quinta-feira, 14 de agosto de 2025
Serviços prestados pelos abutres podem contribuir milhões de euros para economia nacional até 2048
Apesar da má reputação de que possam gozar, os abutres são espécies fundamentais para a manutenção da saúde e bom funcionamento dos ecossistemas.
Enquanto necrófagos, são elementos centrais dos ciclos de nutrientes, “reciclando” a matéria orgânica de animais mortos, impedindo, por exemplo, o surgimento e proliferação de doenças causadas pela decomposição dos cadáveres.
Agora, um relatório divulgado recentemente pela organização Vulture Conservation Foundation, no âmbito do projeto LIFE Aegypius Return, revela que esses contributos podem ser quantificados e mais valorizados, e são da ordem dos vários milhões de euros.
Os cientistas calculam que os serviços de ecossistema prestados pelos abutres-pretos (Aegypius monachus), pelos grifos (Gyps fulvus) e pelos britangos (Neophron percnopterus, também conhecidos como abutres-do-egito) ascenderam aos 668 mil euros em 2023. O valor divide-se em cerca de 313 mil euros em custos evitados com a eliminação de carcaças (por exemplo, com logística e transporte), de 163 mil em emissões de gases com efeito de estufa (gerados pelo transporte das carcaças para incineração e pela própria incineração) e, possivelmente, 192 mil provenientes do ecoturismo relacionado com os abutres (como atividades de observação das aves).
No entanto, a estimativa para 2048 pode mesmo chegar a um valor acumulado (desde 2023) de 18,6 milhões de euros, em custos evitados e em receitas de turismo de Natureza. É por volta desse ano que os especialistas preveem que, mantendo-se as ações de conservação em curso, a população de abutre-preto em Portugal atingirá os 1.500 indivíduos. Sem os esforços de conservação, a população nacional de abutre-preto, atualmente estimada nas 600 aves, poderá cair para os 100 indivíduos, o número que se registava antes das intervenções com vista à proteção e recuperação da espécie no país.
Excluindo as contribuições do ecoturismo e contabilizando somente os contributos relativamente à eliminação de carcaças e às emissões de gases com efeito de estufa, as três espécies de abutres podem gerar 2,44 milhões de euros entre 2023 e 2027, com esse valor a chegar aos cinco milhões até 2032 e aos 13,7 milhões até 2048.
Para os autores do relatório, “estas estimativas de valor constituem uma primeira indicação da importância dos abutres em Portugal para as atividades humanas e para o bem-estar”.
No entanto, ressalvam que “esta análise abrange apenas um subconjunto dos serviços dos ecossistemas prestados pelos abutres”, pelo que investigações futuras devem debruçar-se sobre aspetos como “a estimativa do valor de existência atribuído pela população portuguesa ao aumento das populações de abutres, bem como a avaliação do retorno do investimento em atividades de conservação”.
quarta-feira, 13 de agosto de 2025
Publicado o Inquérito à Juventude Europeia - o ambiente e as alterações climáticas são a sua prioridade para a UE
No Inquérito à Juventude da UE, publicado este ano, os jovens classificaram as suas principais preocupações:
💶40% aumento dos preços, custo de vida
🌳33% ambiente e alterações climáticas
💼31% situação económica e criação de emprego
O ambiente e as alterações climáticas são as prioridades mais elevadas em:
Itália 46%
Dinamarca 44%
França 40%
Entre os jovens que já não frequentam a escola, aqueles que concluíram o ensino pós-secundário ou superior são consideravelmente mais propensos a escolher o ambiente e as alterações climáticas como prioridade para a UE.
Lê aqui o relatório completo.
Agostinho da Silva
"Temos, sobretudo, de aprender duas coisas: aprender o extraordinário que é o mundo e aprender a ser bastante largo por dentro, para o mundo todo poder entrar"
terça-feira, 12 de agosto de 2025
Quem são os incendiários portugueses?
O fenómeno do incendiarismo em Portugal constitui um dos mais complexos e persistentes desafios sociais, criminais e de saúde pública do país, distanciando-se frequentemente das narrativas populares que atribuem a totalidade dos fogos postos a conspirações imobiliárias ou a redes organizadas de contornos mafiosos. A realidade revelada pela investigação criminal, pela psicologia forense e pelos relatórios da Polícia Judiciária desenha um quadro significativamente mais mundano, mas nem por isso menos trágico, estruturado essencialmente em torno de duas realidades distintas: o incendiário tradicional expressivo e o novo incendiário instrumental.
Na base da pirâmide estatística portuguesa encontra-se uma esmagadora maioria de homens, predominantemente de meia-idade ou idosos, residentes no interior rural e profundamente marcados pelo isolamento social e pela baixa literacia. Neste perfil predominante, o ato de atear fogo raramente é movido por uma lógica de lucro ou planeamento frio. Trata-se, pelo contrário, de um comportamento do tipo expressivo - uma exteriorização descontrolada de frustrações reprimidas, conflitos de vizinhança, disputas de heranças ou sentimentos difusos de rejeição. É um crime de proximidade geográfica e emocional, perpetrado frequentemente num raio muito curto em redor da habitação do próprio criminoso. Adicionalmente, a literatura científica nacional aponta de forma inequívoca o alcoolismo crónico e os défices cognitivos como os principais catalisadores destas ações, onde o fogo funciona como um veículo rudimentar para obter uma efémera sensação de poder ou para quebrar o tédio existencial de comunidades desertificadas.
Em contrapartida, as dinâmicas sociológicas contemporâneas têm feito emergir uma nova tipologia criminal que desafia as metodologias clássicas de investigação: o incendiário instrumental. Este perfil, espelhado na figura do indivíduo com formação técnica ou superior, destaca-se pela racionalidade e pela sofisticação. Aqui, o fogo deixa de ser uma resposta impulsiva a um estímulo emocional e passa a ser uma ferramenta. Recorrendo a dispositivos de ativação retardada - engenhos que combinam velas, pilhas ou temporizadores eletrónicos -, estes criminosos conseguem programar a ignição para momentos de condições meteorológicas extremas, garantindo tempo suficiente para abandonar o local e construir álibis sólidos. As motivações deste grupo estão ligadas a interesses económicos concretos, à sabotagem institucional, à gestão de terrenos ou a conflitos territoriais de caça e pastoreio, representando a franja tecnicamente mais perigosa do incendiarismo em Portugal.
