Durante muito tempo, o verão teve uma espécie de pacto com o corpo: o dia podia queimar, mas a noite devolvia algum descanso. Esse pacto está a quebrar-se.
As noites tropicais tornam-se mais frequentes, as cidades acumulam calor, os edifícios revelam fragilidades para as quais não foram desenhados e aquilo que antes parecia uma exceção meteorológica começa a parecer uma condição nova da vida europeia.
Filipe Duarte Santos não fala deste fenómeno como quem descreve uma surpresa. Professor catedrático jubilado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, geofísico e uma das figuras mais reconhecidas em Portugal no estudo das alterações climáticas, observa há décadas a distância entre aquilo que a ciência sabe e aquilo que a política executa. Perante a hipótese de estarmos não diante de uma simples vaga de calor, mas de uma nova normalidade que se manifesta em vagas de calor, não hesita: “Não tenho dúvida nenhuma de que é a segunda hipótese”.
A diferença está na média, explica.
A temperatura média global da atmosfera à superfície já aumentou cerca de 1,5 graus Celsius desde o início do século XX. Pode parecer pouco. Não é. A média empurra os extremos para cima. As ondas de calor “sempre existiram”. Só que agora estão “num patamar mais alto”. No mesmo lugar, no mesmo mês, as temperaturas máximas são hoje mais altas do que há 50 ou 100 anos. “Isto não vai parar.”
O impacto não é apenas ambiental. É físico, urbano, económico, social. O calor mata de forma discreta, sobretudo quando o corpo deixa de recuperar durante a noite. “A mortalidade excessiva aumenta durante as ondas de calor”, sublinha. E não aumenta por igual. Atinge primeiro os idosos, as pessoas com doenças cardiovasculares, quem vive sozinho, quem vive em habitações mal isoladas ou sem condições térmicas, quem não pode fugir para um espaço arrefecido. As alterações climáticas, nas suas palavras, “agravam as desigualdades existentes”.
À CNN Portugal, Filipe Duarte Santos deixa um aviso sem conforto. As emissões de dióxido de carbono “em vez de diminuírem, aumentaram” desde o Acordo de Paris. A meta de 1,5 graus está praticamente perdida, os 2 graus podem chegar a meio do século e o dióxido de carbono que lançamos para a atmosfera não desaparece a tempo da nossa vida: em termos de gerações humanas, “é como se ficasse lá para sempre”.
A esperança, aqui, já não é voltar ao clima que tínhamos. É impedir que o pior se torne inevitável. Porque “quanto mais adiarmos a solução, pior será para as gerações futuras”.
Segue-se a entrevista. A ler e aprender, claro
Durante décadas, habituámo-nos a pensar no calor como uma coisa que vinha de dia e aliviava à noite. Agora, isso está a mudar. Quando a noite deixa de arrefecer, o que muda no corpo humano, nas cidades e na nossa relação com o verão?
As temperaturas altas sempre existiram. Mas o ser humano está adaptado a um determinado intervalo de temperaturas. Para além desse intervalo, o corpo começa a ter dificuldade em resistir.
Em meteorologia, chamamos noites tropicais às noites em que a temperatura mínima não desce abaixo dos 20 graus Celsius. Quando a temperatura mínima é igual ou superior a 25 graus, usa-se também a expressão noites tórridas.
As noites tropicais são, como o nome indica, mais frequentes nos trópicos. Mas estão a tornar-se bastante frequentes em latitudes subtropicais e temperadas. As pessoas que vivem nos trópicos estão, de certo modo, habituadas e adaptadas a esse tipo de noites. Nós, na Europa, não estamos. E isso tem consequências para a saúde humana.
E isso mede-se em mortes?
Mede-se, sim. Há muitos estudos sobre a mortalidade associada às ondas de calor, também em Portugal. Existe, por exemplo, o sistema ÍCARO, do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, que produz alertas de calor e estuda o efeito das ondas de calor na mortalidade e na morbilidade humanas.
Uma onda de calor define-se, em termos meteorológicos, por um período de pelo menos seis dias consecutivos em que as temperaturas máximas estão significativamente acima do valor normal para essa época do ano e para esse local. E o que se observa é que a mortalidade excessiva aumenta durante as ondas de calor.
Mas há um aspeto importante: esse aumento da mortalidade começa a partir de temperaturas diferentes consoante o local. As pessoas que vivem na Escandinávia são mais sensíveis às temperaturas elevadas e têm maior dificuldade em adaptar-se ao calor do que as pessoas do sul da Europa. Isso é fácil de compreender.
