terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Os transportes públicos devem ser grátis? Vantagens e desvantagens

Depois de várias cidades, de Talin a Kansas City, tornarem o transporte público grátis, é a vez de um país, o Luxemburgo. Quais as vantagens e desvantagens desta política? É o preço um fator fundamental para que se dê a mudança do paradigma automóvel para o do transporte público?



Este sábado é o primeiro dia do resto da vida do Luxemburgo - pelo menos enquanto a nova política de transportes públicos gratuitos se mantiver, naquela que é uma estreia a nível mundial, a do primeiro país a pô-la em prática.

O objetivo expresso pelo governo é atrair mais passageiros e diminuir a utilização do carro, que de acordo com um inquérito de 2018 corresponde a 47% das deslocações para o trabalho e 71% das de tempos livres. Já os autocarros seriam usados apenas em 32% das deslocações de trabalho, percentagem que desce para 19% no caso do comboio.

Especialmente em causa nesta nova política estarão os congestionamentos de tráfego na cidade do Luxemburgo, capital do país, que como Lisboa tem pouco mais de 100 mil habitantes mas recebe diariamente 400 mil pessoas para ali trabalhar. Em 2016, um estudo estimava em 33 horas o tempo que os condutores ali passaram em engarrafamentos naquele ano.

A medida já foi tomada em algumas cidades - da capital da Estónia, Talin, a Kansas City, a capital do estado americano do Missouri - mas nunca num país. Se bem que, como frisa José Manuel Viegas, ex secretário-geral do Fórum Internacional dos Transportes da OCDE e professor catedrático do Instituto Superior Técnico, "é um país do tamanho de uma cidade."

De facto, o Luxemburgo tem cerca de 600 mil habitantes e 2586 quilómetros quadrados. E, não despiciendo, um dos mais altos PIB per capita do mundo e um ordenado mínimo de mais de 2000 euros. O valor pago pelos bilhetes já só correspondia a 8% do valor gasto com as operações de transporte público, correspondendo a 41 milhões dos 500 milhões anuais. Agora, será o Estado a suportar os 100%.

José Manuel Viegas tem dúvidas de que a gratuidade, que terá como únicas exceções as viagens em primeira classe em comboio e algumas carreiras de autocarro noturnas, resulte no abandono do transporte individual - sobretudo tendo em conta que o preço já era muito barato. "Tendo em conta que a percentagem dos gastos coberta era já muito baixa, até pode ser que se ganhe dinheiro com a inexistência de bilhetes e de controlos. Mas as pessoas acima de um determinado nível de rendimento, e o nível de rendimento no país é bastante alto, não mudam para o transporte público por ser barato ou grátis mas apenas se apresentar vantagens. Se queremos tirar as pessoas dos automóveis temos que lhes oferecer bons transportes públicos, eficientes, rápidos, com boa cobertura."

100 cidades com transportes grátis
Haverá hoje no mundo, no entanto, cerca de 100 cidades que oferecem transportes públicos grátis, 23 das quais em França. A maior é Dunquerque, com 257 mil habitantes e um sistema de autocarros grátis cuja utilização aumentou 60% nos dias de trabalho e 100% nos fins de semana. 48% dizem que deixam os carros em caso e 5% venderam o seu.

Wojcieh Keblowshi, um especialista em transportes da Universidade Livre de Bruxelas, comentando as medidas anunciadas para a cidade de Paris - que a partir de setembro de 2019 tem viagens grátis no metro e autocarro para menores de 11 (incluindo estrangeiros) e para deficientes com menos de 20 anos, assim como um desconto de 50% para estudantes -, chama a atenção para o facto de que "a utilização pelos grupos vulneráveis, como os desempregados, os idosos e os jovens que não são classe media aumenta muito quando o preço é zero. A cidade fica muito mais acessível para eles. Podem procurar emprego e frequentar atividades culturais, etc. Essa vantagem é especialmente notória no contexto francês."

Mas a tendência não é exclusivamente europeia: além de Kansas City (488 mil habitantes), que anunciou em 2019 um sistema de autocarros grátis, Olympia, capital do estado de Washington, com cerca de 51 mil habitantes, vai fazer o mesmo, e Lawrence, no Massachusetts, com 80 mil, começou em setembro um programa piloto de autocarros grátis. Este último caso, tal como o de Dunquerque, parece ter resultado num aumento de frequência: a cidade diz ter mais 24% de passageiros.

"Se o objetivo é maximizar o uso, eliminar o custo para o utilizador é uma estratégia bastante ineficaz. E como é também cara, talvez não deva ser a primeira em que se deve pensar."

Até uma das grandes cidades dos EUA, Boston, capital do Massachusetts, com 685 mil habitantes, está a ponderar entrar na onda. O valor dos bilhetes pagos pelos utilizadores ultrapassa 100 milhões de dólares, o que está a ser encarado como um obstáculo, mas há quem argumente que o sistema de pagamento e bilhética custa 36 milhões e o resto seria facilmente pago pelo aumento da taxa de combustível da cidade em 2%. Uma ideia defendida pelo jornal Boston Globe num editorial do primeiro dia do ano cujo título clama: "Em Boston, vamos tornar os autocarros grátis."

Há no entanto quem torça o nariz. Por exemplo a Associação de Utilizadores de Transportes Públicos do estado australiano de Victoria, que num artigo com o título "Mito: Tornar os Transportes Públicos Grátis Encoraja a Sua Utilização e o Apoio Político", chama a atenção para o facto de os economistas considerarem que existe para os transportes públicos uma baixa elasticidade da procura com base no preço.

O que isso quer dizer é que, prossegue o artigo, se tudo permanece igual, uma descida de 10% no preço do transporte não causa um aumento de 10% na utilização. Assim, conclui, "se o objetivo é maximizar o uso, eliminar o custo para o utilizador é uma estratégia bastante ineficaz. E como é também cara, talvez não deva ser a primeira em que se deve pensar."

Melhor transporte público poupa vidas e aumenta resiliência económica
Em contrapartida, propõe a associação, que tal aplicar os mil milhões (de dólares australianos, ou seja, 590 milhões de euros) que custaria abolir as tarifas na cidade de Melbourne, capital do estado de Victoria, com quase cinco milhões de habitantes, em mais e melhor transporte público? Isso sim, conclui, iria aumentar o número de utilizadores, e porque mais passageiros significa maior entrada de dinheiro, permitiria melhorar ainda mais a oferta.

Certo é que os sistemas de transportes públicos que se pagam com o preço de bilhetes e passes se contam pelos dedos de uma mão. São, como frisa José Manuel Viegas, casos excecionais, correspondendo, como o metro de Tóquio, a zonas densamente populadas onde não existe realmente alternativa no trânsito automóvel. Por definição, o transporte público é deficitário.

O que não significa, pelo contrário, que fazendo as contas incluindo as chamadas "externalidades positivas" não acabe por ser muito compensador em termos económicos.

Estudos económicos recentes, de 2015 e 2017, citados num muito aprofundado relatório de outubro de 2019 da organização independente canadiana Victoria Transport Policy Institute sobre Custos e Benefícios dos Transportes Públicos, indicam que cada dólar (ou euro) investido em transportes públicos resulta em mais de um dólar em benefícios económicos. Isso é mais verdade, diz o relatório, nas grandes áreas urbanas, mas também sucede nas rurais. 

Entre os vários benefícios dos transportes públicos está a diminuição da sinistralidade e das mortes. De acordo com o relatório, nas 32 cidades americanas com mais de meio milhão de habitantes a correlação negativa entre a utilização de transportes públicos e as taxas de mortalidade rodoviária é muito forte. Em quase todas as cidades grandes com menos de 30 viagens por ano, per capita, em transportes públicos há mais de seis mortes em acidentes rodoviários por 100 mil residentes, e em quase todas as que apresentam mais de 50 viagens por ano per capita em transportes públicos o número de mortes é menor.

