"Tenho assistido ao crescimento de uma crise que é interior... e de estado mental e emocional. Estudos recentes mostram um crescimento considerável de doenças do foro mental, com um forte destaque para a depressão. O nosso País é o quinto da Europa que tem mais problemas desse tipo e isto traduz um fracasso da civilização, que é construída por todos nós, com o objectivo de nos tornar mais felizes, com mais bem-estar, mais segurança e mais conforto, e isso parece estar a falhar. Isso traduz-se também num mal-estar interior e não apenas mal-estar social e político. Muitas vezes, não se dá a devida importância a isto. Todavia, é a partir desse mal-estar interior que vem tudo o resto. Construímos uma civilização que nos pesa e que não corresponde aos objectivos para os quais a criámos. Isto traduz-se numa outra forma evidente de mal-estar interior que é a falta de sentido prático e de propósito. Não pretendo generalizar, mas há uma tendência preocupante nas gerações mais jovens de "não saber muito bem o que se está a fazer no mundo". Na semana passada, no jornal Público, saiu um estudo que refere que cerca de um terço dos jovens portugueses não gosta e não se sente bem na escola. Sentem-se cansados e exaustos, não apreciam o que estão lá a fazer. Este é mais um sinal de fracasso da civilização. Creio que, em muitos países da Europa e, provavelmente, do Mundo, a escola está a falhar na sua missão de dar às novas gerações um sentido para a vida. É uma questão que, infelizmente, se irá agravar, embora isto não queira dizer que não existam forças e movimentos em sentido contrário. Há cada vez mais pessoas a procurar um sentido profundo para a vida e creio que há um crescimento no interesse pela espiritualidade, que não tem a ver com uma religião em particular, mas que é uma busca por um sentido espiritual. Uma procura de maior atenção para o que se passa dentro de nós. A Universidade Católica Portuguesa fez um estudo na área da grande Lisboa que mostrou que a população que se assume como católica está a baixar em número e outras religiões estão a ganhar força, mas o que está a crescer mais, já na ordem dos 13,1%, é o número de pessoas que se sentem crentes, mas sem uma religião específica. Têm uma referência ou procuram um sentido espiritual para a vida, mas não se reconhecem em nenhuma das religiões tradicionais.
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Além disto, nos tempos que se aproximam, parece-me inevitável que iremos passar por mais dificuldades em termos ambientais. Alguns Governos começam a dar sinais de, finalmente, terem tomado alguma consciência do estado desastroso em que estamos nesse capítulo e fala-se agora, na União Europeia da proibição iminente dos plásticos descartáveis. Há, desde há alguns anos, e Portugal tem sido pioneiro, um maior interesse pelas energias renováveis, mas tudo isto, dizem os relatórios científicos isentos, é muito pouco para se travar a corrida para o iminente colapso ambiental, sobretudo quando, nas cimeiras, não se chega a conclusões e medidas drásticas que são necessárias para parar este comboio descontrolado. Tudo leva a crer que as alterações climáticas continuarão a acontecer e que continuaremos a destruir a biodiversidade, as florestas e a poluir os solos e os rios. Esta civilização Ocidental, que surgiu a partir da Modernidade e das várias Revoluções Industriais e que, agora, se tornou global, é produtivista e industrialista. Há, entre nós, o mito do crescimento económico infinito e ilimitado, custe o que custar.
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Claro que, pela positiva, há cada vez mais consciência de tudo isto. A comunicação social também começa a dar mais expressão às vozes que denunciam esta situação, há uma proliferação na sociedade de pessoas que procuram alternativas ao sistema. Há um grande investimento em eco-aldeias e em formas de vida mais sustentáveis, até no nosso País, onde as aldeias do interior estão a ser repovoadas por estrangeiros que procuram um País com uma natureza preservada. Isto é bom, mas não me parece suficiente para deter o processo global de devastação da natureza. O ser humano tem a ilusão de que existe separado do Mundo, de que não fazemos parte da natureza e que podemos fazer o que nos apetecer dele.
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As pessoas têm dificuldade em reconhecer que a origem daquilo que consomem, o modo como consomem e vivem tem um impacto enorme sobre o planeta. Não procuramos consumir no comércio justo. Consumimos produtos feitos do outro lado do planeta, por mulheres e crianças que vivem em regime de semi-escravatura, consumimos artigos que, para chegarem até nós, exigem longos transportes aéreos, com enormes emissões de dióxido de carbono para a atmosfera, consumimos produtos de origem animal que contribuem para a desflorestação de grandes florestas como a Amazónia. Somos responsáveis por tudo isto! Quando, no futuro, começarmos a sentir a situação na pele, a tendência da mente humana irresponsável e pouco madura será para culpar alguém.
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O caminho tem de ser o da pacificação da mente e da meditação. Felizmente, há sinais de que há cada vez mais pessoas a interessar-se por terem uma mente mais calma, independentemente de serem ou não budistas. Como já foi apelidada, a meditação é a grande revolução silenciosa do século XXI. As neurociências constatam que uma prática regular de meditação, de 15 ou 20 minutos, por dia, ajuda a acalmar e a tornar a mente mais clara e o cérebro mais activo. Também torna o sistema imunitário mais forte e pacifica-nos emocionalmente. A partir daí, teremos uma forma mais clara de tomar decisões, mais serena e capacidade de sentir uma conexão positiva com os outros - amizade, amor, entre outras."
- Paulo Borges, excerto da entrevista de Jacinto Silva Duro, Jornal de Leiria, 27 de Dezembro de 2018.

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