O Punk-Rock, frequentemente apontado como filho bastardo ou nota de rodapé do género musical Pop-Rock, nasceu de um intercâmbio (sub)cultural e informal estabelecido em finais da década de 70 do século XX por personagens sobejamente conhecidos que se movimentaram nos espaços de metrópoles como Londres, Nova Iorque, Brisbane ou Manchester.
Assim que o puto ranhoso Punk foi parido, foram muitos, incluindo alguns dos seus principais atores, os que se apressaram a declarar a sua morte. Só que este "morto-vivo sónico" rapidamente se espalhou pelos quatro cantos do mundo. Portugal não foi exceção, assim que explodiu lá fora na "estranja" - os seus fragmentos, qual satélite desgovernado fora de órbita, aterraram por cá. E passados mais de 30 anos teimam em não desaparecer.
O documentário da Antena 3, intitulado "A Um Passo da Loucura", explora as origens e o impacto da primeira vaga do punk em Portugal no final dos anos 70. O vídeo conta com os testemunhos de figuras centrais do movimento, com grande destaque para o lendário radialista António Sérgio, conhecido pela sua influência no programa Som da Frente e pela edição de discos fundamentais, e Paulo Gonzo, que muito antes da sua carreira na música pop foi o carismático vocalista dos Aqui d'el-Rock, a banda pioneira do punk rock português fundada em 1977. Juntam-se a eles membros de outras bandas históricas do circuito nacional, como Os Faíscas, os Minas & Armadilhas e os Raios e Coriscos.
Neste debate, os intervenientes recordam como o movimento nasceu num Portugal pós-25 de Abril, marcado por uma enorme ressaca política e sede de liberdade, mas onde o país ainda se encontrava culturalmente muito isolado. Eles discutem as dificuldades em obter informação na altura, relembrando como os primeiros discos de bandas como Sex Pistols e Ramones chegavam a conta-gotas, muitas vezes trazidos em viagens de amigos a Londres ou Paris, e como a rádio foi o motor crucial para espalhar essa nova sonoridade. Aborda-se também o choque visual e geracional que o punk provocou na sociedade conservadora da época, com relatos divertidos e nostálgicos sobre a reação dos pais e dos vizinhos às roupas rasgadas, aos alfinetes e aos cabelos curtos.
Um dos pontos mais debatidos é a filosofia do "faça você mesmo". Os músicos enfatizam que, no início, quase ninguém sabia tocar ou cantar, e que o verdadeiro foco era a descarga elétrica, a energia pura e a urgência de comunicar, relegando a técnica musical para segundo plano. Relembram os primeiros concertos caóticos em locais improvisados, como o Liceu Camões, onde o público não sabia bem o que esperar e onde a violência física e a destruição de material faziam parte da performance. Por fim, o painel reflete sobre a curta duração desta primeira vaga, explicando como muitas bandas rapidamente desapareceram ou transitaram para a New Wave e para o Rock em Portugal no início dos anos 80, transformando o espírito destrutivo inicial numa abordagem musical mais sofisticada e integrada na indústria.
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