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José Jambas e Francisco Álvares, que participaram num estudo luso-espanhol sobre a nova população de castores, explicaram à Wilder o que a equipa encontrou e quais são as expetativas para o futuro.
Um novo estudo, publicado na revista científica Galemys, confirma que há castores a reproduzirem-se nas margens do rio Tormes, onde foram encontrados os primeiros vestígios na bacia hidrográfica do Douro, mas agora também no Uces, outro rio próximo da fronteira portuguesa. A nova população foi estudada em observações diretas destes mamíferos, registados também por câmaras de foto-armadilhagem e por inúmeros vestígios – como troncos cortados, ramos com marcas de dentes e construção de abrigos – e ainda por um estudo genético.Castor no Tormes. Vídeo: José Jambas
“Confirmamos a presença de pelo menos 10 castores em dois afluentes do Douro, incluindo dois grupos familiares com reprodução em 2023 e um possível terceiro [grupo com reprodução]”, escreve a equipa de sete investigadores responsáveis pelo estudo recentemente publicado, liderada por Teresa Calderón, da Universidade de Saragoça.
A investigadora espanhola já tinha estado à frente do estudo anterior, que em 2023 anunciou a presença da espécie no rio Tormes e concluiu que esta terá resultado de uma libertação não autorizada de castores. Isto porque está demasiado distante a outra população mais próxima desta espécie, em Espanha, onde a espécie regressou em 2003 em resultado de outra libertação ilegal.
No entanto, os cientistas suspeitam agora de que a nova população recém-descoberta na bacia do Douro resulta de pelo menos duas libertações realizadas separadamente, uma no rio Tormes e a outra no rio Uces. Isto, como explicam, devido à “distância relativamente grande” entre estes dois rios e à existência de barreiras que dificultam a passagem de um curso de água para o outro, incluindo “grandes cascatas”.
Por outro lado, para além de confirmarem a presença de dois grupos familiares reprodutores, um no Tormes e outro no Uces, a equipa admite também a hipótese de haver um segundo casal com crias no primeiro rio, com base em observações diretas e vestígios encontrados.
Esta possibilidade, embora ainda sem certezas, é apoiada pela descoberta de vários montes de cheiro nas margens do Tormes. Trata-se de pequenas pilhas formadas por lama e vegetação misturadas com castóreo, uma substância oleosa glandular que estes mamíferos utilizam para marcar território e impermeabilizar o pelo.
Os vestígios de castores encontrados junto a este rio estendem-se por 15 quilómetros, desde a barragem espanhola de Almendra até ao estuário onde o Tormes se une ao Douro, “apenas a uns poucos metros de distância da fronteira portuguesa”, descrevem no estudo.
Muito menor é a área onde a equipa identificou sinais de castores no Uces, “ao longo de dois quilómetros do rio, a maior parte concentrados num charco durante o verão, tal como nalguns pontos isolados das margens”.
O que se passa em Portugal?
Embora o trabalho de campo cujos resultados foram agora conhecidos se tenha realizado essencialmente em 2023, desde então mantiveram-se os trabalhos de monitorização nesta zona que pertence ao Parque Natural Arribes del Duero. Esta área protegida espanhola está colada ao Parque Natural do Douro Internacional, do lado português da fronteira, onde a equipa tem estado igualmente atenta a sinais no terreno – até porque em julho passado foram divulgadas imagens de pelo menos um castor no estuário do Tormes, “apanhado” em território português por câmaras de foto-armadilhagem.
Mas apesar de algumas incursões deste que seria um animal juvenil, “do lado português não há sinais nem vestígios evidentes de uma presença continuada da espécie”, sublinha José Jambas, que no âmbito do estudo agora publicado realizou trabalho de campo no Tormes. Com o objetivo de tentar perceber quais os grupos familiares que ali existiam, qual a dimensão dessa população e encontrar outros vestígios, fez muitas esperas ao final do dia, imóvel a observar o rio em locais onde conseguia ter uma boa visibilidade, escondido debaixo de uma rede camuflada.
“Esta zona do Tormes é muito utilizada por banhistas e pescadores, por isso os castores têm um comportamento mais noturno, no crepúsculo. E nessas alturas apareciam facilmente à tona”, descreve à Wilder. Nas margens do rio, em Espanha, encontrou também “imensos vestígios”.
Em contrapartida, a monitorização no lado português teve até agora poucos resultados. “Tenho encontrado alguns ramos roídos [por castor] que parece que são transportados para o lado português, mas nada mais. Já encontrei até um ramo cortado, mas não cheguei à conclusão de que tinha sido cortado neste lado da fronteira”, esclarece.
A mesma certeza é partilhada por Francisco Álvares, investigador no CIBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Universidade do Porto) e co-autor do mesmo estudo, que salienta que para já “não há vestígios de de reprodução nem de uma população estabelecida do lado português, trata-se de um indivíduo isolado”.
Ainda assim, à medida que cresce o número de grupos familiares reprodutores e estes procuram novos territórios, é provável que a população se procure expandir para Portugal.
