domingo, 4 de abril de 2021

Ancient kauri trees capture last collapse of Earth’s magnetic field


Fonte: ScienceMag
Several years ago, workers breaking ground for a power plant in New Zealand unearthed a record of a lost time: a 60-ton trunk from a kauri tree, the largest tree species in New Zealand. The tree, which grew 42,000 years ago, was preserved in a bog and its rings spanned 1700 years, capturing a tumultuous time when the world was turned upside down—at least magnetically speaking.

Radiocarbon levels in this and several other pieces of wood chart a surge in radiation from space, as Earth’s protective magnetic field weakened and its poles flipped, a team of scientists reports today in Science. By modeling the effect of this radiation on the atmosphere, the team suggests Earth’s climate briefly shifted, perhaps contributing to the disappearance of large mammals in Australia and Neanderthals in Europe. “We’re only scratching the surface of what geomagnetic change has done,” says Alan Cooper, an ancient DNA researcher at the South Australian Museum and one of the lead authors of the study.

The study not only nails in fine detail the timing and magnitude of the magnetic swap, the most recent in Earth’s history, but is also among the first to make a credible, though speculative, case that these flips can affect the global climate, says Quentin Simon, a paleomagnetist at the European Center for Research and Teaching in Environmental Geoscience in Aix-en-Provence, France. But some paleoclimate scientists are skeptical of the team’s broader claims, saying other records show few traces of climate upheaval.

Earth’s magnetic field is created by the flow of molten iron in the outer core, which is prone to chaotic swings that not only weaken the field, but also cause the poles to wander and sometimes flip entirely. The magnetic orientations of minerals in rock record long-lasting reversals, but can’t capture the details of a flip lasting hundreds of years, like the one 42,000 years ago.

Radioactive carbon-14, however, can mark these shorter fluctuations. The isotope is produced when cosmic rays—charged particles from outer space—slip past the magnetic field and strike the atmosphere. It is taken up by living things, and its specific half-life makes it a standard clock. The team used radiocarbon to date the kauri wood by lining it up with accurate, but coarse, radiocarbon cave records from China. And by measuring finer carbon-14 changes in the rings, they tracked how its production varied over 40-year intervals, as the magnetic field ebbed and surged. “It’s just amazing you can do this back 42,000 years ago,” says Lawrence Edwards, a geochemist at the University of Minnesota, Twin Cities, who worked on the Chinese cave records.

Spikes in radiocarbon indicated the magnetic field weakened to some 6% of its present day strength by 41,500 years ago. At that point the poles flipped and the field recovered some strength, before crashing and flipping back 500 years later. Cooper notes that not only was Earth’s cosmic ray shield down; the Sun’s was, too. Evidence from ice cores suggests that, around this same time, the Sun was experiencing several “grand minima”—episodes of low magnetic activity. The resulting cosmic ray assault charged the atmosphere to a level that would have knocked out today’s power grid and created aurorae in the subtropics, Cooper says. “What happens when the atmosphere is that ionized?” he asks. “God only knows.” (The paper is the first Cooper has led since he was fired in 2019 from the University of Adelaide following allegations that he bullied staff and students; Cooper has denied the allegations.)

To explore the consequences, the team ran a climate model, which suggested the cosmic ray bombardment would have eroded the ozone layer, reducing the heat it normally captures from ultraviolet rays. The high altitude cooling would have changed wind flows, which in turn may have led to “drastic changes” on the surface, including a cooler North America and warmer Europe, says Marina Friedel, a team member and doctoral student in stratospheric chemistry at ETH Zurich.

This is where other scientists say the study gets too speculative. Ice cores from Greenland and Antarctica that span the past 100,000 years capture stark temperature swings every few thousand years. But they show no shifts 42,000 years ago. A few Pacific Ocean records do show swings. But even if the shift occurred mostly in the tropics, as Cooper and colleagues suggest, it should be seen in the ice, says Anders Svensson, a glaciologist at the University of Copenhagen. “We just don’t see that.”

The study team goes further to argue that a climate shift could account for a spate of curious events 42,000 years ago. Most notably, large mammals in Australia went extinct around that time. Neanderthals vanished from Europe, and elaborate cave paintings began to appear in Europe and Asia. Still, neither milestone in human evolution lines up well with the flip 42,000 years ago, and neither was sudden, says Thomas Higham, an archaeologist and radiocarbon expert at the University of Oxford. Linking them to the field reversal, he says, “seems to me to be pushing the evidence too far.”

O que é biorremediação e quais são são os seus princípios?

Biorremediação é um processo que utiliza organismos vivos para transformar contaminantes em substâncias de baixa ou nenhuma toxicidade



A biorremediação pode ser definida como sendo o uso de processos biológicos para degradar, transformar ou remover contaminantes de uma matriz ambiental, como água ou solo. Ela ocorre naturalmente pela ação de micro-organismos capazes de utilizar substâncias tóxicas como fonte de carbono e energia. A biorremediação é uma técnica bastante promissora, já que busca a minimização dos impactos antrópicos e a reestruturação dos habitats naturais.

Relativamente nova, essa técnica possui grande aplicabilidade e a otimização do seu processo depende das condições ambientais, do tipo de contaminante e da técnica empregada. Os tratamentos se diferenciam por ser “in situ”, isto é, quando realizado no próprio local, ou “ex situ”, quando há remoção do contaminante para tratamento em outro ambiente.

Vale ressaltar que a biorremediação utiliza tanto os micro-organismos do próprio ambiente quanto culturas geneticamente modificadas, especialmente adaptadas para uma determinada situação.
Para que serve a biorremediação?

A biorremediação pode ser utilizada para diversos fins, como remoção de toxinas de poços subterrâneos, descontaminação do solo, degradação de herbicidas, pesticidas ou inseticidas, decomposição de substâncias orgânicas e inorgânicas, desentupimento de bueiros, entre outros. Por isso, essa técnica possui grande importância ambiental, econômica e social.

Princípios da biorremediação

A biorremediação é baseada em três princípios básicos:
  • Disponibilidade do contaminante;
  • Presença de algum micro-organismo com capacidade metabólica;
  • Condições ambientais adequadas para o crescimento e atividade microbiana.
Fatores determinantes na biorremediação

A biorremediação pode ser entendida como a aceleração do processo de biodegradação. Por isso, está limitada à disponibilidade de nutrientes, umidade, temperatura, pH, concentração de minerais, potencial redox, natureza do contaminante e às características físicas e químicas dos ambientes contaminados.

Além disso, para que o processo de biorremediação ocorra de forma eficiente, os micro-organismos devem estar ativos e saudáveis. Por isso, medidas biocorretivas podem ser adotadas para aumentar a população microbiana e proporcionar uma condição ótima para o seu desenvolvimento.

Por fim, o sucesso da biorremediação está ligado a uma ampla compreensão das condições físicas, químicas e biológicas e de uma detalhada avaliação da aplicabilidade das técnicas “in situ” e “ex situ”.

Processos de biorremediação “in situ”

As técnicas de biorremediação “in situ” são aquelas em que não há necessidade de remoção do material contaminado do seu local de origem. Sendo assim, elas evitam custos e desastres ambientais associados ao transporte da substância tóxica para a estação de tratamento.

Processos de biorremediação “ex situ”

As técnicas de biorremediação “ex situ” são aquelas em que há necessidade de remoção do material contaminado do seu local de origem. Utilizadas para evitar o alastramento das substâncias tóxicas, elas produzem um resultado mais rápido, já que são mais fáceis de serem controladas e apresentam uma maior versatilidade para o tratamento de vários tipos de contaminantes.

A biorremediação vem alcançando grande importância mundial devido à desenfreada degradação do meio ambiente. Ela já é bastante utilizada em países como Estados Unidos e Holanda. No Brasil, a biorremediação ainda é pouco empregada, mas várias pesquisas têm sido desenvolvidas para a sua futura aplicação em locais contaminados com petróleo e seus derivados.