Por fim, os estudos dedicados às minorias deste ecossistema criminal, como as mulheres incendiárias, ajudam a consolidar a visão de que o incendiarismo português reflete as assimetrias e as patologias da própria sociedade. No caso feminino, o crime surge tardiamente na vida das arguidas, quase sempre ancorado a quadros severos de depressão, psicose ou retaliações de natureza estritamente familiar e passional. Desta forma, a análise integrada da realidade nacional demonstra que o combate aos incêndios florestais em Portugal não se esgota na eficácia do dispositivo de combate ou na vigilância florestal; exige, fundamentalmente, uma intervenção profunda nas áreas da saúde mental comunitária, no combate às dependências e na revitalização social de um território interior que, ao ser progressivamente abandonado, se torna o palco ideal para a expressão das mais profundas vulnerabilidades humanas.
Referências bibliográficas
Gomes, Patrícia (2012) - Incêndios e detidos por crime de incêndio florestal em Portugal
Ferreira, Sandra (2015) - Incendiários- entre os media e a realidade
Querido, Tânia (2019). Mulheres incendiárias: Caracterização sociodemográfica, clínica e criminal de uma amostra prisional em Portugal
Silva, Sílvia (2020) - Incêndio Florestal e Indicadores de Doença Mental: Medidas Aplicadas pelo Sistema de Justiça
Geração Silenciosa: quem são, principais características e o seu legado histórico
O conceito de “Geração Silenciosa” carrega em si um dos maiores paradoxos da história recente. O termo foi consagrado e popularizado em novembro de 1951, através do artigo da Revista Time: People: The Younger Generation, que descrevia os jovens nascidos entre 1928 e 1945 como um grupo prudente, focado no dever e sem grandes ambições de rutura radical. Contudo, quando analisamos o século XX com o distanciamento do tempo, percebemos que foi sob essa fachada de contenção que se ergueram as bases do mundo contemporâneo.
Para compreender a mentalidade desta geração, é preciso olhar para o ambiente em que cresceu. Nascidos entre a crise financeira do final dos anos 1920 e o fim da Segunda Guerra Mundial, estes indivíduos vivenciaram a infância e a juventude num contexto de racionamento e incerteza global. Ao contrário da geração anterior, que viveu o conflito na linha da frente, a Geração Silenciosa viveu-o nos bastidores e através do olhar infantil. Esta vivência moldou uma relação muito específica com a estabilidade e o risco.
O impacto demográfico dessa época de crises também se fez notar. Conforme detalhado nos dados históricos do relatório Demographic Trends in the 20th Century (U.S. Census Bureau) e no estudo comparativo sobre o hiato geracional do Pew Research Center, trata-se de um grupo populacional invulgarmente reduzido, consequência da queda vertiginosa da taxa de natalidade durante a Grande Depressão. Contudo, o seu peso institucional foi enorme. No mercado de trabalho, consolidaram a cultura da lealdade organizacional — trabalhar décadas para a mesma empresa não era visto como falta de ambição, mas sim como a conquista máxima de segurança familiar.
Existe, porém, um contraste fascinante entre a postura discreta desta geração e a sua produção cultural e social. Embora a geração seguinte, os Baby Boomers, tenha ficado famosa pelas manifestações de rua dos anos 1960, a arquitetura intelectual e estratégica desses movimentos foi desenhada pela Geração Silenciosa.
No campo dos direitos civis nos Estados Unidos, figuras centrais como Martin Luther King Jr., Malcolm X e Rosa Parks pertenciam a esta faixa etária. Na cultura global, a banda sonora da própria contestação foi criada por eles: Bob Dylan, Paul McCartney, John Lennon e Jimi Hendrix deram voz a uma era de mudanças sem precedentes. No mundo dos negócios e dos meios de comunicação, visionários como Ted Turner (fundador da CNN) transformaram a forma como a informação circula ao criar o jornalismo contínuo de 24 horas.
Mesmo no domínio da ciência e da tecnologia, foi este grupo que abriu caminho para a era digital moderna. Das missões espaciais que levaram o homem à Lua às primeiras linguagens de programação e arquiteturas de computadores comerciais, os avanços fundamentais foram desenvolvidos por mentes que cresceram a aprender o valor do detalhe e da persistência.
A Geração Silenciosa nunca foi verdadeiramente omissa; foi, essencialmente, uma geração de pontes. Entre a severidade dos seus pais e o ruído da revolução cultural dos seus filhos, ela garantiu a continuidade económica, construiu os estados sociais de pós-guerra e criou as ferramentas da globalização. As transformações mais duradouras nem sempre nascem do confronto direto - muitas vezes, são erguidas com o trabalho rigoroso de quem simplesmente faz o que tem de ser feito.
- Revista TIME (Arquivo Histórico de 1951):People: The Younger Generation
- U.S. Census Bureau (Relatório Técnico CENSR-4): Demographic Trends in the 20th Century
- Pew Research Center (Estudo Social): Fortysomething: Life Attitudes of the Silent Generation
A Conexão Humana com a Natureza Está a Diminuir Drasticamente — O Que Isso Significa?
Um estudo recente liderado pelo professor Miles Richardson, da Universidade de Derby, revela que a ligação das pessoas à natureza diminuiu mais de 60% desde 1800. Esta queda dramática reflete-se, por exemplo, na forma como palavras como “rio”, “musgo” e “flor” praticamente desapareceram dos livros ao longo dos últimos 200 anos.
O estudo, publicado na revista científica Earth, utilizou um modelo computacional para analisar dados sobre urbanização, perda de biodiversidade e a falta de transmissão intergeracional do contacto com a natureza.
