Donald Trump voltou a criticar os carros elétricos, chamando recentemente os seus condutores de "doentes" e "loucos". O presidente dos Estados Unidos da América referiu-se à chamada "ansiedade de autonomia".
No ano passado, Donald Trump acabou com os incentivos fiscais à aquisição de carros elétricos nos Estados Unidos da América, começando a desviar a eletrificação do panorama automóvel do país.
Num
recente discurso em Las Vegas, transmitido pela NBC News, o presidente norte-americano começou por falar do fim do chamado "mandato elétrico": "A esquerda radical quer banir uma coisa chamada gasolina. Temos 100 anos de gasolina e é o que as pessoas preferem. Eu terminei com o mandato elétrico. Não quero falar sobre isto porque o Elon [Musk] não ficou propriamente emocionado comigo, mas tive de o fazer. Terminei porque dizia que, num período de tempo muito curto - 2030 - todos teriam de ter um carro elétrico apesar de não haver forma de o carregar".
Importa salientar que o "mandato elétrico" a que Donald Trump se referiu trata-se do conjunto de medidas da administração de Joe Biden para fomentar a adoção de veículos eletrificados - sem, no entanto, impor qualquer obrigação de comprar este tipo de automóveis.
Seguiram-se, então, as críticas aos condutores de carros elétricos, em particular por causa da ansiedade de autonomia: "Já viram os sinais de estar a conduzir um carro elétrico? Eles são doentes, é uma doença. As pessoas estão a conduzir e percebem que a bateria está a ficar com pouca carga, e começam a pensar nisso. Tem três quartos da carga, perde um bocado. Perguntam para onde estão a ir, estão a conduzir na autoestrada e veem uma estação de carregamento com uma seta de 143 km à direita. Estas pessoas são loucas".
A ansiedade de autonomia é o fenómeno de ficar apreensivo com a possível insuficiência de carga para chegar a um determinado destino, não havendo como recarregar entretanto. Mas têm vindo a surgir mais postos de carregamento (ainda que a um ritmo não uniforme). Nos EUA, ainda não há uma disponibilidade tão generalizada fora dos centros urbanos. Ainda assim, a capacidade das próprias baterias tem aumentado, permitindo percorrer mais quilómetros.
Sobre o tema, Donald Trump referiu ainda: "Eu gosto de carros elétricos, vendemos sete por cento [de carros elétricos] apesar de todos os impostos e tudo o que cedemos. Sete por cento. Mas a questão é que temos mais petróleo e gasolina do que qualquer outro país do mundo".
1. Nunca existiu um "mandato elétrico e Trump volta a falar para o seu eleitorado mais conservador, republicano, nacionalista e MAGA
Este discurso de Donald Trump insere-se numa estratégia política, económica e ideológica contínua que reflete as prioridades centrais da sua administração para o setor energético e industrial. A narrativa em torno do alegado fim do "mandato elétrico" é, na sua essência, um exercício de comunicação política que contrapõe a retórica à realidade legislativa do país. Embora a administração afirme ter acabado com uma imposição federal que obrigaria todos os americanos a adquirir carros elétricos,
a verdade é que nunca existiu uma lei com esse teor nos Estados Unidos. Durante o mandato de Joe Biden, o quadro regulatório assentava, antes, na definição de metas rigorosas de emissões por parte da
U.S. Environmental Protection Agency (EPA) e na atribuição de incentivos fiscais - como o crédito de 7.500 dólares previsto na legislação do
Internal Revenue Service (IRS) - desenhados para estimular a produção e a renovação da frota automóvel. Ao revogar estes incentivos, flexibilizar as exigências ambientais e contestar judicialmente as normas estaduais mais estritas, como as impostas pela
California Air Resources Board (CARB), a administração procura redefinir os rumos do mercado automóvel nacional.
Esta posição apoia-se diretamente na defesa intransigente das indústrias tradicionais de petróleo e gás através da bandeira popularizada como "Drill, Baby, Drill". O programa económico prioritário sustenta que a transição forçada para as energias renováveis encarece os custos energéticos e fragiliza a competitividade global da indústria americana. Ao destacar que os Estados Unidos possuem reservas substanciais e "combustível para mais de cem anos", conforme reportado por órgãos como a NBC News e documentado pela U.S. Energy Information Administration (EIA), procura-se mobilizar diretamente a classe trabalhadora ligada à extração energética e ao fabrico de motores de combustão interna no ecossistema industrial norte-americano.
Paralelamente, o discurso explora de forma calculada os receios pragmáticos do eleitorado, recorrendo à sátira em torno da chamada "ansiedade de autonomia". Ao ridicularizar as preocupações com o carregamento das baterias, a retórica liga-se ao ceticismo dos cidadãos que residem no interior do país, onde a infraestrutura de carregadores rápidos gerida pelo Federal Highway Administration (FHWA) ainda apresenta descontinuidade e desafios logísticos. Esta abordagem tira partido das limitações reais vivenciadas na fase inicial de adoção da tecnologia - como os tempos de espera e a disponibilidade de postos de carregamento - para colocar em causa a viabilidade geral da eletrificação de massas.
No plano empresarial e institucional, a postura da administração reflete uma relação complexa e cheia de ambiguidades com a indústria automóvel. Se, por um lado, existe uma proximidade e alinhamento público com líderes da inovação como Elon Musk e a Tesla no plano do empreendedorismo privado, por outro, mantém-se uma recusa perentória em conceder subsídios estatais que beneficiem o setor. Esta orientação responde de perto aos apelos dos construtores tradicionais de Detroit, como a Ford e a General Motors, que têm enfrentado pressões significativas sobre as suas margens de lucro e uma desaceleração no crescimento da procura por veículos 100% elétricos, optando por reorientar os seus investimentos estratégicos para soluções híbridas.
Por fim, o tema do tipo de automóvel transformou-se num vetor central da "guerra cultural" que divide a política americana contemporânea. Conforme analisam diversos estudos publicados por centros de investigação como o Pew Research Center, os veículos elétricos tornaram-se símbolos associados às elites urbanas e às agendas progressistas de transição ecológica, enquanto os motores a combustão continuam a ser defendidos como um baluarte da liberdade individual, da autossuficiência e da identidade cultural do interior dos Estados Unidos.
2. Geopolítica da mobilidade: o triângulo estratégico entre a transição energética da China, o petróleo iraniano e a segurança nacional
Para compreender como o discurso sobre o fim do "mandato elétrico" nos EUA se cruza com a geopolítica do Irão e o domínio industrial da China, é preciso analisar a convergência entre a indústria automóvel, a produção de energia e a segurança nacional.
A China consolidou a sua posição como a líder incontestável no mercado global de veículos elétricos. Empresas chinesas como a BYD e a gigante de baterias CATL não só dominam a produção de veículos, como controlam quase 80% do processamento mundial dos minerais críticos essenciais para esta tecnologia, como o lítio e o cobalto. De acordo com relatórios da Agência Internacional de Energia (AIE), a aposta massiva de Pequim na eletrificação automóvel visou dois objetivos principais: liderar a próxima revolução industrial e reduzir a dependência nacional do petróleo importado do Médio Oriente.
É neste ponto que entra a ligação ao Irão. Como maior importador de crude do mundo, a China compra volumes significativos de petróleo iraniano - frequentemente transacionados fora dos circuitos bancários ocidentais devido às sanções impostas pela U.S. Department of the Treasury. Para a estratégia de Pequim, transitar a sua frota interna para energia elétrica significa enfraquecer a sua vulnerabilidade a eventuais bloqueios no Estreito de Ormuz, a rota marítima vital do Médio Oriente por onde circula grande parte do petróleo mundial.
Por outro lado, a perspetiva expressa em intervenções públicas como as da NBC News reflete uma abordagem oposta da política norte-americana. Ao rejeitar os subsídios e as metas de emissões associadas aos veículos elétricos, a narrativa de "dominância energética" argumenta que acelerar a transição ecológica forçada exporia os EUA a uma dependência crítica das cadeias de fornecimento chinesas. Em alternativa, defende-se o aumento da produção de crude nacional através do U.S. Energy Information Administration (EIA), utilizando as vastas reservas americanas de combustíveis fósseis para estabilizar os preços e contrariar o impacto económico de crises geopolíticas no Médio Oriente.
Sem comentários:
Enviar um comentário