terça-feira, 22 de abril de 2025

Papa Francisco - doze anos de novos dinamismos e portas abertas


Papa Francisco foi o primeiro em muitas coisas. Primeiro Papa jesuíta, primeiro Papa originário da América Latina, primeiro a escolher o nome Francisco sem um numeral, primeiro a ser eleito com seu antecessor ainda vivo, primeiro a residir fora do Palácio Apostólico, primeiro a visitar terras nunca antes tocadas por um pontífice - do Iraque à Córsega -, primeiro a assinar uma Declaração de Fraternidade com uma das autoridades islâmicas mais importantes. Também foi o primeiro Papa a se equipar com um Conselho de Cardeais para governar a Igreja, a atribuir funções de responsabilidade a mulheres e leigos na Cúria, a lançar um Sínodo que envolvia diretamente o povo de Deus, a abolir o segredo pontifício para casos de abuso sexual e a remover a pena de morte do Catecismo. O primeiro também, a liderar a Igreja enquanto no mundo não há “a” guerra, mas muitas guerras, pequenas e grandes, travadas “em pedaços” nos diferentes continentes. Uma guerra que “é sempre uma derrota”, como repetiu nos mais de 300 apelos, mesmo quando sua voz falhava, e que ocuparam todos os últimos pronunciamentos públicos desde o início da violência na Ucrânia e no Oriente Médio.

Processos
Mas Francisco, nascido Jorge Mario Bergoglio, provavelmente não gostaria que o conceito de “primeiro” fosse associado ao seu pontificado, projetado nesses 12 anos não para atingir metas ou conquistar primados, mas para iniciar “processos”. Processos em andamento, processos concluídos ou distantes, processos que provavelmente são irreversíveis até mesmo para quem o sucederá no trono de Pedro. Ações que geram “novos dinamismos” na sociedade e na Igreja - como está escrito na road map do pontificado, a Evangelii Gaudium - sempre no horizonte do encontro, da troca, da colegialidade.

Do fim do mundo
“E agora iniciamos este caminho, Bispo e povo”, foram as primeiras palavras pronunciadas da Sacada Central da Basílica de São Pedro, no final da noite de 13 de março de 2013, para uma multidão que lotava a Praça São Pedro há um mês, sob os refletores após a renúncia de Bento XVI. Para aquela multidão, o recém-eleito Papa de 76 anos, escolhido por seus irmãos cardeais, originário “do fim do mundo”, pediu uma bênção. Com o povo, quis recitar uma Ave Maria, tropeçando em um italiano que até então não havia praticado assiduamente, dadas as raras visitas do pastor de Buenos Aires a Roma, pronto para fazer as malas imediatamente após o Conclave. E ao povo, no dia seguinte, ele quis prestar sua homenagem íntima, dirigindo-se à paróquia de Santa Ana no Vaticano e depois à Basílica de Santa Maria Maior, agradecendo à Salus Populi Romani, protetora de seu pontificado, a quem ele continuou a prestar homenagem em todos os momentos mais fortes. E exatamente nessa Basílica, Francisco expressou seu desejo de ser enterrado.

Pastor no meio do povo
A proximidade com o povo, um legado do ministério argentino, foi manifestada pelo Papa em todos os anos seguintes de várias maneiras: com visitas aos funcionários do Vaticano nos seus escritórios, com as Sextas-feiras da Misericórdia no Jubileu de 2016 em locais de marginalização e exclusão, com as celebrações da Quinta-feira Santa em prisões, asilos e centros de acolhida, com o longo tour em paróquias nos subúrbios romanos, com visitas e telefonemas surpresa. E manifestou essa proximidade em todas as viagens apostólicas, começando pela primeira ao Brasil em 2013, herdada de Bento XVI, da qual nos lembramos a imagem do papamóvel bloqueado no meio da multidão.

Primeiro Papa no Iraque
O Pontífice argentino completou quarenta e sete peregrinações internacionais, feitas com base em eventos, convites de autoridades, missões a serem realizadas ou algum “movimento” interno, como ele mesmo revelou no voo de volta do Iraque. Sim, exatamente o Iraque: três dias em março de 2021 entre Bagdá, Ur, Erbil, Mosul e Qaraqosh, terras e vilarejos com cicatrizes ainda evidentes da matriz terrorista, com sangue nas paredes e tendas de pessoas deslocadas ao longo das estradas, em meio à pandemia da Covid e preocupações gerais com a segurança. Uma viagem desaconselhada por muitos por causa da saúde e do risco de atentados; uma viagem desejada a todo custo. A “mais bela” viagem, como o próprio Francisco sempre confidenciou, o primeiro Papa a pisar na terra de Abraão, onde João Paulo II não conseguiu ir, e a conversar com o líder xiita Al-Sistani.

A Porta Santa em Bangui e a mais longa viagem ao Sudeste Asiático e à Oceania
Uma boa obstinação o levou ao Iraque, a mesma que em 2015 o levou a Bangui, a capital da República Centro-Africana ferida por uma guerra civil que, nos mesmos dias da visita, deixou mortos pelas ruas. No país africano, onde disse que queria ir mesmo ao custo de saltar “de paraquedas”, Francisco abriu a Porta Santa do Jubileu da Misericórdia em uma cerimônia comovente que também marca o recorde de um Ano Santo aberto não em Roma, mas em uma das regiões mais pobres do mundo. Também pode ser descrito como uma boa obstinação a que animou sua decisão de empreender a viagem mais longa do pontificado em setembro de 2024, aos 87 anos: Indonésia, Papua-Nova Guiné, Timor-Leste, Cingapura. Quinze dias, dois continentes, quatro fusos horários, 32.814 km percorridos de avião. Quatro universos diferentes, cada um representando os principais temas do Magistério: fraternidade e diálogo inter-religioso, periferias e emergência climática, reconciliação e fé, riqueza e desenvolvimento a serviço da pobreza.