Nos últimos dois séculos, o mundo mudou profundamente. A industrialização, o crescimento das cidades, a digitalização e o ritmo acelerado da vida moderna têm afastado cada vez mais as pessoas da natureza. Menos tempo passado ao ar livre e um quotidiano dominado por ecrãs levam a que as novas gerações cresçam com menos contacto com ambientes naturais.
Esta desconexão tem consequências importantes para a saúde física e mental, para o nosso bem-estar e para a forma como encaramos a proteção ambiental. Estudos mostram que passar tempo na natureza ajuda a reduzir o stress, melhora a concentração e fortalece o sistema imunitário. Além disso, quem conhece e valoriza a natureza está mais propenso a agir para a preservar.
O declínio no uso de palavras ligadas à natureza em livros não é apenas uma curiosidade linguística — é um sinal cultural de que a nossa relação com o mundo natural está a enfraquecer. Se não formos capazes de recuperar este contacto, corremos o risco de perder a empatia e o cuidado necessários para proteger o ambiente que sustenta a vida.
Para reverter esta tendência, é essencial que políticas públicas e iniciativas educativas incentivem a aproximação das pessoas à natureza, valorizando o património natural e promovendo experiências ao ar livre. O estudo de Richardson sugere que intervenções eficazes incluem a introdução das crianças à natureza desde cedo, como em escolas do bosque, e a expansão significativa dos espaços verdes urbanos — até 1.000% em algumas áreas. Estas mudanças podem ajudar a restaurar a ligação das pessoas à natureza e promover um futuro mais sustentável.
segunda-feira, 11 de agosto de 2025
Em 2025 a civilização ultrapassou 7 dos 9 limites planetários
Este infográfico poderia estar nas primeiras páginas de todos os jornais do mundo, mas dificilmente circula fora dos fóruns científicos e ativistas.
Dos nove limites planetários que, segundo se diz, garantem um planeta habitável por humanos, até 2025 a civilização atual terá ultrapassado sete, com a controversa acidificação dos oceanos como o novo ponto de não retorno ou "ponto de inflexão".
Em 2009, eram duas, em 2015, eram três e, em 2023, já eram seis — cada faixa vermelha é um aviso ignorado para um futuro devorado pelo presente, de acordo com este artigo.
domingo, 10 de agosto de 2025
Vergonha
![]() |
Miguel Sousa Tavares in "Expresso" de 07/08/2025 |
Numa jogada de mau gosto, o Hamas decidiu publicar fotografias de dois reféns israelitas em seu poder, famélicos e abatidos, acompanhadas da legenda “eles comem o mesmo que nós”, numa referência à estratégia de fome adoptada pelo Governo de Israel em Gaza. Netanyahu, como era de esperar, saltou logo sobre a oportunidade, acusando o Hamas de barbárie e anunciando a total ocupação de Gaza: esperava, talvez, que a fome que ele inflige a três milhões de pessoas (proibindo-as inclusivamente de pescar no seu mar!) não afectasse a alimentação dos reféns israelitas. E, em Bruxelas, Kaja Kallas, a responsável pela política externa da UE e que jamais teve uma palavra a condenar o genocídio em Gaza, acompanhou Netanyahu na sua indignação e exigiu a imediata libertação dos reféns, sem pedir nada em troca da parte de Israel. Num momento em que finalmente se levantam vozes dentro de Israel a condenar a ofensiva em Gaza — vozes de antigos chefes militares e de segurança, de organizações humanitárias ou do escritor David Grossman, falando também em genocídio —, a UE, enquanto organização, continua a fingir que não estamos a assistir em Gaza à mais sinistra limpeza étnica levada a cabo por um Governo dito democrático. Mas, como disse Yuli Novak, da organização israelita B’Tselem, “isto não poderia acontecer sem o apoio do mundo ocidental”.
Dentro da UE e escudado na sua inércia, Portugal tem sido um caso notável de hipocrisia e cobardia. Eu chego a ter vontade de rir ao assistir aos contorcionismos explicativos do ministro Paulo Rangel para tentar não ter posição sobre o assunto, fingindo que a tem, numa patética estratégia de “agarrem-nos senão reconhecemos o Estado da Palestina”. Primeiro, confiante na inércia de toda a União, Rangel afirmava que o reconhecimento, a existir, deveria ser uma decisão conjunta dos 27. Os reconhecimentos unilaterais feitos por Espanha e Irlanda não o abalaram, mas ficou claramente sem chão quando Macron anunciou que a França ia reconhecer o Estado palestiniano e a Inglaterra fez o mesmo. Aí, Rangel fez uma inolvidável intervenção na ONU, em que garantiu à assembleia mundial que Portugal tinha detectado uma alteração histórica na posição palestiniana, a qual abria caminho a um possível reconhecimento. Em suma, enquanto o PM inglês colocava exigências a Israel sob a ameaça de reconhecer a Palestina independente, o nosso ministro partia do princípio oposto para sustentar, sem se desmanchar, que a Autoridade Palestiniana aceitara as exigências de Luís Montenegro para poder ser reconhecida por Portugal como Estado. Note-se: a Autoridade Palestiniana na Cisjordânia e não o Hamas em Gaza. Entre essas exigências de Montenegro, Rangel destacou a reforma das instituições palestinianas e a realização de eleições: patéticas demandas para quem acabava de regressar de uma cimeira da inútil CPLP realizada na Guiné-Bissau — um país cujo Presidente amordaçou a democracia no seu país e governa sem ir a eleições — e antes de a chefia da mesma CPLP ser transmitida à Guiné Equatorial — onde jamais houve eleições e persiste há décadas uma ditadura familiar, brutal e corrupta como nenhuma outra. Sim, Portugal é hoje um exemplo eloquente da podridão moral em que vegeta a União Europeia, governada por políticos sem respeito pelo passado e pelos valores europeus.
