segunda-feira, 1 de maio de 2023

Ecoansiedade: 'Problemas ambientais aumentam o risco de ansiedade e depressão', alerta pesquisadora americana


Britt Wray talvez seja a especialista em saúde mental e meio ambiente mais popular de sua geração. Seus trabalhos sobre os impactos da crise ecológica no psicológico humano já lhe renderam diversos podcasts e programas de rádio e TV nos Estados Unidos, além de um TED Talk visto por mais de 2,5 milhões de pessoas em todo o mundo. Seu último livro, “Generation Dread — Finding Purpose in an Age of Climate Crisis” (“Medo geracional — Encontrando Propósito em uma Era de Crise Climática”, em tradução literal), foi elogiado até por Adam McKay, diretor de “Não olhem para cima”, um filme viral da Netflix que mistura ficção científica e sátira política para denunciar a emergência climática atual. Lançado no Brasil pela Penguin, a obra discute como os indivíduos — e as comunidades, principalmente — podem construir resiliência e transformar a “eco-ansiedade” (ou ansiedade ecológica) em um combustível para impulsionar novos esforços de busca por um mundo melhor.

Como as pessoas estão sendo mentalmente impactadas pelas mudanças climáticas?
Experiências de desastres, como incêndios florestais, inundações e furacões, podem aumentar os níveis clínicos de ansiedade e depressão, transtorno de estresse pós-traumático, abuso de substâncias e violência doméstica. Além disso, as ondas de calor, que vêm piorando devido à crise climática, estão fortemente ligadas ao crescimento da violência. As internações hospitalares por automutilação e tentativas de suicídio também se intensificam nessas condições, assim como os conflitos intergrupais.

O que exatamente é a “eco-ansiedade”?
A ansiedade ecológica é definida pela Associação Americana de Psicologia como o medo crônico da destruição ambiental. Podemos dizer que é um termo guarda-chuva que inclui a ansiedade, mas também tristeza, pesar, raiva, às vezes culpa, desamparo e impotência. Em tese, isso não é necessariamente ruim. Muitos profissionais de saúde mental argumentam que é saudável sentir pelo menos um pouco de eco-ansiedade, porque é uma resposta racional e normal a uma ameaça real que nossa civilização enfrenta. No entanto, esse sentimento pode chegar ao ponto de paralisar a pessoa e prejudicar sua capacidade de zelar pelo próprio bem-estar.

Existem dados sobre a porcentagem de pessoas que experimentaram ou estão experimentando eco-ansiedade hoje?
Meus colegas [da Universidade de Stanford] e eu pesquisamos 10 mil jovens de 16 a 25 anos em 10 países para tentar entender o alcance e o peso da ansiedade climática em suas vidas. Fomos a lugares como Brasil, Índia, Nigéria, Filipinas, França, EUA, Finlândia e Reino Unido em busca de cenários realmente diversos em termos de renda e de exposição aos riscos climáticos. O que descobrimos foi que, segundo 45% desses jovens, a crise climática afeta negativamente diversos aspectos de suas vidas: alimentação, sono, concentração, aprendizado escolar, trabalho, lazer ou relacionamentos. E isso, claro, também tem impacto na saúde mental.

Os jovens são o grupo mais afetado?
Sabemos que os jovens estão sentindo isso de forma mais aguda em comparação com as demais gerações vivas hoje. Mas qualquer um pode sentir eco-ansiedade, independentemente de sua idade, se entender que, no limite, sua saúde está ligada à saúde do meio ambiente. Vemos em nosso estudo e também em outros conjuntos de dados que essa forma de angústia é mais forte em comunidades que estão na linha de frente das mudanças climáticas. Enquanto a média global do nosso estudo é de 45%, esse número sobe para 67% em lugares como Índia, Nigéria e Filipinas, por exemplo.

No livro, você afirma que “ansiedade ecológica” se tornou a palavra da vez. Mas essa não parece ser uma discussão que tenha eco fora dos EUA e da Europa…
Não podemos nos limitar à terminologia e pressupor que se não houver um termo para “eco-ansiedade” em uma língua, isso significa que a crise ecológica não está impactando a saúde mental das pessoas. As nossas pesquisas mostram justamente o contrário. Basta formular as questões de maneira diferente: pergunte como as pessoas se sentem sobre eventos climáticos extremos, como a ameaça de escassez de alimentos e água ou sobre os efeitos da migração devido ao aquecimento global, que arruína os meios de subsistência, em vez de questionar se elas têm ansiedade ecológica. É um erro pensar que só o privilegiado ou a classe média branca e instruída sente isso. É tudo questão de adequação dos termos. Quando fazemos a pergunta de forma diferente, vemos que muitas pessoas sentem essa angústia, e identificá-la é muito importante para suas vidas.

