sexta-feira, 12 de maio de 2023

O pensamento económico de Amartya Sen: a fome, a biologia e a política


Hoje, dei por mim a reler Amartya Sen: "Starvation is the characteristic of some people not having enough food to eat. It is not the characteristic of there being not enough food to eat". Recomendo vivamente a leitura do livro "Hunger and Public Action" (e-livro disponível aqui). Em especial, pp. 95-102.
A análise de Amartya Sen sobre a fome influenciou fundamentalmente a minha compreensão da justiça económica, ambiental e reprodutiva. As pessoas não passam fome porque não há comida suficiente para muitos pobres. É porque a sociedade está estruturada para privá-los de comida.
Ex: A fome da batata na Irlanda (A Grande Fome Irlandesa)

Daniel MacDonald (c.1847) - An Irish Peasant Family Discovering the Blight of their Store

A Grande Fome irlandesa de 1845-1849 foi um evento de suma importância para a formação da Irlanda moderna, assim como das classes trabalhadoras da Inglaterra e Estados Unidos. A fome que atingiu a ilha não foi somente uma recorrente crise de subsistência – tão comum em economias e sociedades pré-capitalistas -, mas, ao contrário, foi engendrada pela colonização inglesa e, além disso, foi parte essencial do processo de industrialização capitalista inglês. Nesse sentido, esse artigo busca defender a tese de que a causa estrutural da fome irlandesa pode ser encontrada no modelo colonial aplicado pela Inglaterra, que possuía três pilares principais: a transformação da economia irlandesa em exportadora de matérias-primas e alimentos, a existência de um mercado de terras via arrendamentos e a solidificação de uma economia interna de subsistência baseada na produção da batata.

Há um famoso ditado popular mexicano, atribuído ao ditador Porfirio Díaz, que sintetiza, de modo genial, a relação do país latino-americano com o seu vizinho do norte: “Pobre México, tan lejos de Dios y tan cerca de Estados Unidos”. Essa relação entre, de um lado, uma potência capitalista industrial e, do outro lado, os seus vizinhos empobrecidos e atrasados não foi nenhuma novidade do imperialismo norteamericano. A Inglaterra, muito antes, já havia posto os povos das Ilhas Britânicas para trabalhar em favor do seu próprio desenvolvimento capitalista, cabendo a maior parte do ônus desse processo para a rural, agrária e camponesa Irlanda. Nesse sentido, dentro desse contexto, uma das principais consequências do modelo colonial inglês aplicado na ilha foi a Grande Fome de 1845-1849 – segundo Eric Hobsbawm a “maior catástrofe humana da história europeia”[1] ocorrida durante a primeira metade do século XIX (1789-1848).

O modelo colonial inglês aplicado na Irlanda possuía três pilares principais: a) a transformação da economia irlandesa em exportadora de commodities (sobretudo grãos) para abastecer o mercado interno inglês, isto é, nesse sentido, produzir alimentos para uma crescente população urbana e matérias-primas para a emergente indústria inglesa – além da exportação de uma força de trabalho barata e numerosa; b) a existência de um mercado de terras (via arrendamentos) e o parcelamento da propriedade agrária; c) uma economia camponesa de subsistência voltada à produção da batata como alimento principal de consumo da maioria da população irlandesa – a economia da batata.

A revolução industrial inglesa teve como principal consequência para a Irlanda um reforçamento da ruralização[2] e a especialização na exportação de commodities, assim como a desurbanização e o declínio da produção manufatureira interna[3] (que possuía um importante e tradicional setor têxtil), ou seja, enquanto a Inglaterra se industrializava, a Irlanda passava por um processo de “desindustrialização”[4], que ocorria em favor do desenvolvimento econômico inglês. Evidentemente que o estabelecimento de uma economia primário-exportadora, como observam Marx e Engels, atendia aos interesses da burguesia industrial ingl­esa (mais interessados na mão de obra barata e numerosa) e sobretudo de uma parte dos landlords (grandes latifundiários ingleses) que possuíam terras na Irlanda. Nesse sentido, as Leis dos Cereais (Corn Laws) de 1815, que buscavam restringir a importação de grãos, uma importante vitória política dos landlords[5], significou para a Irlanda quase que uma situação de monopólio na exportação de cereais para a Inglaterra[6] – embora a maior parte dos lucros desse intercâmbio fossem para os próprios latifundiários ingleses.

Na reestruturação da divisão internacional do trabalho que ocorreu com o advento da revolução industrial, a Irlanda posicionou-se como uma economia subalterna: exportadora de alimentos, matérias-primas e trabalhadores e importadora de produtos industriais. Assim, de um lado, enquanto, ao mesmo tempo, a Irlanda teve um papel fundamental no desenvolvimento industrial inglês (não somente por ter sido o celeiro da Inglaterra, mas sobretudo devido à exportação de mão de obra barata[7]), em outras termos, na acumulação capitalista inglesa, de outro lado, ocorria o seu processo de desacumulação de capitais e perpetuação do seu subdesenvolvimento e periferização ou, como prefiro, do atraso econômico. Esse era, afinal, o sentido da colonização inglesa[8]. Segundo Engels:

A Inglaterra havia de tornar-se a ‘oficina do mundo’; todos os outros países haviam de tornar-se para a Inglaterra aquilo que a Irlanda já era: mercados para os seus bens manufacturados, fornecendo-lhe em troca matérias-primas e alimentos. A Inglaterra, o grande centro manufactureiro de um mundo agrícola, com um número sempre crescente de Irlandas cerealíferas e algodoeiras girando à volta dela, o Sol industrial[9]

Uma peculiaridade do modelo colonial inglês em relação à outras formas de colonização reside no fato de que havia um mercado de terras e o predomínio do parcelamento rural. Os landlords possuíam a propriedade das terras e as alugavam à arrendatários irlandeses que, por sua vez, subarrendavam para arrendatários ainda menores que faziam o mesmo[10], assim o parcelamento da terra e o predomínio de pequeníssimos lotes (cerca de menos de 5 acres) eram a norma do regime agrário. Como consequência, a concorrência entre esses pequenos arrendatários fazia com que os preços das rendas fossem muito altos[11], diminuindo, assim, o investimento em cultivos agrários e rebaixando o padrão de vida dos irlandeses.

Mas por trás desse regime agrário e do aumento populacional – ocorrido desde o início do século XIX –, estava o desenvolvimento de uma economia de subsistência voltada à produção da batata (a economia da batata)[12]. A batata havia sido introduzida na Irlanda em 1586, mas somente no final do século XVIII havia se generalizado na economia irlandesa. O cultivo da batata era relativamente simples, requeria pouca força de trabalho e bastava uma pequena superfície para produzir uma boa quantidade, além disso o seu consumo diário, aliado ao leite, era o suficiente para manter um estado de saúde tolerável[13].

Os ingleses haviam imposto aos irlandeses o abandono dos antigos métodos e cultivos tradicionais e a utilização de métodos modernos de cultivo agrário baseado na fertilização através do guano peruano – que aumentaram a produtividade, embora enfraquecessem imunologicamente as batatas[14]. Além disso, a produção da batata era favorável aos interesses dos ingleses na medida que “não exauria o solo e ainda permitia que uma grande porcentagem da terra fosse voltada para o plantio de grãos que seriam exportados para a Inglaterra”[15]. Nesse sentido, a unidade produtiva camponesa padrão (pequenos lotes) era dividida em dois setores principais: um setor destinado à subsistência, com predomínio ou totalidade do cultivo da batata, e outro setor destinado à produção de commodities para a Inglaterra. A adoção da batata e a maior produtividade agrária teve como consequência o aumento demográfico (em 1791, um pouco mais de 4 milhões; em 1821, entorno de 7 milhões; em 1845, mais de 8 milhões[16]) que, por sua vez, estimulava os landlords a concederem mais arrendamentos cada vez menores, visando os lucros de exportação e das rendas.

A consequência do modelo colonial inglês na Irlanda (economia primário-exportadora, mercado de terras e economia da batata) era a perpetuação e o reforçamento do atraso económico e o pauperismo camponês generalizado[17]. Em 1845, a batata havia se tornado o único alimento sólido de 4 entre 10 habitantes da ilha, e cerca de 1/3 de toda a população apenas consumia batata[18]. Nesse contexto, “as más colheitas e as doenças das plantações na metade da década de 1840 forneceram apenas o pelotão de fuzilamento para um povo já condenado”[19]!