Fontes

sábado, 3 de abril de 2021

O Português a Saque


Entre o inglês contrabandeado e o brasileiro das novelas, a língua portuguesa agoniza. Nunca se falou e escreveu tão mal e o exemplo vem de cima
(Por Rui Cardoso, in Expresso Revista, 2021-04-01)
Jovens mulheres, às quais prestamos tributo e que são oficiais dos serviços de inteligência, estão focadas em desencriptar informações sobre químicos nocivos que, segundo as evidências científicas, podem ter efeitos análogos aos do antraz. Receia-se que esta situação ponha em causa a resiliência das políticas corporativas a nível mundial, dificultando, ao fim do dia, o empoderamento das novas gerações e possa levar alguns elementos destas a cometer suicídio
Assim se fala e escreve nos tempos que correm. Vejamos em pormenor.
JOVENS MULHERES
Se dissermos “uma jovem” estaremos a definir sem ambiguidades aquilo de que estamos a falar. Um pleonasmo, além do mais sexista, já que não consta que se costume aludir a “jovens homens”. Tudo radica, diz Joana Rabinovitch, ex-docente da Faculdade de Letras de Lisboa e da Universidade Nova, no facto de “em inglês, ao contrário do português, os adjetivos e os artigos não terem género.” Daí que a young woman, não se possa traduzir à letra. Em português, palavras como “forte” ou “jovem” são neutras. É o vocábulo que os antecede que lhes dá o género: uma jovem, várias jovens, diversas jovens...
TRIBUTO
Quem pagava tributo a Vasco da Gama era o Samorim de Calecute e, de uma forma geral, os vassalos aos senhores feudais ou os cativos aos seus captores. É certo que em dicionários portugueses recentes se refere que “tributo” pode ter a aceção de homenagem. Mas isso parece resultar, não da etimologia, mas de um anglicismo recente. Até porque não consta que a Autoridade Tributária tenha como principal missão homenagear os contribuintes…
OFICIAIS
Em inglês, officer tanto pode designar um oficial das forças armadas, como um agente policial, um funcionário da administração pública ou de uma companhia privada. Atenção ao contexto, portanto.
SERVIÇOS DE INTELIGÊNCIA
Se existisse tal coisa, sendo a natureza tendencialmente simétrica, seria combatida pelo seu contrário, ou seja pelos serviços de estupidez... Os serviços ou agências de informações (é disso que se trata) dedicam-se às mais diversas coisas: espionagem, contraespionagem, vigilância pessoal, eletrónica, etc.
FOCO
Os dispositivos óticos, dos faróis às lentes, é que têm profundidade de campo, distância focal, etc. A expressão to be focused on significa estar empenhado, concentrado ou atento.
ENCRIPTADO
É certo que existe uma técnica ou ciência chamada criptologia, relativa à forma de comunicar secretamente entre emissor e recetor. Mas o que faz é codificar ou descodificar, cifrar ou decifrar mensagens e não encriptá-las ou desencriptá-las, o que literalmente significaria enterrá-las ou desenterrá-las numa cripta ou cave...
QUÍMICO
Designa fenómenos ligados à composição, estrutura e propriedades da matéria ou os profissionais que os estudam. O que há em português são produtos químicos que, por sua vez, podem ser elementos, compostos, misturas, ácidos, bases, sais e muitas coisas mais.
EVIDÊNCIA CIENTÍFICA
Eis um oximoro capaz de fazer Bento de Jesus Caraça, Rómulo de Carvalho ou Mariano Gago revolverem-se na tumba. Aquilo que é evidente, isto é, que entra pelos olhos dentro, não carece, por isso mesmo, de explicação científica. Em contrapartida, aquilo que é científico raramente é evidente, por recorrer a conceitos, matemáticos ou outros, com os quais o cidadão comum não está familiarizado. Daí a importância da divulgação científica. Evidence em inglês significa somente prova, seja esta do foro científico ou jurídico, e não qualquer outra coisa.
ANTRAZ
Muito falado a seguir ao 11 de Setembro, este pó branco, mandado pelo correio, continha esporos do Bacillus anthracis, causador do carbúnculo. Não confundir com antraz, conjunto de furúnculos, geralmente causado por bactérias do género estafilococo. A descoberta do agente causador daquela infeção (respiratória, cutânea ou gastrointestinal) e a preparação de uma vacina tornaram mundialmente famoso Louis Pasteur em 1881.
RESILIÊNCIA
Para quê recorrer ao anglicismo derivado de resilience para designar tenacidade, superação, galhardia ou simplesmente… resistência?
CORPORATIVO
No inglês falado nos EUA a palavra corporation designa as empresas cotadas em bolsa. Logo, não há “políticas corporativas” mas, quando muito, empresariais. Em português, corporações são as dos bombeiros, as dos artesãos da idade média (tecelões, ourives, correeiros, etc.) ou as instâncias de conciliação entre capital e trabalho criadas pelo Estado Novo.
EMPODERAMENTO
Dito assim, parece ter a ver com espalhar algum tipo de pó. Empowerment traduz-se por ter acesso a algum tipo de poder ou responsabilidade ou, mais simplesmente, capacitação.
AO FIM DO DIA
Tradução literal da expressão coloquial at the end of the day, equivalente a, no final, em última análise, ou… trocado por miúdos.
COMETER SUICÍDIO
Em português as pessoas matam-se ou põem termo à vida. To commit suicide traz consigo a carga ideológica protestante de infração à lei divina, logo do cometimento de um pecado.
Como se vê, uma novilíngua orwelliana parece querer substituir o português. É uma mistura de chavões, tiques de linguagem, modismos e palavras contrabandeadas do inglês aprendido à pressa. Qual vírus parasitando o sistema imunitário, contagia os media e as universidades, sem esquecer figuras públicas de quem se esperaria outro aprumo na forma de expressão.
O MITO DA EVOLUÇÃO DA LÍNGUA
“Dou aulas de português I e II na Universidade Católica e muitos alunos, alguns vindos de colégios caríssimos, chegam aqui incapazes de fazer uma conjugação pronominal, além de não conhecerem autores portugueses fundamentais”, vinca Jorge Vaz de Carvalho, docente e escritor.
Não se trata de defender que escrevamos ou falemos como os nossos avós. Camilo não escrevia como Sá de Miranda, nem Saramago como Fernando Pessoa. A língua é um organismo vivo em permanente evolução. E tanto pode prosperar como morrer. “Se fôssemos dizer a um grego ou um romano do séc. I a.C. que as suas línguas iriam deixar de ser faladas, eles rir-se-iam mas foi o que aconteceu”, diz Jorge Vaz de Carvalho.
Como refere Angélica Varandas do Departamento de Estudos Anglísticos da Faculdade de Letras de Lisboa, “a língua evolui, acompanhando o desenvolvimento social. O que não me parece certo é que se oblitere o português no mundo académico, se estudem os autores portugueses no 2º e 3º ciclos de modo antiquado e que os meios de comunicação social não saibam dar o exemplo”.
É bom lembrar que, na própria natureza, nem todas as mutações são benignas. Enquanto no meio natural a competição evolutiva tende a eliminá-las, com a língua dá-se o oposto. Tal como na Lei de Gresham, postulando que a má moeda expulsa a boa moeda, o mau português tende a escorraçar o outro.
O MASSACRE DOS PRONOMES
É o que se verifica, por influência do Brasil ou de África, com os pronomes: “vou dizer a ele” em vez de “vou-lhe dizer”. Dar conta da execução de um trabalho nos seguintes termos: “já fiz ele”. Ou patentear uma relação perversa com a causalidade: “por causa de que”… Sem esquecer o mau emprego dos verbos defetivos. Haver não tem plural: não se diz haverão ou haveriam. No presente do indicativo, falir, chover ou ladrar não têm a primeira nem a segunda pessoa, a não ser em contexto metafórico.
Voltando ao inglês, temos essa coisa extraordinária que são as armas de destruição maciça (filhas bastardas de weapons of mass destruction). Como maciço significa o contrário de oco, depreende-se que se esteja a falar, não de bombas atómicas ou gases neurotóxicos, mas de mocas de Rio Maior. Que tal traduzir por armas de destruição em massa?
E a mania de designar incidentes com armas de fogo, frequentes como se sabe nos EUA, por tiroteios? Tiroteio pressupõe uma troca de disparos entre dois indivíduos ou grupos. Resulta da confusão entre shooting (disparos) e gunfight (esse, sim, tiroteio).
Exemplo digno da lei de Gresham é o redundante anglicismo “implementar” (que nada acrescenta relativamente a iniciar, aplicar, pôr em prática, levar a cabo, dar andamento, concretizar, etc.). De tal forma se generalizou, que começou a expulsar o verbo, legítimo mas foneticamente semelhante, implantar. Já vi escritas enormidades como “5 de Outubro de 1910, data da implementação da República”.
