domingo, 4 de outubro de 2026

Helena Freitas: a ciência por uma agenda de paz


A doutora em Ecologia e titular da Cátedra UNESCO em Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável ensina-nos como a transição energética, a produção de alimentos e a regeneração dos ecossistemas se relacionam com a igualdade.

As videiras subiam vertiginosamente e, ao passarem de uma à outra pelos ramos das árvores, estendiam as suas folhagens ao longo dos muros daquele sítio. Nos campos, entre montes e vales, crescia o milho na lavoura. Nos limites orientais de Vila Nova de Famalicão, corria o Pele e, nas suas margens, avançava uma indústria têxtil que então já completava um século de existência. Na década de 60, o Minho começava a repartir-se entre o campo e a urbe, enquanto novas fábricas abriam um futuro diferente à terra. Foi ali, onde uma natureza ainda selvagem se confundia com o quotidiano suado dos agricultores e operários, que nasceu a doutora Helena Maria de Oliveira Freitas (Mogege, 1962).

Esse ambiente haveria de permanecer, não apenas na sua memória, mas também como fonte do ímpeto que mais tarde levaria a cientista a investigar os mecanismos de funcionamento dos sistemas vivos. Ao relembrar a infância em busca das razões que a levaram a ser a mulher que se tornou, não escolhe, porém, a natureza como primeira inspiração. No seio da família, recebeu o carinho e o incentivo para viajar e explorar o mundo, crescer e indagar, uma liberdade que identifica como a razão mais profunda da sua trajectória. “Tive sempre um universo de muito amor à minha volta”, conta.

Ainda criança, passou dois anos em Angola, de onde recorda poucas coisas. A educação católica, vivida sem rigidez, e a prática do basquetebol deixaram-lhe marcas distintas. Da primeira, ficou-lhe a busca de um sentido de humanidade. Da segunda, o gosto pelo fazer colectivo. “Eu sempre gostei de construir e de trabalhar em equipa”, recorda. Mais adiante, a Biologia, que acreditava ser a ciência do século seguinte, apresentou-se como resposta à curiosidade que a movia: desvendar a lógica da vida.

Cresceu ao lado do Mondego, onde concluiu a licenciatura em Biologia na Universidade de Coimbra, em 1985. Antes de terminar o curso, já era monitora nas aulas práticas de Ecologia Vegetal. Passou a assistente estagiária, depois a assistente, e começou a ensinar Fisiologia Vegetal enquanto avançava na investigação. O doutoramento em Ecologia, concluído em 1993, em colaboração com a Universidade de Bielefeld, na Alemanha, levou-a a estudar os tricomas vesiculares de plantas do género Atriplex, estruturas foliares de espécies tolerantes à salinidade. Esse objecto microscópico continha uma pergunta. Como consegue a vida responder quando o ambiente a põe à prova? Vieram os sais, os metais, a contaminação do solo, a adaptação ao stress e a possibilidade de aprender com organismos resistentes para recuperar sistemas degradados.

“Eu sou uma fisiologista”, diz, quando perguntada sobre as mudanças no seu percurso científico. Não reconhece, porém, verdadeiras rupturas. A ecologia ajudava-a a formular os problemas; a fisiologia permitia-lhe procurar explicações. A ciência experimental, afirma, foi “vital”. Mais tarde, o campo de observação cresceria até às comunidades humanas, porque conservar a natureza sem as considerar se lhe tornara impossível.

As escalas da vida
Entre 1994 e 1996, o pós-doutoramento na Universidade de Stanford levou-a ao estudo dos efeitos ecofisiológicos do aumento do dióxido de carbono nos ecossistemas mediterrânicos. Trouxe daí uma convicção que transmitiria aos alunos. Quem investiga deve sair do próprio laboratório, conhecer outras culturas científicas, confrontar métodos e aprender a construir respostas com pessoas diferentes.

