quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Dia de nascimento de Kateryna Bilokur



Hoje é o aniversário da grande artista ucraniana – Kateryna Bilokur (1900-1961). Ela poderia ter sido mais reconhecida durante a sua vida, mas não foi porque era mulher e camponesa. Mas agora podemos celebrar a arte dela como ela merece!

Kateryna Bilokur (1900–1961) foi uma proeminente artista ucraniana reconhecida internacionalmente pelo seu talento singular, tendo chegado a encantar Pablo Picasso, que declarou em 1954: "Se tivéssemos uma artista deste nível, faríamos o mundo inteiro falar dela." A sua vida e obra desenrolaram-se num contexto histórico de profundas e violentas transformações políticas, sociais e económicas que devastaram o campo ucraniano ao longo da primeira metade do século XX.

Nascida no seio de uma família camponesa na aldeia de Bohdanivka, na região de Poltava, sob o domínio do Império Russo, Bilokur cresceu numa época em que a educação das mulheres no campo era profundamente limitada e vista como desnecessária. A mentalidade patriarcal vigente ditava que o seu dever se devia restringir ao trabalho agrícola e à gestão do lar. Totalmente autodidacta, aprendeu a desenhar em segredo, enfrentando a forte oposição e as punições da família, que temia que a sua paixão pela arte prejudicasse as suas hipóteses de casamento.

Mais tarde, com a queda do império e a criação da União Soviética, a vida rural sofreu um golpe devastador durante o final da década de 1920 com a coletivização forçada imposta por Joseph Stalin. O regime soviético negou passaportes internos aos camponeses dos kolkhozes (quintas coletivas), prendendo-os de forma efetiva às suas aldeias. Devido a este impedimento burocrático e ao facto de não possuir o diploma da escolaridade básica de sete anos, viu ser-lhe recusada a admissão em várias instituições de ensino artístico, como a Escola Técnica de Cerâmica de Myrhorod e o Colégio de Belas Artes de Kiev.

Bilokur sobreviveu também ao Holodomor (1932–1933), a fome devastadora provocada pelas políticas de requisição de grãos do regime soviético que vitimou milhões de ucranianos. Diante do horror, da escassez e da morte ao seu redor, a pintura funcionou como um refúgio estético e de resistência espiritual. Em 1934, exausta dos conflitos familiares e da impossibilidade de pintar livremente, tentou o suicídio ao atirar-se às águas geladas do rio Chumhak. Embora tenha sobrevivido, o incidente deixou-lhe sequelas permanentes nas pernas, o que acabou por levar a sua família a aceitar, ainda que com relutância, a sua vocação artística.

Sem acesso a materiais profissionais durante a maior parte da vida, desenvolveu uma técnica inteiramente artesanal: fabricava os seus próprios pincéis com pelos de rabo de gato e finos ramos de salgueiro, extraía pigmentos de plantas e minerais locais (como beterraba, calêndula e bagas) e misturava-os com óleos. Aplicava a tinta a óleo diretamente na tela sem esboços ou rascunhos prévios, trabalhando detalhe por detalhe com pinceladas extremamente finas. Recusando-se a colher as flores para pintar no estúdio, caminhava quilómetros até aos campos para pintar a flora viva ao ar livre.

O seu estilo enquadra-se na Arte Naïf e no Primitivismo Folclórico, destacando-se pelas suas composições de natureza-morta botânica de uma densidade e riqueza cromática impressionantes, onde frequentemente combinava plantas de diferentes estações do ano numa única cena sobre fundos escuros ou céus limpos.

As suas influências transcendem o âmbito técnico. No plano literário e cultural, a sua maior inspiração moral foi o poeta e pintor Taras Shevchenko, cujos textos lhe deram força espiritual para perseverar. Nutriu-se igualmente das descrições místicas do folclore rural na obra de Nikolai Gogol, do patriotismo de Ivan Kotlyarevsky e da poesia oral e canções populares ucranianas. Visualmente, foi influenciada pela tradição dos pintura decorativa de Petrykivka, pelos bordados tradicionais (vyshyvanka) e pela iconografia religiosa ortodoxa. Sob o ponto de vista filosófico, a sua obra é marcada pelo panteísmo e pelo vitalismo, encarando as flores não como meros ornamentos, mas como seres vivos dotados de alma - a que chamava "os seus filhos" -, traduzindo uma celebração contemplativa da harmonia entre a terra, o cosmos e a natureza.

A sua vida mudou radicalmente em 1940, quando a cantora de ópera Oksana Petrusenko, impressionada por um desenho que a artista lhe enviara por carta, intercedeu junto do meio artístico para a organização da sua primeira exposição individual em Poltava. Após a Segunda Guerra Mundial e o fim da ocupação nazi da sua aldeia, o regime soviético acabou por promovê-la como uma "artista do povo", aproveitando a sua origem camponesa para a propaganda cultural. Contudo, o estilo de Bilokur manteve-se imune às exigências ideológicas do Realismo Socialista, preservando a sua liberdade poética.

O ápice do seu reconhecimento internacional ocorreu em 1954, quando três das suas obras foram exibidas na Exposição Internacional de Paris e elogiadas por Picasso. Apesar dos títulos e da aclamação tardia, viveu os seus últimos anos em condições financeiras modestas na sua aldeia natal, cuidando da mãe doente antes de falecer em 1961, deixando um legado indelével na história da arte ucraniana e mundial.

Biografia

Sem comentários: