Em cada 1º dia de Janeiro, crio uma lista de objectivos e medito sobre este dia, Dia Mundial da Paz. Preencho o dia escutando música. A música, independentemente do estilo, oferece uma playlist de aprendizado e reflexão. Cada canção ajuda-nos a perceber diferentes dimensões da paz: a empatia, a atenção ao mundo, a consciência da memória ecológica, a capacidade de escutar e respeitar o espaço do outro, e a necessidade de transformação pessoal e colectiva. Aqui segue o texto e a minha sugestão de playlist.
Paz ecológica e paz interior
Quando pensamos em paz, muitas vezes imaginamos apenas a ausência de guerra. Mas a paz é também a capacidade de habitar o mundo sem o ferir e de habitar-nos sem ruído excessivo. Em tempos de crises ecológicas e sociais, aprender a escutar tornou-se uma prática ética, quase revolucionária.
O pós-punk, nascido da fratura e da inquietação urbana, pode parecer sombrio à primeira audição. Mas é precisamente aí que mora a sua lição: recusar o excesso, escutar o vazio e sentir a tensão antes que ela se torne destruição. Entre riffs secos e atmosferas introspectivas, encontramos ensinamentos sobre respeito ao mundo e a nós mesmos.
A música pode refletir a terra ferida e a memória do que perdemos. Canções como “Cities in Dust” dos Siouxsie and the Banshees lembram-nos que civilizações desaparecem, mas deixam vestígios que não podemos ignorar. “Requiem” do Killing Joke é um grito diante do colapso ambiental e social, enquanto “A Forest” do The Cure transforma a natureza em labirinto, mostrando-nos que quando nos perdemos, percebemos a importância da atenção e do cuidado. A paz ecológica é, assim, reconhecer os limites antes que seja tarde demais.
O silêncio e o espaço são fundamentais tanto na música quanto na natureza. Álbuns como “Spirit of Eden” do Talk Talk respiram, respeitam o tempo e o espaço entre as notas — como um ecossistema saudável. Canções como “The Colour of Spring” de Mark Hollis mostram a fragilidade e a atenção às nuances, lembrando-nos da interdependência do mundo natural. E “An Ending (Ascent)” de Brian Eno cria uma paisagem sonora que coexiste sem dominar, ensinando que escutar é, de fato, um ato ecológico.
A paz do mundo começa na paz do indivíduo. Joy Division, em “Atmosphere”, convida-nos a caminhar com cuidado entre os outros, reconhecendo limites e espaço alheio. “Silent Air” do The Sound faz do ar uma metáfora de equilíbrio interior: invisível, mas essencial. E “Faith” do The Cure mostra que aceitar a fragilidade é uma forma de resistência, uma paz construída dentro de nós mesmos.
Mesmo na melancolia do pós-punk, há sinais de reconciliação e esperança. “I Believe in You” do Talk Talk funciona como uma oração laica, celebrando a vida e a esperança. “Second Skin” dos Chameleons lembra-nos da necessidade de transformação e adaptação, como a própria natureza nos ensina.
Em última análise, a paz, seja ecológica ou interior, não se proclama: pratica-se. Nas nossas escolhas, na forma como caminhamos pelo mundo, como consumimos e até como ouvimos música, reside o poder de transformação. O pós-punk, com a sua intensidade e sensibilidade, ensina que menos ruído é mais sentido, e que talvez a revolução mais urgente seja voltar a ouvir o mundo antes que ele se cale.
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