Esta União Europeia envergonha hoje qualquer europeu que antes se orgulhava de pertencer a um espaço político onde a ética e a coerência de princípios contavam. Na cimeira da NATO, a União, com a honrosa excepção da Espanha, ajoelhou-se aos pés de Trump, aceitando gastar 5% do PIB em armas — e americanas, de preferência. Fica como símbolo dessa capitulação o português Luís Montenegro tentando dar “uma palavrinha” particular a Trump, dizendo-lhe que éramos velhos amigos dos Estados Unidos e sugerindo alguma misericórdia para connosco na rajada das tarifas, e o português António Costa, presidente do Conselho Europeu, acalmando as indignações surdas com a previsão de que o que a União cedera nas armas pouparia nas tarifas.
Viu-se. Na Escócia, Ursula von der Leyen começou por ser ainda mais humilhada por Trump do que o fora por Erdogan. Na Turquia, não tinha cadeira para se sentar, no clube de golfe privado de Donald Trump, na Escócia, para onde foi convocada, teve uma cadeira para se sentar enquanto esperava longamente que o Presidente americano acabasse um jogo de golfe com o filho e tivesse disponibilidade para a receber. Assim tratada como serventuária — ela e a Europa que representa —, não admira que depois tivesse sido sujeita a uma capitulação total e humilhante pelo abusador profissional americano. Von der Leyen aceitou um aumento das tarifas sobre as exportações europeias para os Estados Unidos de 15%, quase mil vezes o que vigorava e em troca de tarifas de 0% para as exportações americanas dirigidas à Europa. Desistiu de taxar as tecnológicas americanas ou de minimamente controlar os seus abusos. Aceitou comprar 750 mil milhões de dólares de energia aos Estados Unidos, assim interrompendo a estratégia de descarbonização em que a UE estava a ser pioneira e substituindo-a por uma total dependência energética de um só país — muito para lá daquilo que se criticava aos países europeus que compravam energia à Rússia. Agora, os EUA passam a determinar a política energética da Europa, aumentam livremente os preços, e Trump e os seus amigos do petróleo, negacionistas das alterações climáticas, encontram um mercado garantido à medida das suas ambições. Mas a senhora foi ainda mais longe, comprometendo-se a investir 600 mil milhões de dólares nos Estados Unidos e a gastar em armas americanas o grosso do investimento a ser levado a cabo para atingir os tais 5% do PIB em armamento. Se tudo isto fosse exequível e executado, acabava a Europa que conhecemos: livre, próspera, orgulhosa do seu sistema social. Mas, mesmo sem o podermos ainda dizer, Von der Leyen, que já enxovalhara a União e os valores europeus com o seu silêncio cúmplice perante o genocídio em Gaza, rematou agora a sua prestação prostrando-se aos pé de um fora-da-lei internacional e dando-lhe tudo o que ele queria, na esperança de o conseguir apaziguar. Mas até nisso esta funesta alemã que nos calhou em sorte está errada: quando se cede uma vez perante a intimidação e a chantagem, está escrito que se terá de ceder mais vezes. Trump é um vampiro que precisa de se alimentar todos os dias do sangue dos fracos, dos indefesos, dos que se ajoelham e dos que ele inveja.
Os tempos vão maus e mesmo incompreensíveis para quem gostaria de se orgulhar de ser português e europeu. Resta-nos ter vergonha: pode ser que eles reparem.
Labels:
António Costa,
Autocracia,
Benjamin Netanyahu,
Big Oil,
CPLP,
Ditadura,
Donald Trump,
Europa,
Genocídio,
Hamas,
Kaja Kallas,
Miguel Sousa Tavares,
NATO,
Negacionistas,
Palestina,
Paulo Rangel,
Totalitarismo,
Ursula Leyen
sábado, 9 de agosto de 2025
Lhasa De Sela - Anywhere On This Road
A música 'Anywhere on this Road' de Lhasa de Sela é uma reflexão profunda sobre a jornada da vida, a busca por pertencimento e os desafios emocionais que enfrentamos ao longo do caminho. A letra começa com a artista falando sobre sua adaptação a um novo país, uma nova identidade e uma nova língua. Essa transição, embora necessária, não é fácil e carrega um sentimento de perda das raízes e dos lugares que antes eram familiares. A ideia de que 'os lugares que eu costumava estar longe se foram' sugere uma desconexão com o passado e a necessidade de seguir em frente, mesmo quando o caminho é incerto.
A segunda estrofe aborda a persistência e a resiliência. Lhasa encoraja a continuar a jornada sem olhar para trás, mesmo quando o corpo está cansado e sobrecarregado. A metáfora do corpo dobrando sob o peso simboliza os desafios e as dificuldades que enfrentamos, mas a mensagem é clara: não há lugar para parar, a estrada continua. Essa ideia de movimento constante reflete a natureza implacável da vida e a necessidade de perseverança.
A música também explora temas de amor e medo. Lhasa fala sobre um relacionamento complicado, onde o medo e a desconfiança criam barreiras. O homem que ela ama tem medo de ser dominado, o que cria uma dinâmica de poder e vulnerabilidade. No entanto, há um momento de esperança e transformação quando ela menciona a hora em que a maré está virando. Esse momento simboliza a possibilidade de superação e renovação, onde a escuridão e a angústia podem ser deixadas para trás. A música, portanto, é uma meditação sobre a resiliência, a busca por pertencimento e a complexidade das relações humanas.
sexta-feira, 8 de agosto de 2025
Adeus às embalagens de plástico? Jovens portugueses criam cápsula de algas com gel de banho que se dissolve na água
Todos os anos, 120 mil milhões de embalagens de plástico são descartadas. Os produtos de higiene, por exemplo, são usados durante semanas, mas as embalagens têm vida longa e acabam muitas vezes nos oceanos ou em aterros.