Mesmo em sociedades muito desenvolvidas, como as do centro e norte da Europa, há cidades e edifícios preparados para o frio, mas não necessariamente para o calor extremo. Esta vaga de calor mostrou essa vulnerabilidade?
Mostrou. Os edifícios no centro e no norte da Europa não estão preparados para as ondas de calor que se têm observado. Falei com pessoas minhas amigas que vivem na Suíça e na Alemanha e dizem que o calor dentro dos edifícios é insuportável. Não há condições de arrefecimento.
Em muitos casos, não existem sistemas de ar condicionado. E um sistema de ar condicionado não se instala em poucas horas. As pessoas recorrem muitas vezes a aparelhos móveis, mais fáceis de comprar e levar para casa, mas que, do ponto de vista energético, são bastante desfavoráveis: produzem frio, mas com um custo de energia muito elevado. Portanto, muitas destas cidades e edifícios não estão adaptados a estas ondas de calor.
Falamos muitas vezes de episódios meteorológicos. Mas há uma distinção essencial entre um episódio meteorológico e uma transformação estrutural do clima. Neste caso europeu, estamos perante uma vaga de calor ou perante uma nova normalidade climática que se manifesta em vagas de calor?
Não tenho dúvida nenhuma de que é a segunda hipótese. A temperatura média global da atmosfera à superfície está a aumentar de forma muito significativa desde o início do século XX. Esse aumento já foi de cerca de 1,5 graus Celsius.
Isto pode parecer pouco às pessoas, mas estamos a falar de uma média. E a média é uma coisa que muitas vezes não se sente diretamente. As pessoas sentem os extremos. Mas a média é muito importante.
Quando falamos da temperatura média global, estamos a incluir as temperaturas do Polo Norte, do Polo Sul, do Saara, dos Himalaias, de Portugal, de França, dos Estados Unidos, do Brasil, dos oceanos. É uma coisa de que não temos perceção direta. Nós sentimos o tempo que está em Lisboa, neste momento. Mas, no mundo inteiro, há temperaturas muito diversas.
Hoje é possível medir essa temperatura média global através de estações meteorológicas certificadas pela Organização Meteorológica Mundial, uma agência das Nações Unidas, e depois através de trabalho estatístico muito rigoroso. Há vários centros no mundo que fazem esse cálculo.
Ora, a temperatura média global está a aumentar. Isto significa que as ondas de calor, que sempre existiram, estão agora num patamar mais alto. As temperaturas máximas atingidas numa onda de calor, no mesmo local e no mesmo mês do ano, são hoje mais elevadas do que eram há 50 ou 100 anos.
E isto não vai parar. Vai continuar até que a temperatura média global do planeta comece a descer. É difícil as pessoas convencerem-se disto, mas é assim.
Sempre que há calor extremo, ainda aparece a tentação de explicar tudo com o El Niño, com o anticiclone, com a ideia de que é “só mais um verão quente”. Porque continuamos a procurar uma causa curta para um problema longo?
Isso tem a ver com uma característica da natureza humana muito conhecida e estudada pelos psicólogos: a negação. O exemplo mais forte da negação é perante a morte. A pessoa afasta o pensamento de que vai morrer, de que vai deixar de existir.
Há uma tendência semelhante quando se fala de alterações climáticas. As pessoas têm dificuldade em aceitar. Procuram atenuantes. Dizem: “Eu lembro-me de um ano em que esteve muito mais calor”; “isto não é nada”; “sempre houve ondas de calor”.
Mas há outro nível de negação. A atribuição desta tendência de aumento da temperatura e da intensidade dos fenómenos extremos às atividades humanas - sobretudo às emissões de dióxido de carbono resultantes da queima de combustíveis fósseis - tem sido combatida de forma muito sistemática pela indústria dos combustíveis fósseis.
Basta ver o exemplo do atual Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem desvalorizado completamente as alterações climáticas. Os Estados Unidos saíram novamente do Acordo de Paris e foi também anunciada a intenção de retirar o país da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas. Trump chegou a dizer que as alterações climáticas eram um embuste criado pelos chineses para prejudicar a economia americana.
Qual é o racional? A China está a desenvolver muito as energias renováveis e poderá, no futuro, utilizar bastante menos combustíveis fósseis. Como os Estados Unidos têm muitos combustíveis fósseis e são um dos maiores produtores de petróleo e gás natural, isso é interpretado como um ataque à economia americana.