Em 1999, integrou a equipa internacional que publicou na Science um trabalho de referência sobre diversidade e produtividade em comunidades herbáceas europeias. Experiências em oito locais mostraram que a redução da riqueza de espécies fazia cair a biomassa produzida e, para o mesmo número de espécies, menos grupos funcionais estavam associados a menor produtividade. A biodiversidade deixava de aparecer apenas como património a conservar e mostrava consequências mensuráveis no funcionamento dos ecossistemas.

Das plantas passou às relações entre raízes, fungos e bactérias, à fitorremediação de solos contaminados, aos montados, às dunas, às espécies invasoras, à biodiversidade do solo, às alterações climáticas, à conservação e, mais recentemente, à agroecologia, aos sistemas alimentares e às relações entre conhecimento, natureza e sociedade. Foi aumentando a escala: da folha à planta, desta ao ecossistema, daí à paisagem e à humanidade. Em 2026, soma mais de 300 publicações científicas internacionais e mantém intensa actividade de investigação.

Quando lhe pedem os nomes mais importantes da sua caminhada, não começa pelos grandes mestres nem pelas instituições. “Os mais decisivos foram sempre os meus alunos”, responde. Junta-lhes investigadores, colaboradores e equipas que, diz, a ajudaram “a viver o caminho”. Reconhece neles uma fonte de aprendizagem e inspiração.

Em 2003, tornou-se professora catedrática. No ano seguinte, assumiu a direcção do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra e a presidência da Sociedade Portuguesa de Ecologia. Seria ainda vice-presidente da Federação Europeia de Ecologia. É ao Jardim que regressa com particular afeição: a renovação daquele espaço, diz, foi “uma das experiências mais importantes” da sua vida académica.

Criou uma unidade dedicada à matriz ecológica, o actual Centro de Ecologia Funcional, reunindo investigadores de diferentes áreas em torno de problemas multidisciplinares. Entre 2011 e 2015, foi vice-reitora da Universidade de Coimbra e, em 2014, tornou-se titular da Cátedra UNESCO em Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável. “Entendi que também tinha a obrigação de participar e dar algum tempo para essa missão”, conta.

O dever de participar
Em 2015, foi eleita pelo círculo de Coimbra como independente nas listas do Partido Socialista e tornou-se deputada à Assembleia da República. Explica a decisão pelo que observara durante os anos da intervenção da troika, considerando que “a ciência, a academia e as universidades tinham sido duramente penalizadas”, num momento que julgava crítico para o país.

Em 2016, suspendeu o mandato parlamentar para coordenar a Unidade de Missão para a Valorização do Interior. A desigualdade territorial e social interpelava-a de outro modo. Populações afastadas de serviços, dificuldades no acesso à saúde e à educação, territórios que perdiam gente e oportunidades. Coordenou o Programa Nacional para a Coesão Territorial, mas depressa encontrou os limites da função. Diz ter percebido que “não tinha as condições materiais e políticas” para realizar a missão como desejava. “Achei que era mais útil fora do projecto”.

Distinguida com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique, o Prémio Ernst Haeckel da Federação Europeia de Ecologia e o Grande Prémio Ciência Viva, ela completou anos na última quinta-feira. No dia seguinte, descreveu como uma “prenda inesperada e feliz” a oportunidade de estar com o Papa Leão XIV na UNESCO, em Paris. Reconhece no pontífice uma preocupação que também a move: transformar a relação das sociedades com o mundo natural. Para ela, a transição energética, a produção de alimentos e a regeneração dos ecossistemas são inseparáveis da igualdade.

Da natureza do Minho à ciência de Coimbra, a sua trajectória alargou-se, mas, quando explica o que a move, regressa à família e ao muito que dela recebeu. O amor e a liberdade da infância trouxeram, no seu entendimento, a responsabilidade de fazer frutificar o que lhe foi confiado. A ciência, a docência e a participação pública são formas de retribuir. Como as árvores do Norte em que as videiras se apoiam, a doutora Helena Freitas tem ajudado a fazer do conhecimento um amparo para que outras vidas floresçam. “A agenda ambiental é uma agenda de paz”, ensina.

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