Ao mesmo tempo, difundiu-se a ideia peregrina de que semelhanças fonéticas tornam equivalentes palavras de línguas diferentes.
“FACILIDADES” E “INAUGURAÇÕES”
No passado dia 20 de janeiro, Joe Biden não foi “inaugurado”, mas investido nas funções presidenciais. Facilities são infraestruturas, instalações ou funcionalidades. Charities, instituições de solidariedade social. Tal como ingenuity não significa ingenuidade, mas engenho. E memories são recordações e não memórias. Audience é sinónimo de público e não de audiência, expressão reservada para os tribunais ou os encontros institucionais. Pelo que não há níveis de audiência mas repercussão no público ou nos espectadores.
Em inglês, abstract, argument, deception, fabric, preservative, protester ou sympathetic não querem dizer o que à primeira vista se poderia pensar. Já as razões pelas quais uma rapariga fica embaraçada são totalmente diferentes em Portugal ou em Espanha. Tal como “oficinas” e “talheres” significam coisas muito diferentes nas duas línguas ibéricas.
Se há coisa para a qual qualquer professor de línguas chama a atenção logo na primeira aula é para o perigo dos “falsos amigos”, pelos vistos, em vão.
De tudo isto resulta o empobrecimento do vocabulário e o afunilamento dos modos de expressão. Os doentes nunca mais foram operados, passaram a ser “submetidos a cirurgias”. Os edifícios deixaram de desabar, as encostas de sofrer derrocadas ou as pontes de cair. Tudo “colapsa”. Adeus limites ou exigências — o que não se pode passar são as “linhas vermelhas”. As propostas, políticas ou soluções, passaram a frequentar o ginásio ou tomar esteroides para se tornarem “robustas” (em vez de sólidas, eficazes, adequadas ou funcionais). Num universo lexical em que os apoios passaram a meros “suportes”, cessou o estudo, acompanhamento, medida, avaliação ou vigilância: “monitoriza-se…”
UM ESPECTRO AMEAÇA O PORTUGUÊS
A novilíngua não é imposta por um tirano orwelliano mas por aquilo a que Jorge Vaz de Carvalho chama “o imperialismo da língua inglesa e o colonialismo do português brasileiro”. Quando as duas influências convergem, o resultado é devastador.
A propósito de droga fala-se em “adição” (de adiction). Ora, só tem problemas “aditivos” quem não sabe o resultado de dois mais dois. O resto são fenómenos de dependência ou, querendo usar uma palavra mais antiquada e com alguma carga moralista, vício.
Os homenzinhos verdes que saem dos discos voadores e (supostamente) levam pessoas para o cosmos não as raptam, “abducam-nas” (de abduction). E as amendments à constituição dos EUA de que tanto se fala a propósito da liberdade de expressão ou do porte de arma não são “emendas” mas adendas ou revisões constitucionais.
Gerações inteiras formatadas pela novilíngua reproduzem-na, tornando-a moeda corrente.
“Há dois fenómenos convergentes. As pessoas leem muito mais em inglês do que há uns anos e ao mesmo tempo embarcam na última moda de expressão porque acham giro”, comenta Joana Rabinovitch.
“É inevitável que o inglês se tenha tornado a língua franca porque a nível elementar a sua aprendizagem é simples. Basta ver as conjugações verbais. Lembro-me, quando era miúdo, do desembaraço com que pescadores algarvios, semianalfabetos em português, comunicavam com as turistas. Daí a saber, de facto, falar inglês vai alguma distância”, alerta Jorge Vaz de Carvalho.
A pressão estende-se aos docentes. Como refere Angélica Varandas, “no mundo académico, o que dá pontos na avaliação curricular e de desempenho é a internacionalização, ou seja, publicar em editoras internacionais. Por muito que alguns de nós tentemos estabelecer um equilíbrio, sabemos que é em inglês que seremos mais valorizados enquanto docentes e investigadores. É-nos pedido que lecionemos em inglês, porque temos muitos alunos em regime Erasmus. Os congressos são todos em inglês, e até já se usa a palavra conferência para congresso quando conference quer dizer outra coisa.”
Um ex-camarada de redação contou-me que a nora lhe pediu para não ser tão estrito na revisão da sua tese académica, porque se começasse a eliminar sistematicamente os “implementares” iria arranjar problemas com os professores.
Algo de semelhante aconteceu a uma professora aposentada de Português, a quem fora pedido que revisse um trabalho na área dos recursos humanos. Quando quis corrigir o uso da aberração “presenteísmo” para designar aquele que no local de trabalho faz figura de corpo presente, a autora pediu-lhe para não o fazer por receio de vir a ser penalizada na avaliação.
Nem sempre foi assim. No Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) havia tradutores e revisores literários. As traduções eram acompanhada entre parêntesis pelos termos originais para que se soubesse do que se estava a falar. Pelo LNEC passou, entre outros, o jornalista e escritor Baptista-Bastos, enquanto Maria Isabel Barreno trabalhou no Instituto Nacional de Investigação Industrial (INII).
O “TU” DO FUTEBOLÊS
No futebol, falar bem é a exceção. Mas comparem-se os discursos atuais em “futebolês”, muitas vezes gritado e insultuoso, com as crónicas de um Carlos Pinhão ou um Aurélio Márcio nas páginas de “A Bola”. Em ambos os casos se fala de 22 sujeitos em calções aos pontapés a uma bola mas a diferença é abismal!
Em tempos, treinador que se prezasse usava mais vezes “na medida em que” do que a sua equipa metia golos. Os jogos perdiam-se “derivado ao vento”. E agora usa-se o metafórico “tu” como se tivesse deixado de haver sujeitos impessoais em português. Não se joga mas “tu jogas”. Não é o caso de alguém fazer um passe mas é “quando tu passas”. Os portugueses têm o “se”, os franceses o “on” mas os espanhóis ou os britânicos não. Porquê copiá-los?
A canção ‘You’ll never walk alone’ que ecoa nas bancadas do estádio de Anfield pertenceu originalmente a “Caroucel” (musical de 1945 e filme de 1956). Nesse contexto era uma mensagem de esperança de uma amiga para outra que acabara de perder o amor da sua vida. Por isso lhe cantava: “Se superares a escuridão e a dor, [tu que estás à minha frente] nunca estarás sozinha.” Quando 60 mil pessoas entoam o refrão “you’ll never walk alone” não estão a falar para nenhum “tu” à frente deles. Estão a dirigir-se aos 11 jogadores do Liverpool lá em baixo e o sentido é, portanto, vós que estais no relvado e nós aqui nas bancadas estaremos sempre lado a lado, ganhemos ou percamos.
Chamada de atenção elementar: em inglês you tanto é a segunda pessoa do singular (tu) como a segunda pessoa do plural (vós, vocês, alguém)...
A INOCÊNCIA PERDIDA DA PALAVRA
Valha a verdade, os meios de comunicação não estão isentos de culpas. Para um jornalista, a língua é uma das suas ferramentas de trabalho, porventura a mais importante. Ao trabalho jornalístico aplica-se a tese de Júlio César sobre as virtudes femininas: não basta ser sólido do ponto de vista das fontes, do rigor factual e do distanciamento — é preciso que o pareça, ou seja, que a linguagem seja rigorosa, formalmente correta e, ao mesmo tempo, capaz de envolver o leitor.
Não se trata apenas de evitar o português do “focado”, das “evidências” e do “implementar”. A escolha das palavras nunca é inocente. Os islamofascistas que massacraram nas ruas de Paris ou degolaram inocentes em Mossul ou Sirte não pertenciam a nenhum “estado islâmico” porque, nem este reunia as condições internacionais para ser aceite como tal nem a sua interpretação do islamismo era representativa, por primária, sanguinolenta e ultraminoritária. Por isso, boa parte dos media preferiram o acrónimo árabe Daesh, para nós um mero vocábulo destituído de carga, ainda que em árabe tenha alguma conotação irónica.
Em 2017, uma das comunicações apresentadas ao IV Congresso dos Jornalistas criticava a utilização da palavra “colaborador” no noticiário económico, uma vez que, subliminarmente, diluía a relação entre empregador e empregado, reduzindo este último a uma espécie de ser descartável, tendencialmente destituído de direitos laborais e a caminho da precariedade. E nessa altura ainda pouco se falava de “uberitos”, motoristas de táxis das plataformas e demais proletariado da internet...
Confinados que estamos, em vez de vermos palhaçadas no YouTube não perdíamos nada em (re)descobrir Raul Brandão, Teixeira de Pascoaes ou Sophia de Mello Breyner. Talvez implementássemos menos...