Num estudo de 2014 (Stimpson et al), a análise de dados de 100 cidades americanas relativos a mais de 29 anos, e tendo em conta variados fatores geográficos e económicos, levou a concluir que cada aumento de 10% na fatia de utilização de transportes públicos no total das viagens está associada uma redução de 1.5% nas mortes devidas a acidentes rodoviários. E um estudo de 2012 (Lalive, Luechinger and Schmutzler) sobre utilização de transporte ferroviário apurou que aumentar a frequência do serviço em 10% reduzia o uso de carros e motos em quase 3%, e os acidentes na estrada em 4.6%.

Outro dos benefícios é naturalmente o da redução da emissão de gases poluentes que contribuem para as alterações climáticas. Estudos de 2008 e 2010 relativos ao Canadá apontam para que, diminuindo a utilização de automóvel, os engarrafamentos e melhorando os padrões de uso do solo, os transportes públicos reduzem em cerca de 37 milhões de toneladas as emissões anuais de CO2.

Mas talvez uma das descobertas mais interessantes seja a de três estudos diferentes (Gilderbloom, Riggs e Meares em 2015, Lee e Li em 2017 e Welch, Gehrke and Farber em 2018) que, segundo o relatório citado, indicam que os lares nas zonas bem servidas por transportes públicos têm mais baixas taxas de incumprimento nas hipotecas, indicando maior resiliência financeira. O que parece fundamentar a ideia de que, ao melhorar as opções de mobilidade para os que partem de desvantagens físicas, económicas e sociais, transportes públicos de qualidade tendem a melhorar as oportunidades económicas (acesso a educação, emprego, bens de consumo e serviços essenciais) e portanto a dita resiliência.

Como proceder em caso de abate de árvores na sua rua, praça ou jardim

Fonte: aqui

Segundo o Despacho 60/P/2012 "o abate de árvores SÓ pode resultar de necessidade fitossanitária ou risco grave para a segurança por falta de resistência mecânica, determinadas por técnico competente, ou excepcionalmente, mediante autorização do Presidente da Câmara".

1. As árvores não podem ser abatidas sem relatório fitossanitário e sem aviso prévio aos moradores da zona com, pelo menos, duas semanas de antecedência. Qualquer abate conduzido sem estes dois procedimentos, é ILEGAL. Por isso, primeiramente, verifique a existência efectiva de:

a) Aviso prévio na(s) árvore(s) em causa ou nas caixas do correio da vizinhança;

b) Relatórios fitossanitários, que são públicos e, portanto, de livre-acesso. Esses relatórios estão, normalmente, no site da Câmara Municipal (CM) e/ou nas instalações da Junta de Freguesia (JF) da zona, que deverá dar acesso, sem restrições, aos mesmos ou colocá-los em lugar visível (em placards nas instalações da JF e/ou no seu próprio site).

2. Quem contactar para saber mais informações, denunciar uma situação irregular ou ilegal ou mesmo questionar sobre a justeza e necessidade de um abate legal? Conforme o caso e as circunstâncias, poderá e deverá contactar:

a) A Junta de Freguesia da zona;

b) O Gabinete do Vereador dos Espaços Verdes

d) Pode ainda participar da situação através do número 808 20 32 32 .

3. Em caso de não resposta destas entidades e/ou atempadamente, resultando em prejuízo das árvores, sobretudo se não tiverem sido respeitados os procedimentos de aviso prévio e de relatórios fitossanitários, poderá apresentar a sua queixa junto do Provedor de Justiça (provedor@provedor-jus.pt), para que actue em conformidade. 

4. Mobilização no local dos abates é crucial. Os casos de sucesso de salvaguarda de árvores condenadas - inclusive daqueles casos que cumprem a lei mas que dela fazem mau uso, sendo claramente abusivos e desnecessários - devem-se sobretudo à mobilização dos moradores e cidadãos (às vezes basta a indignação de uma só pessoa!). Cidadãos que, chamando a atenção para a sua ligação afectiva com determinadas árvores, a sua história e a sua importância no quotidiano de certa rua, certo largo, certo jardim, conseguem fazer-se ouvir junto da CM. 

A Plataforma em Defesa das Árvores apoia, na medida das suas capacidades, a mobilização de qualquer cidadão ou conjunto de cidadãos na salvaguarda do património arbóreo de todos. Pode contactar-nos através do e-mail: emdefesadasarvores@gmail.com.

Consulte também o Regulamento Municipal do Arvoredo: https://dre.pt/home/-/dre/114290144/details/maximized

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Na base do sucesso das vacinas da covid-19 está uma cientista que não desistiu do ARNm

Ouvimos falar da BioNtech, Moderna, Pfizer, dos líderes das empresas que produziram as vacinas contra o coronavírus. Mas a tenacidade de uma investigadora foi fundamental para se ter chegado aqui.

Foto: Katalin Karikó trabalha há 30 anos na tecnologia do ARNm

A história do casal de cientistas alemães de origem turca que dirigem a BioNtech, a empresa que desenvolveu a vacina contra a covid-19 a que a Agência Europeia do Medicamento deve dar luz verde nesta segunda-feira, ficou-nos marcada na memória como um exemplo feliz do sucesso de uma tecnologia nova, a do ARN mensageiro (ARNm), e uma história pessoal positiva. Mas por trás de Özlem Türeci e Ugur Sahin está outra história marcante, a de uma cientista húngara que acreditou sempre no potencial do ARNm, mesmo que isso significasse a sua humilhação profissional durante anos.

Hoje, Katalin Karikó, de 65 anos, faz parte da direcção da BioNtech (que tem um acordo de produção e distribuição da sua vacina contra a covid-29 com a multinacional farmacêutica Pfizer) e tem a satisfação de ver a tecnologia na qual começou a trabalhar ainda na Universidade de Szeged, na Hungria, usada numa vacina capaz de ajudar a humanidade – que era o que ela sempre quis.

A vacina da Moderna, que teve aprovação para uso de emergência durante a pandemia nos Estados Unidos na madrugada de sábado, e que deverá ter uma autorização semelhante na União Europeia, após uma reunião da comissão que a está a avaliar na EMA, a 6 de Janeiro, baseia-se também no trabalho dela e de Drew Weissman, na Universidade da Pensilvânia, nos EUA.

O ARNm é uma molécula que copia as instruções do código de ADN, que estão no interior do núcleo das células, para outras estruturas celulares, os ribossomas, onde são produzidas proteínas. Quando foram criadas formas sintéticas de ARNm, em 1961, os cientistas logo pensaram usá-las para pôr as células a fabricar substâncias terapêuticas. No caso das vacinas para a covid-19, as células produzem uma proteína que o novo coronavírus tem à superfície. Assim, treinam o sistema imunitário para reconhecer o vírus, em caso de infecção.

Digno do Nobel

O avanço de Karikó e Weissman, de que hoje se fala como merecedor de um Prémio Nobel, foi concretizado num artigo científico de 2005, numa altura em que esta área de investigação estava praticamente morta. Katalin Karikó tinha sido despromovida pela Universidade da Pensilvânia por insistir em trabalhar no ARNm, quando nem conseguia bolsas de investigação. Ganhava nessa altura menos do que um técnico de laboratório, contou à Wired.

No artigo, os cientistas relatavam uma solução para ultrapassar o problema que, desde que foi descoberto o ARN mensageiro, em 1961, tinha travado a sua aplicação terapêutica: quando era injectado no organismo, o sistema imunitário considerava-o uma invasão e destruía-o. A resposta inflamatória podia até pôr em risco a vida do doente.