De Lampedusa a Juba
Não se pode esquecer, repercorrendo as viagens apostólicas e as visitas pastorais, a primeira viagem fora de Roma, à pequena ilha de Lampedusa, cenário de grandes tragédias migratórias, com a coroa de flores lançada no “cemitério a céu aberto” do Mediterrâneo. A denúncia também se repetiu na dupla viagem a Lesbos (2016 e 2021) nos contêineres e tendas de refugiados e pessoas deslocadas.

Na história do pontificado, ficaram marcadas também a viagem à Terra Santa (2014); à Suécia, em Lund (2016) para as celebrações do 500º aniversário da Reforma Luterana; ao Canadá (2022) com o pedido de perdão às populações indígenas pelos abusos sofridos por representantes da Igreja Católica. E, em seguida, na República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul, em Juba (2023), esta última etapa compartilhada com o Arcebispo de Canterbury, Justin Welby, e o Moderador da Assembleia Geral da Igreja da Escócia, Ian Greenshields, para sublinhar a vontade ecumênica de curar as feridas de um povo. As mesmas que ele implorou que fossem curadas aos líderes sul-sudaneses, reunidos em 2019 para dois dias de retiro na Casa Santa Marta, concluídos com o gesto perturbador de beijar seus pés.

Também, Cuba e Estados Unidos (2015), uma viagem para selar o estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países. Um evento histórico para o qual Francisco passou meses, enviando cartas a Barack Obama e Raúl Castro, instando-os a “iniciar uma nova fase”. Foi o próprio Obama quem agradeceu publicamente ao Pontífice. Em Havana, houve também o encontro com o Patriarca Kirill e a assinatura de uma declaração conjunta para colocar em prática o “ecumenismo da caridade”, o compromisso dos cristãos para uma humanidade mais fraterna. Um compromisso que se tornou, anos depois, tragicamente atual e um tanto desconsiderado com a eclosão da guerra no coração da Europa.

Por último, mas não menos importante, entre as viagens, Abu Dhabi (2019) e o Documento sobre a Fraternidade Humana assinado em conjunto com o Grão Imame al-Tayeb, coroando o degelo com a universidade sunita de Al-Azhar que começou com um abraço na Casa Santa Marta e terminou com a assinatura de um texto que imediatamente se tornou a pedra angular do diálogo islâmico-cristão, também transposto para várias Constituições.

As encíclicas
As experiências, os diálogos e os gestos vividos nessas viagens fluíram para os documentos do pontificado. Quatro encíclicas: a primeira, Lumen Fidei, sobre o tema da fé, a quatro mãos com Bento XVI; depois, Laudato si', um grito para invocar uma “mudança de rumo” para a “casa comum”, em crise pelas mudanças climáticas e pela exploração excessiva, e para estimular ações para erradicar a miséria e para o acesso equitativo aos recursos do planeta. A terceira encíclica, a Fratelli Tutti, o eixo fundamental do Magistério, fruto do Documento de Abu Dhabi, profecia - antes da deflagração de novas guerras - da fraternidade como o único caminho para o futuro da humanidade. Por fim, a Dilexit Nos para repercorrer a tradição e a atualidade do pensamento “sobre o amor humano e divino do coração de Jesus” e lançar uma mensagem a um mundo que parece ter perdido seu coração.

Exortações Apostólicas e Motu Proprio
São sete exortações apostólicas: desde a já mencionada Evangelii Gaudium até C'est la confiance, para o 150º aniversário do nascimento de Teresa do Menino Jesus. Entre elas, as exortações pós-sinodais - Amoris Laetitia (Sínodo sobre a família), Christus Vivit (Sínodo sobre os jovens), Querida Amazonia (Sínodo para a Região Pan-Amazônica) -, Gaudete et Exsultate sobre o chamado à santidade no mundo contemporâneo, Laudate Deum, uma sequência ideal da Laudato si' para completar seu apelo para reagir pela Mãe Terra antes de um “ponto de ruptura”.

Foram emitidos cerca de 60 Motu Proprio para reconfigurar as estruturas da Cúria Romana e do território da Diocese de Roma, para alterar o Direito Canônico e o sistema judiciário do Vaticano, para emitir regras e procedimentos mais rigorosos na luta contra os abusos. Esse é o caso do Vos estis lux mundi, um documento que incorporou resultados, indicações e recomendações do Summit sobre a Proteção dos Menores, realizado no Vaticano, em fevereiro de 2019. Uma cúpula que representou o auge do trabalho para combater a pedofilia do clero e os abusos não só sexuais; uma expressão da disposição da Igreja de agir com verdade e transparência em uma atitude penitencial. Com o Vos estis lux mundi, Francisco estabeleceu novos procedimentos para a denúncia de assédios e violências e introduziu o conceito de accountability, ou seja, garantir que bispos e superiores religiosos prestem conta de suas ações.

Reforma da Cúria
Portanto, processos. Os processos de reformas foram uma constante no papado de Francisco, que não quis ignorar as recomendações dos cardeais nas congregações pré-conclave que pediam ao futuro novo Papa que reestruturasse a Cúria Romana e, em particular, as finanças do Vaticano, que durante anos estiveram no centro de escândalos. Logo após sua eleição, o Papa criou um Conselho de Cardeais, o C9 (que se tornou C6 e C8 ao longo dos anos, conforme os vários membros foram mudando), um pequeno “senado” para ajudá-lo a governar a Igreja universal e trabalhar na reforma da Cúria. Fusões de Dicastérios e outras mudanças de títulos e organogramas foram os sinais do work in progress; o passo final foi a Constituição Apostólica Praedicate evangelium: aguardada por anos, promulgada em 2022, sem aviso prévio ou preâmbulo, introduzindo novidades significativas. Entre elas, a instituição do novo Dicastério para a Evangelização, presidido diretamente pelo Pontífice, e o envolvimento dos leigos “em funções de governo e responsabilidade”. Nessa onda de mudanças, devem ser vistas as nomeações do primeiro prefeito leigo, Paolo Ruffini, para o Dicastério para a Comunicação, da primeira “prefeita” para o Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada, Irmã Simona Brambilla, e da primeira governadora da Cidade do Vaticano, Irmã Raffaella Petrini.

