sábado, 4 de julho de 2026

Mocho-galego - O Teorema Plumado da Terra


"Sobre o osso lascado de um carvalho antigo,
Onde o mar verde do prado se espraia lento,
Vejam a precisão do instante: a tensão
Que se liberta no arranque do Mocho.
A elegância pura do gatilho de penas,
Onde o corpo, ainda atado à casca,
Já desenha, com a asa que se abre,
A mestria terna do primeiro voo.

As suas órbitas são duas luas de enxofre,
Faróis de febre líquida que dissecam a luz:
Eles decifram o dia. Rastreiam a curva lenta do vento
Sobre as cristas das giestas, caçando
A deriva da poeira, o milimétrico passo de um rato.

É um relógio de carne, um engenho de penas
Forjado por eras de ensaios e golpes certeiros
Para ser o nervo vigilante de todo o ecossistema.
O padrão do seu dorso - mapa de castanhos e cremes -
Funde-se na casca, devora a própria casca,
Uma engrenagem viva da complexa teia que o sustenta.

As garras, tensas como pinças de precisão,
Cravam-se na madeira em declínio, a sua única âncora
Contra a maré ascendente da mudança invisível.
É o freio biológico que governa a matéria - dos escaravelhos,
Das aranhas tecelãs, dos roedores -, a chave de abóbada
Que sustenta o teto vivo deste mundo verde.

A sua postura é um manifesto de equilíbrio frágil.
Se o carvalho tombar, se o prado vivo for asfalto,
Se o silêncio for quebrado por um ruído mais bruto,
Estes lumes de âmbar irão desvanecer. E com a sua partida,
Uma biblioteca inteira de voo e visão será rasgada.

Pois quem medirá o tremor na erva
Quando o vigia silencioso desaparecer?
Ele é o pulso selvagem da memória da paisagem,
Que agora plana, nessa linha onde a terra e o céu se fundem,
Por um mundo que temos mesmo de defender.

João Soares, 04.07.2027

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