domingo, 8 de novembro de 2015

Quando as empresas são mais poderosas que os países

Imagine uma companhia com a influência da Google, do Facebook ou da Amazon. E que ainda recebe do Estado o monopólio do comércio com uma zona geográfica. Também pode cobrar impostos, assinar acordos comerciais, prender criminosos e declarar guerras. Esses eram alguns dos poderes e atribuições da Companhia Holandesa das Índias Orientais, criada no século XVII por empresários com o apoio do Governo dos Países Baixos para comercializar com a Ásia. Foi a primeira corporação transnacional que emitiu obrigações e ações no mercado para financiar o seu crescimento, um notório precedente que, séculos mais tarde, chegou às multinacionais modernas. Os novos gigantes empresariais não contam com os excecionais privilégios da histórica companhia holandesa, mas a sua receita e o seu valor na Bolsa superam o PIB de dezenas de países.

Hoje, a concentração de poder é especialmente clara no setor tecnológico. As cinco grandes – Apple, Google, Microsoft, Facebook e Amazon – são as mais valiosas da Bolsa. A sua capitalização oscila entre os 500 mil milhões de dólares do Facebook e os 850 mil milhões de dólares da Apple. Com este critério – um tanto volátil, mas indicador do potencial de uma empresa –, se a Apple fosse um país, teria um tamanho semelhante ao da economia turca, holandesa ou suíça. Silicon Valley, além disso, tem uma presença considerável nos novos negócios: a Google absorve 88% da quota de mercado de publicidade online. O Facebook (incluindo Instagram, Messenger e WhatsApp) controla mais de 70% das redes sociais em telemóveis. A Amazon tem 70% da quota de mercado dos livros eletrónicos e, nos Estados Unidos, absorve 50% do dinheiro gasto em comércio eletrónico.

69 das 100 principais entidades económicas do mundo são empresas e apenas 31 são países

As companhias das Índias (os britânicos e os franceses também tiveram as suas durante o período colonial) foram um reflexo do seu tempo, mas o seu poder faz lembrar, em certos aspetos, o das grandes corporações atuais. Serão os novos colonos? A organização não-governamental Global Justice Now realiza uma classificação que compara o volume de negócios das principais empresas com a receita orçamental dos países. Segundo essa lista, se a cadeia norte-americana de supermercados Walmart fosse um Estado, ocuparia o décimo posto, atrás dos EUA, China, Alemanha, Japão, França, Reino Unido, Itália, Brasil e Canadá. No total, 69 das 100 principais entidades económicas são empresas. As 25 corporações que mais faturam superam o PIB de inúmeros países.

Seria ingénuo pensar que o setor privado não influencia as decisões políticas, a elaboração de leis e o dia a dia dos cidadãos. Como é que esse poder se articula hoje? Moisés Naím afirma em O Fim do Poder que as estruturas estáticas que caraterizavam as grandes empresas há algumas décadas, como as das chamadas Sete Irmãs (conglomerados que controlaram a indústria petrolífera entre os anos quarenta e setenta), mudaram. O padrão, que se repetia na maioria dos setores, consistia em “poucas companhias que dominavam os seus respetivos mercados e eram tão grandes, ricas, potentes e enraizadas que era impensável prescindir delas”.

O autor, membro do Carnegie Endowment for International Peace (um think tank de Washington), diz que o próprio conceito de poder empresarial é agora mais volátil, flexível e fragmentado. “Criou-se um ambiente em que é mais fácil para os novos – em geral, não apenas na economia, incluindo os que têm ideias tóxicas – conseguir poder”, afirma Naím. “ExxonMobil, Sony, Carrefour e JPMorgan Chase têm um poder imenso e autonomia, mas os seus líderes estão mais limitados agora”, acrescenta. Para se adaptar a esta transformação, a humanidade deve “encontrar novas formas de se governar a si mesma”.

O poder hoje é mais competitivo. Reduziram-se as barreiras à entrada: chegam ao topo novas companhias, como a Inditex, e desaparecem clássicos como a Compaq. “É preciso ter em conta o horizonte temporal, porque há 10 anos falávamos do domínio da Microsoft e agora já não”, responde Naím numa entrevista, referindo-se ao poder da Google e do Facebook. Ele prefere não comparar empresas com países. “Não se mede a capacidade de influenciar necessariamente pela faturação de uma empresa em relação ao PIB de um país, já que a forma do poder empresarial difere da do Estado”, esclarece. Além disso, há novos atores cada vez mais influentes, como as novas sociedades de investimento, os fundos de cobertura (hedge funds) e mercados como os dark pools, onde se negoceia a compra e venda de ações sem a supervisão das autoridades.