A Grande Fome irlandesa de 1845-1849 foi, antes de mais nada, uma crise de subprodução alimentícia, algo que era crónico no país, ocorrendo constantemente desde o século XVIII[20], isto é, a fome era sistémica na Irlanda. Sendo assim, a fome da década de 1840 foi apenas a intensificação de um fenómeno recorrente na história da Irlanda colonizada, embora dessa vez tenha atingido o país em sua totalidade e com um “custo humano” muito maior. A causa imediata, além das más colheitas de 1845 e anos subsequentes, foi o fungo Phytophthora infestans – que havia surgido na América do Norte e se espalhado na Europa continental[21] –, responsável pelo apodrecimento precoce das batatas, mais fracas imunologicamente e com baixa variação genética[22]. Em 1845, talvez se tenha plantado cerca de 2,1 milhões acres de batata, do qual cerca de metade ou ¾ foram destruídos pelo fungo[23].

Por outro lado, a principal causa da catástrofe foi a colonização inglesa[24] que, além de explorar a população a partir da dinâmica das rendas e da exportação de commodities e material humano, forçava a economia irlandesa à monocultura – tanto internamente (economia da batata), quanto externamente (economia primário-exportadora) –, além disso atuava contra o desenvolvimento econômico do país na medida que acabava com qualquer alternativa industrial da Irlanda, inclusive destruindo com a sua tradicional produção têxtil. A lógica do sistema colonial se atesta se levarmos em consideração que durante quase todo o período da Grande Fome a exportação de alimentos para a Inglaterra permaneceu, com preços em média de 100.000 libras esterlinas mensais[25]. A colonização inglesa foi, pelo menos nesse período, a verdadeira responsável pelo pauperismo irlandês!

As consequências da Grande Fome de 1845-1849 foram de suma importância para a posterior história irlandesa. Em primeiro lugar, a população da ilha, que em 1845 era maior que 8 milhões, diminuiu para cerca de 6 milhões. Tradicionalmente, a partir de fontes “grosseiras”, se há afirmando que 1 milhão de pessoas morreu diretamente como decorrência da fome (doenças e desnutrição), enquanto outro milhão emigrou para outros países, majoritariamente de tradição anglófona – somando, assim, um descenso de dois milhões de pessoas. Esses dados são muito questionáveis e se baseiam sobretudo nos censos de 1841 (que indicava uma população de 8,2 milhões) e 1851 (que indicava entorno de 6,5 milhões), em contrapartida o “custo humano” e, como consequência, os prejuízos para o desenvolvimento econômico-social são irrefutáveis – a população persistira diminuindo e só voltaria a crescer novamente em meados do século XX, nunca mais atingindo 8 milhões.

Em relação à emigração, muitos irlandeses – essa força de trabalho fundamental para a industrialização inglesa – se dirigiram à tradicional emigração para Inglaterra (cerca de 750 mil, entre 1845-1855[26]), contudo outros irlandeses preferiram principalmente os demais países de tradição anglófona: entre 1841-1850 (sem contar a Grã-Bretanha), 70% emigrou para os Estados Unidos, 27.9% para o Canadá, 1.8% para a Australásia (sobretudo Austrália e Nova Zelândia); na década seguinte, 1851-60, 81% para os EUA, 9.7% para o Canadá, 8.3% para a Australásia. A emigração para os EUA foi significativa: entre 1841-1850, 908,292 irlandeses; 1851-60, 989,880; 1861–70, 690,845; 1871–80, 449,549; 1881–90, 626,604; 1891–1900, 427,301. Enquanto que, na década de 1841-1850, o Canadá atingiu o seu ápice com 362,738 emigrantes e a Australásia, na década 1851-1860, com 101,541[27]. Assim como na Inglaterra, nos Estados Unidos os irlandeses desempenharam um papel fundamental na emergente indústria norte-americana: serviram como mão de obra não-qualificada, ao mesmo tempo que rebaixavam os salários e competiam com os trabalhadores negros[28]. Pode-se dizer, sem exageros, que pauperismo irlandês foi um dos pilares fundamentais do desenvolvimento económico inglês e norte-americano.

Uma das principais consequências da Grande Fome, que possui relações com a própria história da Inglaterra, foi a revogação das Leis dos Cereais, em 1846[29]. A revolução burguesa na Inglaterra, ocorrido em meados do século XVII, havia estabelecido a dominação conjunta de classe dos landlords junto à emergente burguesia inglesa[30] – primeiro, dos setores mercantis, mais tarde, dos setores manufatureiros-industriais. Com o advento da revolução industrial e da sociedade burguesa, a burguesia dominava cada vez mais a sociedade, e a preponderância política dos landlords ia enfraquecendo. Nesse contexto, as Leis dos Cereais de 1815 significaram uma importante vitória política para aristocracia rural, na medida que lhe dava uma parte dos lucros do gigantesco desenvolvimento econômico inglês, decorrente da transformação industrial. Contudo, durante o século XIX, o enfraquecimento dos landlords era notório: a reforma eleitoral de 1832 foi um dos aspectos mais sintomáticos desse processo.

A burguesia industrial buscava impor completamente uma política económica livre-cambista, mas dentro se seu próprio país havia um grande empecilho: as Leis dos Cereais. Nesse sentido, essa legislação protecionista que já era muito criticada pelos setores burgueses, ganhou uma forte oposição durante a crise agrícola de 1845-46, já que a imposição da economia primário-exportadora havia levado a Irlanda a uma catástrofe alimentícia. Evidentemente que a burguesia industrial inglesa não pretendia, em nenhum sentido, acabar com a fome na Irlanda[31] – visto que lhe beneficiava em relação à mão de obra irlandesa –, mas sim acabar com o monopólio dos landlords na produção de commodities, já que eram praticamente obrigados a comprar os grãos encarecidos da Irlanda e Grã-Bretanha, e, com isso, tinham seus lucros diminuídos – tanto por pagarem maiores salários, quanto pela compra das matérias-primas. Assim, a revogação das Leis dos Cereais, em 1846, significou a vitória da burguesia industrial inglesa e da sua política livre-cambista e a derrota dos landlords, dos setores burgueses ligados à especulação e do protecionismo[32].

Para a Irlanda, as consequências do fim do monopólio das commodities também foram importantes. Num primeiro momento, a perda do mercado inglês fez com que aqueles camponeses que ainda não haviam caído totalmente no pauperismo ficassem impossibilitados de pagar as rendas, assim sendo expulsos de seus arrendamentos. A fome irlandesa que havia acelerado o processo de revogação do Corn Laws, dialeticamente, foi intensificada pelo fim do monopólio irlandês. A consequência estrutural para a economia irlandesa foi o fim da economia da batata e uma mudança de direcionamento na economia primário-exportadora, cada vez mais especializada na bovinocultura, ovinocultura[33] e exportação de aveia. Com o descenso populacional e com as mudanças produtivas (os novos cultivos eram menos produtivos e requeriam mais força de trabalho que a batata), o parcelamento da terra diminuiu e ocorreu o processo de concentração dos arrendamentos e propriedades rurais[34].

O estado inglês, de fato, buscou apaziguar o problema da fome a partir do assistencialismo público (a ampliação da Lei dos Pobres, Irish Poor Laws, para a Irlanda já havia ocorrido em 1838) e de um programa de obras públicas, principalmente de construção de estradas. Embora a Irlanda tenha se beneficiado mais tarde da infraestrutura criada nesse período, não houve imediatamente um avanço econômico e o ônus decaiu totalmente sobre os empobrecidos camponeses, que eram obrigados a pagarem impostos maiores. Além disso, os salários pagos aos trabalhadores eram extremamente baixos, inclusive abaixo do gasto calórico necessário para esse tipo de atividade. Em 1847, essas obras contavam com cerca de 735 mil operários e havia cerca de dois mil comitês de assistência pública pelo país[35].

A Grande Fome foi a consequência da imposição à Irlanda, pela colonização inglesa, de uma economia voltada para o mercado externo e, ao mesmo tempo, dependente internamente da monocultura da batata. A Irlanda, que como vimos, desempenhou um importante papel na acumulação de capitais inglesa, não passou despercebida por Marx e Engels. Em várias de suas obras[36], os fundadores do materialismo histórico dedicaram-se a estudar tanto o papel subalterno da economia irlandesa, quanto à importância, supracitada nesse trabalho, da força de trabalho dos irlandeses no desenvolvimento industrial inglês. Além disso, os acontecimentos na Irlanda também fizeram parte da desenfreada luta de classes entre a burguesia liberal e os landlords e a consequente vitória, como afirmou Marx, do partido do livre comércio inglês.

Notas

[1] HOBSBAWM, E. A Era das Revoluções 1789–1848. São Paulo: Paz e Terra, 2015 [1962]. p. 170.

[2] SPECK, W. A. História Concisa da Grã-Bretanha. São Paulo: EDIPRO, 2013. p 67.