Labels:
Algas,
Aterro Sanitário,
Big Chem,
Biodegradável,
Bioeconomia,
Bioengenharia,
Cosmética,
Economia Azul,
Economia Circular,
Embalagens,
Microplásticos,
Nanoplásticos,
Oceanos,
Plásticos,
Prémio,
Projetos,
Sylvia Earle
quinta-feira, 7 de agosto de 2025
Abusadores da mama
Portugueses, a hora é grave: há bebés a mamar à conta do patronato até irem para a escola (ao menos, vá lá, não até irem para a tropa). Tudo para mães desviantes abocanharem uma redução de horário no trabalho. Ao que chegámos, compatriotas. Por isso é que isto está como está. Cuspam no chão, em repugnância. Felizmente, a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social está à coca. "Infelizmente, temos conhecimento de muitas práticas em que, de facto, as crianças parece que continuam a ser amamentadas para dar à trabalhadora um horário reduzido, que é duas horas por dia que o empregador paga, até andarem na escola primária", disse em entrevista ao JN e TSF, no último domingo.
Agora, acabou-se a mama. O Governo propõe-se impor que o atestado médico para aceder à redução de horário, hoje só necessário a partir do primeiro ano de vida do bebé, passe a ser obrigatório desde a nascença e renovado a cada seis meses. O resultado prático, previsível, será diminuir o acesso a este direito, ou impedi-lo de todo. “Vai claramente afetar a sociedade mais vulnerável a nível económico, como é o caso das mães solteiras e vai empobrecer as famílias”, disse à SÁBADO Sara do Vale, da Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto. Faz hoje mesmo um ano e oito meses, o Estado português criou a Comissão para a Promoção do Aleitamento Materno, com a missão de mais do que duplicar a taxa de aleitamento materno exclusivo nos primeiros meses de vida do bebé. Agora sabota essa missão, para acabar com a fraude.
Qual fraude? A ministra não explicou, nem o Ministério responde a questões dos jornalistas sobre o assunto, desde domingo. Não há dados, nem provas, nem o mais leve indício publicado que fundamente que o problema existe, muito menos qual a sua dimensão. Há o “temos conhecimento” da ministra. Um achismo autossuficiente que justifica alterar uma política pública sem sequer validar os seus fundamentos ou estudar os seus impactos.
O Governo anda a prometer, e bem, desburocratizar e simplificar o funcionamento do Estado para facilitar a vida a investidores e empresas. Mas, quando se trata de direitos sociais, cria obrigações acrescidas de provas, papéis e carimbos de seis em seis meses para infernizar a vida de todos, a cavalo de umas vagas fraudes cuja dimensão, ou sequer existência, nem se maça a demonstrar. O Estado ágil e descomplicado é para quem possa pagá-lo.
Na verdade, não surpreende ver a ministra da Solidariedade mais empenhada na solidariedade corporativa do que na solidariedade social. Maria do Rosário Ramalho é hoje o exemplo mais gritante de uma cultura de conflitos de interesses que há muito permeia a política e se instalou no Governo. A sua família direta ilustra de forma eloquente um mercado de influências que une poderes públicos e privados e se banqueteia nos favores da lei. Ramalho, convém lembrar, é o apelido do gestor António Ramalho, marido da ministra, com profícua carreira, quer no setor público, quer no privado. Passou pela Infraestruturas de Portugal antes de aterrar no Novo Banco, de que foi CEO no período em que o “banco bom” do BES, comprado pelo fundo abutre da Lone Star, se serviu de 3,4 mil milhões de euros do Fundo de Resolução.
Sugado o filão das garantias públicas, Ramalho deu por concluído o seu serviço aos cobóis do Texas, que agora empocharam 4,8 mil milhões com a venda do Novo Banco. Ainda passou por uma consultora que o próprio havia contratado, na mesma lógica de porta giratória em que construiu o seu currículo, antes de uma passagem fulgurante pela Cruz Vermelha Portuguesa. Em maio, voltámos a vê-lo num lugar-chave: a presidência da Lusoponte, precisamente no momento em que a concessionária das pontes 25 de Abril e Vasco da Gama começa a negociar com o Governo uma eventual extensão da concessão (ou um novo concurso) para construir a terceira (e quem sabe a quarta) travessias, já anunciadas pelo Governo. Ramalho parte para essa negociação com a experiência que traz do lado público, na Infraestruturas de Portugal, e com o conforto de ter a esposa sentada à mesa do Conselho de Ministros. Como se não bastasse, a sua filha, Inês Ramalho, é vice-presidente do PSD. Entre pai, mãe e filha, a tríade Ramalho está instalada, simultaneamente, no concessionário, no Governo e no partido.
Depois dos dois anos, estranhou a ministra, “acho difícil de conceber” que uma criança continue a precisar de leite materno durante o horário de trabalho. Já um banco ou uma concessionária precisam da amamentação do contribuinte durante muito mais tempo do que isso. As prioridades públicas no combate aos abusos ficam claras. Acautelem-se, mães e bebés: a mama não é para todos.
E as Misericórdias roubam que se fartam. Roubam aos utentes, roubam aos municípios, roubam à Segurança Social.
A Estafeta da Existência: O Legado Multigeracional da vanessa-dos-cardos (Vanessa cardui)
O conceito de migração animal evoca frequentemente a imagem de um indivíduo que parte de um ponto A para um ponto B. No entanto, a borboleta-dos-cardos (Vanessa cardui) subverte esta noção, apresentando um modelo de sobrevivência onde o destino não pertence ao indivíduo, mas à linhagem. Este sistema de migração multigeracional é um dos exemplos mais sofisticados de resiliência biológica na natureza.
Presente na América do Norte, Europa, África e Ásia, esta é uma borboleta grande, com uma envergadura de asas que pode chegar aos sete centímetros. O nome científico, Vanessa cardui, inspira-se nos cardos em que as lagartas gostam de se alimentar (embora também se alimentem de outras plantas).
Há uma década, os cientistas sabiam que a bela-dama desaparece da Europa no outono e acreditava-se que migraria para o norte de África. “Eu não acreditava nisso, pois estas regiões são muito frias no inverno e sabemos que esta borboleta não sobrevive ao frio. Como não entra em diapausa, precisa de continuar a mexer-se”, recorda Talavera. Além do mais, no Magrebe havia poucos registos da espécie para esta altura do ano.
E se a resposta estivesse na travessia do Saara, o maior deserto de areia do mundo? “Havia uma pequena hipótese, mas ninguém acreditava que a grande maioria destas borboletas pudesse atravessar o deserto”, reconhece. “Foi uma grande aposta.”
