segunda-feira, 10 de agosto de 2026

A relação íntima com a Natureza: porque cuidar do Mundo Vivo é Cuidar de Nós


Existe uma ligação afetiva singular entre as pessoas e os ecossistemas que habitam. Uma ligação que se constrói na convivência de todos os dias, na familiaridade com uma paisagem, no reconhecimento dos seus sons, dos seus cheiros, das suas estações. Uma intimidade feita de tempo, de memória e de pertença. E não apenas porque desses lugares retiramos sustento, rendimento ou condições de sobrevivência.

Há algo mais profundo. Algo que não cabe na lógica da utilidade ou do benefício. Há lugares que se tornam parte de nós, tal como nós nos tornamos parte deles. Lugares onde reconhecemos quem somos e aos quais sentimos, quase instintivamente, que devemos cuidado. É dessa pertença que nasce o respeito; e desse respeito, a vontade de proteger. Não por obrigação, mas porque cuidar daquilo a que pertencemos é também uma forma de cuidarmos de nós próprios.

Neste diálogo, tornou-se particularmente evidente o quanto empobrecemos as nossas vidas quando perdemos essa proximidade. Ao afastarmo-nos dos territórios, dos ciclos naturais e das múltiplas formas de vida que nos acompanham, deixámos adormecer qualquer coisa de essencial em nós. Perdemos gestos, memórias, afetos e até palavras. Perdemos, talvez, a capacidade de escutar a poesia que existe na reciprocidade - na consciência simples e profunda de que não estamos perante a natureza, como quem observa algo exterior a si. Somos natureza. Pertencemos a esse mundo vivo e ele também nos habita.

Talvez seja precisamente essa ausência que hoje sentimos; essa erosão lenta e quase imperceptível do encantamento, da proximidade e da pertença. Porque a falta de poesia nas nossas vidas talvez comece aí: no momento em que esquecemos que existe uma relação íntima, ancestral e indivisível entre aquilo que somos e o mundo vivo que nos rodeia.

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