Aí já não estamos apenas perante a negação individual. Estamos perante interesses económicos. A economia continua a prevalecer sobre o ambiente?
Sim, mas a economia acaba por não prevalecer, porque os impactos das alterações climáticas são cada vez maiores e têm custos económicos muito significativos.
Veja-se o que aconteceu recentemente na Alemanha com esta onda de calor. Houve autoestradas em que o asfalto derreteu, provocando fissuras no pavimento, grandes engarrafamentos e despistes. Também houve problemas nos carris dos elétricos, por exemplo em Leipzig. Isto causa custos acrescidos e prejudica a economia. É um exemplo muito concreto, aqui na Europa.
O professor tem dito que Portugal está a deixar de ter anos verdadeiramente húmidos. Talvez seja uma frase mais inquietante do que parece. O que acontece a um país quando a seca deixa de ser exceção e passa a ser o intervalo entre duas secas maiores?
Temos de distinguir entre humidade e precipitação. O problema central é a precipitação: a quantidade anual de precipitação acumulada ao longo de um ano.
Portugal sempre teve secas. Na Idade Média, uma seca em Portugal era dramática, porque significava fome. Não havia facilidade em importar trigo ou outros alimentos. O contexto era completamente diferente; não havia comércio mundial como hoje. Quando havia uma seca, as pessoas morriam de fome.
Hoje isso não acontece da mesma forma. As pessoas vão ao supermercado e continuam a encontrar fruta fresca, legumes frescos e outros alimentos. Mas a seca tem impactos profundos, desde logo na agricultura. Torna-se mais difícil produzir alimentos e começa a haver dificuldade em usar a água para os diversos fins.
Em Portugal, há três grandes utilizações da água: agricultura, abastecimento público e produção de eletricidade. Gerir estas três procuras não é nada fácil.
O que está a acontecer em Portugal, no sul da Europa, nas regiões mediterrânicas — e também em zonas como a Califórnia, que têm um clima semelhante ao nosso — é que passamos a ter períodos de seca mais intensos e mais prolongados. Mas depois também surgem anos com precipitação muito elevada, como aconteceu em Portugal este ano, com uma sucessão de tempestades que transportaram enormes quantidades de água e provocaram inundações graves.
O problema é gerir esta variabilidade interanual, de ano para ano, que é hoje bastante mais difícil do que no passado.
O calor não derruba pontes, não arrasta carros e não deixa imagens tão violentas como uma cheia ou um incêndio. Mata de forma mais discreta. Isso torna-o politicamente menos urgente, apesar de ser biologicamente tão perigoso?
O impacto do calor nas vidas humanas é muito significativo. O aumento da temperatura, em especial as ondas de calor, é considerado por quem estuda os impactos das alterações climáticas na saúde humana como um dos fenómenos que causa mais vítimas no mundo.
Na União Europeia, os países têm políticas diferentes quanto à divulgação pública dos dados de mortalidade. E esses dados de excesso de mortalidade têm de ser tratados. Nem todos os países têm capacidade para o fazer rapidamente.
Em França, nesta última onda de calor, já se sabe qual foi o excesso de mortalidade provocado pelo calor. É um número muito considerável. Normalmente, as vítimas são pessoas idosas, pessoas com problemas cardiovasculares, pessoas que vivem sozinhas, pessoas cuja família não aparece com frequência.
Há muitas pessoas isoladas nas suas casas e apartamentos. Durante uma onda de calor, estas pessoas têm dificuldades acrescidas. A certa altura têm de sair à rua, mas sair à rua pode ser um choque térmico muito significativo. Transportar compras ou provisões pode ser um esforço. Tudo isso contribui para que a mortalidade seja mais elevada entre as pessoas de idade.
Em Portugal, essa informação não tem sido divulgada de forma rápida e clara pelos meios de comunicação social. Não quer dizer que não esteja acessível, mas não tem sido divulgada de modo a permitir saber, com rapidez, qual foi o excesso de mortalidade associado a uma determinada onda de calor.
Quem sofre primeiro com este novo clima? Os idosos, os mais pobres, quem vive em casas más, quem trabalha na rua, quem não tem acesso a ar condicionado? As alterações climáticas são também uma forma de revelar desigualdades?
Sem dúvida nenhuma. As pessoas com menos poder económico são mais vulneráveis às ondas de calor. E as crianças também.
