Documentário: A Caminho do Leste (Don´t Look Back), 1967
Em Don’t Look Back, D. A. Pennebaker acompanha o jovem Bob Dylan durante uma digressão de três semanas pelo Reino Unido, em 1965.
Filmado durante o famoso período de transição de Bob Dylan para o rock e para a guitarra elétrica, este documentário acompanha o músico desde a sua chegada a Inglaterra, a 26 de abril de 1965, até ao último concerto da digressão no Royal Albert Hall, a 10 de maio.
O realizador teve acesso aos bastidores, oferecendo um vislumbre da vida pública e privada de Dylan, desde concertos a conversas em quartos de hotel, registando a sua tumultuosa relação com a cantora e compositora Joan Baez durante uma fase crítica da sua carreira musical.
Várias figuras conhecidas aparecem no filme: os agentes de Dylan, Albert Grossman e Bob Neuwirth, os músicos Donovan, Joan Baez, Marianne Faithfull e Alan Price (Animals), e o poeta beat e amigo próximo de Dylan, Allan Ginsberg, entre outros.
O documentário Don’t Look Back (1967), realizado por D.A. Pennebaker, capta Bob Dylan num dos momentos mais cruciais e transformadores da história da música popular: a sua turné de 1965 por Inglaterra. Embora o filme retrate o que seria a sua última digressão inteiramente acústica - com Dylan sozinho em palco acompanhado apenas pela sua guitarra e harmónica -, ele funciona como o registo psicológico, poético e estético de uma metamorfose iminente. O idealismo político e a folk purista do início da década dão lugar a uma urgência agressiva e a um lirismo abstrato, surrealista e profundamente pessoal. Este distanciamento do movimento tradicional é simbolizado no filme pelo afastamento de Joan Baez, a rainha da folk de protesto, e pela rejeição feroz de Dylan em ser rotulado pela imprensa como a "voz de uma geração". Nos bastidores, hotéis e na icónica sequência de abertura de Subterranean Homesick Blues, Dylan já estava a compor e a testar a atitude cínica e a poesia metralhada que definiriam o seu novo som. O choque estético desta transição fica evidente no célebre confronto musical num quarto de hotel com o cantor escocês Donovan Philips Leitch, onde a crueza de "It's All Over Now, Baby Blue" deixou claro que Dylan já operava noutro patamar artístico.
O género musical que nascia ali era o Folk Rock literário, uma fusão revolucionária que levou a complexidade da poesia Beat e do existencialismo para o universo do rock, provando que a música popular podia ser alta literatura. Musicalmente, esta transição consolidou-se nos meses seguintes com a chamada "thin, wild mercury sound" (o som de mercúrio fino e selvagem), caracterizada por guitarras elétricas estridentes e pelo uso vanguardista do órgão Hammond, além de um ritmo frenético e quase falado que antecipou o próprio proto-punk e o garage rock.
Em 20/06/1966, Bob Dylan lançou o disco “Blonde on Blonde” é talvez o mais famoso da sua carreira. O próprio Dylan fala como sendo o “mais próximo ao som que eu ouço na minha mente, esse som fininho de mercúrio selvagem”. São 14 músicas no primeiro disco duplo da história do rock. “Sad-Eyed Lady of the Lowlands”, a ode de 11 minutos de Dylan à sua esposa Sara, também foi a primeira música a ocupar um lado inteiro de um disco: mística e enigmática como a própria Sara Lownds, gravada num só take, essa música é o momento mais suave do disco mais elétrico e eletrizante da carreira de Dylan. O resto é repleto de um cinismo maníaco, um sarcasmo transcendental e uma genialidade dilacerante. É uma obra-prima sem precedentes ou subsequentes, poesia uivada e guitarras hipnóticas que mudaram o mundo da música para sempre. Tudoaqui
Curiosamente, toda esta postura artística e a própria construção visual do documentário alinham-se perfeitamente com os conceitos da Internacional Situacionista de Guy Debord. Ao destruir jornalistas em entrevistas e sabotar as expectativas mediáticas, Dylan operava uma crítica direta ao conceito situacionista do "espetáculo" e à mercantilização da arte. O uso de cartazes manuscritos com trocadilhos e erros propositados no vídeo de abertura surge como um perfeito détournement - a subversão de ferramentas da cultura de massas para criar novos significados críticos -, enquanto a estética documental do Direct Cinema, sem narrador e focada no quotidiano caótico dos bastidores, evoca a experiência urbana da dérive. Sem que Dylan necessariamente lesse os teóricos franceses, Don't Look Back acabou por captar o nascimento do rock de autor moderno e antecipar o espírito de revolta e a urgência contracultural que explodiriam no final dos anos 60.
Embora as filmagens tenham ocorrido em 1965, o longo processo de edição em rolos de 16mm fez com que o documentário só estreasse nos cinemas a 17 de maio de 1967. Pennebaker demorou muito tempo a editar as centenas de horas de filme em rolos de 16mm. Além disso, no final de 1965 e em 1966, a carreira de Dylan explodiu globalmente com a sua fase elétrica e o seu grave acidente de mota, o que mudou o contexto do próprio filme.
Por esta razão, o mês de maio tornou-se o momento ideal para celebrar esta obra fundamental, seja no dia 17 de maio, evocando a sua estreia oficial, seja a 24 de maio, data de aniversário de Bob Dylan, que completou 24 anos precisamente durante aquela histórica e revolucionária digressão britânica.
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