As Mulheres
As mulheres, outra vertente destes anos de Bergoglio no trono de Pedro, o Papa que, mais do que outros, confiou a figuras femininas papéis de responsabilidade, que criou duas comissões para o estudo das diaconisas, que nunca deixou de recordar o “génio” feminino e a dimensão materna da Igreja (que “é mulher” porque “é a Igreja, não o Igreja"). Além disso, colocou as mulheres lado a lado com cardeais e bispos nas mesas do último Sínodo sobre a Sinodalidade, irmãs, missionárias, professoras, especialistas, teólogas, às quais deu, pela primeira vez, o direito de voto.

Uma abertura, como tantas outras feitas por Francisco. Aberturas e não extirpações, nem saltos; para alguns muito rápidos, para outros cautelosos demais. De fato, também esses, processos. Como a concessão dos sacramentos aos divorciados recasados, na perspectiva da Eucaristia como “remédio” para os pecadores e não como “alimento para os perfeitos”; a acolhida às pessoas Lgbtq+ com o convite à proximidade pastoral, porque dentro da Igreja há espaço para “todos, todos, todos”; a obstinação em dialogar com representantes de outras denominações e religiões cristãs, após séculos de preconceitos e suspeitas, também em virtude do “ecumenismo do sangue”. Também, o olhar à China, com o Acordo Provisório para a Nomeação de Bispos, assinado em 2019 e renovado três vezes. Um sinal de diálogo, entre tropeços e retomadas, com um “povo nobre” que ele desejou visitar por todos esses anos. Um desejo que remonta às aspirações missionárias da juventude.

Missionariedade e sinodalidade
Missão, este também é um tema central. De fato, a “missionariedade”, é um convite recorrente em textos e homilias, assim como a “sinodalidade”, outro termo que ressoou tantas vezes nesses doze anos. O Papa dedicou nada menos que duas sessões do Sínodo (2023 e 2024) à “sinodalidade”, renovando a estrutura e o funcionamento da assembleia, percebendo a necessidade de começar o caminho sinodal “de baixo” e instituindo também dez grupos de estudo para aprofundar temas doutrinários, teológicos e pastorais após os trabalhos.

Pobres e migrantes
Neste pontificado serão lembrados também os axiomas que encapsularam inteiras realidades eclesiais, políticas e sociais: “Cultura do descarte”, “globalização da indiferença”, “Igreja pobre para os pobres”, “Igreja em saída”, “pastores com cheiro de ovelhas”, “ética global da solidariedade”. Permanecerá a atenção aos pobres com a instituição, em 2017, de um Dia dedicado a eles, sempre caracterizado pelo almoço do Papa na Sala Paulo VI, lado a lado com pessoas em situação de rua e sem-teto. Permanecerá o ensinamento sobre os migrantes, declinado nos quatro verbos “acolher, proteger, promover e integrar”, como indicações programáticas para enfrentar “uma das maiores tragédias deste século”. Assim como permanecerá o convite para elaborar “compromissos honrosos” como soluções para os conflitos que estão dilacerando a Europa, o Oriente Médio e a África.

Compromisso em prol da paz
Conflitos, angústia dos últimos anos, denunciados em apelos ressonantes e cartas a núncios e povos vítimas de violências, aliviados por meio de videochamadas - sobretudo a diária para a paróquia de Gaza - ou missões de cardeais e o envio de produtos de primeira necessidade. “Não pensei que seria um Papa em tempo de guerra”, confidenciou no primeiro e único podcast com a mídia do Vaticano no décimo aniversário de sua eleição.

A paz foi o objetivo constante. Pela paz, o Papa Francisco pediu continuamente orações, convocando Dias de jejum e oração - pela Síria, Líbano, Afeganistão, Terra Santa - envolvendo os fiéis de todas as latitudes; consagrou a Rússia e a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria em 2022; organizou momentos históricos, como o plantio de uma oliveira nos Jardins do Vaticano em 8 de junho de 2014 com os presidentes de Israel, Shimon Peres, e da Palestina, Mahmoud Abbas. Em prol da paz, o Papa fez gestos inusitados, como entrar em seu carro e ir, no dia seguinte ao lançamento da primeira bomba em Kiev, ao escritório do embaixador russo na Santa Sé, Alexander Avdeev, tentando iniciar contatos com o presidente Putin e assegurando-lhe sua disposição de mediar. Francisco repreendeu várias vezes os chefes de Estado e de governo, advertiu os senhores da guerra de que eles prestarão contas diante de Deus pelas lágrimas derramadas entre os povos, estigmatizou o florescente mercado de armas lançando uma proposta para usar os gastos com armas para criar um Fundo Mundial para erradicar a fome. Pediu a construção de pontes e não a construção de muros, e insistiu em colocar o bem comum acima das estratégias militares, sendo às vezes mal interpretado e criticado.

Inovações
Em todos esses anos não faltaram críticas contra o Papa argentino, que comentou escaladas e os ventos contrários com aquele humor que é o que “mais se aproxima da graça de Deus”. Francisco questionou e surpreendeu, talvez tenha feito alguém torcer o nariz pela quebra de tabus e a ruptura de protocolos e velhos costumes, ou pela remodelação do próprio papado com roupas diferentes, uma residência diferente, uma inusual gestualidade, um estilo pastoral original. Ou aparecendo em transmissões ao vivo pela Internet e em programas de TV, usando a conta X @Pontifex, em 9 idiomas, ou como um canal para transmitir mensagens de divulgação e imediatismo necessários.

Momentos difíceis e problemas de saúde
Nesses anos sempre densos, com raríssimos momentos de descanso (e o cancelamento das tradicionais férias papais em Castel Gandolfo), não faltaram momentos difíceis, em meio a processos judiciais - liderados pelo longo e complexo processo pela gestão dos fundos da Santa Sé -, o caso Vatileaks 2, escândalos de abusos e corrupção e a publicação de livros sem “nobreza e humanidade”. Também não faltaram problemas de saúde entre as operações no Hospital Gemelli em 2021 e 2023, a internação no mesmo hospital, novamente em 2023, as complicações respiratórias, e depois os resfriados, as gripes e as dores no joelho que o forçaram a usar a cadeira de rodas nos últimos três anos.