Neurobiologia das emoções na Psicopatia


Doutorado em Medicina pela Universidade de Lisboa;
Trabalhou vários anos no Departamento de Neurologia do Hospital Universitário de Lisboa;
Professor Universitário - Professor de Neurociência, Psicologia e Filosofia e Director de “Brain and Creativity Institute” da Universidade do Sul da Califórnia, Los Angeles;
Professor e director do Departamento de Neurologia da Universidade de Iowa e Professor do Instituto Salk em La Jolla (Califórnia);
Conta com inúmeros contribuições para a compreensão dos processos cerebrais subjacentes às emoções, sentimentos e consciência e realizou numerosos estudos sobre processos neurodegenerativos, tais como a doença de Alzheimer e a doença de Parkinson. 
O seu trabalho sobre a importância do afecto no processo de tomada de decisão teve um elevado impacto na neurociência, psicologia e filosofia; 
A sua investigação tem recebido financiamento federal contínuo durante mais de 30 anos e apresenta extensos prémios ganhos (Grawemeyer Award, 2014; Honda Prize, 2010; Asturias Prize in Science and Technology, 2005; Signoret Prize, 2004);
Autor de numerosos artigos científicos e foi nomeado "Highly Cited Researcher" pelo Institute for Scientific Information;
Membro do Instituto de Medicina da Academia Nacional das Ciências, da Academia Americana de Artes e Ciências, da Academia Bávara das Ciências, e da Academia Europeia de Ciências e Artes;
Descreveu as suas descobertas em vários livros (Descartes' Error, The Feeling of What Happens, Looking for Spinoza, Self Comes to Mind, e The Strange Order of Things) traduzido em todo o mundo.
Detém graus de Doutor “Honoris Causa” de várias Universidades a nível internacional;

Naquela época, choveu durante dois milhões de anos


No início do período Triássico, com os continentes unidos de pólo a pólo no supercontinente Pangeia, o mundo era quente, plano e muito, muito seco. Mas depois, há 234 milhões de anos, o clima mudou subitamente para um clima mais húmido.

Poema da Semana - Salgueiro Maia


Fernando José Salgueiro Maia (Castelo de Vide, 1 de julho de 1944 – Lisboa, 3 de abril de 1992)

"Ficaste na pureza inicial
do gesto que liberta e se desprende.
Havia em ti o símbolo e o sinal
havia em ti o herói que não se rende.
Outros jogaram o jogo viciado
para ti nem poder nem sua regra.
Conquistador do sonho inconquistado
havia em ti o herói que não se integra.
Por isso ficarás como quem vem
dar outro rosto ao rosto da cidade.
Diz-se o teu nome e sais de Santarém
trazendo a espada e a flor da liberdade."
(Manuel Alegre)


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Edward Wison- A Amazónia é uma região necessária para a existência do mundo



Entrevista concedida pelo biólogo Edward O. Wilson ao jornalista Jorge Pontual para o Milênio — programa de entrevistas que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura GloboNews às 23h30 de segunda-feira, com reprises às terças (17h30), quartas (15h30), quintas (6h30) e domingos (14h05).

Edward Wilson é um dos maiores cientistas do nosso tempo, fundador de uma ciência, a sociobiologia, e hoje é um ativista do meio ambiente, tema desta entrevista. Ele publicou agora o livro Half-Earth – Meia-Terra – A luta do nosso planeta pela vida, que é um manifesto em defesa da biosfera, em defesa da biodiversidade.

Ele começou como um dos cientistas mais importantes na área dele, entomologia, estudo dos insetos, e aos poucos ele foi se tornando um escritor que abordou outras áreas, e agora ele é um lutador, um campeão da luta pelo meio ambiente.

Jorge Pontual — Como o senhor passou de cientista, de um entomologista de destaque, para ativista?
Edward O. Wilson — Toda criança tem um interesse inato, hereditário, no DNA, pela natureza. Só que nós o sufocamos mergulhando a criança na sociedade moderna, longe da natureza, na maioria dos países do mundo. Eu tive a grande sorte de crescer no Alabama, que fica bem no Sul dos Estados Unidos, e pude ter acesso na infância a ambientes naturais muito bonitos: pântanos, florestas, córregos extensos. E muito cedo, quando eu tinha apenas 8 ou 9 anos, decidi que queria passar o resto da vida na natureza. Eu até decidi nessa idade extremamente precoce que queria ser entomologista e estudar os insetos. Eu fiz isso e, conforme o tempo foi passando, a criança naturalista se tornou um estudante de história natural e o estudante de história natural se tornou um cientista. Mas, conforme trabalhei ao redor do mundo, eu percebi — não dava para não perceber — que a humanidade, as pessoas, estavam destruindo as florestas, dilacerando os ambientes naturais que eu amava, e faziam isso sem salvar muita coisa. Então, depois dos 30 anos, lá pelos 30, 35, 40 anos, eu também me tornei ambientalista, que significa principalmente uma pessoa preocupada com a perda da biodiversidade, a diversidade biológica, com a variedade de vida. Eu percebi que não estávamos apenas destruindo habitats e ecossistemas como a floresta, poluindo rios, etc., mas também extinguindo espécies.

Jorge Pontual — Todas essas espécies que existem, e são milhões delas, são como campeãs que sobreviveram a bilhões e bilhões de anos de processo evolutivo, não é?
Edward O. Wilson — É uma boa forma de descrever, que nós, o Homo sapiens, a nossa espécie, somos os grandes vencedores da Olimpíada do Mundo. Isso significa dizer que descendemos de espécies que estavam em processo de extinção. As espécies vivem, dependendo do tipo de animal, mamífero, borboleta ou ave... As espécies vivem em média meio milhão de anos ou até um milhão de anos, às vezes mais tempo. E, com o passar do tempo, dezenas e centenas de milhões de anos, claro que a maioria delas foi morrendo, mas, conforme morriam, outras espécies se dividiam em duas ou mais e a linhagem da extinção natural persistia. Mas só cerca de uma entre um milhão de espécies por ano se extinguia. Hoje essa proporção aumentou para mil por ano. De qualquer forma, ao longo da história, apenas poucas dessas linhagens sobreviviam para produzir novas espécies. Daí a maioria delas morria e assim continuava. Então era como entrar num labirinto. Você entra e tenta sair por aqui, mas, quando chega a certo ponto, tem de virar para a esquerda. Se não virar à esquerda, você morre.