Já há provas científicas de que a Vanessa cardui, conhecida popularmente como bela-dama, consegue atravessar o Oceano Atlântico num único voo ininterrupto. O mistério começou a ser desvendado em outubro de 2013, quando o investigador Gerard Talavera encontrou vários exemplares desta borboleta numa praia da Guiana Francesa. A espécie não é nativa da América do Sul e os indivíduos apresentavam um estado de grande exaustão, com as asas extremamente desgastadas.
Posteriormente, um estudo científico internacional publicado na revista Nature Communications confirmou a origem da travessia. Através do estudo de isótopos estáveis nas asas, do sequenciamento genético e do estudo do pólen transportado no corpo das borboletas - originário de plantas da África Ocidental -, os cientistas comprovaram que aquele grupo tinha nascido na Europa e iniciado o voo transatlântico a partir da costa do Oeste Africano.
A viagem cobriu uma distância de pelo menos 4.200 quilómetros sobre o mar aberto ao longo de cerca de 5 a 8 dias. Como os insetos não podiam aterrar na água para descansar ou alimentar-se, a travessia só foi fisicamente possível graças ao aproveitamento dos ventos Alísios, correntes de ar favoráveis que sopram da África para as Américas e que impulsionaram o voo, permitindo-lhes economizar energia até chegarem ao continente americano. Este registo é considerado uma das maiores jornadas transoceânicas documentadas num inseto.
A Continuidade através da Brevidade
A característica mais marcante da V. cardui é a sua capacidade de completar um circuito migratório que ultrapassa os 12.000 km, uma distância impossível de cobrir durante o seu ciclo de vida de apenas poucas semanas. O segredo reside na fragmentação do percurso: o que observamos como um movimento migratório único é, na verdade, uma sucessão de até seis gerações que funcionam como uma estafeta biológica.
Mecanismos de Orientação e Genética
A questão que intriga a ciência é como uma borboleta, nascida no norte da Europa, "sabe" que deve voar para o Sul no outono, sem nunca ter feito o percurso ou tido contacto com as gerações anteriores. Estudos indicam que estas borboletas utilizam uma bússola solar compensada pelo tempo, integrada com a perceção do campo magnético terrestre. Esta informação não é aprendida; é uma herança genética codificada.
Resiliência Ecológica
Ao contrário de outras espécies especialistas, a borboleta-dos-cardos é uma generalista oportunista. A sua capacidade de se alimentar de uma vasta gama de plantas (especialmente cardos e malvas) permite-lhe atravessar desertos e cadeias montanhosas, adaptando-se a diferentes ecossistemas à medida que a sua linhagem avança pelo globo.
Para saber mais:
Stefanescu, C., et al. (2013)- Multi-generational long-distance migration of insects: studying the painted lady butterfly in the Western Palaearctic
Labels:
América do Sul,
Artigo Científico,
Benim,
Biologia,
Borboletas,
Chade,
DNA Barcoding,
Ecologia,
Etiópia,
Migrações,
Oceano Atlântico,
Plantas Silvestres,
Polinizadores,
Resiliência,
Senegal
quarta-feira, 6 de agosto de 2025
Alteração Primata
Livro científico de Vybarr Cregan-Reid, incide primacialmente nos últimos 200 anos da nossa história, história recente que teve um enorme impacto para os seres humanos, que também protagonizaram grandes mudanças – em si mesmos e no mundo que os rodeia. A actual época geológica, designada por Antropoceno (ou a Era do Homem), revela assim um novo corpo adaptado a novos hábitos e a novas alimentações, que transformaram decisivamente o nosso próprio ADN. Esta alteração do corpo humano no tempo é o cerne deste livro.
Desde a Revolução Agrícola, em que o homem se sedentarizou e produziu alimentos (cereais) para conseguir armazenar, tudo mudou. Natureza e criação passaram a combinar-se com um resultado fascinante. A revolução Industrial – e agora a revolução digital – impôs uma mudança radical no mundo, que o ser humano protagonizou e, ao alterar o mundo, estruturou-se de uma outra forma, com novos hábitos de sedentarização e novos comportamentos, com importantes consequências no corpo, músculos e estrutura facial, sobretudo pela alteração dentária. Baseado em estudos científicos em várias áreas, “Alteração Primata” faz uma excelente abordagem a algumas das actuais fraquezas do corpo humano, apresentando uma análise profunda, rigorosa e abrangente sobre “como o mundo que criámos nos tem modificado“.
O livro propõe, igualmente, uma reflexão sobre as consequências da nossa transformação do mundo, a pensar em como o usamos e a reavaliar o que esperamos dele – e em como nos deveremos portar perante ele. Reflexão que se alarga, também, às transformações do corpo – a nossa aparência e a forma como nos movemos, descansamos, dormimos, pensamos, comemos e comunicamos mudaram drasticamente desde que o Homo sapiens iniciou a sua marcha plantar pelo Planeta, há mais de 300.000 anos.