Dados estatísticos
Tantas dificuldades que nunca impediram uma intensa atividade ou sua presença em eventos. Várias estatísticas testemunham isso: mais de 500 audiências gerais, dez Consistórios para a criação de 163 novos cardeais que restituíram caráter de universalidade ao rosto da Igreja; mais de 900 canonizações (incluindo três predecessores: João XXIII, João Paulo II, Paulo VI); os “Anos Especiais”, entre os quais os da Vida Consagrada (2015-2016), São José (2020-2021) e a Família (2021-2022); quatro Jornadas Mundiais da Juventude: Rio de Janeiro, Cracóvia, Panamá, Lisboa. Dois Jubileus: o extraordinário sobre a Misericórdia em 2016 e o ordinário em 2025, atualmente em andamento, com o tema “Peregrinos da Esperança”.

A Statio Orbis durante a pandemia da Covid
Jorge Mario Bergoglio foi um Papa que buscou a proximidade com o grande público também por meio de entrevistas, livros, prefácios, autobiografias. Um Papa do qual, talvez, mais do que as muitas palavras e escritos, será recordado com uma imagem: ele, sozinho, mancando, na chuva, no silêncio geral do lockdown e com o único som de fundo de uma ambulância, enquanto atravessa a Praça São Pedro no tempo suspenso da pandemia. Era a Statio Orbis de 27 de março de 2020, com o mundo fechado dentro de casa vendo em streaming um homem idoso que parecia carregar sobre os ombros todo o peso de uma tragédia que revirou cotidianidade e hábitos. A humanidade estava aflita, mas o Papa falou de esperança. E de fraternidade: “Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo todos chamados a remar juntos”.

Bolsonaro nunca esteve com o Papa


Bolsonaro e seu entorno detestavam o Papa Francisco, a quem xingavam de comunista. Nas redes sociais, os mais radicais pediam até mesmo a morte do Sumo Pontífice. Bolsonaro deixou claro seu asco ao Papa ao rejeitar se encontrar com ele nos quatro anos em que esteve à frente da destruição do Brasil. Grande, Francisco denunciava atmosfera de ódio no país e, aos seus detratores, que também odeiam os pobres, mandava que lessem Mateus 25: quem ataca aos pequeninos ataca a Deus. A estes, está reservado o tormento eterno, enquanto, aos justos, está garantida a vida eterna.

Pope Francis and the Sun

Solar panels atop Pope Francis’ audience hall in the Vatican

Just in case I thought one couldn’t feel more forlorn right now, the word came this morning of the death of Pope Francis. It hit me hard—not because I’m a Catholic (I’m a Methodist) but because I had always felt buoyed by his remarkable spirit. If he could bring new hope and energy to an institution as hidebound as the Vatican, there was reason for all of us to go on working on our own hidebound institutions—and if he could stand so completely in solidarity with the world’s poor and vulnerable, then it gave the rest of us something to aim for.

I thought this from the start, when he became the first pope to choose the name of Francis,—that countercultural blaze of possibility in a dark time—and when he showed his mastery of the art of gesture, washing the feet of women, of prisoners, of Muslim refugees. (Only Greta Thunberg, with her school strike, has so mastered the power of gesture in modern politics).

But he brought that moral resolve to the question of climate change, making it the subject of his 2015 encyclical Laudato Si, the most important document of his papacy and arguably the most important piece of writing so far this millennium. I spent several weeks living with that book-length epistle in order to write about it for the New York Review of Books, and though I briefly met the man himself in Rome, it is that encounter with his mind that really lives with me. Laudato Si is a truly remarkable document—yes, it exists as a response to the climate crisis (and it was absolutely crucial in the lead-up to the Paris climate talks, consolidating elite opinion behind the idea that some kind of deal was required). But it uses the climate crisis to talk in broad and powerful terms about modernity.

The ecological problems we face are not, in their origin, technological, says Francis. Instead, “a certain way of understanding human life and activity has gone awry, to the serious detriment of the world around us.” He is no Luddite (“who can deny the beauty of an aircraft or a skyscraper?”) but he insists that we have succumbed to a “technocratic paradigm,” which leads us to believe that “every increase in power means ‘an increase of “progress” itself’…as if reality, goodness and truth automatically flow from technological and economic power as such.” This paradigm “exalts the concept of a subject who, using logical and rational procedures, progressively approaches and gains control over an external object.” Men and women, he writes, have from the start intervened in nature, but for a long time this meant being in tune with and respecting the possibilities offered by the things themselves. It was a matter of receiving what nature itself allowed, as if from its own hand.

In our world, however, “human beings and material objects no longer extend a friendly hand to one another; the relationship has become confrontational.” With the great power that technology has afforded us, it’s become easy to accept the idea of infinite or unlimited growth, which proves so attractive to economists, financiers and experts in technology. It is based on the lie that there is an infinite supply of the earth’s goods, and this leads to the planet being squeezed dry beyond every limit.

The deterioration of the environment, he says, is just one sign of this “reductionism which affects every aspect of human and social life.”

I think Francis’s project for the earth—a recovery of fellow feeling, with a special attention to the poor—is the only thing that can save us over time. But it will take time—obviously for the moment we’ve chosen the opposite path, as exemplified by the fact that J.D. Vance, scourge of the refugee, darkened his last day on earth.

In the meantime, Francis was very much a pragmatist, and one advised by excellent scientists and engineers. As a result, he had a clear technological preference: the rapid spread of solar power everywhere. He favored it because it was clean, and because it was liberating—the best short-term hope of bringing power to those without it, and leaving that power in their hands, not the hands of some oligarch somewhere.

As a result, he followed up Laudato Si with a letter last summer, Fratello Sole, which reminds everyone that the climate crisis is powered by fossil fuel, and which goes on to say

There is a need to make a transition to a sustainable development model that reduces greenhouse gas emissions into the atmosphere, setting the goal of climate neutrality. Mankind has the technological means to deal with this environmental transformation and its pernicious ethical, social, economic and political consequences, and, among these, solar energy plays a key role.