Jorge Pontual — Por que o título Half-Earth, ou Meia-Terra?
Edward O. Wilson — A ideia é mostrar como salvar todas as outras espécies, ou pelo menos 80% delas. Até hoje, os movimentos conservacionistas fizeram coisas muito positivas, e é claro que o mundo reconhece que o Brasil é um dos líderes desse movimento, criando grandes reservas na Amazônia. A Amazônia é uma região importantíssima e necessária para a existência do Brasil, mas também é necessária para a existência do mundo. É uma floresta tropical imensa e vital.

E nós, atualmente, estamos na seguinte situação. Vou lhe dar os fatos para que você entenda do que estou falando. Os cientistas descobriram que têm alguma informação sobre apenas pouco mais de dois milhões de espécies de todos os tipos: plantas, animais, e fungos e bactérias. Dois milhões. Mas nós estimamos que existam dez milhões, e estamos apenas começando a estudar e a descobrir todas essas espécies novas. Algumas nem são novas; têm milhões de anos. Mas para termos um quadro completo dos seres vivos... É por isso que recorremos ao Brasil. Eu tive o grande prazer de trabalhar na Amazônia e também no cerrado, que tem um ambiente vivo riquíssimo. Nós só conhecemos... Pelo menos 80% das espécies são desconhecidas! Este é um planeta pouco conhecido.

A perda do habitat, a remoção de florestas, a poluição de rios, a destruição dos habitats, cada vez menos áreas para as espécies habitarem, é isso que mata a maioria das espécies. Então faz sentido termos reservas muito mais vastas. E agora a minha sugestão é que metade do planeta, tanto da terra quanto do mar, componha uma reserva. E essa sugestão foi recebida, até agora, positivamente por outros cientistas e conservacionistas. Sim, precisamos de um objetivo ousado. Precisamos de algo grande que possamos atingir. Quando conseguirmos, teremos salvado as espécies. Portanto, metade. Metade é possível? Claro que é!

Eu fui surpreendido pelo fato de o livro ter sido recebido com entusiasmo pela comunidade conservacionista. Eles gostam da ideia de uma proposta ousada e de algo grande para reivindicar. O ser humano foi feito para... Está no nosso coração, na nossa emoção. Gostamos de estabelecer um objetivo ousado e lutar em conjunto para atingi-lo. Devo mencionar a Olimpíada do Brasil? Uma história de sucesso, e fez toda a diferença. Precisamos de uma história de sucesso na conservação. Estou me lembrando de outro paralelo em termos de exaltar o espírito humano e transformar num objetivo ousado a direção que devemos seguir. John Kennedy, em 1963, disse: “Nós vamos tentar chegar à Lua”. Ele não disse: “Nesta década, nós vamos progredir muito na tentativa de chegar à Lua”. Ele não disse isso. Ele disse: “Até o final desta década, vamos levar um homem à Lua e trazê-lo de volta”. E nós conseguimos! Eu acho que o espírito é o mesmo.

Discurso de John F. Kennedy – “Nós escolhemos ir à Lua! Nós escolhemos ir à Lua nessa década e fazer outras coisas. Não porque elas sejam fáceis, mas porque são difíceis! Porque esse objetivo servirá para organizar e definir as nossas melhores energias e habilidades.”

Jorge Pontual — Mas qual seria o prazo para o Meia-Terra?
Edward O. Wilson — Agora sim. Ainda não decidimos, mas podemos fazer isso em dez anos. Vou lhe dar um exemplo: o mar. Apenas 3% dos mares do mundo são protegidos hoje pelas nações territoriais, aquelas que têm litoral e mares territoriais. Elas são chamadas de zonas econômicas de exclusão. E representam esses 3%. Como vamos passar de 3% para 50%? Agora vou surpreendê-lo com a resposta. É fácil. Basta...

Dois estudos chegaram à mesma conclusão sobre os peixes e as outras espécies marinhas. Basta proibir a pesca em mar aberto, fora das zonas territoriais dos países. Se pararmos... O mar aberto não é de ninguém. Qualquer um pode pescar lá, e todo mundo pesca. E vemos a vida marinha encolhendo enormemente.

Se proibíssemos isso, o mar aberto se tornaria um grande viveiro de imensas quantidades de peixes e vida marinha. E as espécies se espalhariam pelas águas territoriais por causa das correntes e da capacidade desses organismos de se deslocar rapidamente pela água. E, se proibíssemos a pesca no mar aberto, o resultado seria que a quantidade total de espécies pescadas pela indústria, a diversidade e a quantidade de vida marinha nas águas territoriais do mundo todo aumentariam.

Jorge Pontual — O senhor criou o conceito da biofilia. O que é isso?
Edward O. Wilson — Eu introduzi o termo biofilia em 1983. Porque percebi, naquela época, que provavelmente havia um fundo de verdade na opinião generalizada, principalmente entre poetas e amantes da natureza, de que existe algo hereditário, algo no nosso DNA, que nos faz reagir muito intensamente à natureza, nos faz amar a natureza. Então eu disse, à época: “Acho que devemos procurar um instinto que as pessoas têm, com o qual elas nascem, no qual a natureza nos é naturalmente atraente”.

Isso fazia sentido porque nos 100 mil anos que os humanos habitam a Terra e antes, quando nossos ancestrais estavam evoluindo, eles viviam na natureza, então nós somos fortemente adaptados a certos tipos de natureza. O cerrado é um exemplo de ambiente natural para os humanos. Então, por que não? Todas as outras espécies animais que foram estudadas têm fortes preferências por certos ambientes. Solte-as e elas vão diretamente para seu ambiente natural. Por que não os humanos? Isso já foi confirmado. Foi provado de forma sólida, com evidências médicas, que simplesmente estar perto da natureza, só olhar pela janela e ver a natureza acelera a recuperação de pacientes de cirurgias, acalma pessoas com estresse e doenças mentais e é bom para a saúde.

Além disso, estamos começando a entender que certos tipos de ambientes muito parecidos com a savana africana, onde a humanidade evoluiu... Isso se chama “a hipótese da savana”, e surgem cada vez mais evidências dela: os seres humanos preferem naturalmente primeiro pela natureza, mas depois principalmente um lugar alto do qual eles vejam a natureza quando olham para baixo. Eles veem um parque, um monte de árvores, um bosque, um gramado... Algo parecido com a savana africana. E eles também querem estar perto de um corpo d’água: um rio, um lago, um oceano.

Eu dei uma palestra sobre esse assunto. Pesquisas e estudos experimentais comprovaram que esse é o ambiente humano ideal. Uma vez eu dei uma palestra para um grupo de arquitetos especializados em projetar ambientes para pessoas. Notei que alguns dos melhores arquitetos fazem exatamente isso. Eles lhe dão um laguinho, põem você perto de um rio, projetam uma bela casa no alto de uma colina. E, na palestra, percebi que pouca gente reagia. Então comentei com um amigo arquiteto: “Acho que não fui claro o bastante ou então falei mal”. Ele disse: “Nada disso. O problema é que nós já sabíamos tudo isso”.

Jorge Pontual — O senhor teve a ideia de uma aliança entre ciência e religião para salvar a Criação.
Edward O. Wilson — Sim. Eu disse a mim mesmo: “Se conseguirmos atrair a comunidade religiosa dos EUA...”. A grande maioria das pessoas pertence a alguma fé religiosa. Eu fui criado como protestante, evangélico. “Se conseguíssemos uma aliança entre os cientistas que defendem a conservação por todos os motivos que expliquei e fieis e líderes religiosos, poderíamos conquistar coisas incríveis.”