A novidade apresentada por Karikó e Weissman foi a criação de uma molécula de ARNm artificial que pode ser administrada de forma segura. Se se pensar nela como um colar, em que cada conta é uma letra ou base química, o que os cientistas fizeram foi alterar uma das contas da molécula – a uridina. Parece igual, mas já não desencadeia rejeição.

“Percebemos na altura que isto era muito importante e que podia ser usado para vacinas e terapias. Portanto, escrevemos um artigo, pedimos uma patente, criámos uma empresa e descobrimos que não havia interesse nenhum nisto. Ninguém nos convidou para ir falar disto a lado nenhum, nada”, recordou Katalin Karikó, em declarações à revista Wired.

Face ao desinteresse na altura, a Universidade da Pensilvânia vendeu a patente pedida por Karikó e Weissman, que deixaram de ter controlo sobre ela.
O início das duas empresas

Apesar desse desinteresse por algo que parecia então ficção científica, alguém estava, no entanto, a prestar atenção – verdadeiros nerds, como os cientistas que viriam a fundar a Moderna, nos EUA, e Ugur Sahin, o médico alemão que é o administrador da BioNtech e é viciado em manter-se a par de tudo o que sai nas revistas de investigação de medicina, diz o Financial Times, que esta semana escolheu o casal alemão de origem turca à frente da BioNtech como pessoas do ano.

Derrick Rossi, então bolseiro pós-doutoramento na Universidade de Stanford, nos EUA, foi quem começou a sonhar alto ao ler o artigo de Karikó e Weissman – embora na altura estivesse mais a pensar em criar células estaminais com características determinadas à partida usando a tecnologia de ARNm. Rossi foi um dos fundadores da Moderna, em 2010, criada especificamente para desenvolver terapias com base na tecnologia do RNA mensageiro.

Sem um único medicamento no mercado até agora – a vacina contra a covid-19 é o primeiro produto para o qual a Moderna tem autorização de comercialização, embora seja ainda provisória, tal como acontece com a da BioNtech-Pfizer, com carácter de urgência por causa da pandemia –, a Moderna distinguiu-se por uma política de comunicação comercial agressiva, seguida pelo seu administrador, Stéphane Bancel. Esta tem-lhe permitido convencer multinacionais farmacêuticas e investidores a canalizar grandes somas para a empresa, confiando que têm uma plataforma tecnológica que pode ser adaptada para vários tratamentos, segundo o site especializado STAT news. A área da oncologia é aquela em que foi feita a aposta inicial, tanto na Moderna como na BioNtech. 

Este ano, a Moderna chegou a valer 35 mil milhões de dólares – antes mesmo de ter um único produto no mercado, recorde-se. Recebeu também cerca de 2,5 mil milhões de dólares do Governo norte-americano para desenvolver a vacina contra a covid-19, que agora teve autorização de emergência.

A BioNtech, de Özlem Türeci e Ugur Sahin, seguiu um caminho diferente. O casal de cientistas apaixonado pela imunologia criou esta empresa em 2008 com o objectivo de desenvolver tratamentos individualizados para o cancro com base na tecnologia do ARNm. Tem centenas de artigos científicos publicados, centenas de patentes pedidas, investiu na formação e captação de jovens investigadores, com apoios do Estado alemão para isso.

Mas para a sua solidez financeira foi fundamental o apoio de dois irmãos gémeos milionários da Baviera, Andreas e Thomas Strüngmann, que fizeram fortuna ao venderem a sua empresa de medicamentos genéricos ao grupo farmacêutico suíço Novartis. Os irmãos Strüngmann dedicam-se desde então a financiar empresas de biotecnologia, algo pouco comum na Europa.

O apoio da Pfizer permitiu-lhes trabalhar sem os apoios dos EUA para desenvolver a vacina da covid-19 – a Pfizer, que é uma gigante farmacêutica com outros meios que não estão ao alcance da Moderna, também se manteve de fora dos apoios estatais.

Mas a realidade do clima de investimento é bem diferente nos dois lados do Atlântico, e isso pode ser apreciado pela diferença na dotação dos orçamentos para a investigação e desenvolvimento da Moderna e da BioNtech nos últimos três anos, faz notar o Le Monde: 1400 milhões de dólares na empresa norte-americana e 490 milhões na BioNtech.

A verdade é que tanto a BioNtech como a Moderna operam num sector de nicho, em que o sucesso com a vacina da covid-19 abre tantos horizontes que há quem fale numa revolução para a medicina. Vão longe os tempos em que Katalin Karikó era desconsiderada por insistir numa tecnologia de que ninguém tinha resultados. Em 2013, quando aceitou o convite da BioNtech e deixou a Universidade da Pensilvânia, gozaram com ela. “Riram-se de mim e disseram: ‘A BioNtech nem sequer tem um site’”, contou à Business Insider. Quem está a rir-se agora?

Civismo, ética, pandemias e sobrevivência

Há cerca de meio século que são organizadas cimeiras internacionais sobre o ambiente e biodiversidade, mas a conduta ética irresponsável de decisores políticos tem levado estas iniciativas ao fracasso por incumprimento dos acordos estabelecidos.

É por total falta de civismo que continuamos com elevado número diário de infectados pelo betacoronovírus SARS-CoV-2. Aliás, este nosso atraso cívico é milenar, como já o menciona Estrabão, geógrafo e filósofo grego (ca. 73-24 a.C.), ao referir que os iberos não conheciam o pão de trigo, nem vinho: “Os habitantes das montanhas, durante duas partes do ano, utilizam bolotas, depois de as terem secado e triturado; logo as moem e as transformam em pão… E utilizam também cerveja, mas têm falta de vinho…. Todos eles vestem de negro, a maior parte com saios, e é com eles que se deitam sobre camas de folhagem.” (Geografia, Livro III, capítulo 3, 7, tradução de J. Deserto e S. Pereira, 2016).

A maioria das pessoas não entende, nem quer, individualmente, sujeitar-se às alterações de convivência a que estavam habituadas e julgam, egocentricamente, que o vírus só infecta os outros e nunca elas próprias. Por isso, continuam a conviver e a divertirem-se agrupadas, sem máscaras e, muitas vezes, em recintos fechados, sem as mínimas condições higiénicas. Por outro lado, não há cuidado nenhum com o lixo sólido, pois, não só não o seleccionam, como até o lançam para o chão das artérias urbanas, caminhos e estradas.

Há dias, no percurso que faço a pé para ir comprar jornais (cerca de 500 metros), vi espalhadas no piso das ruas que percorri cerca de uma dúzia de máscaras. Este lixo sólido arremessado para o chão é arrastado pelas águas pluviais, indo para as bacias hidrográficas dos rios, acabando por ir parar aos oceanos. Por exemplo, o plástico como flutua, é aglomerado por correntes marinhas, acumulando-se em ilhas flutuantes de plástico. Neste momento existem cinco grandes ilhas oceânicas de plástico: uma no Oceano Índico, duas no Atlântico (uma a Sul e outra a Norte) e duas no Pacífico (uma a Sul e outra a Norte, tendo esta última uma superfície correspondente a cerca de 18 vezes a superfície de Portugal Continental; isto é, cerca de sete vezes a superfície Reino Unido).

As máscaras e luvas lançadas para o solo, estão a chegar aos oceanos a um ritmo alucinante: cerca de 129 biliões (129.000.000.000.000) de máscaras por mês e cerca de 65 biliões de luvas plásticas por mês. Isto no espaço de um ano, pois esta pandemia foi detectada em Dezembro de 2019. Claro que estando algumas das máscaras carregadas de vírus e (ou) bactérias, estes micróbios podem entrar na cadeia alimentar marinha e chegar ao corpo humano. Este desastre resulta da falta de civismo não só dos portugueses, como também de outros povos.