As a result, he ordered the Vatican to begin construction of a field of solar panels on land it owned near Rome—an agrivoltaic project that would produce not just food but enough solar power to entirely power the city-state that is the Vatican. It is designed, in his words, to provide “the complete energy sustenance of Vatican City State.” That is to say, this will soon be the first nation powered entirely by the sun.

The level of emotion—of love—in this decision is notable. The pope named “Laudato Si” (“Praised be”) after the first two words of his namesake’s Canticle to the Sun, and Fratello Sole was even more closely tied—those are the words that the first Francis used to address Brother Sun. I reprint the opening of the Canticle here, in homage to both men, and to their sense of humble communion with the glorious world around us.

All praise be yours, my Lord, through all that you have made,
And first my lord Brother Sun,
Who brings the day; and light you give to us through him.
How beautiful is he, how radiant in all his splendor!
Of you, Most High, he bears the likeness.

The world is a poorer place this morning. But far richer for his having lived.

+Steve Chapple has an important interview with Ralph Keeling, whose father Dave set up the instrument on Mauna Loa that monitors co2 concentrations in the atmosphere. Ralph, on the faculty of Scripps Oceanographic, helps keep up that work, and also oversees a variety of other atmospheric monitoring projects. There’s no one alive better positioned to understand the risks that come with the slashing in government funding for climate science

I guess I'd also say that, you know, the US really has led in this in the past, and what's basically underpinned our prosperity and our stature in the world in the last few decades is the US investment in science in general and our investment in the climate, the science of climate and weather and environmental change puts us also in the forefront of understanding these things. So we have been leaders. We're a magnet for talent or have been and that's that's served us well.

+The cement industry puts a lot of carbon into the air. There are ways to fix that…all of which just got harder thanks to Trump.

The National Ready Mixed Concrete Association also got word earlier this year that it lost its EPA funding. The association was planning to use its $9.6 million grant to help concrete producers develop “environmental product declarations” so government agencies and other customers could identify which products have a low-carbon footprint.

The grant would have boosted demand for low-carbon products, Lemay said. But the Trump administration’s EPA canceled it along with 48 others.

“That just means that we're not going to have the benefit of the federal government accelerating our progress,” Lemay said. “That would have helped. Clearly.”

+We need something beautiful, and here it is. Listen to Bach’s Trio Sonata #5 for organ, set against 60 photos from astronauts Suni Williams and Butch Wilmore, who just returned from their extended stay on the ISS. Such thanks to the people at Earth Music Theater for this ongoing work—this is literally what we’re fighting for, folks.

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Notícia triste da madrugada: Papa Francisco morre aos 88 anos


Primeiro pontífice latino-americano deixa legado de tolerância e diálogo. Promoveu reformas importantes, acolheu minorias e deu prioridade aos pobres.
O pontífice também ficou marcado por discursos políticos durantes sermões. Não poupou críticas a líderes de países em guerra, como o russo Vladimir Putin e o israelita Benjamin Netanyahu. Ele também apontou o dedo para a União Europeia ao citar a crise dos refugiados, que começou durante o seu papado, em 2015.
Numa das imagens mais impressionantes e sem precedentes na Igreja Católica, rezou sozinho na sempre lotada Praça São Pedro, no Vaticano, quando a Covid-19 se espalhou pelo mundo e fez vários países decretarem quarentena.
Mas o combate à pobreza sempre foi a sua prioridade. Ao ser apontado como o novo papa, ele escolheu o nome de seu novo título em homenagem a São Francisco de Assis, protetor dos pobres. O lema de seu papado foi "Miserando atque eligendo" — "Olhou-o com misericórdia e o escolheu", em português.
As reformas da Igreja Católica também foram outra marca do papado de Francisco. Ele iniciou um processo de reforma das estruturas da Cúria, que é o governo do Vaticano, com atenção especial para a parte económica e financeira.
A modernidade também levou Francisco a lidar com outros assuntos delicados para a Igreja, como os direitos LGBTQIA+ e o sexismo.
Ele foi elogiado por avanços como o de permitir bênçãos de padres a casais do mesmo sexo, colocar mulheres em cargos mais altos no Vaticano e permitir que elas votassem no Sínodo dos Bispos — a reunião em que os bispos debatem e decidem questões ideológicas e regimentos internos.
Mas também foi criticado por não avançar menos do que o esperado na questão feminina. Francisco terminou seu papado sem permitir sacerdotes do sexo feminino, reivindicação histórica de parte das católicas.
O papa defendia que apenas cristãos do sexo masculino poderiam ser ordenados para o sacerdócio, usando como base a premissa da Igreja Católica de que Jesus escolheu homens como apóstolos.
Em termos ecológicos, foi um Papa dinâmico e estimulou o movimento ambientalista global. Em 2015, lançou a encíclica Laudato si', um apelo a uma maior gestão ambiental que apelava a mudanças nos estilos de vida e nas políticas de combate às alterações climáticas.
DEP Papa Francisco, brincalhão, muito culto, de gestos e hábitos simples e que lutou para mudar a Igreja. Um excelente Papa!
Só temos de estar gratos pela sua passagem, a sua intervenção social e ecológica e o seu legado.
E há seres imortais, porque não se apagam da nossa memória.

Why Not Scotland?


