O filme Last Night in Soho (2021), realizado por
Edgar Wright e coescrito por
Krysty Wilson-Cairns, estrutura-se como um thriller psicológico profundamente interdisciplinar que entretece a estética do terror com reflexões sobre a memória, o trauma e a obsessão.
Sinopse
O thriller psicológico realizado por Edgar Wright, ironiza e lamenta a fascinação romantizada por uma década passada. O filme acompanha Eloise (Thomasin McKenzie), uma jovem aspirante a estilista obcecada pelos anos 60 que viaja no tempo e vive a vida de Sandie (Anya Taylor-Joy), uma cantora da época, apenas para descobrir que o glamour do passado esconde uma realidade sórdida de exploração e trauma.
O terror psicológico em Last Night in Soho nasce do desmantelamento da mente da protagonista, Ellie, à medida que a sua obsessão pelo passado deixa de ser um refúgio e se transforma num pesadelo invasivo. Ao contrário do terror tradicional baseado apenas em monstros ou violência física, o filme de Edgar Wright constrói o medo através do confronto constante da personagem com a sua própria perceção, a herança do trauma e a perda de controlo sobre a realidade.
Em primeiro lugar, o terror manifesta-se na dissolução das fronteiras entre a ilusão e o mundo real. Inicialmente, as viagens de Ellie até aos anos 1960 acontecem apenas nos seus sonhos, mas a linha que separa a vigília do sono esbate-se rapidamente. As visões de Sandie e dos homens sem rosto começam a invadir a sua vida quotidiana em pleno dia - em reflexos de espelhos, nas aulas da faculdade ou no local de trabalho. A incapacidade de confiar nos próprios sentidos gera uma paranoia sufocante, intensificada pelo trauma intergeracional e pela herança de doença mental. Sabendo que a sua mãe sofria de esquizofrenia e cometeu suicídio após ter visões, Ellie vive num estado permanente de dúvida interior, questionando se está verdadeiramente a testemunhar eventos sobrenaturais ou se está a sucumbir à mesma espiral de loucura que destruiu a sua família.
Além disso, a empatia obsessiva de Ellie por Sandie transforma-se numa experiência traumática na primeira pessoa. Ellie não é uma mera espectadora do passado; ela absorve e sente o medo, a manipulação e a exploração que Sandie sofreu no meio noturno de Soho. O terror surge quando se percebe presa à tragédia de outra mulher, revivendo abusos sem qualquer poder para intervir ou salvar a vítima.
Por fim, o filme utiliza a desconstrução da nostalgia como a sua maior armadilha psicológica. A idealização romântica dos Swinging Sixties revela-se um ambiente claustrofóbico e de pesadelo. O horror psicológico atinge o seu auge quando a estética vibrante, a música estimulante e as luzes de néon passam a representar a fachada de uma rede sórdida de exploração e violência, transformando o sonho dourado de Ellie numa prisão assombrada pelos fantasmas do passado.
A Hauntologia de Soho - uma leitura médica, social e filosófica do filme
No âmbito filosófico, a obra opera uma desconstrução crítica da nostalgia ao alinhar-se com os conceitos de hauntologia - a assombração do presente pelas ilusões do passado - e com as teorias de Svetlana Boym sobre a nostalgia restaurativa versus reflexiva, desmistificando o mito idílico da "Swinging London" para expor a misoginia e a exploração subjacentes. Em consonância com a teoria crítica feminista, a narrativa aborda a reificação do corpo feminino pela indústria do entretenimento e desafia perspetivas morais maniqueístas, questionando a fronteira entre a condição de vítima e a de algoz no desfecho da história.
No domínio da saúde mental, a fita mobiliza quadros da neuropsiquiatria como motores da tensão e do isolamento. A sensibilidade empática e a sinestesia da protagonista Eloise articulam-se com a herança psiquiátrica de uma mãe vitimada pela psicose, gerando um constante estado de paranoia em torno da dúvida entre o discernimento da realidade e o início de um surto. Paralelamente, a trajetória da personagem Sandie reflete o impacto do trauma complexo (C-PTSD) e da violência sistémica, demonstrando a dissociação como mecanismo de defesa da identidade, enquanto a fixação pela década de 1960 surge como uma resposta de esquiva cognitiva e negação da adaptação ao presente.
A dimensão musical do filme funciona como a ponte sensorial entre a filosofia da memória e a saúde mental da protagonista. A banda sonora dos anos 60 não serve apenas de adorno de época, mas atua como um gatilho auditivo que desencadeia os episódios de imersão e dissociação. A música molda o ritmo das alucinações, transformando canções pop aparentemente ingénuas em ecos assustadores de uma época marcada pelo trauma, onde o ritmo auditivo dita a espiral de degradação psicológica de Eloise.
Sobre o Filme
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