Por outro lado, geralmente, quando se refere a biodiversidade, não se dá a devida relevância aos seres vivos microscópicos (microbiodiversidade), como são as bactérias, as arqueas (Archaea), as leveduras, as amebas, os vírus e muitos outros seres desconhecidos para a maioria das pessoas, como são, por exemplo, os mixomicetes, protistas microscópicos, plasmodiais, que se alimentam de microrganismos, como leveduras, fungos, bactérias e, provavelmente, também de vírus.

As florestas são dos ecossistemas onde estes seres são mais abundantes, quer na manta morta, quer na superfície das plantas. Uma árvore tem milhares de esporos ou propágulos de mixomicetes. Ao derrubar-se uma árvore, eliminam-se milhares de potenciais mixomicetes, predadores de microrganismos. Quando, além disso, se destrói, o ecossistema florestal, libertam-se de controlo milhões de bactérias e vírus que podem provocar novas doenças, como aconteceu, por exemplo, com a HIV e com a febre hemorrágica do Ébola.

Infelizmente, neste momento, há apenas 20% das florestas que existiam quando a nossa espécie surgiu neste Globo, uma “Gaiola” que temos vindo a sujar e a alterar o equilíbrio dos ecossistemas naturais, nos quais temos vindo a dizimar a biodiversidade. É deprimente e assustador saber-se que, por exemplo, se o ritmo actual de poluição do Mar Mediterrâneo não se alterar, em 2030 (daqui a dez anos), não haverá peixes neste mar interior e que, se o actual ritmo da diminuição da biodiversidade continuar, mais de metade das espécies de mamíferos e de aves desaparecerá até ao final deste século (daqui a 80 anos).

Por outro lado, desde há cerca de meio século que são organizadas cimeiras internacionais sobre o ambiente e biodiversidade, mas a conduta ética irresponsável de decisores políticos tem levado estas iniciativas ao fracasso por incumprimento dos acordos estabelecidos. Estas cimeiras começaram em 1972 com a 1ª Cimeira Internacional sobre o Ambiente, em Estocolmo (113 países); seguiu-se em 1975 (Belgrado) o Colóquio sobre Educação Ambiental da UNESCO; em 1979 (Genebra) a Cimeira Mundial do Clima; em 1985 (Villach) a 1ª Conferência Mundial do Clima (1ª Declaração sobre o Aquecimento Global); em 1989, é criado o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC); em 1990 (Genebra) a 2ª Conferência Mundial do Clima; em 1992 (Rio de Janeiro) a 1ª Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Eco-92) (1ª Cimeira Da Terra); em 1995 (Berlim) a 1ª Conferência das Partes (COP), o órgão supremo decisório da Convenção das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP-1); até 2019 (Madrid) a última COP (COP-25). Esta última esteve marcada para o Rio de Janeiro, mas o actual Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, não autorizou que se realizasse no Brasil. Foi, primeiramente transferida para Santiago do Chile, mas devido à instabilidade política que ocorria na altura no Chile, foi finalmente marcada para Madrid.

Esta atitude do Presidente do Brasil e a de Donald Trump, que retirou os Estados Unidos dos compromissos tomados nos acordos destas reuniões, não constituem falta de ética. São muito pior do que falta de ética e prefiro abster-me de as qualificar, pois são, praticamente, inqualificáveis.

Os governantes, políticos, industriais, etc., necessitam, urgentemente, de tomar medidas. Sem elucidação da população, com programas bem elaborados nas estações de rádio e televisão públicas e sem uma educação ambiental bem programada nas escolas, a preservação dos outros seres vivos (biodiversidade) vai continuar a diminuir drasticamente e o aquecimento global vai continuar a aumentar implacavelmente. É fundamental que todos se capacitem que não sobreviveremos no Globo Terrestre sem os outros seres vivos (biodiversidade) e com temperaturas insuportáveis.

Porém, a sociedade consumista em que se transformou a designada “civilização ocidental” tornou-se opressiva, violenta e demolidora. Assim, as pessoas não só não têm tempo para se aperceberem de como estamos a poluir a “Gaiola” (planeta Terra) em que vivemos e como estamos a destruir a Natureza.

Os políticos apregoam imenso que é necessário um desenvolvimento sustentável, mas não fazem concretamente nada para que assim aconteça. Como se referiu, as Nações Unidas realizam frequentemente Cimeiras Internacionais sobre o Ambiente e Biodiversidade, mas os políticos, com uma total falta de ética, nunca cumpriram os acordos.

Sem florestas e com a poluição dos oceanos, a Terra terá temperaturas tão elevadas e tantos microrganismos letais que se tornará inabitável para a nossa espécie. Constitui dever ético tomar consciência desta realidade e agir urgentemente e com civismo.

Os Nemátodes – Os “super agentes” do solo e os benefícios são superiores aos prejuízos


Ao longo de ano e meio, na minha tese de Mestrado, trabalhei com nemátodes e tive a sorte de estudar e aprofundar os meus conhecimentos sobre estes espantosos animais. O meu trabalho foi realizado no Sistema Importante do Património Agrícola Mundial (GIAHS), na região do Alto Barroso, classificação atribuída pela FAO.

Para entender a grande importância dos nemátodes nos solos é necessário conhecer algumas das suas características principais assim como algumas das suas funções essenciais para o sustento dos ecossistemas.

Os nemátodes são os animais de solo com maior profusão e distribuição a nível mundial. A sua importância está intimamente ligada às funções fundamentais que realizam para a manutenção dos serviços de ecossistemas, como o fornecimento de alimento, a purificação da água ou até o controle de pragas e doenças das plantas. Nas cadeias alimentares do solo, os nemátodes atuam na transformação de matéria orgânica em nutrientes que poderão ser absorvidos pelas plantas cooperando (ainda que indiretamente) para o seu desenvolvimento, e consequentemente para o aumento da produtividade das culturas agrícolas. Quanto maior for a variedade funcional de nemátodes maior será a resiliência e saúde do solo.

Relativamente à gestão dos ecossistemas agrícolas, tradicionalmente, as “investidas” incidiram essencialmente sobre nemátodes fitoparasitas/parasitas de plantas com efeitos nocivos nas colheitas agrícolas. Estes nemátodes provocam doenças principalmente através de danos nas raízes, mas podem atacar outros órgãos. Por exemplo, espécies de nemátodes-das-galhas-radiculares (NGR) como Meloidogyne incognita, Meloidogyne javanica, Meloidogyne luci (…), já são bem “conhecidos” em Portugal e estão associadas a perdas significativas nas culturas de tomateiro, milho, batata, entre outras. As doenças originadas pelos nemátodes exigem um controlo rigoroso, daí a necessidade de certificar a maior estabilidade possível aos agroecossistemas para suster a sua propagação; evitar as monoculturas e apostar na rotação de culturas resistentes são medidas a ter em conta para evitar grandes danos biológicos e económicos.

Apesar de algumas espécies de nemátodes causarem danos nos ecossistemas agrícolas, a maioria dos nemátodes tem uma participação saudável nestes sistemas. A atuação dos nemátodes bacterívoros e fungívoros é bastante significativa para a manutenção dos ciclos de nutrientes e outros processos dos solos, enquanto que os nemátodes omnívoros e predadores fornecem pontos de regulação. Os nemátodes, na sua universalidade, servem de alimento a seres vivos que se encontram em níveis tróficos superiores. Casos mais específicos de ações benéficas, abrangem os nemátodes que provocam infeções nos insetos hospedeiros, atuando assim como agentes de controlo biológico de pragas de insetos em sistemas agrícolas ou até a existência de interações entre nemátodes e bactérias que concebem antibióticos que assistem na prevenção e/ou tratamento de doenças de várias espécies florísticas.