Junte-se a Flo, uma jovem escocesa de Glasgow, numa viagem intensamente pessoal, enquanto procura exemplos de recuperação da natureza pela Europa.
Tal como muitos da sua geração, Flo está preocupada com o estado da natureza e tem medo de um futuro incerto. Mas durante as suas viagens, ela descobre lugares onde a natureza está a regressar de forma espetacular, dando novamente vida à paisagem e revitalizando as comunidades humanas. Encorajada por estas histórias de esperança e renovação, é levada a perguntar-se: Porque não a Escócia?
Em Portugal temos o projecto Rewilding Portugal ; Associação Bioliving e Cavalum

domingo, 20 de abril de 2025

Insetos Benéficos para a Agricultura: Aliados Naturais no Controle de Pragas


Na agricultura sustentável, contar com uma diversidade de insetos benéficos 🐞 é essencial para manter o equilíbrio ecológico e controlar pragas. Esses pequenos aliados se dividem em dois grupos:

1. 🐝 Insetos Predadores
São aqueles que se alimentam diretamente das pragas que afetam as plantações 🌾. Alguns dos mais comuns incluem:
Vespa (Polistes): Com cerca de 2 cm, essas vespas se alimentam de lagartas e outros insetos nocivos 🐛, ajudando na redução de pragas em hortas e jardins 🌻.
Joaninha (Coccinellidae): Também conhecida como "mariquinha" 🐞, mede entre 2-5 mm e se alimenta vorazmente de pulgões, uma ameaça constante para culturas como tomate 🍅 e alface 🥬.
Libélula (Odonata): Com uma envergadura de 7,3 a 8,4 cm, este predador se alimenta de mosquitos e pequenos insetos voadores 🦟 que podem prejudicar as plantas 🌿.
Cavalinho-do-diabo (Odonata): Semelhante à libélula, é um excelente caçador de mosquitos e outros insetos aquáticos 🏞️.
Mosca-ladra (Asilidae): Mede entre 3 e 40 mm e se alimenta de insetos voadores, ajudando no controle de pragas como mosquitos e pequenos gafanhotos 🌾.
Larva de sírfideo: Com tamanhos entre 3 e 45 mm, essas larvas se alimentam de pulgões 🦗 e outros insetos de corpo mole, reduzindo infestações em culturas hortícolas 🥕.
Carabídeos (Carabidae): São besouros terrestres que caçam pragas noturnas 🌑, como lagartas e lesmas 🐌. Têm entre 2 e 60 mm de comprimento.
Cicindelídeos (Cicindelidae): Conhecidos como besouros-tigre 🐅, são predadores rápidos e vorazes de insetos pequenos 🐜, com tamanhos entre 2 e 60 mm.
Tesourinha (Dermaptera): Mede entre 1,4 e 2,3 cm e é um predador noturno 🌙 que se alimenta de pulgões, ácaros e outros pequenos insetos 🐞.

2. 🐜 Insetos Parasitoides
Esses insetos não caçam diretamente, mas depositam seus ovos dentro ou sobre as pragas 🐛. As larvas que emergem se alimentam da praga, controlando sua proliferação:
Mosca-taquinídea (Tachinidae): Mede entre 4 e 16 mm e ataca diversas pragas de lepidópteros (como lagartas 🐛), controlando sua expansão naturalmente.
Vespinha parasitoide (Braconidae): Mede entre 1 e 30 mm e deposita seus ovos dentro de lagartas 🦗, impedindo que causem danos a culturas como milho 🌽 e soja.
Vespinha parasitoide (Ichneumonidae): Mede entre 3 e 40 mm e ataca insetos de corpo mole, como lagartas e larvas de besouros 🐞, reduzindo sua reprodução.
🌿 Dica: Incentivar a presença desses insetos benéficos no cultivo, mantendo a biodiversidade e evitando pesticidas agressivos, contribui para uma agricultura mais equilibrada e sustentável!

sábado, 19 de abril de 2025

Kyrie


Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!
José Carlos Ary dos Santos (1936-1984)
in “A Liturgia do Sangue”, 1963
🎨 Carlos Aires (1974-), "Trinity", 2025, MACAM


Coelho da Páscoa: porquê um coelho?


Uma das versões que tem sido disseminada ao longo dos séculos, é a de que Maria Madalena teria ido antes do amanhecer de domingo ao sepulcro de Jesus de Nazaré levando consigo material para ungir o corpo. Ao chegar ao local, teria visto a sepultura entreaberta. Um coelho, que teria ficado preso no túmulo aberto na rocha, seria o primeiro ser vivo a testemunhar a ressurreição de Jesus. Por essa razão, ganhou o privilégio de ser associado à data. Na imagem, um vaso esculpido com grande habilidade há cerca de 8.000 anos perto do rio Eufrates, actual Síria. Boa Páscoa!
A peça encontra-se no Museum of Fine Arts Boston, EUA.

Nicolas Hulot Interview : Le Syndrome du Titanic







É um impressionante documentário francês de 2009, realizado por Nicolas Hulot e Jean-Albert Lièvre e é uma reflexão sobre o impacto do homem na evolução do meio ambiente e a degradação da biodiversidade! Filmado em vários países, com imagens incríveis de cortar a respiração. Um olhar contemporâneo sobre o nosso mundo, que já não está totalmente certo. Nicolas Hulot partilha connosco a sua profunda preocupação e a sua sincera esperança na humanidade, tendo como pano de fundo imagens primorosamente elaboradas por Jean-Albert Lièvre.Um olhar contemporâneo sobre o nosso mundo, que já não está totalmente certo. Nicolas Hulot partilha connosco a sua profunda preocupação e a sua sincera esperança na humanidade, tendo como pano de fundo imagens primorosamente elaboradas por Jean-Albert Lièvre.

A máquina de marketing está a caminho. É interessante ver como os defensores do nosso planeta estão a utilizar (sabiamente) os meios à sua disposição na sua luta para aumentar a consciencialização global sobre os riscos associados ao aquecimento global. O cinema é um meio, é global, o que poderá ser mais "natural" do que se tornar um dos principais vectores de informação sobre o futuro do nosso planeta. Os filmes de ficção científica inventaram de forma soberba o nosso mundo de amanhã: os mais pessimistas, "Silent Running", "Waterworld", "O Dia Depois de Amanhã" ou "Soylent Green", continuam a ser entretenimento de Hollywood aos olhos do público. Daí a profusão de documentários nos últimos três anos, como "We Feed the World", "Gold Rush", "Our Children Will Accuse Us", "The World According to Monsanto" e, claro, "An Inconvenient Truth" de Al Gore, que entretanto se tornou um Prémio Nobel da Paz. Este ano, já foram lançados vários documentários, como "A Era da Estupidez" e o amplamente divulgado "Home", de Yann Arthus-Bertrand. "Síndrome Titânico" pode ser a versão humana de "Home".
 