[3] “Sob Guilherme III, chegou ao poder uma classe que tinha como único objetivo o lucro, e a indústria irlandesa foi suprimida com o objetivo de forçar a Irlanda a vender suas matérias-primas para a Inglaterra a qualquer preço […] A União deu o tiro de misericórdia nas possibilidades de renascimento da indústria irlandesa […] toda vez que a Irlanda estava prestes a desenvolver sua indústria, ela foi esmagada e reconvertida em uma terra meramente agrícola” In: MARX, K. Proyecto de una conferencia sobre el problema irlandés. Dictada el 16 de diciembre de 1867 en la asociación cultural de trabajadores alemanes en Londres [1867]. In: MARX, K.; ENGELS, F. Imperio y colonia. Escritos sobre Irlanda. Ciudad de México: Siglo XXI Editores, 1979. p. 154-170.

[4] “Exceto no nordeste (Ulster), o país tinha de há muito sido desindustrializado pela política mercantilista do governo britânico colonialista e, mais tarde, pela competição da indústria britânica” In: HOBSBAWN, 1962, op. cit., p. 170. O termo “desindustrialização” deve ser usado com cuidado nesse caso, já que na Irlanda o que existia era a produção manufatureira e artesanal e não, de fato, uma indústria moderna com a utilização do maquinário movido a carvão.

[5] ENGELS, F. Prefácio à Edição Inglesa de 1892 de «A Condição da Classe Operária em Inglaterra». Marxist.org, 1892. 

[6] MARX, 1867, op. cit., p. 164.

[7] “O rápido desenvolvimento da indústria britânica não teria sido possível se a Inglaterra não dispusesse de uma reserva – a numerosa e pobre população da Irlanda” In: ENGELS, F. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Boitempo, 2010 [1845]. p. 131.

[8] Ver: PAULA, P. G. Marx e a formação da periferia do mercado mundial capitalista: o caso irlandês. Esquerda Online, 06 de agosto de 2015. 

[9] ENGELS, 1892, op. cit., s/p.

[10] ENGELS, 1845, op. cit., p. 304; MARX, 1867, op. cit., p. 163; HOBSBAWM, 1962, op. cit., p. 170; SPECK, 2013, op. cit., p. 68.

[11] “Os aluguéis aos proprietários no início da década de 1840 representavam algo na ordem de 25-30 por cento da produção agrícola” In: BIELENBERG, A. The Irish Economy, 1815–1880. In: KELLY, J (org.). The Cambridge History of Ireland. Cambridge: Cambridge University Press, 2018. Volume 3: 1730–1880. p. 316.

[12] Marx, em 1861, escreveu: “O que a batata foi para a agricultura irlandesa, o algodão é para o ramo dominante da indústria da Grã-Bretanha” In: MARX, K. From The Crisis in England. Marxist.org, 1861. 

[13] RANELAGH, J. O. Historia de Irlanda. Madrid: Ediciones Akal, 2014. p. 162.; STATE, P. A Brief History of Ireland. New York: Facts On File, 2008. p. 184-185.

[14] GUIMARÃES, E. A. M. Agricultura industrial, commodities, cacau, mandioca e batatas. In: Scientiarum Historia IX, 2016, Rio de Janeiro. Livro de Anais do Scientiarum Historia IX. Rio de Janeiro: UFRJ, 2016.; MANN, C. C. 1493: uncovering the new world Columbus created. New York: Alfred A. Knoff, 2011.

[15] “O povo irlandês conseguia cultivar grandes quantias de batatas nutritivas com as quais alimentavam suas famílias e seus animais. Já os latifundiários ingleses se beneficiavam do fato de que o plantio de batatas não exauria o solo e ainda permitia que uma grande porcentagem da terra fosse voltada para o plantio de grãos que seriam exportados para a Inglaterra” In: THORNTON, M. O que causou a grande fome da Irlanda? Mises Brasil, 2014 [1998]. 

[16] Ver: GURRIN, B. Population and Emigration, 1730–1845. In: KELLY, J (org.). The Cambridge History of Ireland. Cambridge: Cambridge University Press, 2018. Volume 3: 1730–1880.

[17] Eric Hobsbawm enxergou a causa estrutural da Grande Fome na contradição entre o aumento populacional (consequência direta da economia da batata) e o atraso econômico: “Uma simples inovação técnica — a substituição pela batata dos tipos anteriormente prevalecentes de agricultura — tornara possível um grande aumento da população, pois um acre de terra plantado com batatas pode alimentar muito mais gente do que um acre dedicado a pasto ou outros tipos de cultura. A demanda dos proprietários de terra por um número máximo de rendeiros que lhes proporcionassem dividendos e também, mais tarde, por uma força de trabalho para cultivar as novas fazendas que exportavam alimentos para o crescente mercado britânico encorajou a multiplicação de minúsculas propriedades. […] durante o século XVIII e princípios do século XIX, a população se multiplicou nestas faixas de terra, vivendo à base de 10-12 libras peso de batata por dia para cada pessoa e — pelo menos até a década de 1820 — à base de leite e de um pedaço ocasional de peixe; uma população cuja pobreza não tinha paralelo na Europa Ocidental. Visto que não havia emprego alternativo — pois a industrialização estava excluída — o resultado dessa evolução era matematicamente previsível. Quando a população tivesse crescido até os limites do último pedacinho de terra plantado de batatas haveria uma catástrofe” In: HOBSBAWM, 1962, op. cit., p. 170.

[18] MANN, 2011, op. cit., p. 302.; RANELAGH, 2014, op. cit. p. 162.

[19] HOBSBAWM, 1962, op. cit., p. 170.

[20] “A fome já havia atingido a Irlanda muitas vezes. Em 1740-1741, estima-se que 400.000 a 500.000 morreram por causa da praga da batata (uma taxa quase tão alta quanto em 1845-1849). Durante o século XIX, antes de 1845, houve fomes em 1807, 1817, 1821-1822, 1830-1834, 1836 e 1839. No entanto, embora sempre tenha sido acompanhada de morte e emigração, a perda da safra de batata e a fome sempre foi localizado” In: RANELAGH, 2014, op. cit., p. 163. “A Irlanda conheceu falhas de batata (Potato Failure) antes – houve 14 pragas parciais ou completas de 1816 a 1842 e várias no século XVIII, notadamente o Bliain an áir (o ano do abate) em 1740-41” In: STATE, 2008, op. cit., p. 185. “Escassez de alimentos atribuível ao fracasso da safra de batata ocorreu em 1817, 1822, 1831,1835-7, 1839 e 1842, com muito pior para vir entre 1845 e 1849, quando a fome se alastrou por vários anos com consequências devastadoras” In: BIELENBERG, 2018, op. cit., p. 337.

[21] STATE, 2008, op. cit., p. 185.

[22] Ver: A Monocultura e a Grande Fome Irlandesa da Batata: Casos de falta de variação genética. USP, s/d. In: https://evosite.ib.usp.br/relevance/IIAmonoculture.shtml.

[23] MANN, 2011, op. cit., p. 301-302.

[24] Mesmo um economista liberal, ligado à escola austríaca, salienta a importância da colonização inglesa na Grande Fome irlandesa: “A Irlanda foi devastada pelas forças económicas originadas por um dos mais poderosos e agressivos estados que o mundo já conheceu. A sua população sofreu não por causa de um fungo (cujos cientistas ingleses insistiam ser apenas humidade excessiva), mas sim por causa da colonização, da espoliação, da servidão, do protecionismo, dos preços artificialmente altos sustentados pelo governo, do assistencialismo estatal e de insensatos programas de obras públicas” In: THORNTON, 1998, op. cit., s/p.

[25] RANELAGH, 2014, op. cit. p. 168.

[26] RANELAGH, 2014, op. cit. p. 171.

[27] KENNY, K. Irish Emigration, 1845–1900. In: KELLY, J (org.). The Cambridge History of Ireland. Cambridge: Cambridge University Press, 2018. Volume 3: 1730–1880. p. 1062-1063.

[28] “O papel dos imigrantes irlandeses, que desenvolveram rapidamente um novo monopólio sobre a mão-de-bra não-qualificada na indústria da construção e do emprego fabril, nesse período, em renhida competição com os negros americanos, revelou-se especialmente importante nesse aspecto” In: WOLF, E. A Europa e os Povos sem História. São Paulo: Editora da USP, 2005 [1982]. p. 435.

[29] MARX, 1867, op. cit., p. 165; NÉRÉ, J. A Inglaterra das grandes reformas (1815-1867). In: IDEM. História Contemporânea. DIFEL: São Paulo, 1981. p. 126.; SPECK, 2013, op. cit., p. 72-73.; MARX, 1861, op. cit., s/p.

[30] Ver: MARX, K.; ENGELS, F. Revolução do século XVII na Inglaterra: “Por que a Revolução na Inglaterra teve sucesso?”: uma crítica do panfleto de Guizot. Marxist.org, 1850.