É ainda bastante importante referir que os nemátodes são excelentes bioindicadores para a interpretação de distúrbios ambientais, sendo a análise das suas comunidades um dos requisitos principais para deduzir sobre os processos e a qualidade do solo. Estas comunidades são sensíveis às práticas/procedimentos agrícolas e podem ser usadas como bioindicadores da qualidade dos sistemas agrícolas e silvícolas de maneira a assegurar a sustentabilidade das capacidades ecológicas do solo.

É assim necessário “desmistificar” a ideia que os nemátodes são exclusivamente animais que provocam doenças e danos. Os nemátodes são animais fundamentais para o bom funcionamento dos ecossistemas a nível mundial, incluindo os agroecossistemas.


Mestre em Ecologia

Literacia científica


O conceito de literacia científica ou literacia em ciência envolve conhecimento de conteúdo, compreensão de práticas científicas e compreensão da ciência como um processo social. A literacia científica ou literacia em ciência pode ser definida mais formalmente como "o conhecimento científico de um indivíduo e o uso desse conhecimento para identificar questões, adquirir novos conhecimentos, explicar fenómenos científicos e tirar conclusões baseadas em evidências sobre questões relacionadas com a ciência, a compreensão das características da ciência como uma forma de conhecimento e investigação humana, a consciência de como a ciência e a tecnologia moldam os nossos ambientes materiais, intelectuais e culturais e a vontade de se envolver em questões relacionadas com a ciência e com as ideias da ciência, como um cidadão reflexivo" [Fonte: quadro conceptual de referência da Organization for Economic Cooperation and Development (OECD)/Programme for International Student Assessment (PISA) 2009].

A literacia científica é importante porque a ciência e a tecnologia penetram cada vez mais em todos os aspectos da vida quotidiana e, portanto, a baixa literacia científica cria grandes problemas de cidadania.

Além de preparar os alunos para vocações de base científica e tecnológica, a educação tem como um dos seus grandes objetivos aumentar a literacia científica cívica dos cidadãos. Ter um "stock" de capital humano bem versado em ciência e tecnologia auxilia na tomada de decisões informadas, na compreensão de diversas situações de risco-recompensa, bem como no desenvolvimento de atividades de Research and Development (investigação e desenvolvimento). 

Mesmo a qualidade das decisões políticas de saúde, nutrição e meio ambiente, tanto ao nível local como global, é altamente dependente do nível de interesse, informação e atitudes em relação à ciência e tecnologia.  

E-livros

Breve História dos MOOCs



Os MOOCs (Massive Open Online Courses) surgiram em 2008, no Canadá, quando George Siemens e Stephen Downes criaram cursos online abertos baseados no conectivismo, uma teoria de aprendizagem centrada nas redes, na colaboração e na construção coletiva do conhecimento. Estes primeiros cursos ficaram conhecidos como cMOOCs, caracterizando-se por uma forte interação entre participantes, uso de ambientes digitais diversos e aprendizagem distribuída. A partir de 2012, ano frequentemente designado como “o ano dos MOOCs”, deu-se uma expansão global deste modelo, impulsionada por grandes universidades como o MIT, Harvard e Stanford, que lançaram plataformas como a Coursera, a edX e a Udacity. Nesta fase consolidaram-se os xMOOCs, mais estruturados, com conteúdos sequenciais, vídeos expositivos e avaliações automatizadas, aproximando-se do modelo tradicional de ensino. Mais recentemente, os MOOCs têm evoluído com a sua integração em universidades e escolas, um uso crescente na formação profissional, o aparecimento de certificações pagas e microcredenciais, bem como o desenvolvimento de modelos híbridos que combinam ensino online e presencial.

MOOC

domingo, 27 de dezembro de 2020

A teoria da bomba biótica

Os físicos russos afirmam que as árvores são responsáveis pela distribuição dos ventos e formação da chuva.

O país é o mesmo. O dia, mês e ano também. Brasil, 28 de abril de 2009. No Rio Grande do Sul o índice de chuvas está 96% abaixo do que seria normal neste período. A taxa de umidade despencou para menos de 20%, enquanto o saudável é praticamente o dobro. Tudo é seca e insolação. Brasil, 28 de abril de 2009. No Piauí os moradores enfrentam as piores cheias dos últimos 25 anos. Chove sem parar.

Cidades estão ilhadas. Cerca de 100 mil pessoas ficaram desabrigadas. "O tempo anda louco", eis a frase leiga e padrão que mais se fala e mais se ouve na queixa das pessoas em relação às radicais discrepâncias climáticas. Vale para o Norte e Nordeste do País, vale para a região Sul também. A mais nova e polêmica explicação para tais fenômenos trata de uma revolucionária teoria sobre as chuvas, chamada "bomba biótica", e pode mudar os conceitos da meteorologia tradicional.

Olhemos agora, por exemplo, não para a "loucura do tempo" em um único país, mas, sim, para a "loucura a dois". Por que chove tanto em algumas regiões distantes da costa, como no interior da Amazônia, enquanto países como a Austrália se transformaram em deserto? Os cientistas russos Victor Gorshkov e Anastassia Makarieva, do Instituto de Física Nuclear de São Petersburgo, sustentam, embasados na metodologia da bomba biótica, que as florestas são responsáveis pela criação dos ventos e a distribuição da chuva ao redor do planeta - como uma espécie de coração que bombeia a umidade. Esse modelo questiona a meteorologia convencional que explica a movimentação do ar sobretudo pela diferença de temperatura entre os oceanos e a terra.

Ao falarem de chuva aqui e seca acolá, Gorshkov e Anastassia acabam falando de um dos mais atuais e globalizados temas: a devastação de matas. "São as florestas que trazem a umidade atmosférica para o continente. Destruir árvores modifica a direção dos ventos, tranca a entrada de umidade no continente e, no final, o transforma em deserto", dizem eles.

Para o biogeoquímico Antonio Donato Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e principal proponente da linha da bomba biótica no Brasil, é somente ela que explica com clareza a contradição entre a seca e a aridez que estão minguando as lavouras na região Sul e as chuvas intensas que transbordam o Norte e o Nordeste. "O primeiro efeito da devastação das florestas é o aumento na frequência de todo tipo de clima extremo", dizem os pesquisadores russos. "São os sintomas de um sistema desregulado", endossa o brasileiro Nobre.

A dinâmica do processo começa pela transpiração das árvores e consequente liberação de alto volume de vapor d'água. Ao subir, esse vapor encontra camadas de ar frio e se condensa, formando nuvens. É nessa condensação que a água passa do estado gasoso para o líquido, diminuindo de volume, e o ar acima das florestas se torna mais rarefeito, gerando queda da pressão atmosférica.

Nesse ponto a bomba biótica, segundo seus defensores, entra em ação. A queda na pressão acima das florestas faz com que o ar de superfícies vizinhas seja puxado em direção a elas, e isso resulta em ventos. Se estiverem próximas ao mar, o ar úmido resultante da evaporação do oceano é puxado para o continente, possibilitando a circulação de água ao redor da Terra. Segundo Gorshkov e Anastassia, a evaporação de água é mais intensa acima das grandes matas que nos mares e a queda de pressão superior no continente sugaria o ar úmido do mar.

"O efeito da evaporação e da redução da pressão atmosférica acima das florestas na circulação do ar é muito pequeno", diz o professor americano David Adams, da Universidade do Estado do Amazonas - ou seja, é uma voz contra a teoria dos físicos russos, que, segundo ele, estão supervalorizando a força da bomba biótica.