Porque quando este último estava mais preocupado com o nosso ambiente, os nossos recursos naturais e as nossas florestas, o filme de Nicolas Hulot e Jean-Albert Lièvre baseia a sua história no Homem, no seu papel no desastre em que se encontrará amanhã, nas consequências horríveis para as gerações futuras e na forma como ainda pode sair disso. O discurso é terrível: somos nós, tu e eu, a nossa única geração que ainda pode tomar as decisões certas para mudar de direção e garantir que não colidiremos com o icebergue que está à nossa frente. Porque travar é inútil, como Hulot sublinha no seu filme, é a direção que deve ser alterada, e agora.

Assim, Hulot e Lièvre mostram o sofrimento já presente às nossas portas (com terríveis exceções nos passeios de Xangai, Cairo ou Los Angeles). Mostram o absurdo de todo o nosso sistema (“Eu acreditei na abundância, descobri a escassez”), os paradoxos do nosso consumo excessivo (“Nós não consumimos, nós consumimos”). Focam-se em rostos de todas as origens, belos, silenciosos como se, para alguns, não tivessem voz no futuro do planeta, enquanto não pertence a nenhuma minoria rica em dinheiro e poder, o que, no entanto, os leva diretamente à catástrofe. 

Tal como "Home", também "The Titanic Syndrome" é sobre imagens. Os planos aéreos do YAB dão lugar a encenações magníficas e visualmente muito fotográficas. A música também está muito bem escolhida e muito original. Ficámos um pouco desorientados no início do documentário ao ver tantas imagens polidas, enquadramentos cuidados e cores trabalhadas, porque, no final, captam a atenção do espectador, quase o distraindo do discurso confidencial de Hulot. Confidencial, não porque não acrescente nada ou não prenda a atenção, mas porque Nicolas confidencia realmente durante uma hora e meia. Expressa os seus medos pelo futuro, mas também revela as suas esperanças no Homem e a sua capacidade de mudar as coisas. Numa altura em que já não podemos dizer "não sabia", confirma que é (ainda, mais do que nunca) tempo de agir.

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Não se pode adormecer neste momento


Historicamente o que aconteceu por vezes é que o eleitorado mais debilitado foi resgatado – na sua humilhação e aspirações – pela esquerda progressista. Agora não tem sucedido. A extrema-direita, nesta fase, e a direita conservadora cada vez mais à direita, tornou-se na voz dos desapossados, que são cada vez mais porque o sistema está também ele cada vez mais em putrefação, mas continua a funcionar, porque tem de funcionar, mesmo se já ninguém acredita que seja possível prosseguir assim.
Neste quadro tende-se a ouvir quem tem soluções mais simplistas para oferecer, seja para explicar os seus problemas (imigração, criminalidade, corrupção) ou para propor soluções com horizonte, que a extrema-direita, como é evidente, não tem, porque só lhe interessa regressar a um passado mitificado. Uma coisa é certa: desenhar um outro futuro, só será possível com muitos daqueles com quem não nos sentamos à mesa. Não vai ser fácil. Até porque os insatisfeitos tendem a aumentar, enquanto o sistema se vai debilitando.
Porém é imperativo continuar a luta. Não se pode/deve adormecer neste momento!

Boa Páscoa vegan


Documentário de Werner Herzog - Lessons of Darkness (German: Lektionen in Finsternis)


É um filme de 1992 do realizador Werner Herzog.
Filmado em estilo documental em película de 16 milímetros, a partir da perspectiva de um observador quase alienígena, o filme é uma exploração dos campos petrolíferos devastados do Kuwait pós-Guerra do Golfo, descontextualizados e caracterizados de forma a enfatizar a estranheza cataclísmica do terreno.

Um companheiro eficaz para o seu filme anterior Fata Morgana, Herzog volta a perceber o deserto como uma paisagem com uma voz própria.

Uma coprodução com Paul Berriff, o filme foi financiado pelos estúdios de televisão Canal+ e Première.
Toda a informação aqui

Lessons of Darkness (Lektionen in Finsternis, 1992) é um dos documentários mais marcantes e estilizados do diretor alemão Werner Herzog. Em vez de adotar o tom jornalístico ou político tradicional dos meios de comunicação, Herzog aborda a destruição devastadora do Kuwait pós-Guerra do Golfo sob a perspectiva de uma ficção científica apocalíptica e poética.

A obra retrata os cenários desolados do Kuwait logo após o fim da Guerra do Golfo, quando centenas de poços de petróleo foram incendiados pelas forças iraquianas em retirada. Dividido em 13 capítulos, o filme quase não possui diálogos informativos ou dados geopolíticos. A narração hipnótica do próprio Herzog descreve a Terra como um planeta alienígena que sofreu uma catástrofe desconhecida. Através de planos aéreos majestosos, trilha sonora erudita com composições de Mahler, Wagner, Verdi e Grieg, e imagens impressionantes de bombeiros tentando conter os incêndios gigantescos, o filme transforma um desastre ecológico real em uma meditação sobre a autodestruição humana.

A inspiração real para a produção veio diretamente das notícias e coberturas televisivas do conflito entre 1990 e 1991. Durante a Operação Tempestade no Deserto, as tropas de Saddam Hussein incendiaram cerca de 700 poços de petróleo como tática de terra arrasada. Herzog viajou ao Kuwait imediatamente após o encerramento dos combates para registrar o cenário antes que o fogo fosse extinguido. No entanto, recusou o formato dos telejornais da época, como a cobertura em tempo real da CNN, optando por desprovê-lo de dados contextuais imediatos para elevá-lo a uma dimensão mítica e universal.