[31] Engels foi bem “objetivo” ao classificar a atuação dessa classe social: “desconheço uma classe tão profundamente imoral, tão incuravelmente corrupta, tão incapaz de avançar para além do seu medular egoísmo como a burguesia inglesa – e penso aqui na burguesia propriamente dita, em particular a liberal, empenhada na revogação das leis sobre os cereais. Para ela, o mundo (inclusive ela mesma) só existe em função do dinheiro; sua vida se reduz a conseguir dinheiro; a única felicidade de que desfruta é ganhar dinheiro rapidamente e o único sofrimento que pode experimentar é perdê-lo” In: ENGELS, 1845, op. cit., p. 307.

[32] “A revogação das Corn Laws foi uma vitória do capitalista manufactureiro, não apenas sobre a aristocracia fundiária, mas também sobre aquelas secções de capitalistas cujos interesses estavam mais ou menos ligados com o interesse fundiário — banqueiros, especuladores com acções [stock-jobbers], detentores de fundos [fund-holders], etc. Livre-Câmbio significava o reajustamente de toda a política interna e externa, comercial e financeira, da Inglaterra em consonância com os interesses dos capitalistas manufactureiros — a classe que agora representava a nação” In: ENGELS, 1892, op. cit., s/p.

[33] “Entre 1855 e 1866: 996,877 cabeças de gado (bovino, ovino e suíno) substituíram a 1,032,694 de irlandeses” In: MARX, 1867, op. cit., p. 169. Os dados quantitativos utilizados por Marx são questionáveis (baseados em relatórios oficiais da época), mas a interpretação é correta.

[34] RANELAGH, 2014, op. cit., p. 171.; MARX, 1867, op. cit., p. 165-169.

[35] THORNTON, 1998, op. cit., s/p.; RANELAGH, 2014, op. cit. p. 168.; STATE, 2008, op. cit., p. 183-185.

[36] Ver: MARX, K.; ENGELS, F. Imperio y colonia. Escritos sobre Irlanda. Ciudad de México: Siglo XXI Editores, 1979.

Alguém pensa que o preço dos alimentos vai descer?



A médio prazo o preço dos alimentos vai forçosamente aumentar com os custos de produção. A prioridade dada à transição digital sobre a transição ecológica é de uma irresponsabilidade revoltante.

Helena Lopes, 19 de Abril de 2023
Sabe-se que haverá cada vez mais secas e cheias, que a área de terras aráveis vai diminuir e a população aumentar, que a qualidade dos solos se está a deteriorar. Como se pode então pensar que o preço dos alimentos pode descer? É certo que mais de 50% desse preço vai para a transformação e a distribuição, e que parte da inflação se deve à concentração do capital no sector agroalimentar. Mas a médio prazo o preço dos alimentos vai forçosamente aumentar com os custos de produção. Neste contexto, a prioridade que tem sido dada à transição digital sobre a transição ecológica é de uma irresponsabilidade revoltante.A água não chega para todos.A água é a ilustração mais gritante da insegurança alimentar que nos ameaça. 

O Público  reproduziu há dias declarações de especialistas do Alqueva: a água não chega para tudo e para todos. Sabe-se que a chuva total no planeta será a mesma, mas vai chover em locais e com intensidade diferente do passado. A Terra aqueceu, em média, 1,2graus desde 1850, mas aqueceu 4 graus na Gronelândia e 1,7 graus na Europa ocidental. Vai ser necessário escolher. Vamos usar a água para o turismo, o uso doméstico, a agricultura intensiva ou a agricultura tradicional? O Plano Nacional da Água deverá ser revisto dentro de dois anos. Aguardemos as prioridades que aí serão estabelecidas.

Quem estiver atento percebe que a segurança alimentar é uma prioridade da diplomacia internacional da China. São disso exemplo as relações com o Brasil, a compra de terras em África e a amizade com Putin, porque o aquecimento climático vai transformar a Sibéria numa das maiores regiões agrícolas do mundo. Ninguém sabe como vai evoluir o preço dos alimentos, mas descer, é pouco provável. Um europeu consome 3,6 toneladas de petróleo por ano, um africano 0,6; um americano consome 100kg de carne, um paquistanês 16. Sabe-se que o modo de vida dos ocidentais consome os recursos de duas Terras por ano e é responsável pelos desastres ecológicos. No entanto, muitos ficam surpreendidos por os valores ocidentais perderem influência, por os "direitos humanos” não importarem aos povos do Sul. 
Como se o Ocidente tivesse monopólio do bem. Como se os outros povos não sofressem já de insegurança alimentar e não vissem que os ocidentais continuam a não dar prioridade à transição ecológica.
Quem estiver atento percebe que a segurança alimentar é uma prioridade da diplomacia internacional da China

Transição digital e transição ecológica Parece que os governos não se apercebem que existe uma gigantesca assimetria entre transição digital e transição ecológica. Ora, enquanto a segunda exige uma intervenção pública sem precedentes, para a primeira, bastaria deixar empresas e mercados seguirem o
business as usual.
Com efeito, a transição digital agrada à maioria dos cidadãos, consumidores e trabalhadores, e é impulsionada pelas empresas e pelos centros de inovação mais poderosos do mundo. A digitalização do trabalho e dos serviços públicos não é submetida processos democráticos. Pelo contrário, a transição ecológica não agrada a ninguém. Pede sobriedade aos consumidores, ameaça destruir os empregos dos trabalhadores e diminui a competitividade das empresas.
A transição digital agrada à maioria dos cidadãos, consumidores e trabalhadores. Pelo contrário, transição ecológica não agrada a ninguém.

Por muito que desagrade a alguns, a transição ecológica requer processos de planeamento, nacionais e territoriais, exigentes e uma multidão de taxas e regulações impopulares. Ou seja, requer um projeto político liderado por uma entidade que represente o bem comum, projeto que deve ser legitimado por processos democráticos. E aqui está o problema. Estando os governos e os partidos reféns do seu eleitorado, quem vai alertar os cidadãos e prepará-los para a transição ecológica? O Plano de Recuperação e Resiliência, e a sua atualização, financia e incentiva formações em competências digitais, essenciais para o mercado de trabalho e o reforço da competitividade. É a agenda “Inovação, digitalização e qualificações como motores do desenvolvimento". Para a transição ecológica, preveem-se incentivos às empresas e aos cidadãos, sobretudo para produção de energia verde e eficiência energética. E nada sobre formações e competências ecológicas.

A inflação tem sem dúvida causas conjunturais. Mas também é estrutural e premonitória
Note-se que as competências digitais têm objetivos exclusivamente instrumentais (interesse económico) enquanto as competências ecológicas teriam objetivos éticos (o interesse coletivo). São então acusadas de ideológicas, por subverterem a abstinência liberal, que apregoa a neutralidade ética. Segundo esta, a eficiência económica e o enriquecimento individual são valores não-ideológicos. A inflação tem sem dúvida causas conjunturais. Mas também é estrutural e premonitória. É imperativo distanciarmo-nos do curto prazo e perceber que a inflação atual encerra uma luta sobre quem vai pagar os danos ecológicos. Apelo, uma vez mais, os ministérios e as universidades a preparar os jovens para o mundo que aí vem.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Música do BioTerra: Helen Ganya - Little Match Girl


Little Match Girl foi escrita para a instituição de caridade de mudança climática de Brian Eno, Earth Percent, como parte de sua recente campanha do Dia da Terra 2023. A Terra também é creditada como co-autora da faixa, que faz parte de outra campanha para centralizar e (literalmente) incluir a Terra na música que fazemos, com fundos destinados a organizações lideradas pelo clima.

Uma reviravolta no conto sombrio, LMG é reinterpretado para incluir a urgência do agora sem desespero total.

Portugal no top 10 dos destinos de eleição dos milionários


Ao longo de 2022, cerca de 88.000 milionários mudaram de país, de acordo com um relatório da Henley Global Citizens. Para onde é que essas pessoas mais endinheiradas foram viver e quais foram, por outro lado, os países que perderam mais milionários? Contamos-te tudo, mas revelamos, desde já, que Portugal está no top ten dos destinos de eleição dos milionários.

Importa referir, antes de mais, que estão em causa pessoas que têm um património líquido superior a um milhão de dólares (907.000 euros).

Portugal é um dos países que integra o top 10 dos destinos preferidos dos milionários, ocupando a sexta posição do ranking, com cerca de 1.200 entradas. Os Emirados Árabes Unidos lideram a tabela (4.000 entradas), em parte graças às políticas de imigração do país, especialmente concebidas para atrair riqueza privada e talentos internacionais. Seguem-se na lista Austrália (3.500), Singapura (2.800), Israel (2.500), EUA (1.500), Portugal (1.300), Grécia (1.200), Canadá (1.000) e Nova Zelândia (800).

