Desdobrando-se numa série de oito vinhetas míticas, esta última obra de Akira Kurosawa foi inspirada nas próprias visões nocturnas do acarinhado realizador, juntamente com histórias do folclore japonês.
Lançado em 1990, o filme "Sonhos" ("Yume", em japonês) e dirigido por Akira Kurosawa [1910-1998] reúne um conjunto de oito curtas-metragens, ou histórias, na seguinte ordem:
1. Raios de Sol Através da Chuva;
2. O Pomar de Pêssego;
3. A Nevasca;
4. O Túnel;
5. Corvos;
6. Monte Fuji em Vermelho;
7. O Demónio Chorão; e
8. A Vila dos Moinhos de Água.
Numa viagem visualmente sumptuosa pela imaginação do mestre, histórias de maravilhas infantis dão lugar a aparições apocalípticas: um jovem rapaz tropeça num casamento de raposa numa floresta; um soldado confronta os fantasmas dos mortos na guerra; o colapso de uma central sufoca uma paisagem costeira com fumo radioativo. Intercalado com reflexões sobre o poder redentor da criação, incluindo um tributo ricamente texturado a Vincent van Gogh (interpretado por Martin Scorsese), Sonhos de Akira Kurosawa é ao mesmo tempo uma montra para o talento artístico do seu criador na sua forma mais desenfreada e um lamento profundamente pessoal por um mundo à mercê da ignorância humana.
"People have forgotten they're a part of nature too." (a partir de 1h:43 minutos, um diálogo deveras importante)
É provável que cada uma das histórias – os sonhos – constituam os desejos, frustações e reflexões vividos por Kurosawa no transcurso de sua vida, que no ano de lançamento deste filme (1990) era já um octogenário.
Se sabedoria não lhe faltou em todo o transcurso de sua vida, o que está refletido em sua vasta obra cinematográfica, em "Sonhos" Kurosawa parece que a extrapola, deixando a todos que vêm os seus "Sonhos" a oportunidade de uma profunda reflexão sobre si, suas vidas e hábitos. E, além disso, Kurosawa avança no essencial de "nossas questões", que passam pela ainda não resolvida relação harmoniosa dos Homens para com a Natureza e, além mais, pela própria relação distante de ser harmoniosa entre os Homens e suas Nações.
Assistindo para pensar. Mas, também, para se apreciar esta magnífica obra de arte com que Akira Kurosawa nos brindou.
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