sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Carta aberta ao G20 exige aumento de impostos para os mais ricos



Nas vésperas da cimeira deste fim de semana do G20 na Índia, um grupo de economistas, representantes políticos e mesmo alguns milionários escreveram aos chefes de Estado para dizer que a acumulação de riqueza extrema por um punhado de indivíduos "tornou-se um desastre económico, ecológico e de direitos humanos, ameaçando a estabilidade política no mundo inteiro" ao exacerbar as desigualdades. Dizem que isso é o resultado de décadas de políticas que reduziram os impostos aos mais ricos, justificadas "pela falsa promessa de que a riqueza concentrada no topo iria de alguma forma beneficiar todos". E que foram acompanhadas pela criação de mecanismos que permitem a estes ultra-ricos recorrer a refúgios fiscais ou terem acesso a taxas de impostos mais baixas do que o cidadão comum.

"Não podemos permitir que a riqueza extrema continue a corroer o nosso futuro coletivo", diz esta carta aberta que apela aos países representados no G20, que há poucos anos conseguiram acordar uma taxação mínima das multinacionais, que faça o mesmo em relação aos indivíduos mais ricos, promovendo medidas a nível nacional e internacional para evitar a competição fiscal entre países e acabar com os esquemas que permitem a evasão fiscal.

A carta aberta tem dois nomes portugueses, dos eurodeputados José Gusmão e Marisa Matias, e é subscrita por economistas como Joseph Stiglitz, Thomas Piketty ou Gabriel Zucman, artistas como Brian Eno ou atuais e antigos políticos e governantes como Bernie Sanders, Poul Nyrup Rasmussen, José Antonio Ocampo, Caroline Lucas, entre outros. A lista de assinaturas conta ainda com vários nomes de milionários que defendem a subida dos impostos sobre a riqueza através de associações como os Patriotic Millionaires ou Millionaires for Humanity, que se juntam à Oxfam, Earth4All e ao Institute for Public Studies na iniciativa desta carta aberta.

A polarização da riqueza aumenta em Portugal e internacionalmente
A organização Oxfam, forte nesta campanha, publicou uma caracterização da distribuição da riqueza global. Salienta que, na última década, os detentores de fortunas superiores a 50 milhões de dólares viram a sua riqueza aumentar 18,3% e os bilionários em 109%. Desde 2020, o 1% mais rico capturou quase dois terços da nova riqueza e as fortunas bilionárias aumentaram 2,7 mil milhões de dólares diariamente.

Em termos fiscais, sublinha quatro pontos importantes. Primeiro, metade dos milionários não pagará impostos de herança, passando 5 biliões de dólares para a próxima geração sem serem tributados. Depois, a taxa média de tributação sobre os mais ricos nos países da OCDE caiu de 58% em 1960 para 42% atualmente. Terceiro, os ganhos de capital, geralmente a principal fonte de rendimento para o 1% mais rico, em mais de 100 países é apenas tributado numa média de 18%. Por fim, apenas 4 cêntimos em cada dólar de receita fiscal provêm dos impostos sobre a riqueza.

"Portugal é o 3º país na UE onde a diferença é mais grave"
José Gusmão caracterizou a situação em Portugal, começando por lembrar “O debate fiscal em Portugal está de tal forma minado pelo discurso ultraliberal e individualista que a proposta básica de tributar ultra-ricos é vista como uma afronta. Não nos enganemos sobre quem ganha com esta desinformação”.

Sublinha que “Portugal não é exceção nesta tendência internacional de polarização da riqueza. No ano passado, aumentaram em 31 mil os detentores de fortunas de um milhão de euros. Passam a ser 166 mil pessoas, que representam 2% da população portuguesa” e reitera “há uma desigualdade no tratamento fiscal para quem vive do seu trabalho e quem vive de rendimentos passivos. Portugal é o 3º país na UE onde a diferença é mais grave. É a própria OCDE que o diz e alerta para as ineficiências que isso traz”.

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