Vybarr Cregan-Reid nasceu em 1969 e cresceu em Manchester. É um investigador académico, actualmente Leitor em Inglês e Humanidades Ambientais na Universidade de Kent. Ao longo da carreira tem escrito sobre temas nas áreas da literatura, saúde e ambiente
Microsoft storing Israeli intelligence trove used to attack Palestinians
![]() |
| Microsoft Israel’s R&D Center, Herzliya The Israeli army’s elite cyber warfare unit is using Microsoft’s cloud servers to store masses of intelligence on Palestinians in the West Bank and Gaza — information that has been used to plan deadly airstrikes and shape military operations, an investigation by +972 Magazine, Local Call, and the Guardian can reveal. Unit 8200, roughly equivalent in function to the U.S. National Security Agency (NSA), has transferred audio files of millions of calls by Palestinians in the occupied territories onto Microsoft’s cloud computing platform, Azure, operationalizing what is likely one of the world’s largest and most intrusive collections of surveillance data over a single population group. This is according to interviews with 11 Microsoft and Israeli intelligence sources in addition to a cache of leaked internal Microsoft documents obtained by the Guardian. In a meeting at Microsoft’s headquarters in Seattle in late 2021, the then-head of Unit 8200, Yossi Sariel, won the support of the tech giant’s CEO, Satya Nadella, to develop a customized and segregated area within Azure that has facilitated the army’s mass surveillance project. According to the sources, Sariel approached Microsoft because the scope of Israel’s intelligence on millions of Palestinians in the West Bank and Gaza is so vast that it cannot be stored on military servers alone. Microsoft’s immense storage and computing power capabilities enabled what multiple Israeli sources described as the project’s ambitious goal: to store “a million calls an hour.” Following the 2021 meeting, a dedicated team of Microsoft engineers began working directly with Unit 8200 to build a model that would allow the intelligence unit to use the American company’s cloud services from within its own bases. According to one intelligence source, some of these Microsoft employees were themselves alumni of Unit 8200, which made the collaboration “much easier.” According to the Guardian’s reporting, the leaked documents suggest that 11,500 terabytes of Israeli military data — equivalent to roughly 200 million hours of audio — were being stored on Microsoft’s servers in the Netherlands by July of this year, while smaller portions were being stored in Ireland and Israel. It is not possible to tell how much of this data belongs specifically to Unit 8200; as a previous investigation by +972, Local Call, and the Guardian revealed earlier this year, dozens of Israeli army units have purchased cloud computing services from Microsoft, and the company has a footprint in all major military infrastructures in Israel. The leaked documents further reveal that before the current Gaza war, Microsoft’s leadership viewed the cultivation of the company’s relationship with Unit 8200 as a lucrative business opportunity and characterized it internally as “an incredibly powerful brand moment” for Azure. Nadella himself, during his 2021 meeting with Sariel, defined the partnership as “critical” for Microsoft, and committed to providing the resources to support it. Microsoft has said publicly that it found “no evidence” that its technology was used to harm Palestinians in Gaza, and a spokesperson told us in response to this investigation that the company was unaware that its products had been used to aid the surveillance of civilians. But three Israeli intelligence sources stated that Unit 8200’s cloud-based intelligence trove has been used over the past two years to plan lethal airstrikes in Gaza, and that it often serves as a basis for arrests and other military operations in the West Bank. ‘Tracking everyone, all the time’ Sariel’s interest in upgrading Israel’s mass surveillance infrastructure dates back to 2015, when he was an intelligence officer in Israel’s Central Command. That year witnessed a wave of “lone-wolf” stabbing attacks in the West Bank, Jerusalem, and inside the Green Line — many of them carried out by Palestinian teenagers previously unknown to the security services, making the attacks particularly difficult to thwart. “We found ourselves going … from funeral to funeral,” Sariel recalled in a book he published about artificial intelligence in 2021, the year he took over as head of Unit 8200 (he resigned last year). “[A Palestinian] decides to perpetrate an attack using a kitchen knife to stab a victim, or the family vehicle to run people over,” he wrote. “Sometimes the person doesn’t even know a day before that he or she is going to commit such an attack. In these cases, traditional intelligence agencies are helpless. How can such an attack be predicted or prevented?” Sariel’s solution, according to an intelligence officer who served under him at the time, was to start “tracking everyone, all the time.” Over the next few years, he led a large-scale, well-funded project that dramatically expanded Israel’s surveillance of Palestinians and integrated multiple intelligence databases. “Suddenly, the public became our enemy,” another source who served in the unit under Sariel said. In his book, Sariel wrote about the need for intelligence agencies to “migrate to the cloud” to deal with the problem of how to store increasingly vast amounts of data. +972 and Local Call previously revealed that the Israeli army has also used Amazon’s cloud computing platform, AWS, to store internal military data. Sariel saw the collaboration with Microsoft as a breakthrough specifically because it would enable the mass storage of audio files. Multiple sources used the word “infinite” to describe the project’s scale. Beforehand, Unit 8200 could store the calls of tens of thousands of Palestinians defined as “suspects” on its internal servers. The unit also developed a system called “noisy message,” which collects Palestinians’ text messages and assigns each of them a rating indicating their level of “danger.” But with the help of Azure, Unit 8200 was able to begin storing the calls of millions of Palestinians, vastly expanding its pool of data. A senior source in Unit 8200 explained that Sariel viewed his relationship with Nadella, the Microsoft CEO, as a tool to advance “revolutions” in mass surveillance of Palestinians. “Yossi bragged a lot, even to me, about his connection with Satya,” the source said. (In response to this investigation, a Microsoft spokesperson stated that Nadella was only present in the 2021 meeting for 10 minutes, and that their only further contact was a condolence card Sariel sent after the death of Nadella’s son.) Not everyone in the unit looked favorably on this partnership. One source familiar with the project said it was significantly more expensive to transfer data to Microsoft’s servers than it would have been to purchase servers and processors independently. Others in the unit felt uncomfortable about storing sensitive information overseas. But Sariel insisted, making clear his excitement for the project’s potential. “For Yossi, ‘cloud’ and ‘Microsoft’ are buzzwords,” one intelligence source said. “He sold it internally and that’s how he got a huge budget. He said it was the solution to our problem in the Palestinian arena, and that this was the future.” ‘This isn’t leaving Azure anytime soon’ By early 2022, engineers from Microsoft and Unit 8200 were working quickly and closely to design a special model within the cloud that would be carefully tailored to the unit’s needs. “The rhythm of interaction with [8200] is daily, top down and bottom up,” one internal document noted. As part of its effort to migrate vast amounts