra da Estrela.
Sem comentários:
Enviar um comentário