Em sentido inverso encontra-se a Rússia, que é, assim, o país que perdeu mais milionários: cerca de 15.000. Uma consequência clara da invasão do país à Ucrânia, que está também no top 10 das nações que viram “fugir” mais milionários – ocupa a quinta posição (2.800). Neste lote encontram-se ainda China (10.000), Índia (8.000), Hong Kong (3.000), Brasil (2.500), Reino Unido (1.500), México (800), Arábia Saudita (600) e Indonésia (600).

Artigo visto em

Saber mais:

Centeios mais antigos da Península Ibérica descobertos no Norte de Portugal e Galiza


Uma equipa internacional liderada por investigadores portugueses divulgou hoje um estudo que permite conhecer o centeio mais antigo da Península Ibérica e discute a cronologia e o contexto histórico em que esta espécie foi introduzida e cultivada nesta região.

De acordo com os investigadores, os grãos e restos de espigas de centeio mais antigas da Península Ibérica datam da Idade do Ferro, nomeadamente de um período entre o século III a.C. e a primeira metade do século I a.C., foram recolhidos nos sítios arqueológicos do Freixo/Tongobriga (Marco de Canaveses), Crastoeiro (Mondim de Basto) e Castro de São Domingos (Lousada) no Norte de Portugal, bem como no Castelo Pequeno de Santigoso (A Mezquita) na Galiza.

A cronologia foi confirmada através de uma série de datações de radiocarbono e da aplicação de análises estatísticas, numa investigação que decorreu no BIOPOLIS/CIBIO-InBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, Universidade do Porto), no âmbito do doutoramento de Luís Seabra e no contexto de uma ampla colaboração entre investigadores de instituições como a School of Archaeology da University of Oxford, Universidad de Cantabria, Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, Centro de Estudos Interdisciplinares da Universidade de Coimbra, Wessex Archaeology e o Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa.

A busca pelo centeio mais antigo do território peninsular, e um dos mais antigos da Europa ocidental, iniciou-se há oito anos quando Luís Seabra estudava, no âmbito do seu mestrado, um conjunto de frutos e sementes provenientes do sítio do Crastoeiro, localizado no sopé do mítico Monte Farinha, mais conhecido por Alto da Senhora da Graça.

Na altura, uma datação de radiocarbono permitiu compreender a antiguidade do centeio aí encontrado, mas, tratando-se de um caso isolado, era difícil entender a sua integração na agricultura da Idade do Ferro da região.

Ao avançar para doutoramento, Luís Seabra estudou “inúmeros” conjuntos arqueológicos e arqueobotânicos em busca de mais centeio e encontrou o que procurava.

“Compreendemos que o centeio surge com mais recorrência do que antes pensávamos, em sítios da Idade do Ferro, mais precisamente, com cronologias estimadas entre os séculos III e I a.C., no Norte de Portugal e sul da Galiza”, refere Luís Seabra.

Contudo, sublinha, “os dados obtidos não permitem esclarecer por completo se estes primeiros vestígios decorrem do efetivo cultivo desta espécie ou se o centeio que aqui se encontrava era uma mera infestante de outros cereais, como o trigo espelta, amplamente cultivado na região durante este período”.

Para tentar esclarecer esta questão, a equipa avaliou os contextos arqueológicos em que foram recolhidos os vestígios de centeio e realizou um estudo biométrico de modo a compreender se houve modificações nos grãos deste cereal ao longo do tempo, medindo e comparando estes conjuntos arqueobotânicos mais antigos com cereais de diferentes sítios arqueológicos de cronologia Romana e Medieval da mesma região, explica João Tereso, investigador do BIOPOLIS/CIBIO-InBIO e coordenador do estudo.

“Os resultados não foram conclusivos a este respeito, mas demonstraram que os grãos de centeio só aumentam significativamente de dimensão a partir da Idade Média”, afirma o coordenador do estudo hoje publicado na revista PLoS ONE

Ainda assim, a investigação sugere que “o centeio terá sido introduzido inadvertidamente como infestante durante a Idade do Ferro, tendo o seu cultivo efetivo iniciado num momento avançado da Época Romana, provavelmente entre o final do século II e o século IV da nossa Era. Esta hipótese sustenta-se, principalmente, no facto do centeio ser esporádico e secundário face a outros cereais na cronologia mais antiga e estar posteriormente ausente durante cerca de dois séculos, até ressurgir no final do século II ou início de III”.

“No futuro será necessário, porém, reforçar a amostragem sobre contextos da Idade do Ferro e de Época Romana, de modo a testar as hipóteses que colocamos agora. Como qualquer investigação em Arqueologia, é sempre possível que o próximo achado, nosso, ou de outra equipa, nos contradiga, mas essa é uma das partes mais fascinantes da ciência”, considera João Tereso.

Há falta de água em Portugal? Não! Nem agora nem no futuro…

A água está mal distribuída, no tempo e no espaço, o que se resolve com a “auto-estrada da água do interior”, um sistema de transferência de caudais (Douro-Tejo-Guadiana-Algarve), constituído por estações de bombagem e canais ao longo do interior do país, apoiado nalgumas barragens, com custos bastante acessíveis.

Muito se tem falado, nos últimos tempos, sobre a água que vem de Espanha, nos diversos rios que partilhamos. Surge a notícia de os agricultores espanhóis da região do Douro não quererem que a água lá armazenada, em barragens que eles ajudaram a pagar, seja agora derivada para cá, como já tinha surgido, há tempos, relativamente ao Tejo.

Não vale a pena criticar Espanha, falar do acordo de Albufeira que regulamenta os caudais mínimos dos rios internacionais (que os espanhóis até cumprem, ao contrário dos portugueses …). Espanha está, e estará sempre, a montante de Portugal, e sempre que a água escassear, o que irá acontecer cada vez com maior frequência, a situação será esta, cada um a defender os seus interesses.

A solução passa por Portugal deixar de se queixar e fazer o que Espanha já fez há muitos anos, instalar sistemas hidráulicos que permitam por um lado, armazenar água e, por outro, distribuí-la racionalmente, transferindo-a de onde ela está em excesso, a Norte, para onde falta, a Sul. Ou seja, deixar o papel de cigarra, que nada faz e se queixa quando não tem de comer, e assumir o papel de formiga, que acumula comida de Inverno (neste caso, água!) para a distribuir de Verão.

De facto, o país dispõe, em média, sem contar com as afluências de Espanha, de 40.000 milhões de m3/ano de águas superficiais e subterrâneas (32.000 + 8000), quando os seus consumos hídricos globais rondam os 4.500 milhões de m3/ano, 11% das disponibilidades (números do Plano Nacional da Água 2015, documento da APA, Agencia Portuguesa do Ambiente).

A longo prazo, e fruto das alterações climáticas, as disponibilidades hídricas nacionais poderão reduzir-se para 28.000 milhões de m3/ano, e os consumos subirem para 6.000 milhões de m3/ano, mesmo assim só 21% das disponibilidades (idem).

O que não existem são barragens de armazenamento suficientes, que guardem a água nos Invernos e nos anos húmidos, para a distribuir no Verão e nos anos secos, nem sistemas globais de transferência de caudais (Douro-Tejo-Guadiana-Algarve), do Norte, rico em água mas com baixos consumos, para o Sul, onde ela falta mas onde o potencial agrícola é grande!

E também infra-estruturas regionais de distribuição de água, nomeadamente na Terra Quente Transmontana, no Vale do Tejo e Oeste e na expansão do sistema do Alqueva a todo o Alentejo.

Como está, cerca de 90% da água nacional segue para o mar, o que é bom para as sardinhas, mas causa grandes problemas à agricultura, e não só. Se em vez de 90% forem 80%, as sardinhas não dão por nada, e o problema nacional da falta de água fica resolvido.

É tudo uma questão de planeamento e boa gestão, com custos relativamente reduzidos, inferiores a 1.000.000.000 euros (mil milhões de euros) para o Sistema de Transferência Douro-Tejo-Guadiana-Algarve, 1/5 do que se gastou no BES/GES ou na Caixa Geral de Depósitos, sendo que o problema da água em Portugal fica resolvido pelos próximos 100 anos.

Bem sabemos que soluções concretas para problemas concretos é coisa de engenheiros, uns “desmancha-prazeres”, e que isto é aborrecido para as entidades que se alimentam destes alarmismos permanentes, mas o país com certeza que agradece … e, se calhar, as sardinhas também!