O que devemos fazer para que as eco-emoções não se tornem debilitantes?
Seria maravilhoso se tivéssemos uma fórmula, mas não temos. As respostas psicológicas variam de pessoa para pessoa e é muito natural que os humanos, de forma geral, se afastem de sentimentos desconfortáveis. Temos defesas psicológicas que nos protegem da ansiedade e da dor para nos permitir sobreviver no mundo quando a realidade é difícil de suportar. E desenvolvemos essas defesas inconscientes realmente poderosas mesmo quando isso pode significar que estamos colocando em risco nosso futuro a longo prazo por não nos concentrarmos nesses perigos no presente. Vemos isso na crise climática, mas também estamos lidando com um ambiente de mídia em que as pessoas são bombardeadas com manchetes aterrorizantes o tempo todo, o que pode ser debilitante e narrativamente impeditivo do senso de futuro.

Você poderia explicar isso melhor?
Muitas vezes, a forma como nossa mídia é produzida e compartilhada se atém apenas à ameaça. Não se abre espaço para ações construtivas que as pessoas possam realizar nem para destacar o lado positivo de ações que já estão sendo tomadas e quais ganhos estão sendo obtidos na luta contra a crise climática. Não são divulgadas informações que ajudem as pessoas a sentir que há esperança, que há tração e que elas têm agência.

Você está dizendo que a mídia tem uma parcela de culpa?
Estamos lidando com uma catástrofe incrível da narrativa sobre a crise climática, que está prendendo as pessoas em poços de desespero e desamparo aprendido, como se não houvesse nada que pudesse ser feito e fosse tarde demais. Portanto, como essa situação avassaladora não pode ser resolvida, o melhor é nos resignarmos a esses tipos de crenças que nos impedem de agir. Precisamos de uma mudança de narrativa. Precisamos levar as pessoas a imaginar um futuro melhor para o qual estão trabalhando.

Sua pesquisa prevê uma onda crescente de preocupação com a saúde mental à medida que crise climática piora. Como a sociedade pode se preparar?
Estamos falando de traumas em nível populacional decorrentes de uma crise climática cada vez pior e de sistemas de saúde que, em muitas nações, não estão configurados para cuidar das milhares de pessoas que já precisam de serviços de atendimento mental hoje. Portanto, temos que pensar em como construir e expandir a capacidade dos sistemas de saúde, especialmente em locais de poucos recursos. Uma ideia sobre a qual escrevo no livro, e que já se provou extremamente eficaz, é o uso de agentes capacitadores. Em vez de investirmos apenas no modelo biomédico restrito — com psiquiatras, terapeutas e clínicos, o que costuma gerar um custo alto — esses profissionais de saúde mental podem treinar leigos para auxiliar no cuidado de pessoas com ansiedade e depressão em escolas, igrejas e centros comunitários, por exemplo. Foram feitos ensaios clínicos, e em muitos casos, esse tipo de ação se mostrou mais eficaz até que a atenção primária. É uma ferramenta muito poderosa.

O que explica isso?
Há muitas evidências de que alta conexão, alta confiança e alto capital social em relação ao lugar em que vivemos realmente protegem nossa saúde mental em face de desastres. Sendo o capital social entendido como a capacidade de os moradores de uma comunidade se unirem e alcançarem objetivos compartilhados. Quando definimos tarefas e aprendemos a seguir e liderar uns aos outros, e depois realizamos essas tarefas juntos, fortalecemos nossos relacionamentos e nossa capacidade de pedir ajuda dentro da comunidade. Assim, podemos nos reerguer mais rápido quando coisas ruins acontecem e também sabemos que não estamos sozinhos ou desamparados, mas que há resiliência construída dentro da comunidade por ter essa alta confiança e capital social.
Fonte: O Globo

Site pessoal:
Britt Wray

Recursos
David Wallace-Wells | Random House, 2019 | Book

Timothy Morton | Columbia University Press, 2018 | Book

Renee Lertzman | Routledge, 2016 | Book

Joanna Macy and Molly Brown | New Society Publishers, 1998 | Book

Ashlee Cunsolo and Neville R. Ellis | Nature Climate Change, 2018 | Article

Jem Bendell | IFLAS, 2018 | Article

American Psychological Association, 2017 | Article

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