O novo poder tornou-se mais intangível. “As empresas têm hoje menos ativos fixos e menos trabalhadores, reflexo de uma nova maneira de produzir, mais voltada para os serviços e para o conhecimento”, afirma Jesús María Valdaliso, professor de História e Instituições Económicas da Universidade do País Basco e coautor de Historia Económica de la Empresa (história económica das empresas).

Além disso, hoje os dados são um ativo essencial. Milhões de cidadãos informam-se, relacionam-se com os amigos e compram na Internet. Vão deixando pelo caminho um rasto de informações que se transformaram no “petróleo da era digital”, segundo a revista The Economist. Estes dados pessoais permitem a elaboração de perfis dos utilizadores graças aos algoritmos, que podem aprender, em minutos, padrões de comportamento que um ser humano levaria anos a identificar. “Uma das grandes estratégias das empresas de tecnologia é o efeito de rede: quanto mais utilizadores, melhor. Porque as pessoas utilizam o serviço que prestas, por mais aborrecido que seja, se as outras também o usarem. Afinal, como não estar no Facebook se todos os teus amigos também lá estão?”, afirma o jornalista Noam Cohen, autor de The Know-It-Alls: The Rise of Silicon Valley as a Political Powerhouse and Social Wrecking Ball (2017). Poucos escolhem viver à margem das redes sociais.

As cinco empresas mais valiosas da Bolsa são de tecnologia: Apple, Google, Facebook, Microsoft e Amazon

Como é o efeito político deste novo ouro negro? Através da rede, pode-se influenciar a opinião pública, como se vê na investigação em curso nos EUA sobre as interferências da Rússia nas eleições que deram a vitória a Trump em 2016, nas quais o Facebook, a Google e o Twitter foram fundamentais. “As empresas de tecnologia temem que, mais cedo ou mais tarde, se tente aprovar uma norma que altere substancialmente o seu modelo de negócios”, explica Pankaj Ghemawat, professor da New York University e da IESE Business School. Autor de World 3.0: Global Prosperity and How to Achieve It, ele enfatiza a dificuldade de quantificar e seguir algo tão imaterial como a informação.

Este fluxo de dados não existia no final do século XIX, quando John D. Rockefeller fundou a Standard Oil. “Há vozes que dizem que as fronteiras já não importam. Acredito que é algo exagerado, mas certamente é significativa a capacidade de algumas empresas se expandirem em negócios de todo o tipo”, afirma Ghemawat. A Amazon não é apenas uma das empresas que mais cresceram nos últimos anos; também é uma das que mais se diversificaram. É líder em comércio eletrónico e uma das maiores plataformas logísticas e de marketing, além de fornecer sistemas de armazenamento na nuvem (tendo a CIA entre os seus clientes). E mais: produz filmes e séries, comprou uma cadeia de supermercados e acabou de lançar a sua própria linha de roupa. Será que a Amazon está grande demais?

As grandes corporações modernas despontaram no final do século XIX como resultado da produção e da distribuição em massa, segundo teorizou Alfred D. Chandler, professor da Harvard Business School, que, a partir dos anos setenta, foi pioneiro no estudo da história das empresas. Para Chandler, os gestores (managers) tinham sido os verdadeiros heróis da era industrial porque tinham organizado a atividade económica, acoplando partes do negócio para criar grandes companhias como a General Motors. O académico defendeu essa ideia num dos seus livros, The Visible Hand (A Mão Visível), de 1977, cujo título se opõe à “mão invisível”, metáfora criada pelo economista Adam Smith no século XVIII para expressar a suposta capacidade autorreguladora do livre mercado.

Um exemplo extremo de grande corporação são os chaebol, conglomerados familiares promovidos pela Coreia do Sul para reativar o seu crescimento após a guerra (1950-1953). O maior deles é a Samsung, que responde por 20% do PIB do país asiático. Nos últimos anos, contudo, Seul tomou medidas para reduzir o poder destes gigantes. Prova disso é a recente condenação por corrupção do herdeiro da Samsung, Lee Jae-yong.