Então escrevi um livro que era uma carta a um líder religioso fictício. E eu disse: “Nós temos pontos de vista muito diferentes sobre como o mundo funciona e de onde viemos, mas deixemos isso pra lá. Podemos ser amigos se conversarmos sobre isso e, juntos, nós podemos salvar a Criação. Você vai salvá-la porque ela é um presente de Deus, eu vou salvá-la porque é necessário para continuarmos existindo”. “Eu acredito que nós temos um direito religioso muito forte.” Os conservadores dizem. E, como um deles disse: “Fomos colocados neste planeta para salvar almas, para ir para o Céu. Não fomos colocados aqui para salvar animais e plantas”. Quando isso começou a se espalhar, a ideia morreu.

Jorge Pontual — O senhor é o fundador de uma ciência, a sociobiologia, e já escreveu muito sobre a natureza humana. Vários livros. O que nós aprendemos com a sociobiologia sobre a natureza humana? Quais são os principais pontos?
Edward O. Wilson — O que aprendemos sobre a natureza humana com a sociobiologia, que é a disciplina científica que estuda a base biológica de todos os tipos de comportamentos sociais, inclusive os comportamentos sociais humanos, como a cultura. Ela se tornou controversa porque as pessoas não queriam acreditar que nós temos instintos como os animais, mas temos. Enfim, ela tem valor, porque é necessário explicar de onde nós viemos e por que somos como somos. Precisamos de um melhor autoconhecimento, precisamos saber exatamente como nos sentimos, quais são nossas emoções e por quê, como foi a longa história que criou essa máquina emocional que conduz a nossa vida além do intelecto.

Jorge Pontual — Por que o senhor é otimista?
Edward O. Wilson — Nasci assim. Eu simplesmente penso: “Qual é a alternativa?”. Os seres humanos são muito inteligentes e muito flexíveis. Os seres humanos aprendem e podem se adaptar, e acho que vamos aprender e nos adaptar aos problemas atuais, mesmo que eles pareçam muito difíceis.

Edward O. Wilson- biografia

Fonte da imagem aqui
Edward Wilson é um dos maiores naturalistas vivos (1929 - ), associando uma obra científica de excepcional qualidade com uma faceta de divulgação ao grande público que já lhe valeu dois prémios Pulitzer.

Eward Wilson, considerado por muitos como o mais proeminente biólogo do século XX e certamente um dos maiores naturalistas da história americana, nasceu em Birmingham, no Alabama, em 1929. Conseguiu os seus graus de bacharel e de mestre, ambos em biologia, pela Universidade de Alabama, e doutorou-se, também em biologia, pela Universidade de Harvard - instituição em que é professor desde 1953. Foi professor de zoologia em Harvard, curador de entomologia (no Museu do Zoologia Comparativa), professor de Ciências em Baird, professor de ciências em Mellon e professor da Universidade de Pellegrino.
Wilson devotou uma fracção significativa da sua carreira às formigas, tendo publicado recentemente dois livros notáveis sobre estes fascinantes insectos, ambos com Bert Holldobler: The Ants (1991), que ganhou o Prémio Pulitzer e Journey to the Ants (1994), que ganhou o Prémio Alemão do Livro Científico do Ano.

A carreira de Wilson foi, no entanto, muito mais abrangente do que a sua notável pesquisa sobre formigas. A sua carreira como pensador e autor no campo da biologia começou com o seu livro de 1967 The Theory of Island Biogeography (escrito com o ecologista Robert MacArthur), o qual forneceu a fundamentação científica para toda a subsequente discussão sobre o declínio dos ecossistemas de ilhas, reais e funcionais. Oito anos mais tarde, o seu quinto livro, Sociobiology: The New Synthesis, apresenta a teoria revolucionária de que os comportamentos sociais humanos, da guerra ao altruismo, têm uma componente genética fundamental.

Wilson é autor, co-autor ou editor de outros 20 livros, entre os quais se destacam On Human Nature (1978) que lhe granjeou o seu primeiro "Prémio Pulitzer"; The Diversity of Live (1992), nomeado pela "New York Public Library" como um dos mais proeminentes livros do século; e Naturalist (1994), citado como um dos melhores livros do ano pela "New York Times Book Review". Naturalist, um maravilhoso relato sobre a infância itinerante de Wilson, a sua solidão e o seu precoce fascínio com os insectos no campo, granjeou a Wilson muitos prémios, entre os quais o "Los Angeles Times Book Prize" e o "Publishers Marketing Association´s Benjamin Franklin Award", e ainda o merecido renome de escritor refinado e a honra, da qual ele tem particular orgulho, que é o "John Hay Award" da "Orion Society".

Por outro lado, são inúmeros os prémios científicos ganhos por Wilson. Como exemplo podem-se citar o U.S. National Medal of Science, o Japan´s International Prize for Biology, o Royal Swedish Academy of Sciences Crafoord Prize, o French Prix du Institut de la Vie, o Germany´s Terrestrial Ecology Prize e o England´s Kent Conservation Book Prize. Wilson foi ainda nomeado com uma das 25 personalidades mais influentes dos E.U.A.pela revista Time, em 1996.

Alarmado pela perda acelerada de espécies em todo o mundo no nosso século (Wilson estimou que 20% das espécies do planeta perder-se-ão nos próximos 23 anos), transformou-se numa voz eloquente e poderosa na defesa das diversidade biológica. Segundo Wilson, "a perca de biodiversidade é provavelmente o facto que os nossos descendentes estarão menos dispostos a nos perdoar."

Para saberes mais:

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Contra o Acordo Comercial UE-Mercosul, pela Democracia, Ambiente e Saúde.

Para: Exmo. Sr. Presidente da Assembleia da República, Exmas. Sras. Deputadas e Exmos. Srs. Deputados

O acordo entre a União Europeia e os países membros do Mercosul - a Argentina, o Brasil, o Paraguai e o Uruguai – constitui um perigo para o Planeta, para a Democracia e para as pessoas de ambos dos lados do Atlântico. Os deputados devem exigir que o governo português vote contra a ratificação deste acordo no Conselho da União Europeia pelas seguintes razões:

O acordo UE-Mercosul é um perigo para o Planeta. O acordo vai provocar um aumento do ritmo de destruição da Floresta Amazónica e do Cerrado; a expansão das monoculturas intensivas e da pecuária intensiva, à custa da destruição de ecossistemas naturais; bem como a utilização não controlada de pesticidas. Isto tudo irá resultar numa perda da biodiversidade avassaladora em todos os biomas da América do Sul. Além disso, este acordo ignora completamente o sofrimento animal e conduzirá a um aumento dos métodos intensivos de criação de gado, por ter custos mais reduzidos, precisamente nos países onde a legislação relativa ao bem-estar animal for menos robusta. Adicionalmente, este acordo resultará num aumento de emissões de gases causadores de efeito de estufa por via do aumento da quantidade de bens transportados por longas distâncias, por via da desflorestação e por alterações no uso dos terrenos. Outros sectores específicos, como a aquacultura intensiva e a produção pecuária, também irão contribuir de forma significativa para este aumento.

