quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Encontros Improváveis- Platão e Dave Gahan & Soulsavers - All of This and Nothing


"Music is a moral law. It gives soul to the universe, wings to the mind, flight to the imagination, and charm and gaiety to life and to everything" ~Plato

Nota: É uma citação inegavelmente bela e extraordinariamente popular, mas, para sermos totalmente francos, existe aqui uma reviravolta: Platão quase de certeza que nunca disse ou escreveu estas palavras. Embora soe exatamente ao tipo de reflexão poética que um filósofo da Grécia Antiga faria numa tarde ensolarada em Atenas, esta frase é uma criação moderna que acabou por lhe ser atribuída erradamente ao longo dos anos, espalhando-se pela internet e por cartazes motivacionais.
Na verdade, se Platão estivesse vivo hoje para ler esta citação, é muito provável que ficasse bastante surpreendido. A perspetiva real de Platão sobre a música, expressa em obras como A República, era consideravelmente mais rigorosa, política e regulada:
  • Música como controlo do estado: Platão acreditava que a música exercia um poder enorme porque o ritmo e a harmonia penetravam profundamente na alma. Precisamente por isso, defendia que o Estado Ideal devia censurar rigorosamente a música.
  • Escalas "boas" vs. "más": o filósofo favorecia modos musicais que inspiravam coragem, disciplina e ordem, enquanto argumentava a favor da proibição de modos que induzissem à tristeza, à preguiça ou a emoções caóticas.
  • Função moral e não mero entretenimento: para Platão, a música não servia para dar "encanto e alegria à vida" pelo simples prazer pessoal, mas sim como uma ferramenta educacional concebida para cultivar a virtude moral e a harmonia civil nos cidadãos.
Portanto, enquanto a citação apócrifa apresenta a música como uma força libertadora e alegre para a imaginação, o verdadeiro Platão via-a como uma ferramenta de grande alcance que exigia uma vigilância apertada para não desestabilizar a sociedade. [Fonte]

A colaboração entre Dave Gahan e o projeto Soulsavers junta a voz marcante do vocalista britânico dos Depeche Mode à produção da dupla inglesa composta por Rich Machin e Ian Glover. Lançada em 2015 como o primeiro single do álbum Angels & Ghosts, a faixa All of This and Nothing representa a fusão refinada de identidades artísticas do Reino Unido. Em termos de estilo musical, a canção enquadra-se no rock alternativo de matiz cinematográfica, combinando elementos de blues, gospel, música gótica e darkwave. Diferente do som predominantemente sintético dos Depeche Mode, a sonoridade construída pelos Soulsavers privilegia instrumentações orgânicas e densas, onde violinos ascendentes, um baixo pulsar cadenciado, arranjos de guitarra intimistas e coros de inspiração gospel envolvem a tessitura grave e barítona de Gahan. O significado da canção gravita em torno do paradoxo da existência e da fragilidade humana. Liricamente, a expressão «tudo isto e nada» expressa a dualidade entre o absoluto e a insignificância do indivíduo perante o universo. O eu lírico apresenta-se simultaneamente como a poeira sob os pés e o sol que nasce, encarnando o cosmos e a mortalidade. O apelo constante para «sair da escuridão» (move in from the dark) atua como uma busca por redenção e renovação espiritual em resposta a fantasmas do passado e a tempestades interiores. Essa carga temática revela profundas influências literárias do Romantismo Negro, do existencialismo e do gnosticismo. Nota-se uma afinidade com a poesia de William Blake na articulação dos opostos (luz e sombra, o divino e o terreno) e com a tradição das tragédias existenciais, onde a sobrevivência física e espiritual - marcas da história de vida do próprio Dave Gahan - é retratada através de alegorias bíblicas e imagens da natureza. O videoclipe da canção, dirigido pelo coletivo artístico fourclops, destaca-se pelo seu conceito tecnológico e metafórico inovador. Criado especificamente para ser visualizado através do efeito de ilusão holográfica do fantasma de Pepper (utilizando uma pirâmide de plástico sobre o ecrã do smartphone), o teledisco exibe imagens em sobreposição: o rosto e o corpo de Dave Gahan, exames neurológicos de cérebros, metamorfoses biológicas, flores a desabrochar e dinâmicas cósmicas. O significado visual reflete a mensagem da própria canção - a projeção efémera da vida sobre a vacuidade do espaço, onde a consciência humana e a matéria biológica se entrelaçam antes de se dissolverem na escuridão.

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