Condições de habitat levantam dúvidas
O problema, alertam os dois co-autores do novo estudo, é a forma como se terá realizado a libertação destes animais. “O castor é um engenheiro de ecossistemas fluviais com um grande potencial, mas obviamente necessita de ter condições adequadas”, salientam. Ambos alertam que as libertações ilegais podem ter péssimos resultados, pela falta de estudos científicos que avaliem se o local é adequado e também a origem dos animais libertados, “para prevenir problemas de consanguinidade”.
Pelo menos a possibilidade de se tratar de castor-americano, uma espécie invasora, está afastada, uma vez que a análise genética realizada a uma amostra de pelo, no CIBIO, concluiu tratar-se de castor-europeu.
Mas mesmo tratando-se de uma espécie que já habitou a Península Ibérica, no caso dos dois afluentes do Douro há problemas quanto ao habitat: estes animais precisam de alimento e de espaço, com muita galeria ripícola de que possam alimentar-se, e também de conetividade com outros cursos de água para a população poder expandir-se. Ora, tanto no Tormes como no Uces as condições a este nível são difíceis, avisam os dois responsáveis.
Desde logo, porque há pouco alimento disponível, nomeadamente salgueiros e outras árvores de madeira branda como choupos e amieiros, de que estes roedores se alimentam. Além do mais, o espaço disponível é escasso, pois os dois rios correm entre margens reduzidas e muito inclinadas.
No caso do Uces, “é um rio tão escarpado que não foram encontrados abrigos com passagem subterrânea, típicos desta espécie”, nota Francisco Álvares. “É verdade que encontrámos covas escavadas no solo, que não são frequentes mas onde os animais se podem esconder, mas as condições são limitadas.”
Ficaram também por fazer estudos sobre a sensibilidade das populações locais, que não lidam com estes roedores e com os resultados da sua presença desde há muito. Em Portugal, por exemplo, acredita-se que a espécie se terá extinguido no século XVI ou mesmo antes, no início da Idade Média.
O investigador do CIBIO alerta também para as medidas que são necessárias para se evitarem problemas de consanguinidade, ou seja, os cuidados a ter com o efetivo fundador desta nova população. “O número de castores libertados tem de ser suficiente para garantir diversidade genética. Neste caso podemos estar a falar de dois ou três indivíduos libertados em dois sítios, o que poderá causar problemas no futuro.”
Todas estas questões preocupam também José Jambas, que numa opinião “muito pessoal” acredita que a nova população está “condenada” quanto à sobrevivência futura, nos locais onde foi ilegalmente libertada.
Tâmega e Lima entre as boas opções
Entretanto, a tendência da população de castores será para se expandir em busca de mais território, mas também aqui enfrenta dificuldades. Desde logo devido à paisagem acidentada do Douro Internacional, dominada por grandes paredes de rocha com mais de 400 metros de altura e também por barragens hidroelétricas, cujas turbinas funcionam várias vezes por dia. “Os animais estão a descer para o Douro, mas o rio nesta zona tem oscilações [de caudal] muito grandes e bruscas; em meia hora pode passar de uma quota muito baixa para a quota mais alta”, afirma José Jambas, que acredita que perante essas condições os castores “seriam arrastados”.
Este rio poderá ainda assim servir de passagem para outros cursos de água, incluindo do lado português, mas também aqui as barragens são um problema por representarem um obstáculo difícil de transpor. Um exemplo é a barragem espanhola de Aldeadávila, uma das mais altas de Espanha, com uma parede de quase 140 metros de altura que interrompe o Douro pouco depois da foz do Uces. Além do mais, muitos dos outros afluentes nesta zona do Douro têm falta de condições para sustentar uma população maior.
Se ainda assim estes animais conseguirem dispersar para suficientemente longe, apesar de serem poucas há algumas boas opções em Portugal: Tâmega, Lima, Minho Internacional, Cávado e também o Vouga na zona de Aveiro, exemplifica Francisco Álvares.
Entretanto, avança, deveria avançar-se com medidas de gestão ativa na zona do Douro Internacional, que também se poderão estender a Portugal, como a sensibilização das populações locais e a proteção de árvores de grande porte, colocando por exemplo vedações de arame à volta. “É o suficiente para deter os castores.” Outra iniciativa possível será avançar com a transladação de indivíduos para áreas mais potencialmente adequadas.”
Apesar de discordarem da forma como foi feita esta libertação, tanto José Jambas como Francisco Álvares consideram que os castores têm funções importantes: ao construírem diques nos rios, são úteis por exemplo para a acumulação de água pelos lençóis freáticos e para a criação de micro-refúgios para a biodiversidade, incluindo de insetos polinizadores.
Mas caso um dia se aposte um projeto de reintrodução desta espécie em Portugal, sublinham, terá de haver um trabalho realizado a nível nacional para se perceber qual seria o habitat mais favorável nos dias de hoje e ainda para assegurar a diversidade genética da nova população, sensibilizando também as pessoas para o regresso deste que é o maior roedor da Europa.

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