As alterações climáticas, em particular as ondas de calor, agravam as desigualdades existentes. Não falo apenas de desigualdade de rendimento ou de riqueza, mas das desigualdades entre os estratos economicamente mais desfavorecidos e os mais favorecidos da sociedade. O calor atinge todos, mas não atinge todos da mesma maneira.
O ar condicionado está a tornar-se uma espécie de refúgio individual contra o calor. Mas pode também aprofundar o problema coletivo: mais consumo de energia, mais pressão sobre a rede elétrica, cidades mais quentes. Esta contradição tem solução?
Não tem uma solução fácil. É um aspeto muito estudado, com muitos artigos científicos publicados. Há um aumento muito significativo do consumo de energia elétrica associado ao maior uso do ar condicionado. E esse uso é justificável: as pessoas precisam de se proteger.
Mas isso aumenta a dificuldade de satisfazer a procura global de eletricidade. Só para dar um número: o consumo global de energia, desde o ano 2000 até 2023, aumentou 52%. É brutal. E continua a aumentar a um ritmo de cerca de 2% por ano.
A principal estratégia para a descarbonização da economia mundial é precisamente a eletrificação. Ou seja, substituir combustíveis fósseis por eletricidade em vários setores. Mas, no cabaz energético de um país, há várias formas de energia. Há eletricidade e há combustíveis fósseis: carvão, petróleo e gás natural. Portugal ainda consome muito gás natural e continua a depender dos combustíveis fósseis em mais de 60% do seu consumo total de energia, apesar do esforço notável que fez nas energias renováveis.
Há também uma coisa que muitas vezes as pessoas não realizam: a energia não se produz. É uma lei da física. Nós só conseguimos converter energia de uma forma para outra. Convertemos energia solar em eletricidade através das células fotovoltaicas. As plantas convertem energia solar em energia química através da fotossíntese. As barragens convertem a energia da queda da água em energia elétrica.
Estamos sempre a falar de conversões de energia. E quando falamos das quantidades brutais de energia que o mundo consome, percebemos que satisfazer essa procura não é fácil.
Mas as cidades portuguesas continuam muitas vezes a construir-se como se o clima antigo ainda existisse. Estamos a adaptar-nos ao futuro?
É tudo relativo. Dos mais de 300 municípios portugueses, incluindo as regiões autónomas, cerca de dois terços já têm um plano de adaptação às alterações climáticas. Isso é uma boa notícia. Mas a legislação estabelece que todos os municípios devem ter uma estratégia de adaptação. Portanto, ainda falta cerca de um terço.
Há cidades portuguesas que têm levado esta questão muito a sério e têm feito um trabalho excelente. Posso mencionar Loulé e Guimarães, mas também Lisboa, Porto e Torres Vedras.
Mas a questão que coloca tem toda a razão de ser. As cidades vão ter de se adaptar a temperaturas mais elevadas, para que se consiga manter algum conforto durante as ondas de calor.
O problema dos materiais não é apenas serem mais quentes, mas a sua capacidade de refletirem a radiação solar. Um material que absorve radiação solar, como o asfalto ou o cimento, aquece muito. Foi por isso que, nas autoestradas alemãs, o asfalto chegou a temperaturas muito altas e começou a derreter. Não estamos a falar da temperatura do ar, mas da temperatura do material.
As superfícies dos edifícios podem ser mais refletoras da radiação solar. Isso ajudaria a arrefecer os edifícios e as cidades. Nas cidades existe o chamado efeito de ilha de calor. Se pusermos um termómetro à sombra na Avenida da Liberdade e outro à sombra em Monsanto, em Lisboa, teremos temperaturas diferentes. A temperatura na Avenida da Liberdade será mais alta.
Isto acontece porque, no interior da cidade, há uma acumulação de energia térmica. Isso torna a vida mais difícil para quem habita a cidade.
Uma das formas de combater esse efeito é criar superfícies líquidas, como lagos. A água demora mais tempo a aquecer do que o ar, e isso tem um efeito local de arrefecimento. Quem está perto de um lago sente uma temperatura relativamente mais baixa. As árvores também têm um papel muito importante.
Portugal tem estudos, mapas de risco, planos, conhecimento científico e experiência acumulada. Já não podemos dizer que não sabemos o suficiente. Porque é que saber tanto continua a produzir tão pouca ação?
Há vários obstáculos: políticos, económicos e culturais. Mas o mais importante é o económico.
Quero sublinhar uma distinção importante. A nível global, não estamos perante uma verdadeira transição energética, mas perante uma adição energética. Mantenho essa ideia. A percentagem dos combustíveis fósseis no cabaz energético global mantém-se, desde 1970 até hoje, em torno dos 80%.