Agora uma voz que lhes dá pelo menos o benefício da reflexão por parte da comunidade científica. Vem do climatologista José Antonio Marengo, do Inpe: "Precisamos considerar a viabilidade da tese, estudar mais o fenômeno para definir quão crucial é o papel da bomba biótica na circulação do ar." Se for provada a correção da nova teoria, isso torna o papel das florestas ainda mais essencial para o bem-estar do planeta. Enquanto a meteorologia convencional prevê que o desmatamento reduza as chuvas de uma região em cerca de 20%, a bomba biótica prega que tal redução pode bater na casa dos 100%.
"Destruir a Amazônia, por exemplo, significa transformar todo o continente num insuportável e inabitável deserto", diz Gorshkov.

"As florestas podem mudar drasticamente o clima de uma cidade"
Victor Gorshkov, "físico"

Os rios


Os rios
Os rios têm personalidade
Quando entrares num rio de pés descalços ou em mergulho
Observa-o e sentes na tua pele e mente a sua personalidade
Certos rios são frescos e forte carácter, vigorosos, decididos
Combativos, tens de dar braçadas mais fortes
Outros são meigos, doces e dás braçadas mais largas
Certos rios são lamacentos, pesarosos, parecem carregar toda a dor do mundo
E tu purificas-te, pois, estes rios serenam a tua dor também
Alguns rios são quentes, convictos
Confortam o teu corpo e dão-te ânimo
Depois há os rios góticos, preferem a escuridão das grutas cársicas e dos lençóis freáticos
Há os rios jovens, sempre jovens, os rápidos
Existem muitos rios drogados, com pesticidas que produzimos e aqueles com produtos químicos na procura do ouro ou ainda os que estão próximos de minas
Temos águas radioactivas, produzidas pelas centrais nucleares
Determinados rios mais largos, estuarinos, são irrequietos, de velocidade de ondas incertas
Às vezes tens a companhia de um corço, raposa, jaguar, crocodilos e elefantes e girafas e aves
E sobre outros rios escreveste História
De batalhas, sujaste-os com sangue no passado
Dos nossos antepassados que desenharam entre as tuas montanhas arte rupestre
Recentemente poluíste a sua personalidade
Fizeste bem em construir ETARS
Muitos se sentem presos, amordaçados e angustiados
Por causa da tua necessidade em barragens
Noutros rios celebras rituais
São sagrados e veneras com espiritualidade
Os rios têm personalidade
João Soares, 18 de Dezembro de 2020
Foto: Mata de Albergaria

Vivaldi - In furore iustissimae irae, RV 626 por Julia Lezhneva

Julia Lezhneva

Vamos celebrar com este moteto de Vivaldi, cantado por uma jovem talentosa, Julia Lezhneva que tem uma coloratura maravilhosa e ornamentos lindos!

Paragem da economia trouxe "qualidade ambiental" mas agravou desigualdades, alerta Zero

A associação ambientalista elencou os cinco factos mais positivos e negativos em 2020 e a pandemia teve lugar de destaque nas duas listas.


A associação ambientalista Zero considerou este domingo que a paragem económica causada pela pandemia de covid-19 "permitiu vivenciar uma qualidade ambiental como há décadas não era possível", mas alertou para "o agravar das desigualdades sociais" decorrente da crise.

De acordo com um comunicado divulgado, em que a associação ambientalista elencou os cinco factos mais positivos e negativos em 2020, a pandemia teve lugar de destaque nas duas listas.

Segundo a organização presidida por Francisco Ferreira, entre os factos mais positivos de 2020 esteve "a experiência resultante da paragem da economia mundial, que permitiu vivenciar uma qualidade ambiental como há décadas não era possível".

No entanto, entre os cinco factos negativos, os ambientalistas apontam que a pandemia de covid-19 veio "agravar das desigualdades sociais entre países e dentro de cada país".

Entre os factos negativos, a associação Zero apontou ainda "o conflito entre a intenção de mineração em Portugal, sob um quadro legal pouco transparente e sem diálogo com os cidadãos e instituições, e sem uma avaliação ambiental estratégica nacional, que é fundamental para uma exploração sustentável".

Outros dos cinco factos negativos foram a "cedência do Governo à pressão das grandes marcas e dos retalhistas para deixar nas suas mãos a definição da reutilização de embalagens em Portugal" e ainda a "decisão de avançar com o novo aeroporto de Lisboa e o reiterar da intenção de manter a sua construção, mesmo após os efeitos brutais da economia no setor da aviação e do turismo".

A associação ambientalista considera ainda que os "planos de gestão das Zonas Especiais de Conservação", que estiveram em consulta pública, apresentaram "graves insuficiências que decorrem da ausência de conhecimento dos valores naturais protegidos".

Nos pontos positivos, além da paragem da economia mundial decorrente da pandemia, a Zero apontou ainda a "publicação, após décadas de atraso, da Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental, colmatando lacunas de quase 30 anos no conhecimento do estado de conservação das plantas vasculares".

Foi ainda destacada a demonstração, para a associação, de que "os cidadãos estão disponíveis para a transição para a sustentabilidade, investindo na melhoria da eficiência energética, tal como ficou expresso na sua adesão ao Programa de Apoio a Edifícios Mais Sustentáveis do Fundo Ambiental".

A Zero assinala ainda o "aumento muito significativo da procura de bicicletas no seguimento da disponibilização de incentivos a soluções de mobilidade suave por parte de algumas autarquias".

A associação dirigida por Francisco Ferreira denotou ainda o papel da União Europeia, pela sua "persistência" numa "visão assente na sustentabilidade, não obstante todas as pressões para atrasar a transição para um modelo de desenvolvimento circular".

Para 2021, a Zero lançou cinco desafios, um dos quais relacionados com a presidência portuguesa da União Europeia, no qual a associação aponta para o potencial da "concretização ambiciosa do Pacto Ecológico Europeu nas suas diferentes valências".

A nível internacional, a Zero quer também a apresentação "de um Plano Estratégico para a Política Agrícola Comum, para o período 2021-2027, que se distancie do atual modelo de intensificação agrícola assente em monoculturas" e insta as autoridades a "fazer da Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, prevista para novembro de 2021 em Glasgow (COP26), um sucesso pós-pandemia".

A Zero desafia ainda o parlamento português a adotar uma Lei do Clima "que permita inscrever os principais objetivos do Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 na agenda política", bem como a "apresentação e implementação da Estratégia Nacional para a Pobreza Energética".

Não plante num pneu!


Não use pneus na sua horta. Mesmo que a intenção de reuso seja boa, um pneu exposto à chuva e ao Sol pode soltar materiais tóxicos que contaminam tanto o solo como o lençol freático. O pneu pode também sufocar as raízes das plantas. A Política Brasileiro dos Resíduos Sólidos (2010) formalizou o mecanismo de logística reversa e os fabricantes de pneus precisam começar a se responsabilizar pelo ciclo de vida desses produtos. Pneus usados podem ser reaproveitados como componentes para asfalto-borracha, telhados, cabos, ténis, equipamentos desportivos, por exemplo. Vamos cobrar por logística reversa juntos.
Saiba mais:
"Os perigos do pneu para a sua horta" - Horta em Condomínio
"Waste Scrap Tires" - Agência de Meio Ambiente dos Estados Unidos EPA-USA:

Estudo internacional revela que eucaliptos provocam dramática redução da biodiversidade do território


Os eucaliptais geram autênticos “desertos” à sua volta, provocando uma dramática redução da biodiversidade do território. A conclusão é de um estudo internacional, no qual participou o investigador Daniel Montesinos, do Centro de Ecologia Funcional da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC).

O estudo, já publicado na revista Global Ecology and Biogeography, envolveu também investigadores da Austrália, Chile, EUA e Índia.

