quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Suicídio na Medicina Veterinária e a Injustiça do IVA: Por Que Racionalizamos a Tauromaquia e Penalizamos a Saúde Animal?

Sabia que os médicos veterinários integram a classe profissional com uma das mais elevadas taxas de prevalência de suicídio? De acordo com estudos sistemáticos sobre a saúde mental na profissão, os médicos veterinários apresentam uma taxa de risco de suicídio estimada em cerca de duas vezes a de outros profissionais de saúde e até quatro vezes superior à da população em geral (ver investigação publicada no Frontiers in Veterinary Science).

Longe de ser uma mera reação emocional ao desgaste de lidar com a perda de animais, esta realidade assenta em graves fatores estruturais: jornadas de trabalho exaustivas e desreguladas, salários cronicamente baixos, precariedade laboral generalizada, dilemas éticos constantes em torno da eutanásia e o acesso facilitado a substâncias letais de uso clínico. Em Portugal, a dimensão do problema é corroborada por estudos dedicados especificamente à classe profissional nacional, como o artigo publicado no Archives of Suicide Research, que analisa a elevada incidência de burnout, fadiga por compaixão e ideação suicida entre médicos veterinários, enfermeiros e assistentes.

A somar a isto, os profissionais enfrentam diariamente a pressão acrescida das expectativas irrealistas dos tutores e o peso financeiro que recai sobre quem procura cuidados de saúde para os seus animais. Trabalhos académicos internacionais, como as investigações da Centers for Disease Control and Prevention (CDC / JAVMA), sublinham que a exposição contínua ao stresse financeiro dos clientes e à angústia dos conflitos de custos de tratamento é um dos principais preditores de degradação da saúde mental nesta área.

A pesquisa VetsSurvey de 2021 concluiu que Portugal é o país do mundo com o maior nível de estresse na área veterinária, atingindo cerca de 87% dos profissionais. Argentina (79%), Brasil (74%), Estados Unidos (71%) e Reino Unido (70%) vieram em seguida. A média mundial ficou em 65%.

É neste ponto que a disparidade fiscal do país se torna gritante e eticamente indefensável: enquanto os tratamentos e cuidados de saúde veterinária - essenciais para o bem-estar animal e para a saúde pública - continuam sobrecarregados com a taxa máxima de IVA (23%), os espectáculos de tauromaquia beneficiam de uma taxa reduzida de 6%.

Trata-se de uma inversão absurda de prioridades. Prioriza-se fiscalmente a tortura pública e o entretenimento à custa do sofrimento animal em detrimento da saúde, da medicina veterinária e das famílias que tentam garantir uma vida digna aos seus animais de companhia. A aplicação da taxa de IVA de 6% aos cuidados veterinários não é apenas uma medida de justiça social e económica; é uma urgência ética que apoia os tutores, valoriza o trabalho dos veterinários e deixa de subsidiar o anacronismo da violência tauromáquica — uma reivindicação alinhada com as posições públicas da
Ordem dos Médicos Veterinários (OMV), que defende o enquadramento dos cuidados animais no conceito global de "Uma Só Saúde" (One Health).

Assina e divulga a petição

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