É como se tivéssemos um bolo em que uma fatia corresponde a 80%. Mas o bolo está a crescer. E, se a fatia continua a representar 80% de um bolo maior, então o consumo de combustíveis fósseis continua a aumentar. Esse é o problema: o consumo de combustíveis fósseis tem de diminuir.
Mas a União Europeia é uma exceção?
É. Há regiões do mundo onde isto não é assim. O exemplo mais notável é a União Europeia. Desde 1990 até agora, a dependência da União Europeia dos combustíveis fósseis baixou consideravelmente. Em 1990, os 27 países da União Europeia tinham uma dependência dos combustíveis fósseis de cerca de 84%. Em 2025, essa dependência era de cerca de 68%.
Isto é notável. É importante dizer que a União Europeia conseguiu reduzir de forma significativa a sua dependência de carvão, petróleo e gás natural. Mas, globalmente, o problema continua a agravar-se.
Dez anos depois do Acordo de Paris, a meta de 1,5 graus parece cada vez mais uma fronteira perdida. Podemos falar já de uma derrota parcial ou até de uma desistência geral?
Com as tendências atuais, todos os cenários plausíveis apontam para um agravamento. O que é necessário é reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, sobretudo o dióxido de carbono produzido pela queima de combustíveis fósseis, até zero. Reduzir até zero, a nível mundial, será praticamente impossível. Mas, se não fizermos um esforço de redução, o problema agrava-se.
As emissões de dióxido de carbono provenientes do carvão, do petróleo e do gás natural aumentaram cerca de 8% desde o Acordo de Paris, em 2015. Em vez de diminuírem, aumentaram.
Isto não se pode interpretar como uma vitória. Seria preciso um contorcimento político quase impossível para dizer que isto é uma vitória.
Quanto à meta de 1,5 graus, é praticamente certo que será ultrapassada por volta de 2030, ou pouco depois. Mas talvez o mais grave seja que os 2 graus poderão muito provavelmente ser ultrapassados por volta de 2045 ou 2050.
O discurso climático vive numa corda apertada: se é demasiado prudente, não mobiliza; se é demasiado duro, acusam-no de catastrofismo. Como se diz a verdade sem anestesiar a sociedade, mas também sem a paralisar com medo?
É exatamente essa a dificuldade. Se uma pessoa não salienta os factos mais perturbantes e perigosos, não está a prestar um bom serviço à comunicação pública da ciência. Mas, se salienta esses factos, é imediatamente chamada de catastrofista.
Como se faz? Isso exige treino. São muitos anos de ofício.
É preciso que as pessoas compreendam a situação. Há trabalhos científicos recentes, preparatórios dos cenários climáticos que serão usados no próximo relatório do IPCC - Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas. Apesar de os Estados Unidos terem deixado de financiar várias áreas relacionadas com o clima nas Nações Unidas, incluindo o IPCC, esse relatório vai ser elaborado.
Um desses trabalhos preparatórios, na área dos cenários climáticos, tem como primeiro autor Detlef van Vuuren, investigador neerlandês com quem já publiquei vários estudos.
De acordo com esses cenários, em 2050 é praticamente certo que estaremos acima dos 2 graus Celsius de aumento da temperatura média global.
Isto vai continuar. Eu já não estarei cá, tenho 84 anos. Mas continuará para os filhos, netos e bisnetos das gerações atuais.
O professor passou grande parte da sua vida a estudar, explicar e avisar para este problema. Quando olha para quem vai viver a segunda metade deste século, ainda acredita numa ideia de retorno?
No que respeita às alterações climáticas, as coisas vão agravar-se. Estão a agravar-se e vão continuar a agravar-se depois de 2050.
A razão é relativamente simples. Quando emitimos dióxido de carbono para a atmosfera, esse dióxido de carbono pode sair da atmosfera por processos naturais: é capturado pelas plantas, através da fotossíntese, e dissolve-se nos oceanos. Mas esses processos são muito lentos.
O dióxido de carbono que lançamos para a atmosfera acumula-se. Em termos de gerações humanas, é como se ficasse lá para sempre. Leva centenas de anos a sair completamente da atmosfera.
Este é um problema de muito longo prazo. E é muito difícil comunicá-lo às pessoas, porque é dececionante. Parece um problema sem solução.
Mas quanto mais adiarmos a solução, pior será para as gerações futuras.
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