O acordo UE-Mercosul é um perigo para as Pessoas. É público que o Presidente Bolsonaro tem encorajado os inúmeros ataques violentos e homicidas contra a população indígena e defende a expropriação das suas terras para favorecer projectos de mineração ou outras formas de extracção de recursos do território. Ao alargar os mercados para os produtos resultantes deste genocídio, o acordo UE-Mercosul contribuirá para estimulá-lo. É por esta razão que os povos indígenas têm apelado à não-ratificação deste acordo afirmando que o acordo vai promover a transacção de produtos “regados de sangue indígena” e lembrando que “tudo vem das áreas de conflito” com as comunidades indígenas, que “estão a ser desmatadas, onde há exploração ilegal de minério e trabalho escravo”. O acordo UE-Mercosul irá, por essa e por outras razões, estimular atentados contra os Direitos Humanos. Além disso, a Organização Internacional do Trabalho acusa o Brasil de violar as convenções 98 (relativa ao trabalho infantil) e 154 (relativa à negociação colectiva), o que constitui um ataque aos sindicatos e trabalhadores em todo o mundo. Por outro lado, só na Argentina, um total de 186 mil empregos estão em risco, uma vez que este acordo vai promover o acentuar de relações económicas assimétricas, que perpetuam a dependência da América do Sul em relação ao sector primário. O acordo esvazia a Democracia e ataca a soberania, por exemplo ao impedir os estados de regular o tráfego transfronteiriço de dados e capitais. O acordo UE-Mercosul visa promover a desregulamentação e a abertura dos sectores públicos ao investimento privado, bem como o empobrecimento e precarização do trabalho nos dois blocos.

O acordo UE-Mercosul é um perigo para a Saúde e para a soberania alimentar. A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos declarou que 7,6% das amostras recolhidas excedem o nível máximo de pesticidas permitido na União Europeia, o que não é de surpreender tendo em conta que 149 pesticidas autorizados no Brasil são proibidos na UE e que a Argentina utiliza na sua indústria pecuária uma hormona de crescimento proibida em 160 países. O controlo do cumprimento das normas sanitárias e fitossanitárias estabelecidas na UE será enfraquecido com este acordo. Por outro lado, o acordo UE-Mercosul será devastador para os pequenos produtores agrícolas de ambos os lados do Atlântico e para a soberania alimentar deste lado do Atlântico. A pandemia provocada pelo Coronavirus mostrou que as redes de comércio podem enfrentar fortes disrupções a qualquer momento e um aumento da dependência das importações agrícolas pode resultar em catástrofes humanas tremendas.


Nota: De acordo com a lei, «O direito de petição, enquanto instrumento de participação política democrática, pertence aos cidadãos portugueses, sem prejuízo de igual capacidade jurídica para cidadãos de outros Estados, que a reconheçam, aos portugueses, em condições de igualdade e reciprocidade, nomeadamente no âmbito da União Europeia e no da Comunidade dos Países de Língua
Portuguesa. (...) Os peticionários devem indicar o nome completo e o número do bilhete de identidade ou do cartão de cidadão ou, não sendo portadores destes, de qualquer outro documento de
identificação válido, fazendo neste caso expressa menção ao documento em causa.»


Na Finlândia, a família Nordlund produz tudo o que consome há vários anos




E se cada ser humano do mundo, com acesso a 500 metros quadrados de terra arável, pudesse produzir, com as suas mãos, a sua própria casa, a sua própria comida, as suas próprias ferramentas e roupas? Conseguiria sobreviver? Viveria com qualidade?

Em meados dos anos 80, quando era ainda um estudante na Alemanha, o finlandês Lasse Nordlund colocou a si próprio estas mesmas questões e tomou uma decisão que viria a mudar, para sempre, o seu percurso. “Ele é a única pessoa na Finlândia conhecida por ter vivido de forma completamente auto-sustentável durante anos”, refere o fotojornalista Touko Hujanen na sinopse do projecto fotográfico Forest Family, que faz o retrato do modo de vida família Nordlund ao longo das várias estações do ano de 2018, em Valtimo, na província Finlândia Oriental – imagens que estão em exposição em Braga, ao abrigo do festival internacional de fotografia Encontros da Imagem, até 31 de Outubro

Sozinho, durante doze anos – entre 1992 e 2004 –, Lasse fez, construiu e cultivou tudo aquilo de que necessitou sem recorrer, uma única vez, ao uso de moeda. Hoje, Lasse, a esposa Maria Dorff e os dois filhos vivem de forma quase auto-suficiente. “O recorde de dinheiro gasto pela família é de 50 euros por ano”, refere o fotógrafo. “Continuam a construir e a produzir quase tudo aquilo de que necessitam. Mas a premissa que está na base do seu estilo de vida não é a sobrevivência isolacionista, mas sim o desejo de ser capaz de produzir tudo à mão e, assim, ter uma vida significante.”

A família sabe que é possível, “sob determinadas condições mentais e materiais”, viver no interior de um Estado, como é a Finlândia, sem dele depender, voluntariamente. “Para mim, auto-suficiência tornou-se sinónimo de liberdade de consciência”, pode ler-se no manifesto The Foundations of our Life: Reflections about Human Labour, Money and Energy from Self-sufficiency Standpoint, que Lasse escreveu em 2008.

O manifesto do finlandês faz, em traços gerais, a análise do funcionamento das grandes indústrias mundiais e da sua enorme dependência de combustíveis fósseis, para concluir que essas, em nome da saúde das economias dos grandes Estados, acabarão por “devorar” todos os recursos naturais do planeta. Na génese do problema está, crê, a necessidade da existência de uma indústria que sustenta grandes colectividades.

Lasse acredita que as sociedades deveriam organizar-se em estruturas mais pequenas. "É importante que paremos de pensar unicamente em nações e Estados quando pensamos em comunidades", refere. "Quanto mais cresce uma comunidade em número de elementos, mais recursos são necessários para o seu funcionamento. A infra-estrutura necessária para sustentar uma comunidade 'forçada' do tamanho de um Estado ["forçada" no sentido de não haver elo de ligação interpessoal a não ser um conceito de nacionalidade] torna deficitária a balança energética." Lasse explica: uma vez que passa a ser necessário que parte do grupo assuma funções de organização e liderança, ou seja, funções alheias à produção de bens essenciais, maior se torna a fatia do grupo que não produz bens e que necessita de consumi-los. O finlandês aponta esse desequilíbrio como estando na base da necessidade de produção industrial.

Para o finlandês, se o curso que trilhamos, enquanto humanidade, se mantiver inalterado, as consequências poderão ser nefandas. No quinto capítulo do documento, Lasse refere uma possível falência das democracias, que “não terão a capacidade de prevenir o surgimento do totalitarismo quando os recursos se tornarem demasiado escassos”. Acredita, por isso, que a adopção de um estilo de vida de auto-subsistência, sem dependência industrial, é a única resposta ecológica e politicamente sustentável a longo prazo – a única que garante a o equilíbrio e o respeito pelo ecossistema em que estamos inseridos.

Lasse Nordlund e Maria Dorff, que se tornaram figuras-chave do “movimento pós-fóssil”, fundaram recentemente uma “escola de auto-suficiência”, em Rasimäki, Valtimo, com o objectivo de “ajudar quem deseja tornar-se totalmente independente de uma cultura e de um sistema económico que tem por base o consumo de combustíveis fósseis”. A abertura do primeiro ano lectivo “da única escola do mundo deste tipo” está marcada para 2021 e terá disciplinas que tocam os temas de auto-sustentabilidade, política energética, crítica económica, produção de alimentos e objectos.

Espécies invasoras custaram 1,09 biliões de euros nos últimos 50 anos – estudo


As espécies invasoras tiveram custos mundiais avaliados em 1,28 biliões de dólares (1,09 biliões de euros), ao longo dos últimos 50 anos, indica uma investigação de especialistas de todo o mundo.

O valor (de 1970 a 2017) traduz-se numa média anual de 26,8 mil milhões de dólares (22,8 mil milhões de euros) mas a “fatura” anual triplicou em cada década, atingindo em 2017 os 162,7 mil milhões de dólares (138,5 mil milhões de euros), 20 vezes os orçamentos combinados da Organização Mundial de Saúde e da ONU nesse ano.

A investigação, publicada na revisa científica “Nature”, mostra que as espécies invasoras influenciaram a perda de biodiversidade, os rendimentos das culturas e tiveram impactos económicos em setores além da agricultura, como o turismo ou a saúde pública, desviando anualmente milhões de euros dos contribuintes, e que apesar disso pouco está a ser feito pela falta de reconhecimento desse impacto por parte da sociedade e dos decisores políticos.