Fonte: Público

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Socorro a bancos, IA e Apple: o que Buffett disse em reunião anual com acionistas

Berkshire Hathaway, empresa do megainvestidor, reportou salto nos lucros nos resultados do primeiro trimestre, divulgados pouco antes do encontro

Batizada de “Woodstock dos capitalistas”, a reunião anual com acionistas da Berkshire Hathaway, realizada neste sábado (6), contou com a presença do CEO do conglomerado de investimentos, Warren Buffett, hoje com 92 anos, e do vice-presidente, Charlie Munger, 99, que subiram ao palco para responder a perguntas dos investidores e discutir sobre os negócios e a economia em geral.
Os investidores esperavam ouvir os comentários do “oráculo de Omaha”, apelido de Buffett no mercado, a respeito das recentes falências de bancos nos Estados Unidos e o abalo na indústria, e, sem surpresas, o tema esteve entre os tópicos que ele abordou.
“Teria sido catastrófico”, disse Buffett, se os reguladores não tivessem apoiado os correntistas do Silicon Valley Bank.
Buffett também observou que o medo no setor bancário sempre foi contagioso, mas a criação do FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation), agência federal que tem a função de garantir os depósitos dos bancos, foi “extremamente sensata”, de acordo com o megainvestidor, garantindo que o governo dos EUA não tem interesse em deixar os bancos quebrarem.
Em relação ao First Republic Bank, banco que quebrou há pouco mais de um mês, Buffett disse: “O CEO e o diretor devem sofrer. Os acionistas, no futuro, não; eles não fizeram nada.”
Os nonagenários foram céticos em relação ao falatório exagerado em torno da inteligência artificial, mas disseram que ela deve ser transformadora.
“Vamos ver muito mais robótica no mundo”, disse Munger. “Pessoalmente, sou cético em relação a parte do ‘hype’ em torno da inteligência artificial; acho que a inteligência à moda antiga funciona muito bem.”
Buffett também fez comentários sobre o mercado imobiliário corporativo norte-americano. Há uma abundância de espaços vazios em prédios de escritórios, e as taxas de juros mais altas também fizeram com que os desenvolvedores atrasassem novos projetos de construção.
“Estamos começando a ver as consequências de pessoas que conseguiam tomar empréstimos a 2,5% e descobrir que isso não funciona com as taxas atuais”, disse Buffett.
Buffett também revelou o melhor negócio no amplo portfólio da Berkshire: “A Apple é diferente das outras empresas que possuímos”, disse. “Simplesmente é um negócio melhor”. A Berkshire tinha, recentemente, uma participação de 5,6% na Apple, de acordo com a agência de notícia Reuters.

Salto nos lucros
Divulgados pouco antes do encontro, os resultados da Berkshire Hathaway mostraram um salto nos ganhos no primeiro trimestre de 2023.
Os ganhos operacionais aumentaram cerca de 12% em relação ao ano anterior, para US$ 8,065 biliões no primeiro trimestre, disse o comunicado de resultados no sábado.
O lucro operacional é o lucro que resta depois que os custos das operações principais de uma empresa são retirados.
O conglomerado registou lucro de US$ 35,5 biliões no primeiro trimestre. O salto é atribuído, em parte, ao retorno do império de seguros da Berkshire.
O negócio de subscrição de seguros da empresa teve um aumento claro, de ganhos de US$ 167 milhões no primeiro trimestre de 2022 para US$ 911 milhões agora.
A receita com investimentos em seguros aumentou de US$ 1,17 bilião para US$ 1,97 bilião.
A companhia de seguros Geico, controlada pela Berkshire, teve um prejuízo com as subscrições de US$ 1,9 bilião no final do ano passado, depois de perder participação de mercado para a concorrente Progressive.
Até aqui neste ano, porém, está se saindo melhor, registando um lucro de US$ 703 milhões no primeiro trimestre, graças a mensalidades médias mais altas e custos de publicidade mais baixos, mesmo com um número menor de sinistros.
Por outro lado, a empresa de energia e ferrovia de carga da Berkshire, BNSF, teve uma queda nos lucros em comparação com o mesmo trimestre do ano passado.
A Berkshire também recomprou aproximadamente US$ 4,4 biliões em ações, e seu caixa aumentou para US$ 130,6 biliões, de US$ 128 biliões no quarto trimestre de 2022.

Original (EN) - aqui - here

Ingredientes para uma boa utilização do dinheiro dos contribuintes da UE em projetos que visem a neutralidade climática


A União Europeia disponibilizou somas de dinheiro sem precedentes para apoiar os seus Estados-Membros na corrida para a descarbonização. O instrumento de recuperação inicial de 800 mil milhões de euros, revelado durante a pandemia, foi seguido pelo financiamento RePowerEU, destinado a libertar a Europa dos combustíveis fósseis russos, e é agora prosseguido pelo Plano Industrial do Pacto Ecológico para ganhar independência estratégica na corrida mundial às tecnologias limpas.

Nesta onda de financiamento da UE, os países da Europa Central e Oriental destacam-se como alguns dos maiores beneficiários. Para estes países, ainda fortemente ligados ao consumo de carvão, petróleo e gás, o financiamento específico da UE representa uma oportunidade única para quebrar o círculo vicioso dos combustíveis fósseis. Um estímulo financeiro bem orientado poderia desencadear uma nova cultura de desenvolvimento sustentável na região, baseada na poupança de energia, na renovação de edifícios, em fontes de energia limpas, na eletrificação dos transportes e na capacitação dos cidadãos para a transição ecológica.

No entanto, a utilização das rubricas orçamentais da UE ainda não se traduziu necessariamente em progressos na consecução dos objetivos climáticos nessa região. As organizações da sociedade civil têm denunciado uma tendência para financiar investimentos sobredimensionados, demasiado caros e desnecessários com dinheiro da UE. Muitas vezes, as verbas destinadas à transição ecológica acabaram por ser desperdiçadas em projetos ineficazes ou mesmo prejudiciais para os objetivos ambientais e climáticos da UE.

Para controlar o dinheiro dos contribuintes da UE e avaliar o seu impacto, as organizações sem fins lucrativos que trabalham no território dos países da Europa Central e Oriental lançaram uma base de dados de práticas exemplares e evitáveis na utilização dos recursos da UE para a neutralidade climática. Com mais de 100 estudos de caso de diferentes países, a plataforma recolhe uma série de lições aprendidas sobre a forma como os governos podem utilizar eficazmente o dinheiro da UE para reduzir as emissões.

Com base em histórias de sucesso, destacámos algumas direções que todas as administrações devem seguir na utilização do dinheiro dos contribuintes da UE em projetos que visem a neutralidade climática.

1. Envolver os cidadãos
A UE tem um grave problema se a transição ecológica acabar por ser vista como a vaca leiteira de alguns. As grandes empresas e as elites locais têm ficado com a maior parte do financiamento da UE no que diz respeito a projetos no domínio do clima e da energia. Este facto é frequentemente justificado pela dimensão e complexidade técnica das tarefas. No entanto, a realidade indica que as entidades públicas, as cooperativas e as comunidades energéticas tendem a ser deixadas de fora da equação, simplesmente porque o seu valor acrescentado para os projetos financiados pela UE é largamente ignorado. No entanto, como atestam alguns projectos na região dos PECO, os benefícios sociais multiplicam-se quando os cidadãos se tornam parte activa da transição ecológica

2. Reforçar o músculo público
Uma transição ecológica significativa exige não só a apropriação pelos cidadãos, mas também pelos governos regionais e locais. A administração desempenha um papel crucial para evitar que os fundos da UE sofram atrasos, sejam bloqueados ou sejam mal orientados. A falta de capacidade administrativa para gerir corretamente os fundos e programas da UE é uma persistente dor de cabeça para os governos da Europa Central e Oriental. Muitos deles decidiram recorrer ao financiamento europeu precisamente para inverter a situação e aumentar os seus recursos e pessoal, a fim de ajudar os cidadãos, as empresas e as pequenas administrações nos seus esforços para alcançar a neutralidade climática.

3. Poupar energia em primeiro lugar
Os governos apressam-se muitas vezes a investir os fundos da UE em novas construções reluzentes em vez de renovarem as existentes - enquanto 75% dos edifícios na Europa são considerados ineficientes do ponto de vista energético. Só renovando os edifícios e substituindo as caldeiras a combustíveis fósseis por bombas de calor é que a Europa poderá reduzir o enorme desperdício de energia nas suas infra-estruturas. As rubricas orçamentais da UE disponíveis constituem uma grande oportunidade para os Estados da UE libertarem todo o seu potencial inexplorado de poupança de energia. A redução da procura de energia deve ser a primeira prioridade de qualquer governo que pretenda combater as emissões e as elevadas faturas de energia.

4. Investir na adaptação às alterações climáticas
Prevê-se que as secas, as inundações e outros fenómenos climáticos extremos se tornem mais frequentes e mais intensos na Europa e os governos têm de estar preparadas para isso. A resiliência é mais do que uma palavra de ordem entre os funcionários da UE. Para obter resultados sustentáveis a longo prazo para os cidadãos, a afetação dos fundos da UE deve ter em devida conta os potenciais efeitos adversos das alterações climáticas. São necessários mais espaços verdes, zonas de arrefecimento e recuperação da natureza para tornar as cidades e as regiões resistentes ao aquecimento global.

