sábado, 8 de agosto de 2026

Lebanon Hanover - Babes of the 80s (She Past Away Remix)


Eco de Néon e Decadência: a convergência sombria entre Lebanon Hanover, She Past Away e Last Night in Soho
A interseção entre a música dos Lebanon Hanover, remisturada pelos She Past Away, e o filme Last Night in Soho (2021) representa uma convergência estética fascinante onde a melancolia, o romantismo sombrio e a nostalgia perversa se encontram num diálogo contínuo.

Sonoramente, a faixa enquadra-se no universo da música alternativa underground, cruzando o darkwave, o coldwave e o post-punk. A versão original dos Lebanon Hanover- duo formado em 2010 pela vocalista e guitarrista suíça Larissa Iceglass e pelo baixista e vocalista britânico William Maybelline - destaca-se pelo seu minimalismo cru, linhas de baixo pulsantes e uma atmosfera gelada. Contudo, ao ser remisturada pela banda turca She Past Away (liderada por Volkan Caner), a canção ganha uma roupagem marcadamente gothic rock e synthwave, adicionando sintetizadores densos, ritmos dançáveis de caixas de ritmo retro e uma cadência magnética, tipicamente herdada da vaga dos anos 1980. A escolha de She Past Away para remisturar "Babes of the 80s" assenta na mestria da dupla turca em injetar uma energia dançável e uma produção obscura sem perder a essência melancólica original, transformando a ode nostálgica num verdadeiro hino para as pistas de dança góticas contemporâneas.

A nível conceptual, o universo dos Lebanon Hanover bebe diretamente de influências literárias e filosóficas profundas. No plano filosófico, destaca-se o Existencialismo de Jean-Paul Sartre e Albert Camus, visível na tematização do absurdo, do isolamento do indivíduo e do peso da liberdade numa sociedade alienante. Encontra-se também uma forte marca do Niilismo de Friedrich Nietzsche e da perspetiva do pessimismo filosófico de Arthur Schopenhauer, em que o sofrimento e a futilidade da existência são encarados de frente.

No âmbito literário, a estética da banda inspira-se no Romantismo Obscuro (Dark Romanticism) de autores como Edgar Allan Poe, explorando o macabro, a vulnerabilidade psicológica e a obsessão pela morte. Há igualmente uma herança direta do Decadentismo do século XIX, evocando poetas como Charles Baudelaire (As Flores do Mal) no retrato da decadência urbana, da melancolia e da busca obsessiva por uma beleza trágica. A poesia da Beat Generation e o isolamento romantizado da literatura gótica clássica terminam de moldar letras que expressam uma forte anomia social, a rejeição do consumismo moderno e a romantização contínua de um passado irrecuperável.

É precisamente este pilar temático que cria uma ponte indissociável com Last Night in Soho, o thriller psicológico realizado por Edgar Wright. O filme acompanha Eloise (Thomasin McKenzie), uma jovem aspirante a estilista obcecada pelos anos 60 que viaja no tempo e vive a vida de Sandie (Anya Taylor-Joy), uma cantora da época, apenas para descobrir que o glamour do passado esconde uma realidade sórdida de exploração e trauma.

O terror psicológico em Last Night in Soho nasce do desmantelamento da mente da protagonista, Ellie, à medida que a sua obsessão pelo passado deixa de ser um refúgio e se transforma num pesadelo invasivo. Ao contrário do terror tradicional baseado apenas em monstros ou violência física, o filme de Edgar Wright constrói o medo através do confronto constante da personagem com a sua própria perceção, a herança do trauma e a perda de controlo sobre a realidade.