As invasões biológicas acontecem quando espécies animais, vegetais e agentes patogénicos são, deliberada ou acidentalmente, introduzidas em regiões onde não pertencem naturalmente e se tornam uma ameaça ambiental.

Os investigadores analisaram milhares de estimativas de custos e utilizaram modelos para calcular perdas anuais médias de 22,8 mil milhões de euros entre 1970 e 2017, causadas pelas espécies invasoras.

Ao mesmo tempo os investigadores salientam a importância de se olhar para as despesas crescentes decorrentes das espécies invasoras, que devem aumentar nos próximos anos.

“Esta fatura de biliões de dólares não mostra qualquer sinal de abrandamento, com um aumento consistente três vezes superior em cada década”, disse o principal autor do estudo, Christophe Diagne, da Universidade de Paris-Saclay (centro universitário em Paris).

“As nossas estimativas globais anuais significam uma enorme carga económica, com um custo médio a exceder o produto interno bruto de 50 países em África em 2017”, acrescentou.

Corey Bradshaw, da Universidade de Flinders (Austrália) diz no artigo da Nature sobre o estudo que as invasões biológicas são cada vez mais exacerbadas pela globalização e pelas alterações climáticas e que nenhum governo está pronto para gerir a situação sem elevados custos.

“Descobrimos que os custos quase duplicam a cada seis anos, um padrão que imita o aumento contínuo do número de espécies exóticas no mundo”, disse.

Os autores do estudo enfatizam que apesar dos impactos ecológicos devastadores (as espécies invasoras são a segunda causa de extinção de espécies autóctones) as pessoas, incluindo os decisores políticos, continuam em grande parte inconscientes das ameaças das espécies exóticas invasoras, alertam que as estimativas de custos apresentadas são conservadoras e apelam para acordos políticos internacionais que visem reduzir o impacto das espécies invasoras.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Elvira Fortunato ganha o maior prémio mundial de engenharia



Federação Mundial das Organizações de Engenharia reconhece "excelência profissional e impacto do trabalho" da cientista portuguesa, que há duas semanas ganhou o Prémio Pessoa 2020

A cientista Elvira Fortunato acaba de ganhar o WFEO GREE Award Women 2020, o maior prémio internacional de engenharia destinado a distinguir o trabalho desenvolvido por mulheres engenheiras em todo o mundo. A candidatura foi apresentada pela Ordem dos Engenheiros (OE) e a cerimónia online de entrega do prémio terá lugar a 8 abril. A investigadora é membro conselheiro desta associação profissional.

O galardão foi lançado em 2018 pela Federação Mundial das Organizações de Engenharia (WFEO na sigla inglesa), "para reconhecer e dar visibilidade a mulheres engenheiras excecionais", que tenham demonstrado "excelência profissional e impacto no seu trabalho, que sejam modelos a seguir e líderes na sua área". O objetivo global desta iniciativa é "promover a diversidade, a inclusão e a igualdade de género na engenharia". A WFEO reúne as instituições nacionais de engenharia de 100 países e representa mais de 30 milhões de engenheiros de todo o mundo, sendo membro do principal grupo da comunidade científica e tecnológica das Nações Unidas e associada da UNESCO.

Carlos Mineiro Aires, presidente da Ordem dos Engenheiros (OE), afirma ao Expresso que "é um orgulho para Portugal" e para a Ordem a "atribuição do prémio a Elvira Fortunato, que traduz a excelência da engenharia e da ciência portuguesas, bem como a sua diversidade". E que "é a prova de que a competência técnica, o talento e a inovação não têm limitações de género ou geográficas, e que em Portugal existem profissionais de topo que competem e estão ao nível dos melhores em termos mundiais”.

"Inspiração para a Comunidade Científica Mundial"

"Para além da alegria por termos apostado numa candidatura vencedora, não posso ignorar que a concorrência era enorme, porque havia 22 candidatas de peso de todo o mundo, o que ainda mais a valoriza", recorda Carlos Mineiro Aires. Na candidatura submetida, a OE destacou "o caráter revolucionário das soluções científicas desenvolvidas pela engenheira portuguesa na área dos materiais e da eletrónica transparente, com a produção dos primeiros transístores de filme fino de óxido, utilizando materiais sustentáveis, totalmente processados à temperatura ambiente". O presidente da OE sublinha agora que o prémio "é também o reconhecimento do percurso técnico e científico ímpar de Elvira Fortunato, tornando-a numa inspiração para a comunidade técnico-científica mundial, em especial para as jovens e mulheres que ambicionam abraçar e progredir na engenharia e na ciência”.

Elvira Fortunato é engenheira de materiais, vice-reitora para a Investigação da Universidade Nova de Lisboa, professora catedrática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da mesma universidade, diretora do Centro de Investigação de Materiais (CENIMAT) e do laboratório associado i3N - Instituto de Nanoestruturas, Nanomodelação e Nanofabricação. Há duas semanas ganhou o Prémio Pessoa 2020 e no ano passado recebeu vários galardões, como o Horizon Impact Award 2020 da Comissão Europeia, pelo seu projeto Invisible, ou o Prémio Estreito de Magalhães, do Governo do Chile. A cientista salienta ao Expresso "a importância internacional do prémio da WFEO, porque projeta Portugal a nível global na área da engenharia no feminino".

J. S. Bach "Coffee Cantata" BWV 211: Schweigt stille, plaudert nicht


The Philharmonia Baroque Orchestra led by Richard Egarr
Nola Richardson - Soprano
James Reese - Tenor
Cody Quattlebaum - Bass-Baritone
Stephen Schultz, Flute

A Cantata do Café (Schweigt stille, plaudert nicht, BWV 211) é uma das obras mais invulgares e fascinantes de Johann Sebastian Bach, revelando um lado humorístico e mundano do compositor que muitos desconhecem. Escrita por volta de 1734, em Leipzig, esta peça não é uma obra religiosa para ser tocada numa igreja, mas sim uma cantata secular composta para ser apresentada no Café Zimmermann, um ponto de encontro popular da época onde Bach dirigia o Collegium Musicum.

O enredo gira em torno de uma sátira social sobre a "obsessão" pelo café, que no século XVIII era a grande novidade na Europa e vista por muitos conservadores como um vício perigoso. A história apresenta-nos Schlendrian, um pai austero e resmungão, que tenta desesperadamente convencer a sua filha, Lieschen, a abandonar o hábito de beber café. Schlendrian utiliza todas as táticas de pressão possíveis, ameaçando proibir a filha de sair de casa, de comprar vestidos novos ou de usar fitas de luxo no cabelo.

Lieschen, no entanto, permanece firme e canta uma das árias mais célebres da obra, onde descreve o café como sendo "mais doce que mil beijos e mais suave que o vinho moscatel". O conflito só parece resolver-se quando o pai lhe faz uma última ameaça: ela nunca poderá casar-se se não parar de beber a bebida. Perante a perspetiva de ficar solteira, Lieschen finge ceder, mas a história termina com uma reviravolta astuta. Enquanto o pai sai à procura de um noivo, ela faz saber secretamente que só aceitará um marido que inclua uma cláusula no contrato de casamento permitindo-lhe preparar o seu café sempre que desejar.

O significado da obra vai além da simples comédia; é uma celebração da liberdade individual e uma crítica bem-humorada ao choque de gerações. Bach utiliza a música para humanizar as personagens e mostrar que, tal como diz o coro final, "o hábito de beber café é impossível de abandonar", comparando-o a instintos naturais. Esta cantata prova que Bach, apesar da sua profunda religiosidade, estava perfeitamente sintonizado com os prazeres e as polémicas do quotidiano da sua cidade.

Música do BioTerra - Yacaré Manso y Antonio Birabent - Música en Parque Nacional Iberá


Música en Parque Nacional Iberá, Corrientes, Argentina