of its surveillance data to the cloud, the leaked documents reveal, Unit 8200 was prepared to “push the envelope” on the types of data it was willing to store on Azure. A significant portion of the raw intelligence was expected to reside initially in Microsoft data centers outside of Israel. But Israel’s Justice Ministry and Finance Ministry raised concerns about potential lawsuits against cloud service providers abroad, which could force them to hand over stored data if it was suspected of being used to violate human rights. An internal legal opinion from the Justice Ministry in 2022 noted that both France and Germany required corporations to check for human rights violations in their supply chains by law. If it were to be revealed that these corporations are operating in the occupied Palestinian territories, such laws “may lead to the issuance of orders to prevent or restrict services” to Israel, it noted. The ministry warned that the Netherlands was working on similar legislation. Since cloud service providers are “some of the largest and most powerful companies in the world,” one Justice Ministry document warned, a potential lawsuit would be particularly harmful to Israel. Despite these concerns, Unit 8200’s partnership with Microsoft continued, spearheaded by Sariel himself. After Israel launched a war on the Gaza Strip in the wake of Hamas’ October 7 attack, it soon became clear that the enclave would remain under Israeli military control for a significant period. As a result, an intelligence officer explained, internal enthusiasm for storing mass surveillance data from Gaza on the cloud-based system increased. “[The army] understood that this is also needed in Gaza — that we’re heading toward long-term control there, like in the West Bank,” the source explained. “This [surveillance repository] isn’t leaving Azure anytime soon. It’s a huge project.” Several sources insisted that the project has “saved Israeli lives” by preventing Palestinian attacks. “You hear [someone say], ‘I want to become a martyr,’ and you feel reassured, as a security officer, that this stuff is being picked up by our system,” one officer said. But such blanket surveillance allows Israel to find potentially incriminating information on virtually any Palestinian, which can be used for all manner of purposes — including blackmail, administrative detention, or retroactively justifying killings. “These people get entered into the system, and the data on them just keeps growing,” an intelligence officer who recently served in the West Bank explained. “When they need to arrest someone and there isn’t a good enough reason to do so, [the surveillance repository] is where they find the excuse. We’re now in a situation where almost no one in the [occupied] territories is ‘clean,’ in terms of what intelligence has on them.” ‘Serious allegations of complicity in genocide’ In internal documents from 2023, Microsoft estimated that the partnership with Unit 8200 would generate hundreds of millions of dollars for the company over five years. It noted that the unit’s leadership hoped to multiply the amount of data it stores in Microsoft’s servers “tenfold” over the next few years. But media reports of Microsoft’s complicity in Israel’s onslaught on Gaza — including the revelation by +972 and Local Call that the company’s cloud and artificial intelligence sales to the Israeli military skyrocketed during the war — have increased pressure on the company from the public as well as from its own employees. In one highly publicized incident at the company’s annual conference in May, a Microsoft engineer interrupted Nadella’s keynote speech. “Satya, how about you show how Microsoft is killing Palestinians?” he shouted. “How about you show how Israeli war crimes are powered by Azure?” Against this backdrop, 60 Microsoft investors, collectively holding shares worth $80 million, approached the company in July with a demand to review its monitoring and oversight mechanisms for customers who misuse AI tools, “in the face of serious allegations of complicity in genocide and other international crimes.” Responding to the mounting pressure, Microsoft announced that it had conducted a review of whether its sales to Israel’s Defense Ministry had led to human rights violations. According to the statement, Microsoft provided “limited emergency support” to the Israeli army in the aftermath of October 7 to “help rescue hostages.” The company emphasized that there is “no evidence to date” that the military used Azure to “harm people in the conflict in Gaza,” stressing that Microsoft’s support didn’t violate “the privacy and other rights of civilians in Gaza.” Yet the internal documents detailing Microsoft’s partnership with Unit 8200 paint a different picture of the company’s concern for Palestinians’ privacy. In fact, Palestinians were not mentioned in the documents summarizing the 2021 meeting between Sariel and Nadella, which also involved Israeli intelligence officers and senior Microsoft executives. According to the Guardian’s reporting, Unit 8200 informed Microsoft of its intention to transfer up to “70 percent” of its data, including secret and top secret data, to Azure. And while the project’s ultimate goal (beyond “deepen[ing] the partnership”) does not appear to have been explicitly stated, an intelligence source said that executives of Microsoft’s Israeli subsidiary — who worked closely with Unit 8200 personnel on the project — were given clearer indications. “Technically, they’re not supposed to be told exactly what it is, but you don’t have to be a genius to figure it out,” the source noted. “You tell [Microsoft] we don’t have any more space on the servers, that it’s audio files. It’s pretty clear what it is.” In response to our investigation, a Microsoft spokesperson stated: “Microsoft’s engagement with Unit 8200 has been based on strengthening cybersecurity and protecting Israel from nation state and terrorist cyber attacks. This was the purpose of the meeting in November of 2021 and, in addition to our standard commercial relationship, is the basis of our ongoing relationship with the 8200 Unit. “The leadership of Unit 8200 was interested in assessing security protection for data in our Azure public cloud offering,” the spokesperson continued. “We offer specific protections to numerous customers in retail, financial services and consulting organizations, as well as governments. Unit 8200 was interested in and tested this security; this was not a ‘secret’ or tented project. “At no time during this engagement or since that time has Microsoft been aware of the surveillance of civilians or collection of their cell phone conversations using Microsoft’s services, including through the external review it commissioned,” the spokesperson went on. “Any allegations about Microsoft leadership involvement and support of this project … are false.” The IDF Spokesperson stated that “the coordination between the Defense Ministry and the IDF with civilian companies is conducted based on regulated and legally supervised agreements,” adding that the army operates “in accordance with international law, with the aim of countering terrorism and ensuring the security of the state and its citizens.” Yossi Sariel declined to comment, referring us to the IDF Spokesperson. Following publication of this article, the IDF Spokesperson sent another statement: “We appreciate Microsoft’s support to protect our cybersecurity. We confirm that Microsoft is not and has not been working with the IDF on the storage or processing of data.” |
Labels:
Apartheid,
Controlo Social,
Espionagem,
ICC,
IDF,
Inteligência Artificial,
Investigação,
Irlanda,
Israel,
Jornalismo Ambiental,
Manifestação,
Militarismo,
NSA,
Palestina,
Satya Nadella,
Telemóveis,
Unit 8200
Subscrever:
Mensagens (Atom)







.webp)


