quarta-feira, 17 de junho de 2009

The Raincoats - Don't Be Mean


Letra
[Verse 1]
I saw you out walking down Westbourne Grove
You caught my eye and your arm it rose
It rose in the sky, ever so high
But it wasn't, my dear, to wave to me
It was simply to hail a big black taxi
Which you jumped in as fast as you possibly could
Well, you know, my dear, I'm not made of wood
And my name may be Birch dear, but I'm not a tree
And I, I can see you ignoring me

[Chorus]
And I'm beginning to think
Though I'm open to sway
Even when we're old and grey
I think you might see me and look the other way
Just like you did only the other day

[Verse 2]
We'll sit in the park with our grandchildren dear
And you'll, you'll catch my eye and shout come over here
But it won't be me that you're calling, dear
It'll be your young Jimmy or Jenny or Jack
And, oh, one of us will have near heart attack
Grandad, grandad what's wrong with you
Why, oh, why are we rushing to the zoo?
And you'll say "Shut up Jimmy stop your talking
Grab my hand and keep on walking"

[Chorus]

[Bridge]
I know that you'll say, you'll say this is all in my mind
And I'm prone to delusions
And things of that kind
Well, now it's been well over a year
And there's no more time for shading a tear
Yes, you left and I behaved badly
But you know at that time
I loved you so madly
Don't be mean, don't be mean (3X)

[Chorus]

[Outro]
Goodbye dear
Goodbye

As The Raincoats, formadas em Londres em 1977, são um dos nomes mais emblemáticos e influentes do pós-punk britânico, distinguindo-se desde logo pela sua identidade multicultural, muito marcada pela fusão entre a sensibilidade artística da cofundadora portuguesa Ana da Silva e a atitude da inglesa Gina Birch. No início da sua carreira, o estilo musical da banda era definido por uma estética puramente D.I.Y. (Do It Yourself), caracterizada por uma sonoridade crua, desestruturada e experimental que desafiava as convenções do punk rock tradicional através de linhas de baixo invulgares, guitarras desalinhadas, a bateria enérgica de Palmolive (Paloma Romero) e o violino estridente de Vicky Aspinall. Historicamente eternizadas como um quarteto feminino - formação que também contou com Ingrid Weiss na bateria -, a estrutura interna do grupo alterou-se significativamente ao longo das décadas, moldando a sua progressão artística até ao regresso na década de noventa.

Com o tempo, a sua sonoridade evoluiu para texturas mais densas e complexas, incorporando elementos de jazz livre e world music, até culminar em 1996 com o lançamento do álbum Looking in the Shadows. É deste registo que faz parte o tema "Don't Be Mean", que apresenta um estilo musical já transformado num indie rock mais maduro, limpo e polido, mantendo contudo a urgência emocional e a honestidade melódica originais. Nesta fase de regresso, a composição criativa da banda tinha-se reduzido ao duo basilar de Ana da Silva e Gina Birch, que recrutaram para estúdio e palco a baterista Heather Dunn e a violinista Anne Wood. Esta colaboração permitiu reestruturar o tradicional quarteto em palco e conferiu uma nova roupagem técnica à faixa.

A letra de "Don't Be Mean", escrita por Ana da Silva, afasta-se das metáforas abstratas dos primeiros anos para oferecer uma mensagem direta e cortante sobre a vulnerabilidade e o desgaste nas relações interpessoais. Trata-se de um apelo frontal à empatia e à rejeição de jogos de poder psicológicos, explorando a dor provocada pela crueza gratuita ou pela indiferença de quem se ama. Esta mensagem de crueza emocional é fielmente transposta para o seu teledisco, cujo significado visual assenta num minimalismo absoluto. Evitando narrativas complexas ou os artifícios visuais comuns na MTV dos anos noventa, o vídeo foca-se em grandes planos das integrantes e na sua performance performativa em formato de quarteto. A simplicidade estética serve o propósito de amplificar a autenticidade e a gravidade do desabafo lírico, despindo a música de qualquer distração mercantil.

Ao longo de toda a sua trajetória, as referências literárias e filosóficas das Raincoats moldaram profundamente a sua identidade artística. Desde o início, o grupo esteve alinhado com o feminismo de segunda vaga e com o existencialismo, rejeitando os papéis de género tradicionais no rock para criar uma linguagem inteiramente nova baseada na vivência feminina real. Na escrita, a influência da literatura modernista e de autores que exploravam a corrente de consciência, como Virginia Woolf e Fernando Pessoa, reflete-se em letras que funcionam como fragmentos de diários e reflexões profundas sobre a identidade, a memória e a alienação urbana. Filosoficamente, a banda também absorveu os ideais da vanguarda situacionista através da ética punk, onde o erro e a imperfeição técnica eram celebrados como formas legítimas e honestas de expressão artística. Na atualidade, essa base conceptual evoluiu para uma postura de maturidade e serenidade, focada na preservação da memória histórica das mulheres na arte, na ecologia urbana e numa reflexão contínua sobre a resiliência e o envelhecimento num mundo crescentemente comercializado.

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