5. Impulsionar os transportes com emissões zero
Se há um setor que depende de grandes investimentos públicos, dadas as suas necessidades em termos de infra-estruturas, é o dos transportes. Com o atual financiamento da UE, os governos podem realmente fazer a diferença na orientação do setor para emissões zero. O caminho-de-ferro deve ser um investimento prioritário, pois é a modalidade que mais pode contribuir para a descarbonização dos transportes de média e longa distância na Europa. As administrações locais devem aproveitar as oportunidades de financiamento da UE para eletrificar os seus sistemas de transportes públicos. Os fundos da UE podem desempenhar um papel crucial na promoção daquele que é o modo de transporte mais eficiente e mais limpo em curtas distâncias: andar de bicicleta e a pé.

6. Mão firme contra as más práticas
A corrupção, a especulação e a utilização indevida dos fundos da UE causaram danos significativos ao ambiente e comprometeram os objetivos climáticos da UE. É essencial que a Comissão Europeia aumente a sua vigilância sobre a utilização dos fundos da UE pelos Estados-Membros. Enquanto distribuidora do dinheiro dos contribuintes da UE, a Comissão deve ser a guardiã do princípio de "não regressão" e de "não prejudicar significativamente". Não basta promover as boas práticas; é também necessária uma abordagem enérgica contra as más práticas.

Rita Lee muito obrigado por não teres sido uma ovelha comum - DEP


O Brasil perdeu Rita Lee, considerada a rainha do rock no país, na noite de segunda-feira, 8 de maio. A cantora e compositora que marcou a música brasileira ao longo de seis décadas tinha 75 anos e não resistiu a um cancro no pulmão, que ela, ácida como sempre, chamava de "Jair", detetado há dois anos. Família, amigos e companheiros músicos choraram a diva do pop.


"Comunicamos o falecimento de Rita Lee, na sua residência, em São Paulo, capital, no final da noite de ontem, cercada de todo o amor de sua família, como sempre desejou", escreveu em comunicado a família da cantora, nascida na cidade onde morreu a 31 de dezembro de 1947.

Lula da Silva, presidente do Brasil, considerou-a "um dos maiores e mais geniais nomes da música brasileira". "Cantora, compositora, atriz e multi-instrumentista. Uma artista à frente do seu tempo. Julgava inapropriado o título de rainha do rock, mas o apelido faz jus à sua trajetória. Rita ajudou a transformar a música brasileira com sua criatividade e ousadia. Não poupava nada nem ninguém com o seu humor e eloquência. Enfrentou o machismo na vida e na música e inspirou gerações de mulheres no rock e na arte", escreveu Lula.

A ministra da Cultura, Margareth Menezes, participava de uma audiência no Senado, quando foi informada e chorou. "Não é nem uma questão direta de amizade, eu estive em alguns poucos momentos com ela, mas é pelo que ela simboliza para o Brasil, para a música popular brasileira, como uma mulher revolucionária", disse a ministra, que também é cantora.

Nas redes sociais, o mundo artístico uniu-se no aplauso a Rita Lee e no pesar pela sua morte. "Comadre Rita, Anibal, cabrinha, caprichosa capricorniana, amiga... Descansa, minha irmã. Amo você. Um abraço fraterno da família Gil nos meninos Roberto, Beto, João e Antonio, nos familiares e amigos e nos fãs, assim como eu", escreveu Gil.

Milton Nascimento disse estar "muito triste" com a partida de Rita Lee. "Todo o meu amor aos seus familiares nesse momento tão difícil. Descanse em paz".

"Rita parte e leva com ela a brincadeira, a liberdade, a voz de muitas mulheres, a voz de muitas gerações. Rita era a luz, a irreverência, a brincadeira. Acabo de ser atropelada por essa notícia. Vai em paz minha amiga. Encontre a paz e a tranquilidade", disse Fafá de Belém, em vídeo.

Ney Matogrosso lembrou, emocionado, ter apresentado o marido, Roberto Carvalho, a Rita.

Filha de Charles Jones, um dentista americano radicado no Brasil, e de Romilda Padula, uma pianista italiana, Rita foi desafiada pela mãe a tocar piano e a cantar com as irmãs. Aos 16 anos, já integrava um trio vocal feminino, as Teenage Singers, e no ano seguinte passou para a banda, os Mutantes, que revolucionaria a música no Brasil, ao unir os ritmos locais ao som psicadélico, em voga no mundo nos anos 60, e inspiraria nomes como Kurt Cobain, David Byrne e outros.

Em 1967 e em 1968, os Mutantes, compostos também por Arnaldo Baptista, seu namorado na época, e Sérgio Dias, serviram de acompanhamento às composições de Gilberto Gil e de Caetano Veloso nos dois festivais brasileiros da canção daqueles anos, unindo-se definitivamente ao duo de compositores baianos, núcleo do movimento artístico conhecido como tropicalismo.

O fim da relação com Arnaldo originou a saída de Rita da banda e o início de um vigorosa carreira a solo mas em parceria com o futuro marido, o músico Roberto de Carvalho. Mania de Você, Chega mais, Doce Vampiro, Lança perfume e Baila comigo, temas que conquistaram o Brasil (e Portugal) de rajada, são desse período criativo.

Como é tradicional no país, Rita fez múltiplas parcerias com outros artistas, de Roberto Carlos, ícone romântico, a João Gilberto, pai da Bossa Nova, passando, novamente, por Gil e Caetano, e por Maria Bethânia, Elis Regina, Ney Matogrosso e muitos outros.

Em 2001 ganhou o Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock em Língua Portuguesa com 3001 e seria indicada ao prémio mais cinco vezes até, no ano passado, lhe ser atribuída distinção Excelência Musical pelo conjunto de uma obra com 40 álbuns, seis pelos Mutantes, 34 a solo.

Os problemas físicos e de saúde começaram com uma queda na sua fazenda, em 1996, e com os excessos de drogas e álcool que só em 2006 conseguiu superar, conforme revelou em programa da Rede Globo.

Em 2012, com 63 anos, anunciou o fim dos concertos ao vivo por "fragilidade física". "Estou reformada dos shows mas nunca da música", afirmou. Nas despedidas, em Sergipe, discutiu com um polícia e foi levada à esquadra e, em Brasília, baixou as calças para o público, revelando o ADN de rock star até ao fim.

Em 2021, foi diagnosticada com um tumor no pulmão, que, segundo revelou o filho Beto Lee, apelidou de "Jair", numa piada, ácida, a Bolsonaro. A cantora atribuiu-o a anos de excessos, sobretudo de fumadora. No ano passado, chegou a ser noticiado que a doença teria entrado em remissão mas Rita, cautelosa, manteve-se reclusa sem mais entrevistas ou aparições até à morte - até ao fim, entretanto, usou a rede social Twitter para dizer, quase sempre com bom humor e sem papas na língua, o que lhe ia na alma. "Porque a vida é curta e eu grossa", escreveu.

Numa das suas autobiografias, a cantora escreveu que o seu "maior golo foi ter feito um monte de gente feliz" e que, quando morresse, cantaria para Deus: "Obrigada, finalmente sedada". Como epitáfio pediu: "ela não foi um bom exemplo, mas era gente boa".

Relacionados

Youtube e Página Oficial:

Literatura:

terça-feira, 9 de maio de 2023

Performance emocionante de 'Pie Jesu' de Malakai Bayoh no Britain’s Got Talent 2023


Presuma capacidade e ainda assim permita-se ser surpreendido! Esta incrível apresentação de 'Pie Jesu' é um exemplo perfeito disso. Veja esta performance emocionante de Malakai Bayoh, uma criança de 13 anos que arrebatou o público e os jurados do show de talentos Britain’s Got Talent 2023, no último 17 de abril.
Sua performance é cheia de vida com uma voz angelical e um talento celestial. Esta apresentação é um ótimo exemplo de como as suposições podem nos impedir de ver a verdadeira competência das pessoas. Não é apenas sobre autismo. É sobre idade, sobre cor, sobre classe social, sobre a diversidade e a infinita beleza da diversidade humana.
Pressuponha competência e deixe-se surpreender por esta performance divina.

Pie Jesu, pie Jesu, pie Jesu, pie Jesu (2x)
Qui tollis peccata mundi
Dona eis requiem, dona eis requiem

Agnus Dei, Agnus Dei, Agnus Dei, Agnus Dei
Qui tollis peccata mundi
Dona eis requiem, dona eis requiem

Dona eis requiem (2x)
Sempiternam

Requiem
Sempiternam

Cork- Naturally Durable


Are you thinking about installing or changing the floor in your home? Find out what you should consider before moving forward, to ensure that you make the right choice.
Flooring is a key element in any home. A beautiful, high-quality floor makes the space almost immediately more pleasant and welcoming, and it also has an impact on the decoration and our feeling of comfort. 