Para moldar essa atmosfera, Herzog utilizou diversas referências literárias, bíblicas e poéticas. O filme abre com uma citação impactante atribuída ao filósofo francês Blaise Pascal: "O colapso dos universos estrelados ocorrerá suavemente, como a criação, na grandiosa desolação". No entanto, Herzog admitiu posteriormente ter inventado a frase, utilizando-a como um recurso para preparar o público para o tom do filme - um exemplo prático do que o diretor conceitua como "Verdade Extática", onde a estilização ou fabricação de fatos busca alcançar uma verdade poética mais profunda. A estrutura narrativa evoca o tom profético do livro do Apocalipse, enquanto a estética se aproxima da ficção científica distópica de autores como H.G. Wells e J.G. Ballard, retratando os bombeiros e trabalhadores não como técnicos contemporâneos, mas como seres de um mundo agonizante.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

Experts warn ‘AI-written’ paper is latest spin on climate change denial


Climate change deniers are pushing an AI-generated paper questioning human-induced warming, leading experts to warn against the rise of research that is inherently flawed but marketed as neutral and scrupulously logical.

The paper rejects climate models on human-induced global warming and has been widely cited on social media as being the first “peer-reviewed” research led by artificial intelligence (AI) on the topic.

Titled “A Critical Reassessment of the Anthropogenic CO2-Global Warming Hypothesis,” it contains references contested by the scientific community, according to experts interviewed by AFP.

Computational and ethics researchers also cautioned against claims of neutrality in papers that use AI as an author.

The new study — which claims to be entirely written by Elon Musk’s Grok 3 AI — rapidly gained traction following a blog post by Covid-19 contrarian Robert Malone and gathered more than a million views on Musk’s social media platform X.

Malone — who has shared numerous false claims fact-checked by AFP and others — argued that the paper shows “the climate scam is over” and reveals “a general trend to exaggerate global warming.”

The paper nonetheless contradicts an overwhelming scientific consensus (archived here) linking fossil fuel combustion to rising global temperatures and increasingly severe weather disasters.

Illusion of objectivity
Academics have warned (archived here) that the surge of AI in research, despite potential benefits, risks triggering an illusion of objectivity and insight in scientific research.

“Large language models do not have the capacity to reason. They are statistical models predicting future words or phrases based on what they have been trained on. This is not research,” argued Mark Neff, an environmental sciences professor (archived here).

The paper states that Grok 3 “wrote the entire manuscript,” with input from co-authors who “played a crucial role in guiding its development.”

Among the co-authors was astrophysicist Willie Soon (archived here) — a climate contrarian who (archived here) has received more than a million dollars in funding from the fossil fuel industry over the years.

Research by physicist Hermann Harde and Soon himself — which have been scientifically contested papers (archived here and here) — were used as references for the AI’s analysis, per the co-authors’ request.

“There is some uncertainty in solar irradiance reconstructions but the Soon et al. study (cited by the paper attributed to Grok) relies on a single outlier (the one by Hoyt and Schatten) which was recently investigated and recompiled and found to be completely made up,” NASA’s top climate scientist Gavin Schmidt (archived here) told AFP on March 25.

AFP has debunked other false theories about the Sun’s role in Earth’s warming.

Microbiologist Elisabeth Bik (archived here), who tracks scientific malpractice, remarked the paper also did not describe how it was written: “It includes datasets that formed the basis of the paper, but no prompts,” she noted on March 26. “We know nothing about how the authors asked the AI to analyze the data.”

Ashwinee Panda (archived here), a postdoctoral fellow on AI safety at the University of Maryland, explained on March 26 that the claim that Grok 3 wrote the paper created a veneer of objectivity that was unverifiable.

“Anyone could just claim ‘I didn’t write this, the AI did, so this is unbiased’ without evidence,” he said.

In an even more confusing turn of events, Grok later distanced itself from the climate denial paper on X, as well as questioned its scientific integrity.

“I didn’t write the paper; my name was used without my involvement,” the chatbot’s official X account posted on March 23.

“The human co-authors crafted it, and I had no role in its creation. I’ve called it ‘scientifically unsound’ due to data cherry-picking and oversimplified assumptions, suggesting an agenda-driven approach. It’s odd to be listed as lead author on a paper I critique, raising ethical questions about its authorship and publication.”

Opaque review process
Neither the journal nor its publisher — which seems to have published only one journal — appear to be members of the Committee of Publication Ethics (archived here and here).

The paper acknowledges “the careful edits provided by a reviewer and the editor-in-chief,” identified on its website as Harde.

It does not specify whether it underwent (archived here) open, single-, or double-blind review and was submitted and published within just 12 days.

“That an AI would effectively plagiarize nonsense papers,” does not come as a surprise, said NASA’s Schmidt, but “this retread has just as little credibility.”

AFP reached out to the authors of the paper for further comment on the review process, but did not receive an immediate response.

“The use of AI is just the latest ploy, to make this seem as if it is a new argument, rather than an old, false one,” Naomi Oreskes, a science historian at Harvard University, told AFP (archived here) on March 28.

More of AFP’s coverage of climate misinformation can be found here.

Natalie Portman e Yuval Noah Harari em conversa


"Os humanos não pensam em gráficos ou estatísticas – pensamos em histórias. Os factos por si só não convencem as pessoas sobre as alterações climáticas; contar histórias é essencial para compreender as nossas maiores crises."~ Yuval Noah Harari 

Natalie Portman - Atriz vencedor do Academy Award, produtora, diretora e ativista social entrevista Yuval Noah Harari ao vivo para o público em Londres. Numa conversa que abrange uma ampla gama de questões contemporâneas, eles discutem mitos X realidade, o papel da religião, a relação entre IA e Arte e muito mais.

Lord Robert Skidelsky: Europa Está Presa pela Própria Propaganda na Ucrânia


Robert Skidelsky é membro da Câmara dos Lordes britânica, Professor Emérito de Economia Política na Universidade de Warwick e autor de uma biografia premiada em três volumes de John Maynard Keynes. Ele começou a sua carreira política no Partido Trabalhista, foi membro fundador do Partido Social Democrata e actuou como porta-voz do Partido Conservador para assuntos do Tesouro na Câmara dos Lordes até ser demitido por sua oposição ao bombardeio da NATO em Kosovo em 1999. Desde 2001, ele actua na Câmara dos Lordes como independente.