Através da avaliação da biodiversidade vegetal presente em eucaliptais da espécie Eucalyptus globulus, tanto na sua área nativa (Austrália), como em países de todo o mundo onde a espécie foi introduzida de forma industrial, incluindo Portugal, onde esta espécie de eucalipto é a mais comum, os investigadores concluíram que «as substâncias químicas presentes nas folhas dos eucaliptos impedem o crescimento das raízes de outras espécies nativas, motivo pelo qual os eucaliptais contêm muita pouca biodiversidade fora da sua área nativa, na Austrália», explica Daniel Montesinos.

O principal resultado deste trabalho, salienta o investigador da FCTUC, «foi mostrar, pela primeira vez e à escala mundial, como a biodiversidade por debaixo dos eucaliptos é muito menor que fora da sua área de influência, e como extratos das folhas de eucaliptos impedem o crescimento das raízes de outras espécies de plantas».

Ou seja, esclarece Daniel Montesinos, «a plantação de eucaliptos é altamente prejudicial. O empobrecimento de espécies gerado pelos eucaliptos tem impacto em todo o ecossistema, por exemplo, ao nível do controlo da erosão dos solos ou da manutenção da biodiversidade».

A redução da biodiversidade só não acontece no país nativo, Austrália, porque numerosas espécies daquele país conseguiram desenvolver uma tolerância aos produtos químicos presentes nas folhas dos eucaliptos ao longo dos séculos.

Fora da Austrália, «ironicamente, algumas das espécies que de facto conseguem sobreviver debaixo dos eucaliptais são também espécies exóticas, criando um círculo vicioso de reduzida biodiversidade e espécies invasoras. Os resultados do trabalho mostram, já sem qualquer dúvida, o empobrecimento das superfícies plantadas com eucalipto, que mesmo que de longe possam ter uma aparência “verde”, são na realidade “desertos”», conclui Daniel Montesinos.

The Marketisation of Truth



In the last few years, our relationship to information has appeared to rapidly deteriorate. This was perhaps indicated best by Kellyanne Conway’s now-infamous declaration in January 2017 that the White House had been offering ‘alternative facts’. But this baffling exchange with NBC anchor Chuck Todd did not inaugurate a new era of informational flexibility in the way it appeared to, so much as confirm a problem that had been quietly building for decades.

The previous year had already seen the troublesome phrases “fake news” and “post-truth” enter our language, whilst Brexit campaigns promoted lies such as the “£350 million claim” that Britain’s (gross) contributions to the European Union could and would simply be reinvested in the country’s strained National Health Service. The pandemic that has since exposed such underinvestment in that service has also been accompanied by an ‘infodemic’ of its own, including barefaced lies from government alongside outlandish conspiracy theories about vaccination and 5G. But whilst Brexit and COVID have both been watershed moments for the ‘normalisation of disinformation’ within British political discourse, the factors that made this normalisation possible have a much longer history.

A number of different theories have been peddled as to why the seeming optionality of verifiable truth has become such a common and seemingly acceptable phenomenon across vast swathes of the political map. From blaming scholars of post-modernism for flooding the world with uncertainty, to suggesting social media technologies are driving a regression in our individual capacity to determine fact from fiction, these theories focused on identifying and pathologising things that were apparently unique about our present moment. Yet these theories represent shallow analyses at best, and disingenuous scapegoating at worst.

Towards an age of suspicion
Rather than Facebook or left-wing philosophers, the primary driver of this development has been suspicion, the corollary of morally untethered free markets, think tanks and public relations. One of the more obvious, if gradual changes that has led Britain and much of the world to this point is that as political-economic power has evolved over the past century it has transitioned from the coercive, violent forms it once assumed to the manipulation of culture and ideas. In effect, we have become accustomed to the idea that even the most innocuous mass communication could potentially be politically skewed. In the last few decades especially, this suspicion and incredulity has been quietly fed by the very deliberate workings of neoliberalism and its architects.

It is quite well known that, in 1947, a group of economists met in the Swiss resort of Mont Pèlerin to discuss a discredited economic model that saw free markets as the best protection against the return of the authoritarianism of European fascism and Soviet power. Only slightly less well known is the fact that in 1955, commercial chicken farmer and former air force pilot Antony Fisher had visited the organiser of Mont Pèlerin and father of neoliberalism, Friedrich Hayek at his office in London at the LSE to ask his advice about how to promote free-markets.

Hayek’s response was instructive: “forget politics. Politicians just follow prevailing opinions. If you want to change events, you must change ideas.” Two years later, the Institute of Economic Affairs was born, and in the following years, Fisher would go on to found numerous other free-market organisations and anti-regulation pressure groups. In the 1980s, Hayek took the time to write to Fisher, to congratulate him on how successful he had been in this ideas-first strategy. More recently, the IEA was shown to be sending an oil and tobacco-funded magazine to all A-level business studies pupils in the UK.

These developments are at least a conceptual guide with which to piece together not only the steady degradation of any notion of “truth” we have witnessed in the neoliberal west in recent decades, but the systematic malnourishment of our democracies and the destruction of our environment. How? Most importantly, this devastating combination of free-market primacy and culturally-led political-economic dogma, often pushed by small, well-financed private institutions, paved the way for a slow but steady marketisation of culture itself; an attack on all ethics, values and ideas that could not be economised and traded within a market-like framework of exchange, ownership, and accumulation. The free-market economist Milton Friedman once claimed that nobody had more influence on Margaret Thatcher than Antony Fisher. Above all, this was a transition from a political world to an economic one in which moral or scientific considerations such as democracy or the environment were unhelpful inhibitions.

The marketisation of everything
Once ethical and political considerations have withered into mere spectacle, useful only for their role in providing a means for social media giants to harvest human attention by giving us something to argue about on Twitter, instead of facing our post-democratic predicament, we reach a very dangerous condition. Wendy Brown calls it “conceptual unmooring”; Mark Fisher called it an elimination of “the very category of value in the ethical sense”; Durkheim described something similar, if in an earlier era, with his concept of anomie. We are effectively left with no anchor and nothing to hold on to.

The marketisation of everything normalised the very real possibility that behind every communication, every representation, every action within any public sphere, was an undisclosed agenda of private gain. Thatcher’s individualism, an exaggerated, twisted variation on Hayek’s grand theme, was a world of dog-eat-dog. Thanks to Richard Dawkins, selfishness was as natural as breathing, and the more emboldened one could become in their own greed, the more they would be suspicious of everybody else’s.

Most pernicious of all however, was the combination in itself: once there were no anchors, and abundant lies; nothing shared and everything traded for a profit; only commodity and spectacle, and nothing real except money, there could be no shared truth. And so we come to our predicament: No truth—that is, until the oceans inundate our cities, and fascism’s incoherent, empty promises to the terrified suburban middle classes are fully institutionalised. By then it may be too late.

sábado, 26 de dezembro de 2020

Mensagem de Natal do Papa Francisco


"'Um menino nasceu para nós' (Is 9, 5). Veio para nos salvar! Anuncia-nos que o sofrimento e o mal não são a última palavra"

Esta é a mensagem de Natal do Papa Francisco em 2020:

Queridos irmãos e irmãs, feliz Natal!

Gostava de fazer chegar a todos a mensagem que a Igreja anuncia nesta festa, com as palavras do profeta Isaías: «Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado» (Is 9, 5).

Nasceu um menino: o nascimento é sempre fonte de esperança, é vida que desabrocha, é promessa de futuro. E este Menino – Jesus – «nasceu para nós»: um «nós» sem fronteiras, sem privilégios nem exclusões. O Menino, que a Virgem Maria deu à luz em Belém, nasceu para todos: é o «filho» que Deus deu à família humana inteira.