As Samsung e General Motors de hoje são diferentes. Ficou para trás a repetida frase que Charles Wilson disse nos anos cinquenta, quando era secretário da Defesa dos EUA: “O que é bom para o nosso país é bom para a General Motors.” Antes de ocupar o cargo, Wilson dirigiu a empresa (o ex-secretário de Estado, Rex Tillerson, presidia antes à ExxonMobil). Mas a globalização levou as grandes firmas a dispersarem-se pelo mundo. Por exemplo, 65% das vendas das empresas que têm ações na Bolsa espanhola vêm do estrangeiro.

Então, onde se localiza o poder neste mundo deslocalizado? Três analistas de sistemas complexos do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, recorreram à matemática para construir um mapa da estrutura do poder económico. Reuniram dados de 43.060 empresas transnacionais, cruzando-os com o seu conjunto de acionistas e o seu volume de negócios. O resultado revelou que 147 firmas controlavam 40% da riqueza, quase todas elas instituições financeiras, como o Barclays Bank, o JPMorgan Chase e o Goldman Sachs.

O estudo foi publicado na revista PLoS One em 2011. Um dos seus autores, James Glattfelder, explica que a equipa trabalha para atualizar os dados. “A previsão é de que a distribuição do poder continue concentrada nas mãos de alguns atores altamente interconectados”, diz ele. O estudo é interessante, mas devemos considerar que as instituições financeiras nem sempre controlam o destino das empresas em que participam. Com muita frequência, simplesmente gerem dinheiro que pertence a investidores privados. Glattfelder responde que, desde 1980, e sobretudo desde a crise de 2008, há “uma enorme concentração da propriedade de ações nas mãos de investidores institucionais”. Tais investidores costumam ser bancos, fundos de pensões, seguradoras e sociedades de investimento que aplicam grandes quantidades de capitais.

Desde os anos noventa, algumas firmas são cada vez mais influentes. É o caso da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo (controla cinco biliões de dólares, quase cinco vezes o PIB espanhol). Em maio, acionistas liderados por esta empresa rebelaram-se contra a direção da ExxonMobil para obrigá-la a informar sobre as suas medidas contra as alterações climáticas.

Num exemplo mais próximo, há algumas semanas soube-se que a decisão de empresas e bancos catalães de transferir as suas sedes partiu de Nova Iorque e Londres. É nessas cidades que estão os grandes gestores de fundos de investimento, fundos de pensões e companhias de seguros, os acionistas das entidades e os donos de parte da sua grande dívida. A transferência de sede tentava fazer face à incerteza política que ameaçava as suas metas de rentabilidade. Nos EUA, os fundos institucionais possuem 80% do capital do índice Standard & Poor's 500; na Europa, 58% do Standard & Poor's Euro. Já em Espanha, 43% do capital está nas mãos de fundos internacionais, um recorde.

Também desempenham um papel importante os hedge funds (fundos especulativos), que utilizam os mercados de derivados para apostar na queda de um valor negociado no futuro. Um dos mais populares é o fundo de George Soros, conhecido por ganhar milhões após o ataque que perpetrou contra a libra nos anos noventa, embora também tenha perdido muito dinheiro apostando (erradamente) numa queda das Bolsas após a vitória de Trump. Em 1998, havia cerca de 3.000 fundos deste tipo; hoje são mais de 10.000.

E volta a surgir o papel-chave da tecnologia. É interessante o auge dos robôs no mundo financeiro. Eles costumam ser usados, por exemplo, na gestão de um mecanismo com um nome que soa a vilão: os dark pools. São redes privadas em que os investidores compram e vendem ações sem que se conheçam as suas intenções, evitando alterações de valor dos títulos que os possam prejudicar. Cerca de 42% do volume diário negociado nos mercados é feito em dark pools, segundo a empresa de consultoria Tabb Group.

Estes mercados na sombra existem há décadas, mas multiplicaram-se nos últimos anos graças à inteligência artificial. O tempo necessário para realizar uma ordem de compra e venda passou de 20 segundos, há duas décadas, para os 10 microssegundos atuais. Ou seja: 40.000 operações num piscar de olhos. Por isso, convém alargar o campo de visão. Já não basta ter em conta os conselhos de administração; a raiz do poder vai direta ao algoritmo.

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