Em primeiro lugar, o terror manifesta-se na dissolução das fronteiras entre a ilusão e o mundo real. Inicialmente, as viagens de Ellie até aos anos 1960 acontecem apenas nos seus sonhos, mas a linha que separa a vigília do sono esbate-se rapidamente. As visões de Sandie e dos homens sem rosto começam a invadir a sua vida quotidiana em pleno dia - em reflexos de espelhos, nas aulas da faculdade ou no local de trabalho. A incapacidade de confiar nos próprios sentidos gera uma paranoia sufocante, intensificada pelo trauma intergeracional e pela herança de doença mental. Sabendo que a sua mãe sofria de esquizofrenia e cometeu suicídio após ter visões, Ellie vive num estado permanente de dúvida interior, questionando se está verdadeiramente a testemunhar eventos sobrenaturais ou se está a sucumbir à mesma espiral de loucura que destruiu a sua família.

Além disso, a empatia obsessiva de Ellie por Sandie transforma-se numa experiência traumática na primeira pessoa. Ellie não é uma mera espectadora do passado; ela absorve e sente o medo, a manipulação e a exploração que Sandie sofreu no meio noturno de Soho. O terror surge quando se percebe presa à tragédia de outra mulher, revivendo abusos sem qualquer poder para intervir ou salvar a vítima.

Por fim, o filme utiliza a desconstrução da nostalgia como a sua maior armadilha psicológica. A idealização romântica dos Swinging Sixties revela-se um ambiente claustrofóbico e de pesadelo. O horror psicológico atinge o seu auge quando a estética vibrante, a música estimulante e as luzes de néon passam a representar a fachada de uma rede sórdida de exploração e violência, transformando o sonho dourado de Ellie numa prisão assombrada pelos fantasmas do passado.

A razão pela qual os fãs editam music videos não oficiais cruzando esta remistura com imagens do filme reside na ressonância temática e estética perfeita entre ambas as obras. Por um lado, existe a crítica à nostalgia perigosa: a letra de "Babes of the 80s" ironiza e lamenta a fascinação romantizada por uma década passada, enquanto no filme Eloise sofre da mesma obsessão em relação aos anos 60, com ambas as obras a desmistificarem a ideia de que o passado era uma época dourada. Por outro lado, a sonoridade soturna e sensual do remix espelha a estética visual do filme - dominada por luzes de néon vermelhas e azuis, sombras, espelhos e uma atmosfera de pesadelo elegante. Finalmente, o ritmo hipnótico e dançável dos She Past Away encaixa perfeitamente nas sequências de clube, dança e alucinação do filme, acentuando a transição da euforia para a paranoia. Um fã decide criar este tipo de edição para materializar visualmente o sentimento que a música evoca, criando uma narrativa visual simbiótica onde a ilusão, a decadência urbana e o terror psicológico ganham uma nova camada de intensidade poética.

Sobre o Filme


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Melhor som aqui

Aqui estão algumas das faixas autorais mais marcantes em que Tobias Bernstrup assume os vocais com a sua voz grave e dramática, acompanhadas pelos respetivos links para ouvir no YouTube:
  1. Tobias Bernstrup - 27 (Laser Mix) - Um dos seus maiores clássicos. É uma faixa vibrante de Italo Disco e synth-pop, recheada de arpejos marcantes e vocais expressivos. (A versão em italiano chama-se "Ventisette").
  2. Tobias Bernstrup - 1984 - Inspirada na atmosfera distópica e sombria do livro de George Orwell, mistura vocais graves com uma linha de sintetizador melancólica e futurista.
  3. Tobias Bernstrup - Private Eye - Com uma sonoridade que remete para as bandas sonoras retrofuturistas de suspense e film noir, destaca-se pelo clima cinematográfico e vocal envolvente.
  4. Tobias Bernstrup - Videodrome - Com referências ao cinema de terror dos anos 80, esta faixa autoral traz batidas enérgicas de synthwave e vocais teatrais.
  5. Tobias Bernstrup - Utopia (Italoconnection Remix) -  Uma das suas faixas mais celebradas na cena eletrónica/synth-pop, muito tocada em pistas e por DJs da cena alternativa.
  6. Tobias Bernstrup - Moments Lost - Do álbum Romanticism, é uma música com uma cadência mais melancólica, evidenciando o tom de voz sombrio e sentimental do artista.

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