So if you're going to install or renovate flooring in your home, you've probably already spent some time deciding whether you should go for ceramic tile, wood, or laminate flooring in order to get the results you're looking for.

Did you know, however, that besides the design there are other important points to consider before installing a new floor?

In this article we explain the three main aspects you should consider so that the new floor in your home stays beautiful and in good condition for a long time.

1. Choose the floor according to your living spaces and your lifestyle
From ceramic tiles to wood, laminate and vinyl floors, the flooring options available on the market are so diversified that choosing is not always easy. To make the process easier, besides personal taste and the budget available, keep these aspects in mind:

1.1. Where in the home will it be applied? The function of the space is a determining factor when choosing the most suitable floor. Kitchens and bathrooms require materials that are water-resistant, easy to clean and not slippery when wet. Living rooms and bedrooms, on the other hand, become more comfortable with laminate or wood flooring. Also, remember that the busier areas of the home, such as the living room and hallways, need sturdy and easy-to-maintain floors.

1.2. What is your lifestyle? Lifestyle is another factor to consider. If you have children or pets running around the home, choose a floor that doesn't scratch easily and is easy to clean. Consider how much time you have to keep the floor in good condition: wood flooring, for example, requires more care than a ceramic tile or laminate floor.

If, after choosing the material, you are unsure about the color or finish, ask for samples of the various options you are considering and test them out at home. By looking at the samples in the spaces where they will be applied you will be able to see if the floor goes well with other elements, such as the wood used for the doors or the color of the walls. It also allows you to see how the floor will look at different times of the day. 

2. Apply an underlay for more comfort and durability
Although we focus a lot on the visual appearance of the new floor, choosing the right underlay is just as important as choosing the right flooring.

An underlay is a layer of material applied between the concrete (or the previous floor if it's a renovation job) and the final floor during the floor installation process. It's only a few millimeters thick and cannot be seen, but it makes the home more comfortable and keeps the floor in good condition for longer.

In a home where an underlay is applied, walking is smoother and everyday noises are reduced on other floors and in other rooms. In addition, the underlay helps with thermal insulation, making the room warmer during winter, which saves energy. It also acts against moisture and significantly increases the durability of the floor. In other words, the right underlay is the key to a comfortable home and a more durable floor.

As with flooring, there is also a wide range of underlays on offer, which may lead you to wonder why choose a cork underlay over a 100% foam-based solution?

The answer is the durability that a cork underlay gives the floor. Recent tests carried out in independent laboratories have shown that when compared to 100% foam-based underlays, cork-based solutions are the best option to ensure the protection and durability of the floor.

Amorim Cork Composites has been developing cork underlays for several decades and currently offers its customers a vast range of products to suit all floor types

3. Think long-term (and protect the planet)
Finally, when evaluating the various flooring and underlay options, remember that the goal is for the floor of your home to remain in good condition for several years. That is why it is important to choose products that guarantee the floor’s durability over time, as is the case with cork underlays.

In addition, at a time when there are growing concerns about sustainability, choosing a durable solution also represents a commitment to environmental protection.

In the case of cork, in addition to being a 100% sustainable material, it has a number of characteristics - such as resilience, cushioning effect and high impact absorption capacity - which guarantee that the floor will last for many years. This will avoid replacement costs and discarding the previous flooring.

For more info: here and here

Animais sofrem mutações morfológicas para se adaptarem às alterações climáticas


As alterações climáticas estão a fazer com que alguns animais modifiquem a sua morfologia, com bicos ou orelhas maiores, para se adaptarem melhor e regularem os seus corpos ao aumento da temperatura do planeta, segundo um estudo divulgado em Setembro de 2021.

O estudo publicado na revista Trends in Ecology and Evolution foi realizado por cientistas da Universidade de Deakin, em Vitória, na Austrália.

"É o momento de reconhecer que os animais também precisam de se adaptar a estas mudanças, mas está a acontecer num período de tempo mais curto do que o previsto, numa perspetiva evolutiva", disse a investigadora-chefe do projeto, Sarah Ryding.

De forma específica, o estudo destaca que as mudanças estão a ocorrer nas aves.

O papagaio australiano registou um aumento no bico de quatro a 10% desde 1871, assim como os juncos de olhos escuros (uma pequena ave cantora) da América do Norte, que também viram o bico crescer.

Além da evolução dos bicos nas aves, os ratos da madeira apresentaram também um aumento nas caudas e os musaranhos mascarados um crescimento das pernas.

Para perceber as mudanças morfológicas nos animais, Sarah Ryding analisou espécimes de museus de pássaros australianos dos últimos 100 anos.

A investigadora alertou, entretanto, que as modificações na estrutura das espécies não significam que "está tudo bem".

"[A mudança] significa que estão a evoluir para sobreviver às alterações climáticas, mas não conhecemos as outras consequências ecológicas das modificações e se, de facto, todas as espécies são capazes de o fazer e sobreviver", sustentou.

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Meet Dr Patrick Moore: Cofundador do Greenpeace que deixou a organização sequestrada pela esquerda política



Dr. Patrick Moore, co-fundador do Greenpeace, conta como ele se juntou ao grupo incipiente que fundou o Greenpeace, os esforços ousados e as vitórias significativas obtidas pela jovem organização durante seus primeiros anos, e os detalhes por trás de sua decisão de abandonar o Greenpeace, a organização após 15 anos de envolvimento dedicado. A compreensão abrangente de Moore sobre a escala de tempo geológica da Terra e a contextualização das mudanças climáticas, das concentrações de CO2 na atmosfera e de eventos climáticos extremos, entre outros, é sólida e fascinante. Verdadeiro ambientalista, Moore é um raro exemplo de alguém que colocou seus princípios acima de tudo.

Tempos e Assuntos
00:00 Dr. Patrick Moore sobre como crescer em uma região selvagem absoluta
02:16 Ao fazer um bacharelado em Ciências Florestais e Biologia, seguido de um doutorado em Ecologia após obter a certificação
02:54 Como a adesão a um grupo incipiente de pessoas cujo objetivo era impedir os testes nucleares começou o Greenpeace
04:38 Sobre os esforços do Greenpeace que levaram ao cancelamento pelo presidente Nixon de futuros testes de armas nucleares no Alasca, significando o início do movimento ambientalista
04:58 Contra os testes nucleares atmosféricos franceses no Pacífico Sul
07:02 Sobre a campanha Save the Whales do Greenpeace na década de 1970 e a campanha ativa contra resíduos tóxicos
11:06 Sobre o Greenpeace sendo sequestrado pela esquerda política
12:06 Sobre a separação entre ciência e política ser absolutamente essencial
13:35 Em seu livro, "Falsas catástrofes invisíveis e ameaças de destruição".
17:34 Sobre a história da temperatura e do CO2 na Terra
21:54 Como os seres humanos aumentaram a quantidade de CO2 na atmosfera em cerca de 50%
22:39 Sobre a capacidade dos seres humanos de serem maus
24:05 No Net Zero
25:09 Sobre de onde obteríamos CO2 se o mundo abandonasse os combustíveis fósseis e adotasse a energia nuclear
27:19 Sobre os recifes de coral e o mito de que eles morrerão se ficar muito quente
28:17 Como o consenso é comprado e pago
29:44 Como os cientistas que discordam do consenso são desacreditados
31:14 Sobre a alegação de que eventos climáticos extremos evidenciam mudanças climáticas catastróficas
33:26 Sobre os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC)
36:10 Sobre sua decisão de se afastar do Greenpeace
46:44 Sobre a motivação potencial que impulsiona o alarmismo climático
​

97º Aniversário de David Attenborough

Here's how you can  #ActNow and join him in protecting our planet 

Aos 97 anos, o naturalista britânico David Attenborough tem consciência de que a luta pela sobrevivência do nosso planeta está fora das suas mãos. Depois de uma carreira extremamente bem sucedida a ser a cara e a voz de inúmeros programas de televisão sobre História natural, e uma participação ativa em campanhas e projetos que apoiam a causa ambiental, poderia cruzar os braços e delegar essa responsabilidade às novas gerações, sabendo que deixou a sua marca neste planeta. No entanto, David não está ainda preparado para desistir dessa luta.Parabéns, David Attenborough!

David Attenborough em 1956, numa das suas primeiras expedições.

Happy birthday, David Attenborough!
The name is synonymy of greatest educator, journalist, naturalist I always admired and respected since my earliest years as Portuguese scholar. Thank you for your wonderful journey as mentor and thank you for your tireless commitment to #ClimateAction.
David Attenborough again thank you so much!