Graças a este Menino, todos podemos dirigir-nos a Deus chamando-Lhe «Pai», «Papá». Jesus é o Unigénito; ninguém mais conhece o Pai, senão Ele. Mas Ele veio ao mundo precisamente para nos revelar o rosto do Pai celeste. E assim, graças a este Menino, todos podemos chamar-nos e ser realmente irmãos: de continentes diversos, de qualquer língua e cultura, com as nossas identidades e diferenças, mas todos irmãos e irmãs.

Neste momento histórico, marcado pela crise ecológica e por graves desequilíbrios económicos e sociais, agravados pela pandemia do coronavírus, precisamos mais do que nunca de fraternidade. E Deus no-la oferece, dando-nos o seu Filho Jesus: não uma fraternidade feita de palavras bonitas, ideais abstratos, vagos sentimentos… Não! Mas uma fraternidade baseada no amor real, capaz de encontrar o outro diferente de mim, de compadecer-me dos seus sofrimentos, aproximar-me e cuidar dele mesmo que não seja da minha família, da minha etnia, da minha religião; é diferente de mim, mas é meu irmão, é minha irmã. E isto é válido também nas relações entre os povos e as nações: todos irmãos.

No Natal, celebramos a luz de Cristo que vem ao mundo e vem para todos: não apenas para alguns. Hoje, neste tempo de escuridão e incerteza devido à pandemia, aparecem várias luzes de esperança como a descoberta das vacinas. Mas, para que estas luzes possam iluminar e dar esperança ao mundo inteiro, hão de ser colocadas à disposição de todos. Não podemos deixar que os nacionalismos fechados nos impeçam de viver como a verdadeira família humana que somos. Nem podemos deixar que nos vença o vírus do individualismo radical, tornando-nos indiferentes ao sofrimento doutros irmãos e irmãs. Não posso passar à frente dos outros, colocando as leis do mercado e das patentes de invenção acima das leis do amor e da saúde da humanidade. Peço a todos, nomeadamente aos líderes dos Estados, às empresas, aos organismos internacionais, que promovam a cooperação, e não a concorrência, na busca duma solução para todos: vacinas para todos, especialmente para os mais vulneráveis e necessitados em todas as regiões da Terra. Em primeiro lugar, os mais vulneráveis e necessitados!

Por isso, que o Menino de Belém nos ajude a estar disponíveis, a ser generosos e solidários, especialmente para com as pessoas mais frágeis, os doentes e quantos neste tempo se encontram desempregados ou estão em graves dificuldades pelas consequências económicas da pandemia, bem como as mulheres que nestes meses de confinamento sofreram violências domésticas.

Perante um desafio que não conhece fronteiras, não se podem erguer barreiras. Estamos todos no mesmo barco. Cada pessoa é um meu irmão. Em cada um vejo refletido o rosto de Deus e, nos que sofrem, vislumbro o Senhor que pede a minha ajuda. Vejo-O no doente, no pobre, no desempregado, no marginalizado, no migrante e no refugiado: todos irmãos e irmãs!

No dia em que o Verbo de Deus Se faz menino, reparemos em tantas crianças que em todo o mundo, especialmente na Síria, Iraque e Iémen, ainda estão a pagar o alto preço da guerra. Os seus rostos sensibilizem as consciências dos homens de boa vontade, para que se enfrentem as causas dos conflitos e se trabalhe com coragem para construir um futuro de paz.

Que este seja o tempo propício para aliviar as tensões em todo o Médio Oriente e no Mediterrâneo oriental.

Jesus Menino cure as feridas do amado povo sírio, que está exausto com um decénio de guerra e suas consequências, agravadas ainda mais pela pandemia. Leve conforto ao povo iraquiano e a todos os povos incluídos no caminho da reconciliação, em particular os yazidis duramente atingidos pelos últimos anos de guerra. Dê paz à Líbia e permita que a nova fase de negociações em curso ponha fim a todas as formas de hostilidade no país.

O Menino de Belém conceda fraternidade à terra que O viu nascer. Possam israelitas e palestinenses recuperar a confiança mútua para procurarem uma paz justa e duradoura através dum diálogo direto, capaz de vencer a violência e superar ressentimentos endémicos, testemunhando ao mundo a beleza da fraternidade.

A estrela que iluminou a noite de Natal sirva de guia e encorajamento para o povo libanês, a fim de não perder a esperança no meio das dificuldades que tem vindo a enfrentar com o apoio da comunidade internacional. O Príncipe da Paz ajude os responsáveis do país a deixar de lado interesses particulares e empenhar-se com seriedade, honestidade e transparência para que o Líbano possa empreender um caminho de reformas e continuar na sua vocação de liberdade e convivência pacífica.

O Filho do Altíssimo sustente o empenho da comunidade internacional e dos países envolvidos na manutenção do cessar-fogo no Nagorno-Karabakh, bem como nas regiões orientais da Ucrânia, promovendo o diálogo como único caminho que conduz à paz e reconciliação.

O Deus Menino alivie o sofrimento das populações do Burkina Faso, Mali e Níger, atingidas por uma grave crise humanitária, na base da qual estão extremismos e conflitos armados, mas também a pandemia e outros desastres naturais; Ele faça cessar as violências na Etiópia, onde muitas pessoas são forçadas a fugir devido aos confrontos; o Deus Menino dê conforto aos habitantes da região de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, vítimas da violência do terrorismo internacional; Ele incite os responsáveis do Sudão do Sul, Nigéria e Camarões a continuar pelo caminho de fraternidade e diálogo empreendido.

O Verbo eterno do Pai seja fonte de esperança para o continente americano, particularmente afetado pelo coronavírus, que exacerbou os inúmeros sofrimentos que o oprimem, muitas vezes agravados pelas consequências da corrupção e do narcotráfico. Ajude a superar as recentes tensões sociais no Chile e a pôr fim aos sofrimentos do povo venezuelano.

O Rei do Céu proteja as populações flageladas por calamidades naturais no sudeste asiático, de modo particular nas Filipinas e no Vietname, onde numerosas tempestades têm causado inundações com devastadoras repercussões sobre as famílias, que moram naquelas terras, em termos de perdas de vidas humanas, danos ao meio ambiente e consequências para as economias locais.

E pensando na Ásia, não posso esquecer o povo Rohingya: Jesus, nascido pobre entre os pobres, leve esperança às suas tribulações.

Queridos irmãos e irmãs!

«Um menino nasceu para nós» (Is 9, 5). Veio para nos salvar! Anuncia-nos que o sofrimento e o mal não são a última palavra. Resignar-se à violência e à injustiça significaria recusar a alegria e a esperança do Natal.

Neste dia de festa, dirijo uma saudação particular a todas as pessoas que não se deixam subjugar pelas circunstâncias adversas, mas esforçam-se por levar esperança, consolação e ajuda, socorrendo quem sofre e acompanhando quem está sozinho.

Jesus nasceu num estábulo, mas envolvido pelo amor da Virgem Maria e de São José. Nascendo na carne, o Filho de Deus consagrou o amor familiar. Neste momento, penso de modo especial nas famílias que hoje não se podem reunir, como também naquelas que são obrigadas a permanecer em casa. E, para todos, seja o Natal a ocasião propícia para redescobrirem a família como berço de vida e de fé, lugar de amor acolhedor, de diálogo, perdão, solidariedade fraterna e alegria partilhada, fonte de paz para toda a humanidade.

Feliz Natal para todos!

Queridos irmãos e irmãs, renovo os meus votos de Feliz Natal a todos vós que de todo o mundo estais conectados através da rádio, televisão e outros meios de comunicação. Agradeço a vossa presença espiritual neste dia, marcado pela alegria. Nestes dias em que o clima do Natal convida os seres humanos a tornarem-se melhores e mais fraternos, não nos esqueçamos de rezar pelas famílias e comunidades atribuladas por tantos sofrimentos. E, por favor, continuai a rezar também por mim. Bom almoço de Natal! Adeus.