Pelo que conheço de e-commerce, pôr de pé uma loja online que junte o espólio de mais de 30 museus e monumentos nacionais não é bicho-de-sete-cabeças, mas exige dividir os custos em dois momentos: o arranque e o dia a dia.
Para começar, o desenvolvimento do site - que tem de ser robusto para cruzar os stocks de museus diferentes -, a fotografia profissional das réplicas e livros, e a integração com sistemas de pagamento (como o MB Way, ou melhor ainda um agregador, como a Stripe ou a Adyen) e faturação ficaria entre os 21.500 € e os 43.000 €. É um investimento feito apenas uma vez.
O verdadeiro desafio está no que vem a seguir. Manter a loja viva e a faturar custaria entre 30.000 € e 61.000 € por ano. Este valor serve para pagar os servidores, o marketing digital (essencial para que os turistas saibam que a loja existe) e, acima de tudo, a logística: alguém tem de estar num armazém central a embalar as peças com cuidado e a despachar as encomendas.
Pode parecer muito dinheiro para a realidade da nossa cultura, mas as contas fazem-se depressa. Se cada cliente gastar, em média, 40 € (o preço de um catálogo e de uma lembrança), a loja só precisa de fazer 6 ou 7 vendas por dia para pagar todas as suas despesas e começar a dar lucro. Para os milhões de visitantes que os museus portugueses recebem todos os anos, isto é uma gota no oceano.
Fica claro que o problema nunca foi o preço da tecnologia, mas sim a falta de vontade política para gerir a nossa Cultura com uma visão sustentável, estratégica e promoção da Língua Portuguesa
(P.S. sem nacionalismos ou ideologias)
Ironia: a pretensa loja até existe, mas actualmente é um cemitério, desde 2012! . O que aconteceu? O dinheiro público foi gasto, mas as plataformas exigem manutenção contínua, interação constante entre as autarquias e a logística e como concluí, não há uma visão estratégica da Cultura Portuguesa além-fronteiras.
Neste aspecto (lojas virtuais de museus) não somos Franceses, Alemães, Holandeses nem os Países Nórdicos.
Neste aspecto (lojas virtuais de museus) não somos Franceses, Alemães, Holandeses nem os Países Nórdicos.
De Serralves à Vista Alegre: O sucesso das lojas digitais que o setor público devia imitar
As fundações privadas em Portugal estão, na verdade, bastante mais avançadas na transição digital do que o setor público. Como têm maior autonomia de gestão, orçamentos focados na internacionalização e processos de decisão mais ágeis, conseguiram criar plataformas de comércio eletrónico muito completas e intuitivas, que funcionam quase como montras de design e cultura.
Um dos melhores exemplos nacionais é a Loja de Serralves, no Porto, que se posiciona hoje como uma verdadeira concept store de arte contemporânea. No seu site, além de uma vasta livraria especializada em arte e arquitetura, é possível adquirir edições limitadas e numeradas de artistas consagrados, peças de decoração exclusivas, acessórios de moda desenhados por criadores portugueses e brinquedos didáticos de design premiado. Na mesma linha de excelência, as Lojas da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, dividem-se entre o catálogo do museu clássico e o do recém-renovado Centro de Arte Moderna (CAM). O seu espaço online destaca-se pela impressionante oferta de catálogos de exposições e ensaios históricos, mas também por peças de joalharia fina inspiradas na famosa coleção de René Lalique e por reproduções de azulejaria artística desenvolvidas em parcerias com galerias nacionais.
Para quem procura um nicho mais histórico e aristocrático, a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna disponibiliza na sua loja virtual os "Cadernos da Fundação" - que reúnem investigações sobre o património barroco e a literatura dos séculos XVII e XVIII - , além de peças de azulejaria e produtos exclusivos inspirados na iconografia do próprio Palácio Fronteira. Por fim, num cruzamento perfeito entre a arte, a indústria e a preservação histórica, a Fundação Vista Alegre desempenha um papel crucial ao disponibilizar online réplicas exatas de peças de porcelana do século XIX, retiradas diretamente do espólio do seu museu histórico, bem como edições limitadas produzidas em colaboração com artistas contemporâneos globais.
A grande vantagem destas plataformas, além da óbvia comodidade de receber as peças em casa, é que muitas oferecem descontos de liquidação em livros e catálogos antigos que já não se encontram no mercado comum. Acima de tudo, comprar nestes canais digitais é uma forma direta de apoiar a sustentabilidade da cultura em Portugal, uma vez que a receita destas vendas reverte inteiramente para a manutenção do património, restauro de peças e financiamento de novas exposições e bolsas artísticas.
Sim, os bilhetes normais são caros e proibitivos para o dia a dia. Mas conhecendo os dias específicos, podemos usufruir do melhor que estas fundações privadas têm para oferecer com o mesmo custo do programa Acesso 52 dos museus públicos: zero euros.

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